domingo, 7 de fevereiro de 2016

A Casa e o Mundo - R. Tagore



Verba volant, scripta manent

A Verdade e a Ilusão


por Manuela Pereira


 Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro. Demóstenes, séc. IV a.C.

Nikhil, passivo e tolerante – que se refere a si próprio dizendo “Não sou chama, sou apenas um carvão negro, que se apagou. Não posso acender nenhuma luz.” (227) – e Sandip, vibrante e tempestuoso – que diz sobre a verdade “... sou carne. Sou paixão. Sou fome despudorada e cruel.” (60) têm visões do mundo que se opõem, diferentes ideais. Quando as suas Verdades se confrontam, dá-se o choque entre o novo e o velho, realismo e idealismo, Deus e Satã.
Como explica o Mestre Chandranath Babu, Sandip está “...no anverso da verdade, como a lua nova que não deixa de ser lua apesar de toda a sua luz se encontrar do lado que não vemos.” (123) e “A atracção da mesma luz faz subir e descer a maré.” (203)
Bimala, no centro do conflito, oscila entre as duas verdades. É atraída pelo desejo agressivo de Sandip, ao ver “o fogo primevo da Criação...” (87) na sua energia cósmica e libertadora.
Na passagem de um a outro pólo, Bimala derruba barreiras, sai “de casa para o mundo”. Transforma-se em outra mulher, consciente que, diz “sómente um sacrifício pessoal me poderia ajudar a suportar o tumulto da minha exaltação.”
A sedução de Sandip inicia Bimala na verdade do shakti. “Era shakti e, também, uma personificação da alegria universal. Nada podia acorrentar-me, nada era impossível para mim, tudo aquilo em que tocava adquiria vida nova. O mundo que me cercava era uma nova criação minha.” (112)
O ponto de viragem para Bimala, provocado pelo roubo de 6000 rupias, acontece com uma dimensão moral. “O peso do roubo rojou-me o coração pelo pó.” (168) , “Por tal pecado, a minha casa deixara de me pertencer e o meu país também se afastara de mim.” (169)

Desfazia-se a ilusão em que vivera “Perdi a capacidade de ver a verdade, os meus olhos estão obscurecidos como os dos fumadores de ópio.” (174) e conclui “Há, com certeza, duas pessoas dentro de uma pessoa! Em mim, uma delas compreendeu que Sandip tentava iludir-me, enquanto a outra se sentiu feliz por se deixar iludir.” (173)
Disse Anatole France “Sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e tédio.”
Sandip atinge, também, um momento de confronto consigo próprio “Nos últimos dias, tem-me atormentado um problema. (…) Serei um tronco à deriva, destinado a chocar com todos os obstáculos que encontro no caminho?” (91)Vejo agora , claramente, que certos elementos da minha natureza se ergueram, num desafio franco, como obstáculos ao meu caminho.” (93)
O homem, vivo como a Terra, também se encontra sempre envolto na névoa de ideias que ele próprio exala...” (88) “...não sou apenas o que quero, o que penso --- sou também o que não amo, o que não desejo ser.” (88) , “...tudo quanto acabo de descrever é apenas a minha idéia e não eu, completamente.” (89)
Existe uma discrepância entre a minha existência exterior e os seus desígnios interiores, que me esforço por ocultar de mim próprio...” (89/90) “Esta doença de ideias que me atormenta está a mudar a minha vida interior.” (89)
Nikhil também descobre, num momento, que vivera numa ilusão “O que paguei à ilusão (…) tem agora de ser pago com juros à Verdade...” (42) . E, também num momento, liberta-se do “...que antes tivera o mistério...” (27): “De súbito o mundo brilhou para mim, com uma claridade nova. (…) Descobri, surpreendido, que o meu espírito estava liberto de toda a nebulosidade...” (127). “Saí do quarto, que me parecia agora uma gaiola quebrada, para a claridade dourada do exterior.” (127) E pergunta, “«Minha mulher...» Equivalerá isto a um argumento, equivalerá, sequer, à verdade? Poderá alguém aprisionar, nessas duas palavra, toda uma personalidade?(72)
Verdade e Ilusão ... Brahman e Maya ...
O que é a Verdade? O que é a razão? Não é verdade que (...) o mundo é uma espécie de sonho? Que Brama sonhou e continua a sonhar o universo? Que tudo quanto vemos é visto por nós através dessa teia de sonhos que se chama Maya. Maya (…) tudo quanto é ilusório, batota, artifício e intrujice. Aparições, fantasmas, miragens, prestidigitações, a forma aparente das coisas(...) in Os filhos da meia-noite, Salman Rushdie (201)
Sandip cria a ilusão da Verdade, o seu fascínio atrai uma turba de seguidores. É um lider ardente e carismático.
Pareceu-me escolhido pelos deuses como seu mensageiro.” (29)., diz Bimala.

Ao usar a antiga religião e cultura indiana como base para os novos objectivos do Movimento para a Independência, cria nos seus seguidores um fervor inabalável pela causa.
Sandip veio como mensageiro de qualquer reino calamitoso, e enquanto percorre a terra, murmurando encantamentos sacrílegos, atrai para si todos os rapazes e todos os jovens.” (208)
A ilusão, que promete a soberania do povo, que o liberta da soberania de outros povos e terminaria com a riqueza e bem-estar de todos, é, como a maioria das vezes, falsa e baseada na mentira. Levou ao caos e à guerra civil o povo de Bengala.
Amulya, um dos seus seguidores mais emotivo e apaixonado, é, também ele, capaz de viver e morrer para alcançar os objectivos do movimento Swadeshi e, individualmente, para alcançar o amor de Bimala – Mãe, Deusa, Durgá . (39)
A semente do fanatismo desponta com a paixão, a idealização de líderes e a adoração de indivíduos sedutores. Quando a Verdade se impõe como superioridade moral (movimento Swadeshi e outros movimentos nacionalistas emergentes na época), surge a urgência do sacrifício – o sacrifício de dar a vida pelo bem de alguém, pelo bem futuro.
Amulya não teme morrer pela pátria nem matar por ela “Darei a minha vida para cumprir qualquer dever de que me encarregar...” (178)
...como o homem pode encontrar suprema ventura na total destruição.” ? (76) 
Nikhil compreendera o perigo que representava o Movimento Nacionalista, o seu poder de destruição e de engano. “...amam mais a exaltação do que a pátria.” (…) “...as suas chispas desconexas servem apenas para lisonjear o vosso orgulho e não clarificam a vossa visão.” (44)
Sandip e Amulya, em nome da Verdade e do Bem, não têm compaixão por quem não pertence ao seu bando. Não têm simpatia pelo indivíduo, “...não são capazes de amar os homens só porque são homens...”. (44)
A ilusão num sistema político é um perigo maior do que a falta de participação. Quem se ilude com promessas participa activamente na defesa de interesses por vezes duvidosos, pois para eles só existe uma verdade, um certo e um errado.
Começo a suspeitar que existiu sempre em mim uma tendência para a tirania.” (…) “Os homens como eu, possuídos por uma ideia, conseguem entender-se com aqueles que são capazes de concordar com eles, mas os que não concordam têm que os enganar. É a nossa inflexível obstinação que conduz, até os mais simples, a caminhos tortuosos.” (231)Exercer tirania para bem do país é tiranizar o país, mas receio que nunca sejas capaz de compreender isso.” (126) diz Nikhil a Sandip.
A verdade absoluta só pode conceber-se mediante a integração absoluta do indivíduo na sua infinita totalidade.” (…) “A poesia reflecte pedaços de uma verdade espantosa e gigantesca, mas nunca inteiramente revelada, pois sempre permanece envolta numa bruma de mistério.” Rabindranath Tagre, in Diálogo com Einstein que teve lugar em 1930

                                                                                                     Manuela Pereira, Clube de Leitura_ 3 Fevereiro 2016



Bimala, metáfora da Índia

por  Alexandra Azevedo
Clube de Leitura da EASR
3 de Fevereiro de 2016

Quantas vezes lhe disse que, se nunca a tivesse visto, nunca teria conhecido o meu país como uma unidade?



Bimala, a personagem feminina central da obra, é, tal como a Índia,  o território em que se confrontam duas forças distintas, metaforicamente encarnadas por duas personagens masculinas, Nikhil e Sandip.
 Nikhil, o marido, é um Marajá, senhor de vastos domínios. É a Índia tradicional que, serenamente e sem contestar abertamente as tradições, fomenta uma evolução no sentido da modernidade, incorporando ideias novas e costumes novos, abandonando lentamente usos arcaicos e  obsoletos, mas conservando intactos os verdadeiros e valiosos valores da Índia e a sua espiritualidade.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

               
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         
A diignidade da casa do meu sogro era muito antiga, vinha do tempo dos paxás. Alguns dos seus usos, herdara-os dos Mongóis e dos Patanes, certos dos seus costumes provinham de Manu e Paraxar. Mas o meu marido era absolutamente moderno, fora o primeiro da família a frequentar a universidade e a licenciar-se. O seu irmão mais velho morrera novo, vitimado pela bebida, e não deixara descendentes. O meu marido não bebia nem se dava a vícios. A sua abstinência era tão estranha à família que a muitos dos seus membros quase nem parecia decente! Na opinião deles, a pureza só ficava bem àqueles a quem a fortuna não sorrira. É na Lua que há manchas, não nas estrelas.(15)
 Assim, Nikhil, sem se importar com o veneno bolsado pelas más línguas de casa e do exterior, promove a educação ocidental de Bimala, contratando Miss Gilby, uma professora inglesa. Nikhil quer que  Bimala se emancipe,   saia do purdah,  se abra ao mundo exterior, conheça mais do que os muros que confinam o espaço da sua casa Mas para que quero eu o mundo exterior?
 A Índia de Ranis e Marajás vive, com efeito, como Bimala, na ilusão de que a casa de luxo que conhece é  o mundo inteiro, o mundo suficiente. Deliberadamente, ignora a realidade do mundo exterior e tal como a viúva do irmão de Nikhil finge desprezo pela ideias modernas.
Mas o contacto com a modernidade, ainda que mitigado, não é inofensivo e, passo a passo, os antigos costumes como a veneração que a mulher deveria votar ao marido, começam a parecer a Bimala, absurdos ou retrógrados. Era a sua rainha e ocupava o meu lugar a seu lado, mas a minha verdadeira alegria provinha de saber que o meu verdadeiro lugar era a seus pés. Depois, porém, instruíram-me,  deram-me a conhecer a idade moderna e a sua linguagem própria, de tal modo que estas palavras parecem corar de vergonha, na prosa em que as inscrevo.
Os próprios objectos indianos perdem a antiga dignidade O meu marido tinha na escrivaninha um vulgar vaso de latão que lhe servia de jarra de flores. Muitas vezes, ao ter conhecimento da visita de alguns europeus, ia sorrateiramente ao seu gabinete e substituía o vaso de latão por uma jarra de cristal, de fabrico europeu.  (109)
Um  sentimento de inferioridade face aos europeus, que, aliás,  não existe em Nikhil, torna-se evidente O meu marido costumava rir-se dos meus protestos--Por que consentes que tais ninharias te transtornem? – Julgarão que somos bárbaros ou, pelo menos, que nos falta requinte. – Se julgarem, pagar-lhes-ei na mesma moeda, pensando que o seu requinte não penetra para além da sua pele branca. (109)
Porém, Bimala tal como a Índia, é um ser estuante da energia da vida que não pode satisfazer--se com este estado de coisas e a reacção surge sob a forma de um movimento nacionalista que rapidamente alastra e assume contornos extremos.
Essa Índia materialista e falsamente patriótica é encarnada na figura de Sandip. Sandip Babu torna-se para Bimala o Príncipe Encantador dos contos de fadas com que  sonhava em criança. Como este, também ele tinha um rosto esplendidamente belo e, no entanto, ela  notara nas suas feições um não-sei-quê de que não gostava. (29) Mas o sopro encantatório é muito forte e todos sucumbem ao seu discurso triunfal.  Sandip Babu conhece o poder que tem e sem nenhum instrumento, nenhuma arma, apenas o engano da sugestão irresistível (145), atreve-se a desafiar os ensinamentos das escrituras hindus e a afirmar que em vez da Verdade será a Ilusão a triunfar. Quem disse «A Verdade triunfará?» Quem triunfará no fim será a Ilusão (145)
A Índia é, assim,  uma mulher que lhe cai aos pés totalmente rendida. Bimala deslizou da cadeira e caiu a meus pés que abraçou e depois soluçou como se nunca mais fosse parar (145), uma mulher que já não se contenta com o Swadeshi monótono e aguado (109) de Nikhil e quer ser arrebatada para um futuro novo, por que estrada ou para que meta, não lhe importa. (108).
No seu arrebatamento, Bimala ignora, deliberadamente, os perigos futuros desse caminho. Vi, nesse futuro, a minha pátria, mulher como eu, imóvel e na expectativa. Foi arrancada do seu canto no lar pelo chamamento súbito de um Desconhecido, não teve tempo para reflectir nem para acender um archote que a guiasse enquanto corria e mergulhava impetuosamente na escuridão. (107)
Mas os perigos são reais e o arrependimento virá porque a linha do tempo tem um único sentido e nem  Deus tem o poder de o reverter. Deus tem o poder de criar coisas novas, mas terá também o poder de criar de novo o que foi destruído? (217)
Nilhil e  Sandip desejam ambos o amor de Bimala e por ele lutam com meios diferentes  e por diferentes caminhos. Travam, afinal, uma mesma batalha por caminhos diferentes, um respeitando os valores tradicionais e o outro negando-os  e a nenhum cabe a vitória, pois na ânsia  de transpor os muros da casa antiga e fazer parte do mundo novo das nações fortes, esquecendo os seus valores culturais e espirituais, a Índia foi  seriamente atingida. Mortalmente? Não se sabe. Vi chegar um palanquim, seguido por uma padiola. O médico vinha ao lado do palanquim. – Que pensa , doutor?- perguntou o dewan.- Ainda não sei. O ferimento da cabeça é grave. (237).

 


                               


Rabindranath Tagore







O Movimento Swadeshi

por Conceição Rocha


No século XIX, sobretudo na segunda metade, crescem com grande expressão política os movimentos nacionalistas. Todos eles decorrem de situações de colonização ou anexação, seja na Europa (Noruega, Islândia, países do Báltico, por exemplo), seja no Oriente, na África ou na América latina (este desencadeado não por nativos, mas por descendentes dos colonizadores). A Índia, a “joia da coroa inglesa”, representa um caso muito especial, quer por ser o que nos interessa aqui, quer porque se trata de uma cultura multimilenar, complexa, requintadíssima, com expressão muito forte nos modos de pensar e viver das populações, particularmente das ilustradas.

Todas as colonizações têm as suas peculiaridades. Na Índia, a Inglaterra, ao mesmo tempo que exercia forte repressão sobre as populações, proporcionava aos grupos sociais mais ricos e educados o acesso à cultura ocidental: estudos universitários em Oxford e Cambridge, na Índia escolas formatadas ao estilo inglês, o cricket, etc. A colónia culta assimilou esses bens, compatibilizou-os com os seus próprios, mas como ocorre sempre em situações de subordinação, permaneceu a vontade de independência política. Muita desta vontade cresceu também com expressões culturais próprias.

Assim, e de um modo extremamente resumido:

          Os Upanishads, textos filosóficos cuja origem se perde no tempo e que contêm as bases do Induísmo, contêm muitos dos princípios que vão ser essenciais para entender a batalha pró independência, quer a informada pelo pensamento Swadeshi, quer pelo seu contrário. A “Casa e o mundo”  representa justamente esse conflito com expressão na própria luta (entre nacionalismo agressivo, representado por Sandip e nacionalismo cosmopolita, representado por Nikhil, alter ego de Rabindranath Tagore).

          Swadeshi, em Hindi, quer dizer autossuficiência. Swa, em sânscrito é “eu”, “eu próprio”, Desh, “terra”, no sentido de terra natal, pátria. O 1º movimento Swadeshi surge em 1850, lançado pelo líder político  Dadabaj Naoroj. O 2º começa em Bengala, em 1905, desde logo com enorme adesão, na época do vice-rei lord Curzon. Dura até 1911. Bengala, que foi o nervo do nacionalismo indiano, foi também o berço das correspondentes repressões militares  no período vitoriano. O cântico Vandemataram foi composto nessa época e algumas das suas estrofes ou alguns versos são sempre recitados/cantados pelos Swadeshi, como cumprimento entre pares ou como grito de revolta em situações limite.
          O que tem de peculiar o movimento Swadeshi é o facto de considerar ser o caminho mais radical para a independência a rejeição de produtos oriundos ou fabricados no estrangeiro. Fomentar a produção nacional e empobrecer os de fora fortaleceria a economia indiana e enfraqueceria os outros. Daí, o movimento se tornar repressivo à medida que conquista adeptos, maltratando artesão e comerciantes que laboravam com matérias primas importadas, gerando empobrecimento e conflitos privados e públicos com pessoas que exibissem produtos não nacionais. Ficaram na memória verdadeiras guerras campais ocasionadas por swadeshis em mercados urbanos e outros locais públicos. Apesar de penalizar economicamente muitos pequenos artesãos e comerciantes, o movimento Swadeshi mobilizou grandes contingentes populares, iniciou a luta armada contra o colonizador e mesmo algumas formas de guerrilha e atentado. Culturalmente, a importância do movimento foi tal que o cântico Vandemataram inspirou os hinos nacionais da Índia e do Bangladesh independentes (1947) (ambos os hinos da autoria de Rabindranath Tagore) e todos os periódicos bengali de grande circulação (eram 4 em língua nativa) abraçaram a causa com entusiasmo.


O movimento colapsou com a independência do país e com a divisão entre muçulmanos e hindus, pouco tendo feito pelo enriquecimento da produção nacional.


Contemporâneo de Rabindranath Tagore (1861 – 1941) é o Mahatma Gandhi (1861 – 1948). Mahatma, que quer dizer Grande Alma, regressa da África do Sul onde era advogado e militante anti-racista e vai operar a maior revolução não armada de todos os tempos. Com Tagore, integra as elites culturais bengalis. Ambos têm uma sólida formação na sabedoria ancestral da Índia e na do ocidente, Gandhi jurista, Tagore educado em Bengala pelos grandes mestres da época e simultaneamente formado em filologia anglo-saxónica. Ambos profundamente pacifistas, cedo se vão demarcar da ideologia swadeshi naquilo que ela tem de agressivo e penalizador da população mais pobre. No entanto, Gandhi elege como vestuário permanente a túnica de algodão grosseiro e não tingido, o kahdi, de fabrico local e com a forma de  envolvimento do corpo  idêntica à dos solitários e silenciosos sábios hindus.
Tagore, que nunca abandona os seus sinais exteriores de aristocrata, é um internacionalista cultural, um cosmopolita. Identificado com o Nikhil de “A Casa e o mundo”, expõe-nos a sua aversão intelectual pelo ódio e pela rudeza de comportamento (por exemplo, Nikhil pergunta a Sandip: “como é que pretendes adorar Deus e ao mesmo tempo odiar as outras pátrias que são também manifestações de Deus?”). Ficaram célebres duas afirmações  que Tagore proferiu no discurso de agradecimento do Prémio Nobel (1913): “Todas as glórias da humanidade são minhas” e “a minha poesia é a resposta da alma ao apelo do universo”. Noutro texto, cita os Upanishads referindo que “a infinita personalidade do homem se realiza pela harmonia de todas as raças”. Para Tagore, negar uma cultura, qualquer que ela seja, é provincianismo. Nikhil deixa  frequentemente implícita ao longo do texto a mesma convicção.
A “Casa e o mundo” é, pois, a expressão genial das conflitualidades ideológicas no interior do nacionalismo, conduzindo o leitor pacificamente para um dos lados. A hostilidade relativamente ao lado Swadeshi faz-se tornando quase grotesco Sandip, incapaz de argumentação inteligente, lógica e moral. A argumentação de Sandip é o contrário absoluto da palavra dos sábios, o seu discurso mobilizador das massas  é uma caricatura da força das ideias e da capacidade filosófica de questionar. É a personagem, criada por um filósofo aristocrata, que representa a perversão das ideias que escorrem da justeza dos teóricos para as massas.
Tagore, como Gandhi que funda em 1914 o movimento independentista, convoca para todas as suas artes – poesia, música, drama -, os princípios da identidade indiana:
- o Satyagraha, princípio de firmeza e constância da verdade;
- a Himsa, princípio da não violência;
- o Suaraj, princípio do autodomínio das emoções, por forma a convocar todas as energias interiores sem o recurso à violência física sobre si ou sobre outrem. Os jejuns periódicos, a limitação dos consumos e os exercícios de meditação propiciam essa atitude como forma de vida;
- o Swadeshi, autossuficiência local, ou seja, o privilegiar do relacionamento e do negócio de proximidade, por forma a valorizar as relações de vizinhança e a economia regional.

 

A propósito, a Associação Movimento Terra Solta – Swadeshi existe em Portugal e promove o consumo de produtos vicinais em vez dos remotos, denuncia o baixo pagamento das grandes cadeias de comércio alimentar aos produtores de qualidade e apoia empresários e cooperativas de produção e distribuição












Sem comentários:

Enviar um comentário