terça-feira, 30 de setembro de 2014

La Chouette Aveugle

La Chouette Aveugle_ um romance  do autor persa Sadegh Hedayat





  1. بوف کور

E porque 

Verba volant, scripta manent 

foram estes os textos produzidos a propósito de La Chouette Aveugle



A personagem feminina em “A coruja cega” de Sadegh Hedayat

Por Conceição Rocha 



A personagem feminina em “A coruja cega” de Sadegh Hedayat


Tal como é extremamente difícil fazer uma síntese compreensiva da obra, assim ocorre também com a personagem feminina, sem nome, multifacetada e desencadeadora dos mais variados e alucinados actos  por parte do protagonista – narrador.
Logo no início ela aparece como uma espécie de visão ideal. Paira junto de uma fonte, oferece uma flor a um homem velho que entretanto surge. É etérea, mas inicialmente viva ou concebida como tal. Esta mulher misteriosa vem uma tarde a casa do narrador, que se maravilha com os seus magníficos cabelos e vestes negros. No entanto, pouco a pouco descobre que ela está morta. Enterra-a para que ninguém possa mais olhá-la e esculpe o seu rosto num vaso de cerâmica, uma cerâmica iraniana conhecida pela sua beleza.

Este início poético, lírico, deixa-nos logo adivinhar a complexidade do texto e das personagens, sobretudo aquela que me cabe descrever: uma mulher apenas perscrutada, numa atmosfera sonâmbula, muitas vezes angustiante, descrita em diferentes dimensões do tempo.  Em nenhum momento podemos distinguir real e irreal, passado e presente.


Esta mulher-cadáver, objecto de intenso desejo e amor, que se apresenta aleatoriamente em duas dimensões do tempo, é uma sombra sonhada, uma galdéria encantadora de homens, artista em drogas e filtros (referência à mandrágora, por exemplo), mas ao mesmo tempo angélica e pura no seu enorme erotismo. Fonte de prazer e de sofrimento, de amor e de ódio pelo narrador, que a ama e a odeia sucessivamente. Identificada com a natureza, ela é associada às fontes, à água corrente e às flores portadoras de poderes erógenos (a dedaleira – creio que é a tradução de capoucine).

Ao longo do romance, mulher e narrador são levados por caminhos ideais, cheios de referências que recordam a poesia oriental, atravessam campos de violetas, regatos de água perfumada ladeados por casas de janelas sem vidros. O narrador descreve páginas e páginas de atmosferas tanto idílicas quanto terríficas, que a mulher percorre quase sempre passivamente, levada sem vontade própria, movida pelo narrador e por um outro homem ou talvez por um destino que passo a passo a aproxima do fim e esse fim é a morte, obsessão do autor desde o início da obra.

Paradoxalmente, uma mulher idealizada nas suas grandes facetas de virgem e eros, uma mulher que, quase desde o início, é concebida como morta talvez para que o narrador a possa manipular enquanto ideia, acaba por  ensanguentar completamente e pesar terrivelmente sobre o peito daquele que a concebeu, amou, odiou mas provavelmente não conseguiu aprisionar.

Mulher é assim: até incorpórea ela é uma força. Para que conste.




O tempo e espaço em La Chouette Aveugle

Por António Nabais

“Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de 1930.”
Ernestina, Rentes de Carvalho

               Iraj Bashiri, estudioso da obra de Hedayat, confessou a alunos a dificuldade do seu primeiro contacto com a principal obra do autor.
              
“Li, mas não consegui encontrar um sentido. Fiquei confuso e quando pensava sobre a obra e não conseguia percebê-la, fiquei frustrado. Então, pensei que me poderia ter escapado alguma coisa importante na história, o que me levou a lê-la pela segunda vez: o efeito foi pior. Desde então, sempre que o li, senti que estava a ser engolido por uma espécie de turbilhão semântico recorrente, lendo a mesma coisa uma e outra vez. Finalmente, no entanto, acabei por perceber que não estava a ler a mesma coisa repetidamente. Gradualmente, as coisas que pareciam iguais à superfície começaram a ter significados diferentes dependendo das circunstâncias. Contudo, não tinha uma pista que me permitisse perceber que circunstâncias eram essas.”










               Estamos, portanto, na presença de uma obra complexa cuja compreensão implica o conhecimento do contexto histórico-cultural em que foi produzida. Sem esse conhecimento que inclui, entre muitos outros elementos, a simbologia de uma determinada civilização ou as relações com outros textos, torna-se ainda mais difícil a interpretação do texto.
               Ora, a análise de categorias narrativas como o tempo e o espaço não fica imune ao (des)conhecimento desse mesmo contexto. Avancemos, ainda assim, sem medo das insuficiências de uma primeira leitura pouco informada.
               O narrador olha para o mundo sem grandes preocupações de objectividade, vivendo, sobretudo encerrado no seu interior (o facto de olhar para fora a partir de uma lucarna pode significar isso mesmo). O exterior, de qualquer modo, parece não lhe interessar, o que afecta, necessariamente, a percepção do espaço e do tempo.
               No início, parece haver, ainda, uma tentativa de precisão, como se pode verificar na p. 26. Pouco mais à frente, na p. 84, o narrador reflecte sobre o tempo, ou melhor, sobre a percepção e, portanto, sobre o significado do tempo. O individualismo ou o egocentrismo que caracteriza o narrador leva-o a aproveitar esta reflexão para se colocar a si mesmo num patamar diferente do dos homens comuns. O narrador coloca-se fora do tempo, essa categoria que diz respeito apenas aos outros.
               Ainda nesta reflexão, o narrador, para ilustrar o modo como vê o tempo, recorre à descrição de um espaço imaginado, com características infernais, sendo que o Inferno, mais do que um espaço, é, afinal, a Eternidade e o Sofrimento, ou seja, um tempo e o modo como se vive esse tempo.
               Mais à frente, na p. 107, o narrador mostra outra percepção do tempo: tudo se repete e não há nada de novo. Parece ouvir-se aqui um eco do Eclesiastes: “Não há nada de novo debaixo do sol.” O tempo é, agora, o do eterno retorno.
               O mundo exterior em si mesmo só existe para narrador como algo em que projecta o seu interior. Na p. 89, o homem que observa à distância e que descreve pormenorizadamente corresponde a alguém que aparece na maior parte dos seus pesadelos.
               Com o espaço físico passa-se o mesmo. Se o mundo, no fundo, só existe a partir do interior do narrador ou no interior do narrador, não interessam tanto as suas características objectivas, mas o seu significado. Na p. 116, a descrição é mais impressionista do que realista, mais egocêntrica do que objectiva. Note-se, a propósito, que o narrador mal se apercebe de que já transpôs a porta da cidade. Pouco depois, para se referir a um odor, conta-nos que o faz regressar à infância. O espaço faz, então, regressar outro tempo, como se pode confirmar na continuação do parágrafo.
               O narrador, com alguma frequência, discorre sobre a literatura e, até, sobre categorias narrativas. É o que acontece, na p. 143, a propósito do espaço e do tempo, conceitos inoperantes face ao estado em que o narrador se encontra.
               Voltando ao início, falta muita informação sobre a obra e as suas circunstâncias para que possa, neste momento, realizar uma análise minimamente satisfatória. De qualquer modo, penso que é possível concluir que o espaço e o tempo têm, nesta obra, mais significado do que existência, o que faz sentido numa obra que é menos narrativa e mais filosófica ou, provavelmente, mais simbólica.





               A Coruja Cega

               Por Laleh Estequeki

A Coruja Cega é uma história que assenta em oposições binárias: temporal/intemporal narratologia moderna/ narratologia pós-moderna, mitologia teosófica /representação histórica, monólogo interior/fluxo de consciência.
A Coruja Cega é a história de um “sem-nome”, um  pintor de escritórios  que é assaltado por visões horríveis, pesadelos febris e com uma obsessão existencialista pela morte quando diz: '' Nós somos os filhos de morte e morte livrai-nos das tentadoras atrações, fraudulentas de vida..... Ao longo de nossas vidas, o dedo da morte aponta para nós ".
A história tem duas partes. Na primeira encontramos uma  representação onírica e atemporal dos eventos em que o narrador é constantemente perseguido pelo fantasma de uma mulher celestial, a quem mais tarde corta em peçados, e por um velho e sinistro  corcunda.
Na segunda parte, as personagens que apareceram na primeira secção surgem, agora,  em imagens distorcidas  e nas suas viagens alucinatórias, o narrador encontra-se em lugares desconhecidos onde encontra  pessoas que lhe parecem estranhamente familiares. Na última secção que inclui o climax  da história,  o narrador metamorfoseia-se no velho corcunda.
E A história termina onde começou: como se a  sombra da coruja se estivesse confessando no início da história.

Em “A Coruja Cega, os leitores precisam colocar as diferentes peças de um puzzle no seu respectivo lugar para perceber o profundo sentido do texto como ele está imperceptivelmente divido em dois mundos: o  real e o etéreo.
 Assim, é ao leitor que cabe,  no seu  processo de leitura  ordenar cenas, acções, discursos de um universo realmente complexo e em alguns pontos incompreensível, para  em conjunto  modelar um significado para si mesmo.

 A "chave" para a compreensão a história "A Coruja Cega" de Sadegh Hedayat é "o nacionalismo, o amor da antiga glória e a tragédia de perdê-la após a invasão árabe".
De facto, para melhor entender a história, é necessário conhecer as duas eras da história do Irão: o Irão antes do Islão e o Irão depois Islão. Assim, também  a narrativa tem duas partes e aí encontramos elementos, como a antiga cidade de Rey, o jarro (Raq), a mulher (prostituta ou uma mulher celestial) ou o velho que correspondem a uma ou a outra dessas eras.







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