segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Memórias IV

A sala de visitas


                                    
    A sala só se abria na Páscoa para receber o compasso.
 Nessa época era um corre, corre, com a limpeza, a lavar,
 a escovar tudo, a sacudir… e a sala ressuscitava com a
toalha de bilros sobre a mesa, repleta de coisas doces.
A laje da entrada e a do corredor cobriam-se com
 pétalas de flores. Eu estreava um vestidinho de Verão,
de popelina, sempre com um casaquinho de malha por
cima, porque “… o tempo ainda  não está de fiar.”, dizia
a minha mãe.



  



















Era uma sala escura, no rés-do-chão. Não que não tivesse janelas. Tinha. Duas. Grandes. Viradas a sul. Quando se abriam as portadas o sol invadia tudo, quase até ao piano. Mas já era raro estarem abertas. A minha mãe já não marcava encontro com os namorados à janela, onde ficavam até altas horas a conversar. Chovesse ou fizesse sol. Quando chovia ficavam debaixo do guarda-chuva indiferentes às calças e sapatos encharcados. Também já não havia bailaricos, nem se tocava piano ao fim da tarde. Visitas, só mesmo as da casa.
    A sala só se abria na Páscoa para receber o compasso. Nessa época era um corre, corre, com a limpeza, a lavar, a escovar tudo, a sacudir… e a sala ressuscitava com a toalha de bilros sobre a mesa, repleta de coisas doces. A laje da entrada e a do corredor cobriam-se com pétalas de flores. Eu estreava um vestidinho de Verão, de popelina, sempre com um casaquinho de malha por cima, porque “… o tempo ainda  não está de fiar.”, dizia a minha mãe.
   Só se podia entrar na sala quando as campainhas estavam próximas e chegava o senhor abade acompanhado dos sacristãos. Davam a beijar a cruz a todos os presentes que se tinham enfileirado à volta da mesa. Depois, abria-se o vinho do Porto para acompanhar o pão-de-ló. As vozes tornavam-se mais alegres e as faces coravam. Ali ficavam, em amena cavaqueira, até terem que levar Deus a outras paragens. Saíam desencontrados, os passos a balouçar, com risos pouco próprios para quem leva a cruz.
   Guardavam num saquinho de veludo vermelho o envelope que estava na salva de prata, em cima do aparador. A mesa ficava devastada.
   Nesse dia, os meus primos e eu tínhamos autorização para martelar no piano. Eu preferia esgueirar-me para lá sozinha, quando encontrava a chave na porta. Sentava-me ao piano desafinado e ia dando vida às personagens que a minha mãe descrevia. Personagens doutro tempo que não era o meu, mas que invadiam os meus sonhos enquanto tocava, tecla preta tecla branca, música de uma nota só.


Manuela Pereira
Clube de Leitura, 3 Fev. 2011

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