quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Casa e o Mundo



Verba volant, scripta manent


A CASA E O MUNDO

por Alberto Teixeira

Tagore representa, no seu livro, uma metáfora da Índia nas vésperas da independência. Nikhil é um ocidentalizado pragmático. Percebe que a defesa do produto nacional, que poderá ser uma excelente opção política, é economicamente ruinosa. São dele as palavras “poderá a força prevalecer contra a vontade?” Sandip teve idêntica formação académica a Nikhil, foram ambos colegas de universidade. No entanto, não poderiam ser mais diferentes. Nikhil representa a boa educação britânica, a correção, as boas maneiras; Sandip é Nietzche a falar “ser justo é próprio de homens vulgares, aos grandes está reservado ser injusto; a liberdade baseia-se na injustiça”. Sandip está para além do bem e do mal “admitir um erro é o maior de todos os erros, é um exemplo típico de fraqueza”.Bimala é a Índia perdida entre duas posturas diferentes, “quando, como os rios, nos conservamos junto das nossas margens, nutrimos tudo quanto temos; quando as galgamos, destruímos  tudo o que somos”. Nada de mais profético! Bimala vai oscilando entre um casamento que, não sendo opressivo, não lhe coloca desafios e um potencial amante que a estimula. Hesita com cautela e sempre sob a espada do arrependimento, “se na hora precisa de se embriagar com qualquer coisa, que não seja com uma mulher”.
Nikhil e Bimala

Nikhil é um epicurista moderado e sensato, “é sem dúvida melhor encarar o mundo a rir do que inundá-lo de lágrimas, pois é graças à primeira atitude que o mundo vai andando”, mas também é um moderno face a Sandip que traz ao de cima tudo o que há de mais primitivo no ser humano, “aqueles que vencem neste mundo criam a verdade, não a respeitam cegamente; os que dominam não temem a mentira; os grandes mentiras são os principais ingredientes dos imensos caldeirões onde fervilham os programas políticos; o objetivo do homem não é a verdade e sim o êxito; mil ou duas mil rupias teriam o ar de roubo mesquinho, cinquenta mil manifestem-se de toda a amplitude do banditismo romântico”. 

Sandip
s

Sandip é um amoral que constrói o bem e o mal à sua medida que supõe ele está de acordo com a causa, com os desejos de toda a Índia. Nikhil tem uma postura democrata, um democrata liberal, “exercer a tirania para bem do país é tiranizar o país; a liberdade sentida é a maior coisa que pode haver para o homem, nada se lhe pode comparar, absolutamente nada; só quando chegamos ao ponto de deixar sair o pássaro da gaiola compreendemos como ele nos liberta, a nós”.  O altruísmo de Nikhil assenta na tradição religiosa indiana, muito semelhante ao credo budista em certas posturas. O seu Mestre, à boa maneira daqueles tutores dos príncipes da antiga Grécia, foi sempre o seu guia espiritual e mentor, “só somos senhores de nós próprios quando conseguimos expulsar os desejos do nosso espírito”. O não querer, não desejar é uma postura budista que pretende evitar o sofrimento pela não ação. Segundo esta doutrina o sofrimento é provocado pelo desejo frustrado, pelo impedimento de alcançar o que foi ambicionado. Na verdade, Buda era um príncipe que se despojou de tudo, cansado da riqueza. Foi um ato de coragem, mas não mais do que isso. Seria muito diferente se um faminto não quisesse pensar em comida para não sofrer e não ambicionasse um lauto jantar.

Entre os dois Bimala vai hesitando e Amulya, seu fiel servo, desabafa pelos dois “aquilo a que chamamos piedade é no fundo apenas piedade de nós próprios, antes compaixão, não temos coragem para seguirmos os nossos instintos mais delicados e por isso não atacamos”. Amulya não rouba nem Bimala chega a trair verdadeiramente o marido, “porque será que quando mudamos, não mudamos completamente?”. O medo da mudança! De passar definitivamente para o lado de lá. Bimala é a Índia fascinada pelo desejo de se afirmar, mas muito amarrada ao conforto Inglês, ao modo de vida dos Ingleses.
Quando Sandip pergunta a Nikhil “será que aquilo que acontece é a própria verdade?” e este lhe responde “que outra verdade poderá haver?” ficamos com um dualismo ancestral nas mãos, o  relativista e construtivista Sandip versus um realista algo ortodoxo, Nikhil. Para o primeiro a realidade é uma construção que se vai fazendo de acordo com as necessidades, para o outro a realidade é o que é, o que se sente e vê acontecer.
Nikhil estava destinado a um fim trágico como todos os que, durante uma tempestade, agem como se nada estivesse a acontecer e continuam plautinamente com a sua vida.