quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Jakc Kerouac

              A “prosa espontânea” de Kerouac 

                                                                 por António Nabais 

O poeta é um fingidor” Fernando Pessoa A expressão “prosa espontânea” pode ser considerada uma contradição nos termos, como demonstrou, pelo menos, Fernando Pessoa, em “Autopsicografia”. Na realidade, no primeiro verso, onde está “poeta” pode ler-se escritor ou mesmo falante. A história está carregada de narrativas, mesmo de ficções, que serviram, durante anos, para perpetuar o mito de que haveria espontaneidade na literatura, esse planeta alegadamente povoado de gente que despejava o coração directamente no papel, sem intermediação do cérebro. A sinceridade será possível, a espontaneidade, não. 

Mas como se exprime literariamente a espontaneidade, de que modo se exprime uma impressão de espontaneidade? Na realidade, dir-se-ia que a espontaneidade é contrária à linguagem por ser esta um acto racional. O espontâneo exprime-se através do grito, da interjeição, do silêncio. A palavra, seja ela qual for, já o resultado de uma escolha, não uma reacção ou um espasmo. Em Big Sur, a expressão da espontaneidade é um valor importante, tendo em conta, desde logo, a natureza autobiográfica de uma personagem que quer viver a vida no momento, o seu desejo de se ligar à natureza e de afastar da humanidade, a presença da poesia como expressão mais tradicionalmente associada à espontaneidade, a busca de uma verdade essencial que é um desejo de fuga (patente, também, no recurso ao álcool, que, como se sabe, é onde está a verdade). A onomatopeia é um dos recursos de que se socorre, como se pode verificar na sétimo capítulo, quando tenta reproduzir os sons do mar (pp. 36-37), que serão inscritos em “todo o poema demencial «O Mar». Também neste excerto, e, muitas vezes, ao longo do livro, podemos ver o uso do travessão que parece corresponder a pausas que separam frases como que aparentemente desligadas. Simbolicamente, este desejo de espontaneidade está também patente na crítica ao uso da roupa como algo que deve ser apenas confortável e simples. Tendo em conta que a repetição é uma figura que pode configurar uma ausência de reflexão sobre a linguagem e se pudermos associar isso à espontaneidade, a anáfora que atravessa quase todo o oitavo capítulo será mais um sintoma de uma prosa espontânea. A repetição está, muitas vezes, associada a uma linguagem infantil, ou seja, mais próxima do não-pensamento. No nono capítulo, a demência exprime-se através de uma mesma impressão de espontaneidade, de palavras que fluem como se não fossem pensadas. A repetição da palavra “gelatina”, no último parágrafo (p. 49) é mais uma aparência de espontaneidade. No décimo primeiro capítulo, na p. 59, o uso do presente serve também para transmitir uma ideia de espontaneidade. Não me parece exactamente um presente histórico, mas antes uma maneira de tornar presente a narrativa, obrigar o leitor a acompanhar cada momento do diálogo com Monsanto. A última frase da narrativa (não do livro, que termina com o poema) parece ser uma desvalorização da palavra, ou seja, um louvor da espontaneidade: “Não é necessário dizer nem mais uma palavra.” O poema está todo ele cheio de expressões de espontaneidade, incluindo frases desconexas e onomatopeias. Aliás, o subtítulo do poema constitui uma valorização dos sons, não das palavras. Vale a pena, ainda, lembrar o simbolismo do mar:









O movimento literário da Beat Generation

               ou

 a Beat Generation em Big Sur- uma leitura “distópica”

por Delfina Rodrigues

 

Nota prévia: Pura coincidência, sem leituras outras, apesar de hipotéticas influências que a atmosfera conspirativa bebida em algumas páginas de “Big Sur” possa ter inscrito em mim, tinha iniciado este texto no dia em que é notícia a morte de Laurence Ferlinghetti, lendária figura da Geração Beat, como referido no obituário, editor de Kerouac e de vários autores e obras da Geração Beat e dono da livraria e editora “City Sights”, alter ego, acrescento, de Lorenzo Monsanto, referido logo na 1ª página de Big Sur.




 

A Beat Generation

        O que é?

 

        Disparam, em livre associação, as palavras artistas, poetas, escritores, pós-guerra, S. Francisco, Califórnia, álcool, drogas, mochilas, nomadismo, iconoclastia, boémia, hedonismo, contra-cultura, irreverência… associadas ao movimento literário em causa. Fazem parte (provêm?) do nosso subconsciente individual ou colectivo, actualizados pelas primeiras leituras ensaísticas feitas.

      Estas coordenadas, ou estes pré-conceitos, espácio-temporais, filosóficos, sociais, estéticos, éticos, não negados pela leitura de Big Sur, podem transformar-se, contudo, numa redutora simplificação de um movimento literário necessariamente mais complexo, que exigiria uma leitura extensiva das obras emblemáticas do movimento. Não o tendo feito, procuro escapar à dificuldade, cingindo-me à obra em análise, aí procurando sinais de uma filiação e, simultaneamente, detectando indícios de ocaso/fuga.


       Em Big Sur, a imersão na atmosfera sugerida não se faz esperar. Em registo de 1ª pessoa, singular ou plural, num texto de pendor autobiográfico, logo nas primeiríssimas linhas o eu narrativo acorda de “mais uma carraspana” que a leitura integral revela não ser ocasional, em pleno ”bairro de espeluncas”, cenário também recorrente, para ir encontrar-se com “toda a gente”, “os compinchas”. Com a malta, diríamos.

       Estes 1ºs “ingredientes” desaguam depressa na referência explícita ao “Rei dos Beatnicks”, Jack Duluoz (alter ego de Kerouac), como sabe que é reconhecido, acabado de chegar a S. Francisco, etapa intermédia de uma viagem mais longa que, partindo da Costa Leste, tinha como meta uma cabanaem Big Sur, oferecida por Lorenzo Monsanto, na demanda de um exílio despojado, próximo da Natureza,que lhe restituísse a paz que o ruído da fama lhe tinha usurpado.

       Uma vez mais, um tema caro à Geração Beat como tema/cenário central desta obra.: a viagem, fuga de “um desespero físico e espiritual e metafísico”, neste caso. Viagem física, viagem espiritual, acompanhada de um descida aos Infernos em que pontuam o desespero existencial, o “mal de vivre”, a autoconsciência acusatória, as alucinações, as viagens oníricas…, assim se desenhando um perfil existencial - e literário? - comum a outros membros da Geração Beat.

 

       Por outro lado são recorrentes, a atestar a filiação literária, filosófica, estética, referência a autores inspiradores desta geração do pós-guerra americano: é o “Estranho”, de William Leonard Burroughs, a referência aos estertores de uma geração gemebunda ao jeito de Blake, Rimbaud, “As Moscas“ de Emily Dickinson, associada à poesia metafísica e a um certo misticismo, Orson Wells, Proust, James Joyce, Stern, Round, Wallace Stevens…

 

       Preenchem este tempo da viagem velhos circuitos, externos e internos, em movimento perpétuo, com referência explícita a “Pela Estrada Fora”, ícone literário do movimento. Habitam a obra a livraria, os espaços comunitários, as mulheres partilhadas, a casa colectiva, a barafunda das mochilas, colchões de campismo, livros, bugigangas, organização colectiva do trabalho, as festas delirantes, o maravilhoso e o demencial, ou o hedonismo demencial.

       São igualmente evidentes, por afirmação directa, dedução ou inferência, o gosto pelo efémero/instável, uma filosofia do desapego, tangencial ao espírito/gosto zen, a recusa dos valores estáveis do sistema, i.e., dos valores burgueses, a nostalgia do regresso à infância: “Regressa à infância, limita-te a comer maçãs e a ler o teu catecismo… e ao diabo com os projectores de Hollywood.” (p. 33) [i]

       “A inutilidade das coisas caras que comprei e não cheguei a usar” (p.44)[ii]

       “São as pequenas coisas que importam”

 

“Big Sur” oferece-nos, também, um discurso e uma visão distópicos da Geração Beat e uma representação social da mesma.

 

       De forma mais ou menos explícita, mais ou menos disfórica, acusa o nosso herói uma pertença cansada ao universo que perfilha, algum agastamento que favorece a assunção de posições críticas, irónicas ou sarcásticas, ao longo da obra, designadamente quando afirma:

       “Fiquei subitamente sozinho com este puto beatnick marado” (p.125)[iii]

       “Porque, afinal de contas, o pobre rapaz acredita sinceramente que há algo de nobre e elevado e generoso em toda esta treta beat, e segundo dizem os jornais é suposto eu ser o rei dos Beatnicks, mas ao mesmo tempo já me mete nojo tanto entusiasmo da parte das hordas de adolescentes histéricos que tentam conhecer-me e verter toda a sua existência na minha para que eu dê saltinhos e diga sim, sim é isso mesmo, coisa que já não consigo mesmo fazer” Leia-se, o cansaço dos epígonos. (p.125)[iv]

       “Estou muito longe da Geração Beat, aqui nesta floresta húmida” (p.35)[v]

       “Chega de devassidão, está na hora de eu contemplar o mundo serenamente e gozá-lo”… “nada de bebida, nada de drogas, nada de pielas com beatnicks e bêbados e drogados e toda essa malta…”

       “beatnicks idiotas” (p.66) [vi]

       “E embora os frenesis demenciais dos velhos tempos que passamos juntos na estrada tenham serenado…” (p.80)[vii]

       “Agora há demasiadas pessoas que querem falar connosco para nos contarem as suas histórias, estamos encurralados, cercados e esmagados pelo número” (p.81)[viii]

“Um verdadeiro manicómio e que corresponde precisamente à imagem que os jornalistas querem dar da Geração Beat, mas apesar de tudo, não deixa de ser um modo de vida inofensivo e agradável para jovens solteiros” (p.71)[ix]

 “O círculo fechou-se em torno dos velhos heróis da noite” (p.5)[x]

 “… a nossa demencial residência comunitária” (p.83)[xi]

 “Lex é o tipo de gajo que não devia viver nesta residência comunitária cheia de beatnicks marados… (p.85)[xii]

“Apareceu agora um novo grupo clandestino de estranhos beatnicks ou coisa parecida que se vestem de uma maneira elegante muito peculiar” (p.86)[xiii]

 “Além disso … porque os outros doentes, veteranos do exército, vão certamente reparar que ele recebeu a visita de um bando de beatnicks maltrapilhos…”(p.95)[xiv]

 

“Sabes, muitos desses artigos e críticas achincalhantes que escreveram a atirarem-se a nós, poetas e escritores da onda beat de São Francisco, só apareceram porque muitos membros do nosso grupo não têm ASPECTO de escritores ou de intelectuais ou coisa parecida, tu e o Pomeray, aliás, têm um mau aspecto terrível, e eu próprio de certeza que também não me encaixo nos padrões respeitáveis” (p. 139)[xv]

       E repete o adjectivo demencial para caracterizar a cozinha, para caracterizar o dia, para caracterizar o poema “O Mar”…

 

       Se, de “Pela Estrada Fora” se diz tratar-se da “Bíblia” da Geração Beat, poderemos associar “Big Sur” a prenúncio de um ocaso? A um “prenúncio de morte”?

       “Todos concordamos que não conseguimos acompanhar esta pedalada, que estamos cercados pela vida, que nunca a compreenderemos, de maneira que optamos por concentrá-la nos nossos copos bebendo goles de whisky pelo gargalo da garrafa e quando esta fica vazia eu saio a correr do carro e vou comprar outra, ponto parágrafo” (p.78)[xvi]

 

       Mutatis mutandis, associo este bloqueio ao “tropeçar contra um muro” de que fala Octávio Paz em “Los Hijos del Limo”:

“A vanguarda é uma exasperação e um exagero das tendências que a precederam. A violência e o extremismo enfrentam rapidamente o artista com os limites da sua arte ou do seu talento… Embora a vanguarda abra novos caminhos, os artistas e poetas percorrem-nos com tal pressa, que não tardam em chegar ao fim e tropeçar contra um muro”.

 

Eis o meu desafio para o debate.

Porto, 22.02.2021


Delfina Rodrigues

 




segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Big Sur Jack Kerouac

                                                 As Mulheres em Big Sur

                                                                                       por Maria José Marques


Os homens da Beat Generation eram poetas e romancistas talentosos fora das convenções sociais e do cânone literário dos anos 40 e 50. Dados a excessos no consumo de álcool e drogas, muitos foram desdenhados e ridicularizados   pelos seus pares, perseguidos e presos pelas autoridades  devido ao escândalo causado pelas obras que publicavam e pelos desmandos das suas atitudes. Muitas das mulheres que fizeram parte deste grupo  tiveram pior sorte.

Nos anos 1940s, 1950s as mulheres pertenciam primeiro aos seus pais  e depois aos maridos. A sua independência, era limitada ou não existia de todo. Se saíssem da linha ou embaraçassem a família eram severamente castigadas, algumas brutalmente castigadas. Se um homem podia ser rejeitado, posto de parte, excluído da família, forçado a “ take the Beatnik kick on the road “ quando saia do caminho convencional e envergonhava a família, para as mulheres  a humilhação familiar  resultante do desafio de convenções sociais podia conduzi-las a um hospital psiquiátrico com tratamento de electro-choques ou mantê-las fechada em casa. Algumas suicidaram-se. Elise Cowan, por exemplo,foi namorada de Allen Ginsberg quando ele tentava ser heterossexual , ajudou a apresentar Kerouac e Joyce Johnson de quem era amiga, mas quando tentou exercer a sua independência  e se juntou ao grupo Beat de Nova York os pais fizeram o que faziam outras famílias naquela época : internaram-na num hospital psiquiátrico.  Encurralada, ela suicidou-se.

Caroline Cassady


As mulheres Beats estavam tão interessadas em “ drinking , fucking and taking drugs “ quanto os homens mas este não é um aspecto a que valha a pena dar relevo quando se procura dar visibilidade à participação feminina no movimento Beat. As mulheres escritoras ou não evidenciavam grande qualidade no início das suas carreiras, ou foram mais conhecidas pela sua associação aos homens de quem foram amigas, namoradas, esposas ou amantes. Algumas partilharam a lamentável misoginia da época que se estendia a todas as mulheres escritoras, muitas vieram a ser reconhecidas pelo seu próprio mérito tais como di Prima, Anne Waldman, Joyce Johnson, Ruth Weiss, Joanne Kyger. Outras são ainda hoje  mais lidas pelas biografias que escreveram retratando a vida dos Beatniks  vistas pelos seus olhos de testemunhas que partilharam essas vidas. Algumas, como como Carolyn Cassady, foram suficientemente dedicadas ao marido e aos filhos, apesar de todas as vicissitudes do seu casamento com Neal Cassady, para não ser ostracizada e punida pela sociedade, outras tiveram de sobreviver mais à  margem.



Em BIG SUR as mulheres aparecem, chegam à narrativa com os companheiros , maridos ou amantes, e os filhos pequenos. 

   Pat McLear and Pat’s wife the beautiful one and their little sweet 5 year old girl” são uma visão do paraíso. Jack parece deliciado com esta visão idílica da vida familiar

Cody (…) beside him are ranged several graduating golden angels from Evelyn golden wife( … ) Emily, Gaby and Timmy as crianças

Billie( Cody’s mistress ) with son Elliot

Ron Blake is redhot for Evelyn

Dave Waine and Romana Swartz

Arthur -married to the most beautiful negro girl in the world

Como dizia o poeta “ beleza é fundamental “.

As mulheres são sempre  beautiful “ belas , desejáveis e disponíveis no presente, nas memórias de encontros passados, são desafio de conquista, mesmo em segredo                  “ Perry loves blonde Billie secretly “até na expectativa de vidas futuras,”Evelyn is going to get me in a future lifetime (…) and I seriously believe that will be my salvation too “e não exclusivamente no envolvimento de sexo, mas para amparo emocional. Encontra-se conforto no seu regaço. As mulheres põem a mesa e lavam pratos, (alguém tinha que o fazer) estão atentas aos filhos e até os acolhem na cama onde fazem sexo com um parceiro de ocasião ( eles têm que aprender de alguma maneira, é a justificação de Billie).

Billie é a personagem feminina que Kerouac trata com empatia em BIG SUR. Ela é amante de Cody que vem até Big Sur acompanhado da mulher e filhos e tenta descartar-se da amante que já não ama empurrando-a para os amigos. Jack está atento a Billie, ao relacionamento dela com o filho Elliot, A criança maçadora que faz perguntas intermináveis, que é extremamente  ciosa da mãe de quem leva uma surra de vez em quando mostra um grande conhecimento de Kerouac do comportamento infantil  e da interacção de mães e filhos quando amigos, amantes  e pretendentes surgem  na vida deles. Jack está atento a Billie, à evolução do seu estado de espírito até à ameaça de suicídio. Kerouac dedica-lhe páginas e páginas de profunda compreensão pelos seus dramas mas as sugestões de vida que surgem como possíveis não deixam de ser convencionais : casar-se com Perry ou até refugiar-se num convento. Das personagens femininas Billie ( baseada na pessoa real Jackie Gibson Mercer que chegou a ser namorada de Kerouac ) tem um maior desenvolvimento. As restantes  mulheres são apresentadas no seu papel tradicional :acompanham o seu homem ou reagem ao comportamento dos seus homens, talvez  um tanto à margem das convenções e costumes , nada mais.

Em resumo : em BIG SUR as mulheres são espectadoras ou intermediárias das interacções das personagens masculinas. Para além da beleza parecem não trazer muito mais .              

 

 

Clube de Leitura

 Setembro 2021

Maria José Marques



                                        A Cabana 

                    viagem pelos caminhos nebulosos da mente à procura da redenção


                                                                                            por Manuela Pereira


Big Sur, Jack Kerouac_1962

 “E compreendo a insuportável angústia da loucura: como é possível que os leigos na matéria achem que os loucos são ´felizes` (…) ´Há uma compressão em torno da cabeça que magoa, há um terror espiritual que magoa ainda mais, eles são muito infelizes, em especial porque não conseguem explicar a ninguém o que sentem nem ninguém consegue arrancá-los à paranóia histérica em que estão mergulhados, é por isso que eles sofrem mais do que quaisquer outros seres no mundo e até, diria eu, no universo.” Pag.201

  

Descida para a cabana

 A descida de Raton Canyon tem que a fazer sozinho. É a fuga ao ´desespero ébrio dos últimos três anos que é um desespero físico e espiritual e metafísico acerca do qual nada se aprende na escola (…) `11 É a viagem de introspecção, de encontro com a natureza e consigo mesmo.

Raton Canyon

                        Raton Canyon

Na penosa caminhada para o seu refúgio, a cabana perdida no meio de montanhas isoladas e agrestes, vai encontrar o inferno dos seus medos, das suas angústias e inseguranças. A natureza com que se depara sozinho na escuridão é medonha, tenebrosa, desconhecida. Imagens primitivas despertam-lhe medos inconscientes. Isolado do mundo sente o solo a fugir-lhe debaixo dos pés, ouve uma água negra desconhecida, ruidosa e em movimento. Ouve o murmúrio incessante das ondas de uma massa esmagadora presa há milénios pela rocha imóvel da montanha opaca. Uma matéria desconhecida viva no fundo do desfiladeiro, signo de poderes obscuros. Sentimos o medo cósmico do homem primitivo entregue à fúria dos elementos. A narrativa só nos traz um momento de repouso quando no final de todos os desfiladeiros tortuosos e estreitos, abruptos precipícios chegamos finalmente a uma subida acentuada. Inverte-se o caminho para as trevas e descansamos. Por fim descobrimos um riacho e a ponte sobre a água e percebemos as profundezas cheias de perigos a que chegamos. Mas percebemos que o caminho desamparado que atravessámos tem também uma ponte aonde podemos voltar e que podemos atravessar. Do outro lado, `(…) estende-se um prado encantador (…) dou por mim a percorrer um agradável carreiro de areia que vai serpenteando pelo meio de urzes secas e perfumadas como se eu tivesse acabado de saltar do inferno para o velho e conhecido Paraíso na Terra, nem mais nem menos (…) `16 Mas durante algum tempo Jack Duluoz vive ainda numa ´atmosfera pavorosa` com os ´estertores de uma Criação gemebunda em estado bruto` com ´quilómetros e quilómetros de um horrível vaivém aquoso`18 ´E o pior de tudo é a ponte!`17 ´Depois de dormir na areia branca mesmo ao lado da falésia (…) erguemos os olhos para o céu (…) estamos precisamente debaixo daquela ponte vertiginosa com a sua delgada linha branca que se estende de um rochedo a outro e aqueles carros insensatos cruzam-na velozmente como num sonho (…) `18 A ponte tem a verticalidade de uma torre, elevando-se das mais terrestres e aquáticas profundezas até ao céu. A torre é o lugar do devaneio, o lugar dos grandes sonhos, sempre inacessível. ´E ao erguermos os olhos para aquela ponte inacreditavelmente alta sentimos a presença da morte (…) `17

 A cabana

 ´Eis a morada do bhikku na floresta, tudo o que ele pede é sossego, sossego ele terá.` 21




A cabana não precisa de descrição. A cabana leva-nos para um outro lugar, longe das preocupações citadinas e da casa atravancada. É o verdadeiro refúgio, sonho de evasões longínquas. A cabana pertence às lendas. É o refúgio primitivo onde nos encontramos na solidão extrema e no despojamento absoluto. O centro da cabana é a morada do ser_ o eu, fora da cabana é o universo primitivo_ o não eu. ´(…) a cabana transforma-se subitamente na minha casa só porque lá cozinhei uma refeição (…) então chega o crepúsculo, arde a chama sagrada de vestal do belo candeeiro de querosene (…) ´Cai a noite, o candeeiro de querosene projecta a sua luz no interior da cabana.` ´ (…) Ouve-se o ruído monótono das abelhas (…) quando o zumbido volteja cada vez mais próximo (outra vez o nó na garganta) refugiamonos dentro da cabana e esperamos (…) finalmente habituo-me ao zumbido das abelhas, o qual parece ocorrer uma vez por semana, como uma grande festa -- E portanto acabo por achar tudomaravilhoso.`23 Embora perdida no universo, a cabana tem sempre um ponto de referência, uma luz. A luz ao mesmo tempo vela e vigia. É a protecção da cabana contra as forças que a sitiam. É também a ligação ao mundo exterior que nos permite manter afastados e ao mesmo tempo ligados. Há mais uma luz em Big Sur sozinha no alto da falésia, uma lâmpada à janela de uma casa distante. A luz íntima do refúgio sugere uma imagem de repouso e confiança e aceitamos a amizade do mundo. A cabana tem o fogo e o calor ´De regresso à cabana acendo o lume e sento-me com um suspiro e há folhas roçagando no telhado de zinco, é Agosto em Big Sur (…) `30 ´Entretanto a propósito e todavia, todos os dias são frios e nublados, ou húmidos (…) Mas também isso acaba por revelar-se uma circunstância maravilhosa (…) `31 O Verão enevoado na floresta húmida foi sublime e além disso quando o sol triunfou em Agosto produziu-se um fenómeno horrível, grandes rajadas de um vento assustador, tempestuoso, desataram a jorrar para dentro do desfiladeiro fazendo com que todas as árvores bramissem com uma intensidade verdadeiramente assustadora (…) `31 Mas quanto mais a cabana no valezinho é fustigada pelo vento mais forte o seu abrigo, o seu valor de intimidade e Jack sente-se em segurança. ´Mas a cabana de Monsanto tinha defeitos como o facto de não haver redes nas janelas (…) apenas grandes portadas de madeira (…) se as deixo abertas fica demasiado frio, se as deixo fechadas não se vê nada (…) `27 A janela/porta é o contacto do ser do homem com o ser do mundo, é através dela que se faz a ligação do eu _aqui e do outro_aí. Às vezes a porta está bem fechada, outras vezes está escancarada. Depois de nos isolarmos do mundo para encontrarmos a paz, depois de encontrarmos a segurança e a ventura, volta o desejo de socializarmos. Fechado no ser, sempre há-de ser necessário sair dele. A experiência de intimidade convida à imaginação. A porta desperta em nós direcções de sonho E é quando a porta está entreaberta que o futuro se desenha., quando a porta vem proporcionar as imagens da hesitação, do desejo, da segurança ou da liberdade. ´E aqui não há quase espaço; e tu quase te acalmas com o pensamento de que é impossível que alguma coisa de muito grande possa caber nessa estreiteza.`, diz Rilke, para logo o texto viver a dialéctica ´Mas lá fora, lá fora tudo é desmedido. E no momento em que o nível de fora sobe, também em ti ele se eleva (…) aspirado para o alto até às últimas ramificações da tua existência infinitamente ramificada (…) Teu coração te expulsa para fora de ti mesmo, teu coração te persegue, e já estás quase fora de ti, e já não podes mais. (…) `in A poética do Espaço, Gaston Bachelar 231 E a noite sem limite deixa de ser um espaço vazio. Todos os sentidos estão despertos. E depois do ´dia mais maravilhoso de todos, em que eu me esqueci completamente de quem era onde estava ou que horas seriam (…) ` ´e observo maravilhado a água límpida, gorgolejante e rápida no seu novo percurso (…) `32 ´E outras coisas assim --- Uma amálgama de pequenas alegrias deste género (…) `33 ´(…) comecei a fartar-me e anotei no meu diário com estupefacção ´Já farto?` 35 (…) ´E assim parto`.49 Mais tarde, no regresso à cabana com os amigos ´O dia começa normalmente (…) 183 mas tudo se transfigura rapidamente. A cabana já não é mais uma cabana, Big Sur transfigura-se torna-se lugar de férias, lugar de excessos, e todos os fantasmas voltam para persegui-lo. E tudo recomeça.

 

 

 Manuela Pereira                                                     

  Clube Leitura_23/2/ 2021 (terceira vaga)



O EXISTENCIALISMO EM KEROUAC


por Maria João leite de Castro


To be “beat” is to be at the bottom of your personality, looking up; to be existencial in the Kierkegaard rather than the Jean-Paul Sartre sense

John Clellon Holmes (cit in”A Estrada de Jack Kerouac: uma viagem existencial”, Sara Sá Jones, Univ. Porto, 2014).

Em “Big Sur”, tal como em “Pela Estrada Fora”, a estrada, a viagem e o movimento que lhes é inerente, são elementos fulcrais das suas obras. Esta viagem é, sobretudo, uma viagem existencial ao fundo de si próprio e às margens últimas da consciência para, a partir dela, criar a sua própria voz enquanto escritor e, de alguma forma, encontrar a tal «coisa desconhecida e central à existência». O mundo que Kerouac descobre no âmbito dessa viagem é um mundo confuso, habitado por fantasmas e demónios e também por sinais de espiritualidade perdida, como a Cruz que se revela na fase final do seu delírio.

Só no início do sec. XXI se recuperou a importância da influência que o existencialismo exerceu sobre os “beats” e nomeadamente sobre Kerouac. John C. Holmes , em 1958, considerou que esta influência se inspirava muito mais em Kierkegaard do que em Sartre. (“The Philosophy of the beat generation”, cit in “A Estrada de Jack Kerouac: uma viagem existencial”, Sara Sá Jones, Univ. Porto, 2014).

Tal como em Kierkegaard, para Kerouac, o substracto da existência é a procura do sentido final, mas sempre misterioso. Essa «coisa central» é dificilmente penetrável “ainda que por vezes, no sopro do saxofone desgarrado e incentivado pela electrificação ambiente, ou no veloz ziguezaguear da estrada (…) os protagonistas acreditem absolutamente «tê-lO», sem precisarem de se ralar com defini-lo” (Margarida Vale do gato, Pela Estrada Fora ,Introdução).Ou se revele em momentos inesperados : (…) e sinto-me invadido pelo amor quando me dou conta que a vida, tão sôfrega e incompreendida, não deixa por isso de estender a mão magra e esquelética para mim e para Billie (…) (Kerouac,Big Sur, pág.195)

 Tal como em Kierkegaard, há a recusa de uma evolução racional colectiva, que tudo esclarece, à maneira hegeliana, e que dissolve o eu individual numa síntese final e conciliadora. Para Kierkegaard, a existência individual torna-se a medida de tudo e o processo de crescimento interior leva a um máximo grau de individualidade. A verdade é estritamente pessoal e fruto da movimentação do individuo na linha do tempo, da tensão entre duas fontes internas, nomeadamente o finito e o infinito. Esta procura é sobretudo vivida com paixão num presente que a cada minuto se transforma e se esvai e num paradoxo que nenhuma síntese consegue conciliar e apaziguar.



Também para Kerouac, a paixão é o elemento central da existência vivida intensamente e expressa através de uma escrita que se desenvolve “no calor do momento e não a posteriori, numa cama de enfermo. (Jack Kerouac, Big Sur, Introdução). Aliás, Kerouac considera que a vida é de tal forma sagrada que a única coisa a fazer é vivê-la, escrever não passa do fruto de uma reflexão tardia, não é mais do que um mero arranhão superficial (pág.159). Por isso há uma contradição entre a escrita e a vida, pois como refere Cody, o espírito flui o espírito eleva-se e ninguém tem a mais pequena hipótese de…- (pág.159). mas a contradição faz também parte da vida, não pode ser resolvida e tem, por isso de se expressar de alguma forma seja nos sons circulares e desconexos do jazz, seja numa escrita que se quer, também ela, circular e desviante.

Para dar voz à narração dessa existência fugidia, absurda e impossível de fixar, é necessário um novo vocabulário e novas categorias. Tanto em Kierkegaard como em Kerouac questões como o tempo, a identidade, a santidade, a redenção, movimento/devir e morte são conceitos chave.

Em On the Road e em Big Sur novos heróis se desenham, heróis subterrâneos no sentido dostoiévskiano  (Kerouac partilha com Allen Ginsberg grande fascínio por Dostoievski). No toxicodependente, nos sem abrigo, nos que vivem à margem da sociedade encontra uma maior pureza, um regresso à infância e autenticidade perdida que os eleva a uma espécie de anjos deambulantes em oposição a uma sociedade materialista e fútil. Dave Wain, Pascal, Johnson, Joey Rosenberg, Cody, o próprio Kerouac…todos eles representam este tipo de herói que, embora vivendo contrariando os códigos sociais e morais são, de alguma forma santificados.(…) durante as minhas sessões de meditação budista nos bosques (…) passei a ver-me como um anjo solitário enviado especialmente à terra como mensageiro do Céu para dizer a toda a gente ou mostrar a toda a gente através do exemplo que a sua sociedade indiscreta e trocista era na verdade uma Sociedade Satânica e que eles estavam todos no caminho errado.

(Kerouac,Big Sur, pag. 133).

Estes heróis, movidos no excesso, procuram através dele uma redenção  que, também ela, se vislumbra em momentos fugidios e através de diferentes formas, seja num momento de ligação amorosa: (…) dançámos os dois e o Cody observou-nos ansiosamente, formávamos uma espécie de par romântico e às vezes estremeço quando penso no mistério estelar de saber como é que ela irá encontrar-me numa existência futura, uau!-e acredito sinceramente que isso representará a minha salvação.(Kerouac, Big Sur, pág.155) seja num momento de delírio alcoólico: (…)e eis senão quando a Cruz aparece diante de mim – Tenho os olhos cheios de lágrimas - «Vamos ser todos salvos»- (Kerouac, Big Sur, pag. 229).

A ideia de redenção, está também muito próxima da formação religiosa de Kerouac e serve de pano de fundo a uma espiritualidade que se procura através de diferentes meios, seja através do contacto com a natureza, da influência budista, das conversas com Cody e até dos excessos (porque em certa medida o alcoólico alcança a sabedoria, nas palavras de Goethe ou de Blake ou lá de quem foi “O caminho para a sabedoria passa pelo excesso” – (Kerouac, Big Sur,pág.129).Espiritualidade latente mas que nunca se alcança verdadeiramente contribuindo para o “ciclo de desespero” que caracteriza a vida e obra de Kerouac.

 

                                                          




                                              A Natureza enquanto personagem


                                                                                      por Alexandra Azevedo


Quem te disse que tinhas um chapéu na cabeça?

 A minha cabeça nunca interroga chapéus.

 

 

Em Big Sur,  a Natureza é uma das  personagens e, do meu ponto de vista, é mesmo a personagem principal.

Não acidentalmente, a palavra que inaugura o romance é um dos quatro  elementos clássicos da Natureza, o Ar _O  vento arrasta os tristes acordes da «Kathleen». Aliás, a referência à melodia que os sinos tocam não é também, ela própria, acidental. “I’ll take you home Kathleen” é uma canção popular de 1875, escrita por Westendorf, um americano de origem alemã,  para a  mulher quando esta, acometida de saudades, regressa a Nova Iorque, donde era natural. É também  um regresso, um “regresso secreto” a S. Francisco que Jack Duluoz quis programar com o seu amigo Lorenzo Monsanto para que este o conduzisse, igualmente em segredo, à sua cabana na floresta de Big Sur para poder enfim “ficar sozinho e tranquilo durante seis semanas”. Mas este regresso, tal como indiciam “os tristes acordes de Kathleen” , “tocado nos sinos em notas tão tristes pelos ventos da neblina que sopram sobre os telhados da velha e lúgubre Frisco”(10)não passará, ele também,  de um regresso triste e não trará a redenção que o encontro a sós com a natureza selvagem e, por isso, pura, numa concepção ainda muito romântica da pureza essencial do natural não contaminado pelo homem, faria expectar. 



Na verdade, as expectativas que a personagem criara relativamente à natureza/ refúgio  que idealizara serão dramaticamente desmentidas pela realidade que encontrará. Em vez de “um sítio acolhedor, bucólico, todo ele florestas rústicas e alegria”(17), o que encontra é “uma algazarra fantasmagórica e misteriosa na escuridão”(17). A noite, a escuridão, a ausência de luz acentuam a fragilidade do homem só diante da natureza.

 A Terra, o segundo elemento clássico da Natureza, não é, assim,  a mãe que ama e acode. Pelo contrário, as escarpas, os arbustos, os “fetos horrendos”, as “grandes árvores perigosas” tudo se conjura para expulsar o intruso que o homem é.  “Tenho medo” confessa a personagem. ”Tenho medo como se um chicote, ainda por cima, molhado, fosse vergastar-me a pele.__ Ouço a restolhada de um dragão verde e viscoso nos arbustos_ _Uma guerra furiosa que recusa a minha intromissão. Dura há um milhão de anos e não quer que eu irrompa nas suas trevas”(19).  E nem quando regressou uma segunda vez a Big Sur com “uma chusma de acompanhantes” a visão do desfiladeiro foi menos assustadora “Como se a natureza tivesse uma face gargantuesca e leprosa com narinas largas e grandes papos por baixo dos olhos e uma boca suficientemente grande para engolir quinhentas carrinhas todo-o-terreno e dez mil Dave Wains e Cody Pomerays sem soltar um suspiro de saudade ou de arrependimento”(104). Os cenários grandiosos e inóspitos que permitiam aos heróis românticos do século XIX europeu respirarem livremente por neles verem reflectidas a sua coragem e a sua ânsia de absoluto revelam-se insolitamente  inapropriados para o anti-herói que Duluoz aqui encarna. O escritor aclamado, o Rei dos Beatniks, o famoso autor de On The Road  sente-se encurralado e quer desesperadamente fugir da ditadura do novo, da ditadura do original, da ditadura da ruptura e do desregramento que os bandos de admiradores lhe impõem sem piedade. Duluoz quer apenas estar só, quer apenas ser simples e crê que só o poderá conseguir longe da civilização que o consagra como seu herói.  As religiões, o budismo, o hinduísmo, o catolicismo também não apaziguam os seus medos e , consternado, verifica que a natureza não tem por ele qualquer apreço ou sentimento.

Apenas o Fogo surge aqui e ali como símbolo de algum  conforto da alma e as escolhas lexicais são, a esse respeito, inequívocas (acolhedora, brilho, quente, refúgio, querido, cativante)

_na penumbra acolhedora da cabana, junto ao brilho quente e vermelho do

fogo de lenha”  (139)

_”o interior da cabana com o lume finalmente aceso volta a ser  o refúgio querido e cativante, agora tão nítido no meu espírito enquanto o contemplo como uma fotografia invulgarmente bem focada” (109);

“Oh os bons velhos tempos quando ficávamos acordados até tarde junto à lareira acesa a debater a personalidade do Cody” (144)

Mas esse conforto é fugaz e não o livra da angústia interior que o consome verdadeiramente: “Sinto remorsos por pertencer à raça humana”(185); “e eis-me aqui um escritor americano de uma imbecilidade óbvia e perfeita”(186); “tenho medo… Quero ir para casa e morrer junto do meu gato” (187)

E só a Água, o mar imenso, glorificado nesse indefinível poema com que termina o romance, o “Mar Pacífico”(287) com “as suas absurdas cidades silenciosas poderá finalmente pacificar  as também  silenciosas e horríveis tempestades interiores que o atormentam :”Nenhuma tempestade é tão silenciosa e tão horrível como a tempestade interior”(287)




 O Sur, o Big Sur é, assim, o verdadeiro protagonista deste romance atormentado e melancólico, mas acima de tudo um romance lúcido que, não por acaso , o toma para título

“Adeus, Sur” (289)

 

Porto, 8 de Setembro de 2021

Alexandra Azevedo