terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Natal no Clube de Leitura


O Natal da Fada do Lar

por Alexandra Azevedo

                                      
  O Natal da Fada do Lar (daqui em diante identificada por FdL) não é a 25 de Dezembro. Isso é para as pessoas normais.  E, obviamente, a FdL não é uma pessoa normal. É…uma Fada! Logo não lhe chega um dia. Na melhor e mais optimista  das hipóteses é todo um mês. Portanto, a vinte e tal de Novembro, já enfadada de ver árvores de Natal de plástico em todas as lojas e centros comerciais da cidade, a FdL prepara-se estoicamente para enfrentar a discussão ecológica  anual com as pessoas verdes que a rodeiam (e intimamente a consideram pouco menos que homicida), finda a qual estabelece que a 1 de Dezembro se dirigirá, como habitualmente, à Circumbalação (ler com o sotaque adequado) para enfrentar um não menos delicado assunto: a altura da árvore! Aqui, a discussão pode tomar cambiantes inesperados. A começar pelo pé-direito da sala! Ainda que seja altamente provável e até facilmente verificável que este não tem o hábito de descer ou subir de uns anos para os outros, a cada Dia da Restauração, seja ou não feriado, o mesmo diálogo se renova: _ Esta não. É grande demais e eu não estou para serrar troncos nem galhos! - Grande?! Grande?! Nem chega ao tecto e eu quero a Minha Árvore de Natal a chegar ao tecto. A estrela tem de ficar encostada ao tecto!_ Ah! No ano passado nem conseguiste pôr a estrela! _ Isso foi porque não serraste o suficiente! Estavas de má vontade! Entretanto a vendedora observa sem intervir. Só intervirá depois de perceber quem é que verdadeiramente  decide da compra da árvore. _ Ó Sinhore! Grande isto? Nem dois metros. É das mais piquenas que tenho aqui! E, astuta, acrescenta: _ E está num bom preço! Este ano tudo  parecia, portanto,  bem encaminhado para a FdL quando uma inglesa velha e cheia de sotaque, que  saiu de um carro trazendo a reboque o seu jovem  motorista,   resolveu meter-se na conversa: Eu também não gosto de  árvores grandes! It’s a silly thing! Mas o meu  marido quer sempre  uma árvore até ao tecto e o pé-direito da nossa sala é muito alto. E lançou um olho guloso à árvore da FdL. Valeu a pronta intervenção da vendedora:_ Esta é para esta sinhora, minha sinhora. Já está bendida! E confiante na política do acto consumado, começou a rebocar a gigantesca árvore para o carro da FdL, dando instruções precisas sobre bancos e bagageiras sem dar espaço a hesitações de última hora. Minutos mais tarde, sentada no banco da frente com três galhos a furarem-lhe a nuca, a FdL pensava consolada: A letra A já está!
Na ordem alfabética da lista de tarefas de Natal de uma FdL, a seguir à letra A segue-se a letra P: presentes. Primeira grande preocupação: não repetir presentes. Logo, o primeiro passo é consultar a lista de presentes dos últimos anos para não voltar a ouvir _ Obrigada! Gosto muito! Mas já tenho uma  igual que me ofereceste há três anos!
Ser FdL exige, assim, toda uma logística e o  cumprimento rigoroso de um  Protocolo de Procedimentos sob pena de perda do seu precioso estatuto de FdL.
As duas semanas seguintes são, portanto, destinadas  às “compras de Natal” e a dar voltas à imaginação para encontrar o presente ideal para cada um. Quanto ao seu próprio presente, a FdL há longos anos que decidiu dar sobre isso  explicações detalhadas ao Pai Natal, farta que estava de receber leões em prata, numa primeira fase ou, em fase posterior, romances de Lobo Antunes, autor que, desde Fado Alexandrino, se recusa a ler.
Assim chegada à terceira semana de Dezembro, a FdL confronta-se com a terceira letra da sua peculiar ordem alfabética, a letra B: o Bacalhau! E aqui as coisas começam a aquecer. Congelado ou seco? A FdL é adepta fervorosa do primeiro, seguro e confiável como é próprio de um peixe que dá pelo nome de Fiel Amigo, mas os puristas do Natal, os tradicionalistas intransigentes, não abrem mão do bacalhau seco e são capazes de mergulhar em discussões acesas sobre  qual o melhor local para nascer quando se é um bacalhau. Em regra ganham os defensores da Noruega, aniquilando os seus opositores com… a cura amarela! Deixando bem claro que não intervirá em coisas como “mudar a água ao bacalhau”, a FdL, pode até abdicar das suas convicções e, ano sim ano não, cede aos incompreensíveis caprichos dos  indefectíveis do “bacalhau como deve ser”. 
  
E o Natal aproxima-se a passos largos. É preciso pensar nos doces tradicionais, uns  mais tradicionais  que outros.  As letras do alfabeto começam a enlouquecer: volta o A, agora  da aletria, volta o B , agora do bolo inglês, surge o R das rabanadas, volta o P, agora  do pudim francês e a girândola de letras ganha velocidade na perseguição à fruta cristalizada: o N, o C , o A, o P! As nozes, as cerejas, não esquecer as passas! E a tia que não dispensa as amêndoas e o primo que pergunta sempre pela abóbora cristalizada!
E enquanto sorri, sentada à  mesa da consoada, olhando por cima das velas e das rosas,  a Fada do Lar pensa: E se  eu falasse com a minha prima americana e me passasse para o Clube das  Fadas dos Dentes?   
                                   
29 de Dezembro de 2016
Bom Ano Novo!
                                        

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