quinta-feira, 18 de julho de 2019

Le Rouge et le Noir







           Julien Sorel, exemplo do beylisme




por 

Alexandra Azevedo


O nome verdadeiro de Stendhal era Henry Beyle. A primeira obra que assina com o nome de Stendhal data de 1917 -  “Roma, Nápoles e Florença”-  uma narrativa de viagens de tipo jornalístico em que mais do que descrever monumentos ou locais de interesse, se ocupa da maneira de viver dos italianos que é  o que  verdadeiramente o encanta em Itália. Aliás, Stendhal dirá “nunca encontrei um povo que conviesse tão bem à minha alma” A razão de adoptar um pseudónimo poderá estar ligada  ao pudor que sempre teve em expressar sentimentos, apesar de ter vivido em pleno romantismo. Desde a infância, nomeadamente desde a morte da mãe, aos sete anos, que Stendhal manteve a preocupação de proteger a sua intimidade, de nunca se expor do ponto de vista sentimental. A esta atitude não será  também alheia a influência do avô, mádico e filósofo, imbuído das ideias do racionalismo, do esprit philosophique do século XVIII francês bem como a de um tio, espécie de D. Juan de Grenoble que lhe terá dado sábias lições e contribuído decisivamente para que atravessasse a adolescência sem mergulhar no vague des passions, então em moda. Assim, e apesar de possuir uma grande  sensibilidade e uma imaginação romanesca, Stendhal refugiou-se sempre numa atitude cínica e desenvolta com medo de cair no ridículo.  
Tudo isto terá contribuído para criar aquilo que ficou conhecido como beylisme,  designação encontrada a partir do seu verdadeiro nome, Beyle. O beylisme é  um conceito de vida, un art de vivre muito pessoal, de raiz racionalista em que a base do conhecimento,  é a sensação. O sensualismo, doutrina do século XVIII segundo a qual todos os conhecimentos e todas as faculdades do espírito advêm da sensação é, assim,   a base filosófica deste conceito de vida em que a busca da felicidade pessoal é o desiderato a atingir. La chasse au bonheur que enraiza na crença de que a vida terrena é a única de que o homem dispõe, está sempre presente nas personagens de Stendhal e o prazer é o grande e único critério estético e moral. Mas só os eleitos, aqueles que são dotados de virtu, de força anímica, são capazes de empreender esta chasse au bonheur. É a virtu que dá às personagens de Stendhal traços vigorosos, marcantes, individualistas, frios e racionais como aqueles que encontramos em Julien Sorel.
Julien caracteriza-se por uma ambição sem limites que tem na base o desejo de apagar as suas origens humildes. Ao  filho de um carpinteiro só duas carreiras  se podiam apresentar: a carreira militar (o Vermelho) ou a carreira  eclesiástica (o Negro). Julien sabe-o e, se bem que a atracção pela carreira das armas e por Napoleão, o seu ídolo nunca destronado, seja grande, é à carreira eclesiástica que se resigna.
Nesta busca pela felicidade pessoal não pode haver lugar a sentimentos que ponham em causa o alcançar dos objectivos.  Por isso, Julien luta  consigo próprio para não se deixar enlear nas teias do amor ou da amizade. É assim que começa  por odiar a beleza de Mme de Rênal _  “Julien trouvait Mme de Rênal fort belle, mais il la haissait à cause de sa beauté; c’était le premier écueil qui avait faiilit arrêter sa fortune. Il lui parlait le moins possible, afin de faire oublier le transport qui, le premier jour, l’avait porté à lui baiser la main”(cap. VII) É por isso também que  encara com indiferença a amizade que as crianças têm por ele: “Les enfants l’adoraient, lui ne les aimait point; sa pensée était ailleurs. Tout ce que ces marmots pouvaient faire ne l’impentientait jamais. Froid, juste,
impassible,et cependant aimé” (cap. VII) E mesmo  o sentimento de gratidão pela figura tutelar do Marquês de La Mole é rapidamente posto de lado quando em causa estão os objectivos individualistas que o norteiam, ainda que tenha de trazer ao espírito o desdém dos frequentadores da casa ou da própria marquesa para activar o azedume de classe contra o marquês de quem sabia ser estimado: “Et moi, je vais séduire sa fille! (…)Julien eut l’idée de partir pour le Languedoc malgré la lettre de Mathilde, malgré l’explication donnée au marquis. Cet éclair de vertu disparut bien vite.” (cap. XIII)

Julien é uma personagem que simultaneamente repugna e atrai. O leitor é sabiamente levado a desculpar a personagem, mas apenas em certa medida. O esmagamento dos princípios morais não é completamente desculpado porquanto o autor nos faz sofrer pelas vítimas de Julien, nomeadamente Mme de Rênal a quem perdoamos sem hesitações o pecado do adultério. Mas Julien faz vítimas porque também ele é uma vitima. Nas relações amorosas que estabelece com Mme de Rênal ou Matthilde, Julien quer antes de mais o triunfo de amar mulheres de posição social mais elevada o que imediatamente o impede de verdadeiramente amar. Aliás, Élise nem sequer é uma hipótese para Julien justamente por ser uma criada. Julien é o instrumento de crítica social do autor que defende uma determinada visão politico-social marcada pelo anti-clericalismo, pelo  anti-monarquismo e pela justiça social. No final do romance, Julien entra no tribunal como acusado e transforma-se em acusador. No seu discurso, depois de assumir o crime de tentativa de assassinato, afirma que o seu verdadeiro crime foi nascer  numa classe inferior e ter ousado instruir-se e, sobretudo, ter tido a audácia de frequentar aquilo a que o orgulho dos ricos chama  a sociedade.
E a obra termina com a execução de Julien redimindo, assim, de certo modo, a amoralidade que se desprende da personagem em particular e do romance em geral.


27 de Junho de 2019




A política como pano de fundo de O Vermelho e o Negro
(alguns apontamentos para a sua compreensão)


por
 Conceição Rocha


·       A acção do romance decorre entre 1826 e 1830, mas para tornar as suas referências políticas compreensíveis é necessário revisitar todo o período que decorre entre a Revolução Francesa (com início formal em 1789) e a Revolução Liberal também em França (1830).
·       O movimento Jacobino, republicano e laico, foi determinante para a concretização da Revolução Francesa. Os mais importantes revolucionários integravam o clube jacobino, assim designado porque estava instalado desde 1789  num  convento  desactivado, em Paris, na rua de S. Tiago, nome que em latim se diz Jacobus.  Os jacobinos tomam o poder em 1793, instituem a república e afirmam-se como paladinos da democracia de massas, do sufrágio universal (para os homens), do reconhecimento do mérito como única forma de aceder ao poder, da escolarização universal, etc. Muito implantados nas massas, perseguem, julgam e guilhotinam Luís XVI e Mª Antonieta, uma boa parte da aristocracia e  algum clero. Robespierre (1758 – 1794) é o revolucionário mais destacado e sanguinário.
Robespierre


·       Robespierre é guilhotinado em 1794 (10 do Thermidor) e o jacobinismo instalado no poder, que caiu em desgraça popular por causa da fome, dos atentados e da justiça popular, fez com que uma grande fração do povo se aliasse à aristocracia e ao clero para destituir o poder revolucionário.
·       Em 1789 Napoleão Bonaparte tinha 20 anos e já na Córsega, de onde é natural, participava nos movimentos nacionalistas e republicanos da ilha, colónia francesa.
·       Em 1799 está já em Paris com uma carreira militar brilhante e um discurso nacionalista com grandes repercussões.
·       9 de Novembro de 1799 – é o 18 do Brumário, tomada do poder por Napoleão, início do Consulado, Napoleão é o Primeiro Cônsul. Representa o ideário de uma burguesia crescentemente poderosa, rica, que, além de se ligar com os restos de aristocracia ainda existentes, ela própria se nobilita e se faz representar em todos os órgãos do poder.
·       1804 – Napoleão é coroado imperador e a vida corre-lhe relativamente bem no expansionismo europeu que empreende. O seu ideário é querido nos territórios europeus que, divididos em regiões e agrupados segundo as vitórias e as derrotas guerreiras (os territórios que irão ser a Alemanha, a Polónia, a Áustria, etc), têm no nacionalismo do imperador uma esperança de unificação. Recorde-se a 3ª sinfonia de Beethoven (1802), a Heroica, cujo título inicial era “Buonaparte”, título depois rasurado por B. na partitura original, quando Bonaparte se torna inimigo de toda a Europa.  
·       1812 – derrota de Napoleão na Rússia
·       1814 – destituição e exílio na ilha de Elba
·       1815 – escapa aos seguranças e aporta em França; mobiliza tropas leais e toma o poder. Tem toda a Europa contra si.
Elba
·       1815 – Batalha de Waterloo na Flandres,  hoje Bélgica, grande derrota. Napoleão abdica e vai exilado para St.ª Helena, sendo o poder retomado pelo grupo político burguês –recém aristocrata.
·       Nas décadas de 20 e 30 alastram-se os movimentos liberais e nacionalistas na Europa, ideários muito caros à burguesia industrial e desenvolvimentista.  Ao mesmo tempo cresce em miséria e desemprego o proletariado urbano, mais tarde a própria pequena burguesia. Com o decréscimo do consumo, ocorre crise também no tecido produtivo.
·       Em França reina Carlos X Bourbon que revitaliza o absolutismo de direito divino, favorece a nobreza e sufoca a burguesia com impostos, licenças e toda a espécie de soluções para lhes extorquir recursos.
·       27, 28 e 29 de Julho de 1830 – a maçonaria, povo e burguesia de Paris revoltam-se e vencem as tropas de Carlos X. (Este período é tema dos Miseráveis de Victor Hugo). A alta burguesia põe no poder Luís Filipe de Orleães, de um ramo da realeza francesa não Bourbon. Os Orleães subscrevem o ideário liberal, o crescimento económico, a revolução industrial e o poder assente no capital financeiro. 
Carlos X
·       O Livro II do Vermelho e o Negro começa antes da revolução de Julho de 1830. As suas personagens circulam à volta de um espírito contra-revolucionário, conservador, perfumado pelo gosto romântico do individualismo, da vivência de emoções, da profunda oposição entre Paris e a província, entre nobreza e burguesia, entre jansenistas e jesuítas, entre valores como o do altruísmo revolucionário e o egocentrismo requerido pela necessidade de mobilidade social numa sociedade profundamente estratificada.
Luís Filipe de Orleães
·       Jansenismo: doutrina religiosa inspirada nas ideias de um bispo de Ypres, Cornelio  Jansenius (1585 – 1638) inspirada nas doutrinas de Stº Agostinho que deram origem à reforma calvinista. São diversas as implicações desta doutrina. Por um lado, “o pecado pessoal significa uma privação da graça: quem peca, é porque não tem graça, pois se a tivesse agiria segundo ela. Por outro lado, o homem não tem mérito nas boas obras, pois elas são fruto da graça que interiormente o determina, e não da sua liberdade. 
Cornelio Jansenius

Além disso, o homem privado da graça peca infalivelmente e é incapaz de qualquer boa obra, pois segue sempre a concupiscência. Daí que as obras dos infiéis sejam sempre pecado, pois estão privados da graça eficaz proveniente da redenção de Cristo”[1]. Os seus seguidores negavam que Cristo tivesse morrido pela salvação de todos os homens, mas apenas por aqueles que serão finalmente salvos (ou seja, os eleitos). Esta e outras teses Jansenistas foram oficialmente condenadas pelo Papa Inocêncio X em 1653. Desde o séc. XVII que o jansenismo despertava em França a simpatia de intelectuais cultos e apreciadores de sociedades secretas com grande pendor espiritualista e profundamente anti-clericais. Os séculos XVIII e XIX assistiram a grandes polémicas religiosas entre académicos jansenistas e clero jesuíta, estes intelectuais profundamente opositores do jansenismo.




[1] Wiquipédia, entrada “ Jansenismo”




                         Stendall e a alma humana


por 
Maria Amélia Correia


“O Vermelho e o Negro”  Stendhal
Stendhal (S) analisa de uma forma brilhante a alma humana.
A forma soberba como Stendhal descreve o martírio do Sr. de Rênal (SR) quando descobriu, através de uma carta anónima a infidelidade da mulher é exemplar a este propósito. O SR não ama a mulher no sentido romântico do termo, é um materialista pragmático, possivelmente nunca conheceu a paixão ou mesmo o amor. Fez um casamento de conveniência com a Sra de Rênal (SRA), como era comum na época. Esta juntava qualidades inexcedíveis, era bonita, rica, piedosa, ingénua e generosa. Todos lhe invejavam a mulher. 
Eis que a leitura da carta vem abalar completamente a sua existência. Quem a teria escrito? Afinal em Verrières todos o invejavam e/ou detestavam. Abrir-se com amigos? Não os possuía. Aqueles que se diziam seus amigos ficariam regalados com a sua infelicidade, e os verdadeiros amigos contou dois, tinha-os afastado ou atraiçoado. Habituara-se a Luísa, seria difícil viver sem ela, não falando já da herança que a aguardava duma tia muitíssimo rica.
Seria calúnia? Esta hipótese resolvia-lhe os problemas. Mas se não era, estava disposto a ser o motivo da chacota geral? Então sentiu vontade de apanhar a mulher e o campónio em flagrante delito e matá-los, com a faca de caça. O Código Penal era a seu favor, mas a ideia de duas mortes sanguinolentas apavorou-o, era demasiado cobarde.
Pôr o preceptor na rua ao pontapé? Seria um escândalo em toda a província, ridicularizado nos jornais, a notícia chegaria a Paris. Toda a sua glória e força num lamaçal. Se expulsasse a sua mulher de casa, era certo e sabido que a tia rica a acolheria em Besançon, e poderia mesmo viver uma vida flauteada em Paris com o amado Julien. SR sem a fortuna e coberto de vergonha o gáudio para as gentes de Verrières.
Fazer de conta que nada acontecera, ficar com as suspeitas, não verificar nada? Não lhe seria possível ficar de mãos atadas e todo o Verrières imaginá-lo um manso.
Arranjar uma maneira de se assegurar da verdade, como espalhar uma fina camada de farelos diante da porta de Julião? Mas isto de nada valeria e a atrevida da Elisa e os outros criados iriam constatar que morria de ciúmes.
No desespero total pensou que a morte da mulher, tudo resolveria. Ficar viúvo salvá-lo-ia do ridículo.

O abalo do SR fez-me lembrar as terríveis penas por que passou Jorge quando leu a carta que o primo Basílio enviara de Paris a Luísa, passados meses de a ter abandonado com a desculpa de negócios urgentes. O nosso Eça não fica atrás de S na análise psicológica.
Jorge, contrariamente a SR amava apaixonadamente a sua mulher. Quando chegou do Alentejo encontrou Luísa bastante perturbada e dominada por Juliana, incapaz de a despedir. Após a morte de Juliana, a sua mulher adoecera com febres de desgosto ou crescimentos como diagnosticara Julião. Jorge, acreditava pouco no diagnóstico, mas foi infatigável na doença de Luísa, velava-a noite e dia e esta mostrava-se apaixonadíssima pelo marido. 
A carta que chegara de Paris para Luísa continuava na mesa do escritório e começou a irritá-lo. Arranjou desculpas para a abrir, podia ser um assunto urgente, até uma herança e afinal não havia segredos entre eles. Quando a começou a ler não compreendeu as letras embrulhavam-se. Mas ao reler com vagar ficou estupefacto sem reacção, até que de repente atirou-se de bruços sobre a mesa rompeu a chorar convulsivamente “rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, batendo os pés, louco!” Teve um impulso de a atirar à cara de Luísa que jazia doente na alcova, mas tudo o que conseguiu foi cair de joelhos, junto à cama e agarrar-lhe as mãos aos soluços.
Também lhe passou pela mente que a carta podia ser uma mistificação, teria sido enviada por um inimigo, mas era tão pouco provável, ou talvez Basílio tivesse outra Luísa em Lisboa.
Ao  SR  não foram dadas informações sobre o romance, nem este era um homem imaginativo, mas  o pobre Jorge foi confrontado com as “boas manhãs no Paraíso” e imaginou os começos do romance no divã, na alcova, enfim pormenores que faziam com que se sentisse enlouquecer.
Matar Luísa a devassa passou-lhe pela cabeça também. Não usaria a faca como SR, esganá-la-ia, dar-lhe-ia clorofórmio ou láudano para beber. Ou então enviá-la-ia para um convento e depois e iria morrer longe em África. Mas a ambivalência torturava-o pensava em todos os momentos maravilhosos que tinham vivido juntos.
Jorge possuía amigos sinceros, ao contrário de SR, e Sebastião era como irmão. Deu-lhe a ler a carta, indagou o que sabia o amigo. O amigo não lhe podia valer e ele interrogava-o em pranto: Que lhe fiz eu para isto? Adorava aquela mulher. 
Jorge foi heróico, a doença de Luísa fez-lhe perdoar a afronta e por fim tornou-se um viúvo inconsolável.    







O Vermelho e o Negro” de Stendhal

O Título



por

Margarida Mouta


Le Rouge et le Noir, essa feliz simbiose que constitui o título da obra, comporta em si duas cores que gozam, sem dúvida, de um estatuto privilegiado no romance. O “Rouge”, nas suas variantes “écarlate” ou “vermeil e o Noir nas variantes “sombre” e “obscure”, constituem mesmo uma espécie de atalho para a compreensão da obra, pois estão presentes no romance quase da 1ª à última página, desde as vestes negras do tímido e frágil preceptor que surge no início cheio de esperança até ao sangue que escorre da guilhotina que põe termo à sua vida, no final da obra.
Sabemos que o primeiro título escolhido por Stendhal era “Julien”, mas mais tarde, Le Rouge et le Noir viria a impor-se, dando origem a muitas interpretações.
O Vermelho e o Negro é, pois, um título em aberto. Vejamos algumas hipóteses que foram surgindo desde 1830, ano da sua publicação, e que, de uma forma mais linear ou mais rebuscada, pretendem fundamentar essas diferentes interpretações.



HIPÓTESE Nº 1


A explicação tradicional: vermelho – a carreira militar / negro – a carreira eclesiástica
De acordo com esta interpretação, o dilema em que Julien Sorel se encontra mergulhado exprime-se nestas duas cores. Para um jovem nascido no povo, só havia dois meios de sair da sua condição social: a igreja ou o exército. Assim, o negro evocaria a sotaina dos padres e o vermelho a cor dos uniformes militares.
Levantam-se várias objeções a esta hipótese. A condição dos padres de aldeia não era propriamente brilhante. Exceptuando alguns raros casos, os padres são sempre representados por Stendhal como camponeses grosseiros que escolhem esta via para escapar ao trabalho nos campos, não tendo nada a ver, portanto, com a situação do alto clero. Se assim fosse, o autor escolheria, por certo, mais depressa o tom púrpura das vestes dos cardeais. Por outro lado, os uniformes vermelhos tinham mais que ver com o exército inglês do que com o das tropas francesas, frequentemente de cor azul.
Apesar destas reservas, esta hipótese tem alguma base de sustentação, se pensarmos no hábito dos jesuítas, uma força poderosa no tempo em que o romance foi escrito e na cor dos uniformes da guarda de lanceiros que, esses sim, eram vermelhos.


HIPÓTESE nº 2

A explicação política: vermelho – A esquerda liberal / negro- Monarquia
Embora ainda não houvese o desfile das bandeiras vermelhas, o vermelho poderia associar-se à esquerda liberal, de cariz republicano e o negro às forças da monarquia apoiada pelo partido dos Padres, pelo que o título poderia bem reportar-se ao conflito político que divida a França dessa época.

HIPÓTESE nº 3

A explicação do jogo : vermelho e negro – cores que evocam a roleta
A roleta era um jogo que já existia no século XIX (pense-se n’ O Jogador de Dostoïevsk). Por outro lado, o Diário de Stendahal faz referência a um jogo de cartas apelidado exatamente de Vermelho e Negro    
«ARRÊTÉ: Considérant qu'audaces fortuna juvat (La fortune sourit aux audacieux), et que si je ne fais rien d'extraordinaire je n'aurai jamais assez d'argent pour m'amuser, j'arrête: (…) Art. 3 Tous les mois j'irai jouer 6 francs et quatre pièces de 30 sous à la rouge et noire au n°113. Ainsi pour 13 francs 10 sous, j'acquerrai le droit de faire des châteaux en Espagne.»    Audaz e ambicioso, Julien Sorel estaria, portanto, nas mãos da fortuna.




HIPÓTESE nº 4

A explicação da crítica social: vermelho- vestes dos magistrados / negro – o partido dos padres
De acordo com esta interpretação, Stendhal faria assim alusão às duas principais forças de repressão da sociedade do seu tempo. O vermelho dos magistrados (que iriam condenar Julien) e o negro dos padres que são a origem da sua desgraça.


HIPÓTESE nº 5

A explicação literária: vermelho – Românticos / negro – clássicos
O vermelho, ligado à impetuosidade fogosa dos jovens românticos opor-se-ia ao negro do classicismo.
Há ainda quem veja no título reminiscências da obra “Corine ou l’Italie” de madame de Staël publicada em 1807 e que Stendhal leu. Nesse livro, Madame de Staël evoca uma relação singular entre a natureza e o homem, apresentando uma descrição do Vesúvio que parece ter inspirado Stendhal : « … la nature n’est plus dans ces lieux en relation avec l’homme, il ne peut plus s’en croire le dominateur ; elle échappe à son tyran par la mort. Le feu du torrent est d’une couleur funèbre ; néanmoins, quand il brûle les vignes ou les arbres, on en voit sortir une flamme claire et brillante ; mais la lave même est sombre, tel qu’on se représente un fleuve d’enfer ; elle roule lentement comme un sable noir de jour, et rouge la nuit ». Tal como Julien Sorel, a natureza oferece-se à morte para escapar à tirania da lava incandescente do Vesúvio.
Pode-se também admitir a hipótese de Stendhal ser influenciado por si próprio. No seu Journal (La campangne de Russie), revela-se um admirador dos incêndios, primeiro em Smolensk, depois em Moscovo: « Nous sortîmes de la ville, par le plus bel incendie du monde. C’est la  frénésie du rouge qui conduit au noir de la mort ».



 HIPÓTESE nº 6

A explicação com base no simbolismo das cores
O vermelho – paradigma do sangue, do desejo, das forças vitais, da paixão, do amor, mas também a cor das paradas, das festas, das cerimónias, a cor que se ostenta para dar nas vistas, par se ser admirado, a cor da glória.
O negro - paradigma da noite, dos segredos, da dissimulação, das forças ocultas, dos complots, de tudo o se não pode fazer às claras. 
Unindo estes valores simbólicos ao universo do romance, poderíamos obter a chave da leitura do título. Um jovem brilhante, levado por um complexo de inferioridade e por uma ambição desmedida abraça o negro da única via que se lhe oferece, a da hipocrisia, da dissumulação e da intriga que a carreira eclesiástica propõe aos seres de baixa condição mas dotados de grande inteligência. O desejo de ser reconhecido conduzi-lo-á à sua perda. E só na morte encontrará o esplendor do vermelho.
L'homme a deux êtres en lui “, diz Julien na prisão. Para o crítico Paul Desalmand, o par indissociável vermelho/negro simboliza a imbricação em Julien de Eros e Tanatos, do instinto de vida e do instinto de morte, inextricavelmente ligados, o vermelho do desejo e o negro da morte.

O vermelho e o negro surgiria então como a feliz solução encontrada por Stendhal para nos dar desde o primeiro momento, uma pista de leitura sobre o caráter simultaneamente sombrio e inflamado de Julien Sorel, o que nos reenvia para o título que o autor inicialmente pensara atribuir à sua obra. 



 27 de junho de 2019






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