sábado, 4 de novembro de 2023

 

Os Enamoramentos

Javier Marías

 

Por Ana Teixeira

 

A problemática da eutanásia não é um tema central no livro “Os enamoramentos” de Javier Marías. Foi todavia a parte que mais me impressionou embora me tenha tocado profundamente a forma como o autor  explora os temas do amor, enamoramento e o seu contrário, a amizade e o seu oposto, a morte, a moralidade e a metafísica através , essencialmente dos pensamentos da personagem María Dolz.  

A questão da eutanásia não é diretamente abordada. Não há uma discussão explícita sobre a possibilidade de utilizá-la como uma opção para a personagem Miguel e Javier Marías não explora a complexidade deste tema nem as contradições que do mesmo decorre. Preferiu ir para a banalidade do mal ao por

 

Ao longo da narrativa, Javier Marias explora o tema da morte, o reflexo da mesma na vida dos que sobrevivem , o amor e o destino numa abordagem filosófica e existencial. O autor questiona as motivações e os limites das relações humanas, mas não entra especificamente no campo da eutanásia ou aborda a escolha do personagem Miguel.

Apesar da eutanásia me parecer surgir no livro como um acto de liberdade que deve ser concedida a cada um, não se podendo impedir alguém, que está em grande sofrimento, de exercer o seu direito de escolha e, no caso presente, de escolha da morte. Contudo, essa mesma escolha não foi explorada pelo autor que em outras áreas dos sentimentos humanos explorou de forma intensa e filosófica.

A mim pareceu-me que associou esta autonomia e liberdade humana não ao medo mas aos reflexos que a mesma teria na sua família em especial na mulher Luísa. Assim levantou o problema de esta autonomia podendo ser garantida a cada um esteja ela própria também condicionada pela comunidade próxima condicionando e podendo impedir alguém, que está em grande sofrimento, de exercer o seu direito de escolha da morte.

Cada um de nós, com efeito, não somos individualidades que coexistem na total indiferença relativamente às opções dos outros com que nos relacionamos e amamos, mesmo quando o sofrimento se sobrepõe a qualquer outro sentimento.

A Eutanásia foi aprovada em Espanha em 18 de março de 2021, para entrara em vigor em 25 de Junho desse ano. Desde essa data até ao momento actual já praticaram a Eutanásia em Espanha 180 pessoas.

A Espanha foi o quarto país europeu a descriminalizar a eutanásia, depois de Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo.  Em Portugal a lei que descriminaliza a eutanásia foi promulgada em 16 de Maio deste ano.

Ana Teixeira


 Pedaço do meu sofrimento

por Elsa Viegas

        Muito me custou iniciar este pequeno texto sobre Os Enamoramentos,

romance de Javier Marias com 1ª edição em português em Outubro de

2012 altura em que o li pela 1ª vez não tendo então ficado deveras

impressionada.

        No entanto, um dos temas da recente leitura que me suscitou alguma

curiosidade inicia se com um diálogo, a sós, entre Diaz Varela e a

narradora Maria Dolz; nele, Diaz Varela reflecte em voz alta sobre a ideia

dos sentimentos e comportamentos mesquinhos e egoístas do ser

humano que frequentemente surdem perante o objecto de cobiça; Diaz

Varela tenta aí menorizar o seu próprio comportamento; integrando-o

num comportamento mais vasto do ser humano e contando a propósito o

conteúdo do romance de Balzac, O Coronel Chabert.

        Neste romance são descritos os sentimentos da viúva do Coronel, Mme

Chabert, no período da sua viuvez; sentimentos de tristeza mágoa e

solidão pela perda do marido julgado morto, e, paradoxalmente, o

aparecimento de sentimentos de desgosto, ansiedade e receio quando o

marido, em tempos amado, regressa. Esta incómoda e inesperada

situação acarretaria como consequência a reviravolta na actual vida

familiar e financeira/social da antiga Mme Chabert. Agora, Mme. Ferraud

não pretende voltar a um passado tanto tempo outrora ansiado.


        Neste diálogo, Diaz Varela pretende mostrar a Maria Dolz que os

sentimentos humanos são perecíveis e mudam consoante as

circunstâncias de vida. Questiona- se se o amor de Luísa renasceria pelo

seu marido mas, perante o velado receio da possibilidade do regresso do

seu amigo morto, tranquiliza se com “a evidência de que os mortos não

devem regressar porque os vivos já não os querem”.

        “Há que matar bem os mortos”, dizia Ortega e Gasset.


Elsa Viegas

 

 

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