terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sessão Especial





Na sessão do dia 4 de Novembro de 2016, não se discutiu uma obra previamente escolhida. Desta vez, cada um escolheu um livro sobre que falar . E as escolhas foram estas: 

"Alentejo Prometido" de Henrique Raposo analisado por António nabais
"Se Isto É Um Homem" de Promo Levy por Maria João Leite de Castro 
"A Sombra do Que Fomos" de Luís Sepúlveda por Alexandra Azevedo


Alentejo Prometido
(O romance do Raposo)

por António Nabais


O nosso pensamento é tendencialmente estruturalista, deseja taxinomias, incomoda-se com desvios ou com o inexplicável, perturba-o a realidade, que é móvel, inclassificável, tantas vezes caótica, avessa a quem a estruture, pensando-a.
Este conflito durará tanto tempo quanto durar a humanidade, com certeza. Deste impulso classificador e arquivístico resulta, por exemplo, a caracterização de povos. Assim, os alemães são organizados, os portugueses não, os espanhóis são alegres, os italianos faladores, convencidos os franceses.
É verdade que muitas destas afirmações são verdadeiras, mas não deixa de ser um risco tentar captar a alma de um povo, psicanalisar a personalidade de uma nação, especialmente se o fizermos com base em impressões ou porque só o podemos fazer sobretudo com base em impressões.
Henrique Raposo é um licenciado em História e mestre em Ciências Políticas. É cronista do Expresso e já publicou vários livros, nomeadamente Alentejo Prometido.
O espaço mediático actual está sobrecarregado de opiniões, o que não é o mesmo que dizer análises ou rigor. Não é forçoso, evidentemente, que a as primeiras impliquem as outras duas, mas há uma inflação que leva a que cronistas e comentadores escrevam profusamente com uma enorme leviandade, resolvendo as grandes questões da humanidade em duas penadas, porque podem. Foi assim que Henrique Raposo, numa crónica, decidiu que a natalidade desceu porque a sociedade é egoísta e porque não há problemas económicos, porque quem tem um filho tem dois. Note-se que há um fundo de verdade na ideia do egoísmo, mas deixa de fazer sentido quando é apontada como sendo a única causa ou quando se desvaloriza levianamente a importância do dinheiro.
Não se pede ao Henrique Raposo cronista que esteja sempre a recorrer ao historiador diplomado que também é, mas o rigor do segundo deveria, no mínimo, impedir o primeiro de escrever disparates que ficam bem numa conversa de café, depois de umas cervejolas a mais, e que caem mal em livro ou num jornal de referência. Diga-se o mesmo, por exemplo, a propósito de Miguel Sousa Tavares, o cronista que prescinde de tudo o que jornalismo lhe deveria ter ensinado, especialmente quando escreve sobre Educação ou sobre professores.

Alentejo Prometido é um livro de impressões, com alguns bons arremessos literários. Não se esperaria que o autor produzisse, portanto, um tratado ou uma análise sociológica, mas a distância entre Raposo e o Raul Brandão de Os Pescadores ou o Ramalho de A Holanda é abissal, para não incluirmos livros que também pensaram Portugal e os portugueses como Os Maias ou Viagens na Minha Terra. Henrique Raposo é, apenas, um Eduardo Lourenço de fancaria ou um António Sérgio de plástico, porque quer escrever sobre a realidade portuguesa, mas perde pouco tempo a pensar. E é sabido que não se deve falar (ou escrever) antes de pensar.
Henrique Raposo tem direito a ter vergonha das suas origens, tem direito dizer mal da terra dos antepassados e tem direito a escrever disparates com que procura encontrar razões para a vergonha, mesmo que a razão as desconheça. Ao longo dos anos, este espécime transformou-se num dos meus ódios de estimação e, no fundo, agradeço à Alexandra o ter-me incumbido de ler este livrinho, porque juntei alimento para este meu saudável vício de abominar o Raposo.
A tendência para generalizar sobre habitantes de países ou de regiões radica no nosso desejo de arrumar a realidade, como já vimos, mas, de uma maneira geral, não resiste a uma análise, especialmente se se basear apenas em impressões ou em preconceitos. É o que acontece com o livro do Raposo. Passarei a comentar alguns excertos.
A dada altura, Raposo refere o facto de a bastardia ser comum no Alentejo, dando Nicolau Breyner e Manuel Alegre como exemplos de rapazes de boas famílias que “iniciavam a vida sexual impondo-se às criadas e trabalhadoras.” (p. 36) Para além do pormenor de Manuel Alegre ser de Águeda, em que se baseia Henrique Raposo para dizer que é um fenómeno mais presente no Alentejo do que noutras regiões? Curiosamente, na p. 91, Raposo declarará, talvez distraído: “a cultura machista do sul é idêntica à cultura machista do norte.” É: o machismo é muito parecido em todo o lado.

Outra especificidade alentejana, na visão de Raposo, é a violação das mulheres em locais isolados. O cronista-também-historiador escreve, a propósito, o seguinte: “Quando lemos relatos da época é impossível não ficarmos incomodados com uma certa atmosfera muçulmana que reinava nestas bandas. Uma mulher sozinha algures na seara ou no casão das máquinas era presa fácil; se estivesse sozinha é porque estava a pedi-las.” (p. 39). Pergunta-se: os alentejanos violam mais que o resto dos portugueses? Coube aos muçulmanos o exclusivo histórico da violação, face ao pudor e ao cavalheirismo dos cristãos? 
A propósito do tema da violação, Raposo acrescenta que as alentejanas violadas serão, no futuro, o verdadeiro símbolo da opressão no Alentejo, ao contrário da “ceifeira Catarina Eufémia” (p. 41). Na p. 59, surge, mais uma vez, uma referência à jovem camponesa assassinada em Baleizão: “o grande símbolo alentejano não é Catarina Eufémia, mas sim António Dias Matos.” Conjecturemos: o horror de Raposo à esquerda, às greves e às revoltas sociais levam-no a desvalorizar uma das muitas histórias de exploração e de abuso, histórias que, evidentemente, também não são específicas do Alentejo. Em que é que o peso histórico da violação compete com a longa história dos abusos cometidos por patrões e proprietários de todo o mundo?

Nas pp. 51-52, Raposo recorre ao futebol para aprofundar os defeitos dos alentejanos, uma gente sem virtudes, pelo menos neste livro: “O União nunca sairá da Liga dos Últimos porque quando chegamos a Santiago só vemos pessoas sozinhas a andar de um lado para o outro; quando chegamos a Arouca vemos pessoas a falar em grandes grupos.” Uma análise ligeiramente mais aprofundada, e só ligeiramente, permitiria descobrir que os clubes de futebol com melhores resultados estão situados, de uma maneira geral, em cidades ou em regiões mais desenvolvidas: na primeira divisão, não há um único clube algarvio e, este ano, o Desportivo de Chaves é o único clube transmontano. E que dizer dos catorze anos seguidos que o Lusitano de Évora esteve na Primeira Divisão? Será que, durante esse período, as pessoas falavam nas ruas eborenses em grandes grupos, andando a evitar-se desde então?
Mais à frente, na p. 63, Raposo desvaloriza as condições de vida como fonte dos problemas sociais: “(…) a marca de água do alentejano não é a pobreza ou o calor.” Os problemas dos alentejanos têm as seguintes causas: “anarquia, guerra, guerrilha, banditismo, maltesiaria, ditadura, repressão.” Ainda na mesma página, um dos problemas apontados por Raposo é “os vapores da reforma agrária.” Note-se que os problemas de qualquer região do mundo podem ter causas complexas e contraditórias que não se excluem. Raposo é que prefere excluir algumas, porque, ao longo do livro, prefere afirmar que os problemas dos alentejanos, no fundo, derivam dos seus defeitos e nunca das condições que lhes tenham sido impostas, sendo que estas não apagam aqueles.
Numa visita ao “berço lunar” do pai (p. 64), ocorre a Raposo uma “explicação ainda mais simples para a cultura alentejana e para a minha família.” Já se sabe que uma pessoa pode ter uma boa ideia quase sem querer, mas vejamos. Depois de ter descrito o sítio em que o pai passou a infância, mostrando que era um local com uma aridez raríssima para o próprio Alentejo, eis que Raposo consegue, mais uma vez, enunciar uma característica exclusivamente alentejana: “É óbvio que a minha avó só podia considerar absurda a ideia de um neto superar o seu meio social: ela criou os filhos num local onde era natural a ideia do homem superar o seu meio natural.” Psicologia barata e sociologia de bolso: onde está a especificidade? Quantos pais e mães, em todo o país, nos meios rurais pobres do século XX, acreditavam na possibilidade de ascensão social dos filhos ou dos netos?
Mais uma especificidade alentejana consiste, segundo Raposo, nos padres que quebram, até ostensivamente, o voto de castidade (p. 77). Podemos sempre colocar a hipótese de que todo o país seja, afinal, o Alentejo, tal a profusão de histórias sobre padres que viveram matrimónios de facto, contra todos os direitos.
Sobre a questão do suicídio, Raposo tem explicações coerentemente simplistas, recusando a solidão como uma das causas, chegando ao ponto de afirmar que a “fraca religiosidade é uma alavanca suicida” (p. 86), o que necessitaria de uma argumentação mais sustentada, uma vez que a História está carregada de gente que morre (também através do suicídio) em nome da religião. Aceitar-se-ia, por exemplo, que a pouca importância dada aos dogmas católicos leve a que o suicídio não seja visto como um pecado e, portanto, surja como uma solução fácil. Ainda assim, as razões serão bastante mais complexas do que as enunciadas por Raposo.

Henrique Raposo não gosta dos alentejanos e está no seu direito. Um psicólogo poderá descobrir se isso resulta de vergonha, de trauma ou do facto de o cheiro a comunismo ser demasiado forte para a pituitária do cronista. Este livro é a manifestação desse sentimento, com direito a arroubos de argumentação e a uns pozinhos estatísticos. Antes de Raposo, outros souberam escrever sobre as suas antipatias ou sobre as suas paixões, mas o nosso autor tem demasiada auto-estima para poder corrigir as suas insuficiências: declarando-se um autor “fora da caixa” e politicamente incorrecto, desvalorizará facilmente os seus críticos, porque irá considerar que são incapazes de o compreender. Uma adivinha, a propósito: quem será o autor de um livro intitulado História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo?

 Adenda: declaro, solenemente, que abomino todas as pessoas que ameaçaram o Henrique Raposo. E abomino, por duas razões: em primeiro lugar, porque sou contra a censura; depois, porque temo que o Raposo possa acobardar-se, deixar de escrever e privar-me de um dos meus melhores ódios de estimação.




 Se isto é um homem
 de
Primo Levi 


por 
Maria João Leite de Castro
Primo Levi (31/07/1919 - 11/04/1987) vai para Auschwitz em 1944, tinha 24 anos. Com ele, iam 650 judeus italianos. Destes, só 20 sobreviveram. Foi libertado em 27/01/1945, tendo permanecido no campo 11 meses.
No livro, Levi narra o horror que ele e centenas de milhares de outras pessoas, de outras histórias, todas dramáticas, todas simples e incompreensíveis como as histórias da Bíblia (e interroga-se e não são, elas próprias, histórias de uma nova Bíblia?) vivem em Auschwitz. A sua escrita é depurada de artifícios, de sentimentalismos desnecessários que ofuscariam o essencial, a objectividade da narrativa. É uma escrita urgente e reflexiva. É a escrita de alguém que, apesar de ter sido sujeito à maior adversidade, à maior humilhação e despojamento físico e moral, não perdeu a sua humanidade.
Nota prévia: visto que fomos convidados a falar sobre um livro que, de alguma forma nos marcou, a minha análise vai ser mais subjectiva, centrando-me mais naquilo que o livro me disse do que na totalidade do que o livro diz. Naturalmente que uma ideia não pode ser separada de outra.

Li o livro pela primeira vez em 2000, quando tinha acabado de fazer uma tese de mestrado exactamente sobre a questão do mal (O absurdo do mal e o lugar da práxis). Li e trabalhei autores para quem o mal era uma absoluta fatalidade, uma doença ontológica (René Girard) , enquanto para outros (Paul Ricoeur), o problema do mal, embora não possa ser conceptualizado num sistema explicativo, embora continue absurdo e escandaloso, não inviabiliza uma via da regeneração, nem nega o lugar da esperança e da acção.
O problema do mal, para Ricoeur, não é …um problema meramente especulativo: ele exige a convergência entre o pensamento, a acção (no sentido moral e político) e a transformação espiritual dos nossos sentimentos.
Os horizontes da prática, ou as respostas para o mal são, para Ricoeur, a acção política, a narrativa (aquela que recorda as vítimas), a religião e culmina na sabedoria, representada na Filosofia da Vontade, pela personagem de Job. É nele que encontramos a transformação espiritual dos sentimentos que em cima referimos. Job escapa à moral da retribuição.

Numa altura em que Bob Dylan ganha o prémio Nobel da Literatura e face a tão diversas, saudáveis, antagónicas e até extremadas posições sobre este facto, impõe-se talvez questionar /repensar o que é a Literatura:
  • Domínio técnico exímio da escrita e construção perfeita de narrativas coerentes?
  • Criações originais e belas, independentemente da sua coerência estrutural, despoletadoras de sentimentos e emoções marcantes?
  • Formas originais e únicas de narrar uma realidade ou uma perspectiva dessa mesma realidade?
  • Forma privilegiada de transmitir uma mensagem, de dizer o indizível, de gravar uma memória que não pode ser apagada?
Penso que é neste último registo que a obra de Primo Levi, “Se isto é um homem” se inscreve. Aliás, ele próprio o afirma: A necessidade de contar aos “outros” de tornar os “outros” conscientes, tomara entre nós, antes e depois da libertação, o carácter de um impulso imediato e violento, a ponto de rivalizar com as outras necessidades primárias (pág.10).
Isto não significa que o livro não seja primorosamente escrito e que não seja, em certos momentos, belo, de uma beleza literária comparável ao Requiem de Mozart e belo também na descrição de sentimentos que surgem no campo como estrelas de luz que parecem anular a sua densidade negra, fétida e sufocante. Belo ainda porque, apesar de todo o absurdo e de todo o escândalo que o campo representa, apesar de por a nu o lado mais tenebroso da condição humana, nos permite continuar a crer numa certa forma de regeneração.
É o próprio primo Levi que a apresenta :
(…) Neste mundo abalado cada dia mais profundamente pelas convulsões do fim próximo, entre novos terrores, esperanças e intervalos de escravidão exacerbada, aconteceu-me encontrar Lorenzo.
(…) Em termos concretos, reduz-se a pouca coisa: um operário civil italiano trouxe-me um bocado de pão e os restos do seu rancho, todos os dias, durante 6 meses; ofereceu-me uma camisola sua cheia de remendos; escreveu por mim um postal para a Itália e fez-me chegar a resposta. Por tudo isto, nem pediu nem aceitou alguma recompensa, porque era bom e simples e não achava que o bem pudesse fazer-se para obter compensações (…).(pág.122)
(…) Por mais sentido que faça querer definir as causas pelas quais precisamente a minha vida, entre milhares de outras equivalentes, pôde aguentar a prova, creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem, alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se.
As personagens deste livro não são homens.(…)
Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem. (pág.125)




A Sombra do Que Fomos
de Luís Sepúlveda



por Alexandra Azevedo

Cacho Salinas odiava os frangos, as galinhas, os patos, os perus, qualquer bicho que tivesse penas, mas mesmo assim parou diante do grelhador onde rodavam lentamente uns quarenta broilers, alinhados como os soldados cibernéticos de A Guerra das Estrelas.
_ Como estão os frangos? _ perguntou ao vendedor que meditava, perdido nas páginas desportivas de um jornal.
_ Em pêlo, mortos, como quer que estejam?_ respondeu o aludido.(…)
Desculpa se fui malcriado, mas fodem-me a cabeça todo o dia, seja queixando-se dos frangos, seja pedindo-me os currículos. (…)
O vendedor tinha sido, e era, comunista_ porque isso é como uma verruga moral que nunca se arranca _, precisou. Também era retornado ao país após dez anos de exílio na Suécia. Suspirava ao referir-se a Gotemburgo, às suas ilhas, ao mar cor de aço, àquelas mulheres que_ especificava _ escolhem livremente e com alegria o macho que desfrutará da cama Ikea e com quem não há truque que valha.

A sombra do que fomos, Luís Sepúlveda
  
“A sombra do que fomos” é um livro que se lê com um sorriso nos lábios e uma lágrima ao canto do olho.
Os heróis deste romance, ou melhor, os anti-heróis deste romance são quatro homens de sessenta anos e como o próprio título deixa entrever pelo uso da primeira pessoa, há algo de autobiográfico nesta narrativa.
Na verdade, Cacho Salinas, Lolo Garmendia, Lucho Arencibia  e Pedro Nolasco são antigos revolucionários, militantes de esquerda no Chile que o golpe de estado de Pinochet atirou para o exílio tal com aconteceu ao próprio Luís de Sepúlveda. Membro da Unidade Popular Chilena, nos anos setenta, também Sepúlveda teve de abandonar o Chile após o golpe de direita que mergulhou o país numa ditadura sangrenta e actualmente vive em Gijón, Espanha, depois de ter deambulado pela Europa, nomeadamente Paris e Hamburgo.
“A Sombra do que Fomos” aborda justamente a temática do regresso. Mas o regresso é impossível porque impossível é regressar ao passado: do exílio não se regressa…qualquer intenção de o fazer é um engano, uma tentativa absurda de habitar um país guardado na memória. E tudo é belo no país da memória, não há percalços no país da memória, não há tremores e até a chuva é grata no país da memória. O país de Peter Pan é o país da memória.

Assim o encontro que os quatro homens tinham marcado, numa Santiago chuvosa, para realizar uma última e definitiva acção revolucionária em plena primeira década do século XXI, é cómica e absurdamente abortado quando, no calor de uma disputa conjugal, insolitamente, um gira-discos voa de uma janela e vitima Pedro Nolasco, o cérebro da operação.
A narrativa flui, leve, num registo discursivo apesar de tudo sem amargura e onde, pelo contrário, o humor é uma constante. Os três revolucionários, agora órfãos de revolução, entreolham-se um pouco confusos, hesitantes em redescobrir naqueles rostos envelhecidos, os temerários esquerdistas de outrora, intimamente temendo o ridículo de procurar refazer uma luta a que se recusam a reconhecer o esvaziamento produzido pelo passar do tempo e consumado ao ritmo das experiências no mundo capitalista, experiências lamentavelmente agradáveis. A mulher de um deles, por exemplo, suspira continua e indecorosamente por Berlim…
A tudo isto se junta um sábio inspector que investiga o misterioso assassínio e as indispensáveis transcrições de mails que qualquer romance de hoje em dia não dispensa.
“A sombra do que fomos”, um romance de Luís de Sepúlveda de2009, recebeu o prémio Primavera do Romance, um prémio atribuído desde 1997 pela editora madrilena Espasa Calpe, criado com o objectivo de apoiar a criação literária e contribuir para a difusão do romance em língua castelhana no mundo hispano-americano. A dotação do prémio é generosa: 200 000€ mais publicação. É entregue durante o mês de Março do ano seguinte à sua atribuição. Na Primavera.






segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Oblomov




Da sobrancelha ao cotovelo: o percurso de Oblomov


por António Nabais


Depois de conseguir, finalmente e depois de várias tentativas sempre adiadas, levantar-se da cama, Oblomov, na realidade, continua deitado, porque estar de pé não é apenas uma actividade física, é um estado de espírito. Efectivamente, Iliá Ilitch Oblomov não tem força de vontade, adia constantemente planos, evita decisões e está decidido, passe a contradição, a não sair de casa. Pelo que percebemos, este carácter resulta da educação recebida, da hereditariedade ou de ambas: o pai, na p. 142, “não está ocioso. Fica toda a manhã sentado á janela a observar rigorosamente tudo o que se passa no pátio”; a mãe também “anda muito ocupada: fala durante três horas com Averka, o alfaiate.”
É este homem fraco que encontrará Olga Sergueiévna. Coube a Stoltz, o amigo alemão, apresentá-los. Olga é uma mulher rara, ignorada pelos inteligentes e temida pelos tímidos. A primeira vez que se encontram, Oblomov fica impressionado pelo olhar de Olga (p. 249).
Poucas páginas depois (pp. 251-252), Oblomov procura concentrar-se na aparência exterior de Olga. Tudo é vago do pescoço para baixo, mas minucioso na descrição do rosto. Mesmo assim, o que interessa é não o aspecto físico mas o reflexo do interior: os lábios revelam “a presença de um pensamento sempre concentrado em qualquer coisa.”; o olhar (não os olhos) mostrava um “pensamento eloquente”. As sobrancelhas merecem destaque, não só porque transmitem beleza aos olhos, mas também “porque raramente se mantinham simétricas: uma era um pouco mais alta que a outra, e por isso formava uma pequena ruga por cima da sobrancelha, parecendo indicar a presença de um pensamento ali escondido.”
Mais à frente, na p. 259, o maravilhamento de Oblomov com a beleza de Olga fica-se pela região superior do corpo: os olhos, sorriso, os dentes.
Surge, então, entre ambos, uma atracção que só será verdadeiramente entendida posteriormente. Nessa relação, tendo em conta a fraqueza de Oblomov e a força de Olga, é fácil perceber quem assume a posição dominante.
Essa hierarquia, por assim dizer, é perfeitamente aceite por ambos. Olga quer modificar Oblomov, curá-lo da terrível “oblomovite”. Na p. 302, Olga é a “mulher no papel dominante”; mais à frente, na p. 308, é o homem que é Galateia e a mulher, Pigmalião.
Olga é, portanto, uma mulher superior, no sentido de alguém que vive na sua cabeça. As referências aos olhos e, mais especificamente, às sobrancelhas servem para confirmar isso mesmo. A alusão às sobrancelhas inclui a assimetria e a ruga pensativa. Oblomov, na p. 347, considera que é “nessa ruga que reside a sua tenacidade”.
Viremos a saber que Olga não amou Oblomov. Não poderia amá-lo. Amou aquilo em que iria transformar Oblomov, um Oblomov imaginário, curado da oblomovite. Todavia, como poderia Oblomov não sofrer da doença, sendo que essa doença é, afinal, o seu carácter. Pode alguém deixar de ser quem é? Pode alguém curar-se de si próprio? Basta ter consciência disso? Talvez, no fundo, Olga já amasse Stoltz, uma espécie de príncipe encantado.
Stoltz, aliás, com a sua habitual perspicácia, explica: “se no lugar dele [Oblomov] estivesse outro homem (…), sem dúvida que as vossas relações teriam evoluído em amor, fortaleciam-se, e nesse caso… Mas isso é outro romance e outro herói, com que nada temos a ver.” (p. 551) A própria carta de Oblomov explica isso mesmo, na p. 552.
Incapaz de acompanhar a sobrancelha de Olga, Oblomov descobre os cotovelos de Agáfia Matvéiena. Da razão e da inteligência, Oblomov desce à carne.
Quando, na p. 388, Agáfia entra na sala, Oblomov já a tinha visto “de pescoço e de cotovelos nus.” O adjectivo poderá não ser apenas objectivo, até porque o seu uso é frequente, a propósito de Agáfia. Na p. 399, surge três vezes: note-se, a propósito, a atracção irreflectida presente na frase “[Oblomov] deu com o olhar no busto alto e nos ombros nus.”
A mulher, que já não era apenas pescoço e cotovelos, é descrita em dois parágrafos. Há um pormenor curiosíssimo: Agáfia quase “não tinha sobrancelhas” (p. 388).
O primeiro diálogo entre ambos mostra que esta mulher se coloca num plano inferior ao dos homens, como se pode verificar no facto de que prefere que seja o irmão a falar.
Agáfia é, portanto, alguém que não pensa (essa alusão surge algumas vezes: “nunca se interrogava”, “não pensava”), ao contrário de Olga, com a sua sobrancelha analítica.
Seduzido pelos cotovelos de Agáfia, Oblomov encontrará a felicidade com alguém que não pretende modificá-lo e apenas servi-lo, o sonho, no fundo, de qualquer preguiçoso, o que, sendo simplista, não deixa de ser verdadeiro. Numa relação perfeitamente equilibrada, a mulher vive satisfeita por poder servir o homem.
A obtusidade de Agáfia é referida mais do que uma vez, não ficando a impressão de que isso seja um defeito, mas uma característica. É a impossibilidade de análise que faz com que ela própria não se aperceba do amor que sente por Oblomov. Cabe ao narrador, numa espécie de debate, explicar os sinais desse mesmo amor, entre as pp. 496 e 500, numa explicação tão pormenorizada que parece querer chegar ao próprio entendimento de Agáfia.
Na p. 502, é o narrador, usando de omnisciência, que explica o que simbolizam, em parte, os cotovelos de Agáfia: “A atitude dele para com ela era muito mais simples: via em Agáfia Matvéiena, nos seus cotovelos sempre em movimento, nos seus olhos preocupados e atentos a tudo, nas eternas deslocações do armário para a cozinha, da cozinha para a despensa, dali para a cave, no seu perfeito conhecimento do governo da casa e de todos os confortos, a encarnação do ideal daquele repouso imenso como o oceano, inviolável, cujo quadro ficara indelevelmente impresso na sua alma desde a infância, sob o tecto paterno.”
Na verdade, as constantes referências à nudez também insinuam algum desejo por parte de Oblomov que descobre em Agáfia a companheira que lhe permite exercer a sua oblomovite em paz. Olga terá sido um acidente que lhe permitiu perceber que nunca mudaria, uma oportunidade para perceber que mulher deveria amar ou por que mulher deveria ser amado. O percurso de Oblomov vai, portanto, do cérebro para o corpo, de Olga para Agáfia, dos olhos para o cotovelo desnudado, o cotovelo que é um braço que trabalha e a carne que atrai. Tudo está bem quando acaba bem.


Oblomov

Zahar o criado, Oblomov o senhor
 - opúsculo sobre uma ociosa luta de classes


  por Conceição Rocha



Na Rússia, até ao fim da monarquia, a estratificação social compreendia, no fim da escala, o grupo dos servos e imediatamente acima o dos criados. Havia alguma diferenciação de estatuto embora, ao que parece, a película diferenciadora fosse muito ténue e até porosa. Aqueles pertenciam à terra e, por conseguinte, à família terratenente, eram transaccionados com ela, mas não eram propriamente escravos, pois se se inscrevessem no exército ou na marinha, ou se ingressassem num convento, obtinham automaticamente carta de liberdade        (os homens, claro); também ganhavam algum dinheiro com o lucro de produtos que vendiam, sobretudo peles e com esses proventos podiam comprar a liberdade. Na Sibéria ganhava também alforria o servo que abatesse um urso, sendo essa alforria para a família directa toda, se urso e servo morressem no acto de caça.
Quanto aos criados, provinham de grupos familiares que serviam famílias nobres ou burguesas com algumas posses, por vezes ao longo de gerações cuja antiguidade se perdia no tempo. Ambos os sexos tinham uma função decisiva e específica junto da família: o sector feminino tratava da casa e seu governo, da capoeira e da pocilga, da cozinha e da aleitação e criação das crianças. O sector masculino ocupava-se do serviço de portaria e de mesa, tratava de tudo o que dizia respeito ao quotidiano dos homens da casa - escolha e tratamento das roupas, ajuda na toilette, asseio e transporte das armas de caça, asseio dos cavalos e condução dos "veículos", levar e trazer de recados e, sobretudo, grande participação na vida íntima do senhor-  mensageiro, auscultador de novidades junto dos seus pares nas outras famílias, etc. Ambos, criados e criadas tinham salário, consta que misérrimo e nulo mesmo, se a família estivesse falida.
A relação criado/criada - família patronal era típica deste modelo de estratificação e não muito diferente do que ocorria no ocidente alguns séculos atrás: uma relação de confiança mútua baseada na habituação e na proximidade, uma relação de fidelidade por parte dos criados, fundada no facto de saberem não ter melhor futuro se abdicassem do serviço à família, não terem escolaridade que lhes permitisse enfrentar o mundo com alguma confiança e, como consta de todos os manuais de sociologia, a convicção acrítica de que cada um ocupa um lugar determinado no mundo e há que rentabilizá-lo da melhor forma. Essa convicção e a proximidade ao longo de gerações gerava mesmo algum afeto mútuo ou, pelo menos, da parte do criado pelo senhor. São os meandros desta relação que muita ficção explora, desde os romances de cavalaria, o D. Quixote de la Mancha, a commedia del'arte, as obras dos grandes russos do século XIX, a ópera de Mozart até Rossini, o nosso Eça  do Primo Basílio até, no século XX, por exemplo, ao teatro de Ibsen.
Claro, minhas e meus amigos, que este tema dava uma tese de doutoramento daquelas chatas e recheadas de citações, cheias de reflexões ideológicas, obviamente de Marx, Engels e socialistas utópicos com especial incidência em Proudhon ( não me responsabilizo pelo Saint Simon que era conde e não sei como tratava os criados) e em todos aqueles que em boa hora metralharam a malandragem aristocrática, abanando os alicerces das stairs nos upstais/downstairs deste mundo perverso - Lenin, Rosa Luxemburgo e o divino Trotski, percursor de Catarina Martins. Diria eu graças a Deus, não fosse o medo que tenho de Deus desde que ele pertence ao Daesh.
Posto o prólogo, que tem por objecto mostrar às amigas e aos amigos como vou frequentando a cultura, vamos ao Zahar e sua entourage. Em nada diferente do tradicional criado pessoal, até naquele detalhe que faz a diferença e individualiza cada dueto criado-senhor: a adaptação às características de personalidade do amo, o ser a outra face da moeda, simultaneamente distanciado para criticar e fugir e próximo para compreender e encontrar soluções. Entre Sancho Pança e Zahar a diferença está no senhor: activo/delirante de um e indeciso/ocioso do outro. Ambos espertalhões e extraordinariamente práticos, ajustam a sua vida conforme a leitura que fazem do mundo a partir dos patrões, nisso despendendo o menor esforço e a eficácia possível. Comer e dormir são a sua  luta, desenvolvida na máxima proximidade do amo, que vigiam e servem sem a menor preocupação de competência. Desleixados, línguas afiadas, porquíssimos, desbocados para com o amo, são agressivos contra aqueles que entendem explorá-lo ou enganá-lo.

Zahar acompanha Oblomov desde sempre e para além da morte. Conhece-o tão completamente que até sabe a duração dos sonos do amo para avaliar o tamanho das escapadelas que pode dar. É o companheiro perfeito da preguiça absoluta de Oblomov: o centro do mundo para si é o fogão, junto do qual dorme, dormita e faz sorna entre o prato de comida que a mulher lhe serve, a indignação de faz de conta por não poder calçar as botas ao amo, por receber deste ordens e contra ordens que cumpre partindo e estragando tudo. Medíocre senhor, medíocre servo, no entanto ciente este do papel que lhe compete: tudo fazer ao amo desde que este acorda até que adormece, tudo fazer que neste caso é sobretudo tudo não fazer: não limpar, não cuidar da roupa, não conservar nada direito; lutar com as botas, argumentar, lamentar, sobreviver com expedientes, ocupam os momentos que sobram do borralho do fogão. Alguma emoção se adivinhou quando sobre Oblomov pairou a asa da paixão, levar e trazer recados sempre alterou um pouco a rotina, mas tudo se esfumou no fim previsível.
As revoluções industrial, primeiro, política depois,  acabaram com os Zahars, embora cá na terra tenham ficado uns simulacros encarnados nas sopeiras de origem rural que, de bigodes, pernas peludas e aventais de riscado pontificaram entre a cozinha e a sala, com baixo salário, segurança social nenhuma, vítimas daqueles a quem foram chamando alegremente  meninos e meninas, mas que nunca as sentaram à mesa, embora na sua gíria social as designassem por "família".
Acomodado à preguiçosa Oblomovite, privado de qualquer ambição que não fosse chegar vivo e alimentado até ao dia seguinte, folgado e grato pelo destino não lhe ter reservado um amo que o espancasse, Zahar vê um dia alterado o sossego da sua pequena vida: Oblomov morre e deixa-o desprotegido, como seria de prever. Miserável, passa por outros empregos onde exercita sem sucesso a sua capacidade de estragar e preguiçar. Restam-lhe as saudades do amo, cuja campa de vez em quando visita para recordar os bons tempos. Pelo menos é o que diz a Andrei Ivánitch Stoltz, de quem recebe esmola e promessa de mais alguma coisa se aparecer em casa.
Zahar aprendeu certamente com as várias gerações de antepassados essa espécie de fidelidade irracional que, alicerçada na diferença, acaba por se amalgamar com o amo, como a rocha que se vai formando com os minerais que a natureza lhe pôs ao alcance.  Em menos de uma centena de anos essa amálgama vai implodir e dar lugar a outras fidelidades. Os tovaritchs também chamavam paizinho ao Stalin.

Moral da História: nem Oblomovs, nem Stalines, nem o Reino Unido com os upstairs e os downstairs, viva o sossego com a querida Geringonça.

  
Porto, 2 de Julho, 2016


Concenka Pintova  Rochova 


segunda-feira, 25 de julho de 2016

A MÚSICA EM "OBLOMOV"

Os romances estão sempre cheios de música.    Que música se ouve  em Oblomov, um romance de Ivan Gontcharov publicado em 1859 na Rússia ?
 por Alexandra Azevedo


A criadagem ociosa está sentada ao portão; ouvem-se ali vozes alegres, gargalhadas, o som de uma balalaica, as raparigas brincam à apanhada. (101)
Mas já começa a entardecer. De novo crepita o lume na cozinha, de novo se ouve o som miudinho das facas: prepara-se o jantar.
A criadagem reuniu-se junto aos portões: ouve-se uma balalaica,ouvem-se risos. Os criados jogam à apanhada. (149)     


O senhor é músico?- perguntou Olga para o tirar do embaraço.
Nesse momento Stoltz aproximou-se.
- Iliá! Eu disse a Olga Serguéievna que tu és um apaixonado pela música, pedi-lhe que cantasse alguma coisa...Casta Diva. 


- Por que andas a dizer coisas a meu respeito?- replicou Oblomov.(...)
- De que música é que gosta mais? - perguntou Olga.
- É difícil responder a essa pergunta! Qualquer música! Por vezes escuto com prazer um realejo roufenho, um tema qualquer que não consigo tirar da memória,




 outras vezes saio a meio de uma ópera; Meyerbeer pode emocionar-me; 



ou até uma canção de barqueiro: 



depende do estado de espírito! Por vezes até Mozart me faz tapar os ouvidos...

- Portanto, gosta verdadeiramente de música. (254)


*
Ao passar diante das janelas de Olga, ouviu como o seu peito opresso se aliviava com os sons de Schubert, como que a soluçar de felicidade.

Meu Deus! Que bom viver neste mundo!(344)

*
Lançou um olhar ao camarote: os binóculos de Olga estavam dirigidos para ele.
«Ah, meu Deus!- pensou.- E não tira os olhos de mim! o que encontrou em mim? Que tesouro ela descobriu! Agora com a cabeça indica-me o palco...parece que os janotas estão a rir-se, a olhar para mim...Meu Deus, meu Deus!»
De novo agitado, coçava freneticamente a nuca, de novo cruzava as pernas.
Ela convidou os janotas do teatro para tomar chá, prometeu cantar a cavatina e disse-lhe que fosse também. (415)




*
_ Não, você tem que me dar conta do meu Iliá- insistia Stoltz. _ O que é que lhe fez? Porque não o trouxe consigo?
_ Mais ma tante vient de le dire- disse ela.
_ Ele é terrivelmente preguiçoso- observou a tia- e tão insociável, que assim que se reuniam três ou quatro hóspedes em nossa casa, ia-se logo embora. Imagine que comprou uma assinatura para a ópera e não ouviu nem metade da assinatura.
_ Não ouviu Rubini _ acrescentou Olga.
Stoltz abanou a cabeça e suspirou. (525)

Giovanni Battista Rubini (1794-1854) famoso tenor italiano 

Nota: Excertos de Gontcharov, Ivan (2015) Oblomov , Tinta da China, Lisboa
  

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Oblomov _ Verba volant, scripta manent!



 Verba volant, scripta manent!

Oblomov de Ivan Gontcharov

Temas de reflexão:

·      Os cotovelos de Agáfia Matvéievna vs a sobrancelha de Olga 
·      O russo Oblomov vs o português Carlos da Maia
·      Andrei, o cometa brilhante vs Oblomov o astro apagado
·      As luvas cor de palha vs o cafetã surrado
·      Oblomovka vs Viborg
·      O homem vs a mulher;
·      Os maridos vs as esposas

·      Zakhar, o criado vs Oblomov, o  amo  




      O russo Oblomov vs o português Carlos da Maia

Alexandra Azevedo


     A leitura do romance  “Oblomov” do escritor russo  Ivan Gontcharov cuja primeira edição data de 1859 evoca, a vários títulos, o romance “Os Maias” de Eça de Queirós publicado vinte e nove anos mais tarde, em 1888.
     De facto, vários são os paralelismos que podemos estabelecer entre as duas obras.
    Começando, desde logo, pelo título, constatamos que tanto numa obra como na outra, este corresponde ao nome de personagens, embora o plural de “Os Maias” implique a ideia de que se vai contar a história de uma família enquanto no romance russo, Oblomov é, simplesmente, o nome da personagem central.  Poder-se-á objectar que  o romance de Eça ostenta um subtítulo, Episódios da Vida Romântica, que não está presente em “Oblomov”. No entanto, se Eça assume explicitamente a intenção de descrever um certo estilo de vida dominado pela visão da vida e do mundo que o Romantismo trouxe à sociedade portuguesa e que persistia ainda na década de 70 do século XIX, Gontcharov dá conta dessa mesma influência na sociedade russa com um olhar eventualmente mais benevolente, mas igualmente critico. Evitava (Oblomov) principalmente aquelas meninas pálidas e melancólicas, na sua maior parte com olhos negros, em que se reflectem «os dias aflitivos e as noites iníquas», meninas com tristezas e alegrias    que ninguém conhece, que têm sempre alguma coisa a confidenciar, a contar, e quando é preciso dizer, estremecem, desfazem-se em lágrimas inesperadas, depois agarram de súbito o pescoço da amiga com as duas mãos, olham-na longamente nos olhos, depois olham para o céu, dizem que há uma maldição na sua vida e por vezes caem em desfalecimento. (Oblomov,78) É verdade que este retrato caricatural da mulher romântica não enquadra o perfil de  Olga Serguéievna, a personagem feminina principal celebrada pela sua inteligência, naturalidade e beleza, mas nem mesmo ela escapa totalmente ao modo romântico de encarar o sentimento amoroso quando suspeita estar apaixonada por Stoltz. Rebuscava na sua experiência: não encontrava lá nenhuma informação sobre um segundo amor. Lembrava-se das opiniões das tias, de velhas solteironas, de várias pessoas inteligentes, finalmente de alguns escritores «pensadores do amor» - de todos os lados ouvia a sentença implacável: «A mulher só ama verdadeiramente uma vez.» (…) Não, ela não sentia amor por Stoltz – decidiu- e não podia sentir. Tinha amado Oblomov, esse amor morrera, a flor da vida definhara para sempre. (Oblomov 535)




    Por seu lado, Eça faz a  personagem central do seu romance, Carlos da Maia, auto-recriminar-se  ao descobrir que não passava de um romântico imbecil. E seria tão fácil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que aquela deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brasileiro! Mas quê! A sua paixão absurda de romântico pusera-lhe logo entre os olhos e as coisas flagrantes e reveladoras, uma dessas névoas douradas que dão às montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa! (Os Maias, 484).E, no diálogo final entre Carlos da Maia e João da Ega, este último faz uma síntese do que fora a vida de ambos, vivida à luz do Romantismo . – É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar a minha vida inteira! Ega não se admirava. Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente daquilo que dá sabor à vida – a paixão.- Muitas outras coisas dão valor á vida…Isso é uma velha ideia de romântico, meu Ega!_ E que somos nós?_exclamou Ega. _ Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão… (Os Maias 714)


    A amizade incondicional entre  Carlos da Maia e João da Ega tem, aliás, um contraponto muito claro na amizade entre Oblomov e Stoltz, também ela ilimitada e total. Tanto num como no outro romance, cada um destes pares de personagens encarna a amizade isenta de competição e invejas, a amizade verdadeira.
   Um outro paralelismo entre as duas obras é a educação a que são submetidas as personagens enquanto crianças. A educação de Oblomov em Oblomovka assemelha-se muito à de Pedro da Maia pelo excesso de protecção de  que ambos são alvo, nomeadamente por parte das respectivas mães. Queria subir à colina, ver para onde fora o cavalo. Dirigiu-se ao portão, mas da janela ouviu-se a voz da mãe:- Ama! Tu não vês que o menino anda ao sol? Leva-o para a sombra; se lhe aquece  a cabeça, vai adoecer, ficar agoniado e não come. Ainda o vais deixar fugir para o barranco! (Oblomov 141)
     Comportamento semelhante tem  Maria Eduarda Runa, mãe de Pedro da Maia. Às vezes Afonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, agarrava a mão do Pedrinho - para o levar, correr com ele sob as árvores do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha. Mas a mamã acudia de dentro, em terror, a abafá-lo numa grande manta: depois lá fora o menino, acostumado ao colo das criadas e aos recantos estofados, tinha medo do vento e das árvores: e pouco a pouco, num passo desconsolado, os dois iam pisando em silêncio as folhas secas - o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pai vergando os ombros pensativo, triste daquela fraqueza do filho… (Os Maias ,18)
    Por sua vez, a educação rigorosa de Stoltz, imposta pelo seu pai alemão assemelha-se à educação “à inglesa” a que Afonso da Maia submete o seu neto Carlos, privilegiando a vida ao ar livre, o rigor e a disciplina. Ao libertar-se das lições, corria a devastar os ninhos dos pássaros com os rapazes da aldeia, e por vezes, no meio de uma aula ou da oração, ouvia-se-lhe no bolso o pio de pequenas gralhas. (…)Acontecia também o pai estar sentado debaixo de uma árvore no jardim a seguir ao almoço. A fumar cachimbo e a mãe a tricotar uma qualquer camisola ou a bordar na talagarça; de repente, ouve-se um barulho na rua, gritos e uma multidão de pessoas irrompe pela casa. _ O que se passa?_ pergunta a mãe alarmada._ Pelos vistos trazem outra vez o Andrei_ diz o pai calmamente. Escacaram-se as portas e uma multidão de mujiques, de mulheres e rapazes irrompe pelo jardim. De facto, traziam o Andrei_ mas em que estado: sem botas, com as roupas rasgadas e um nariz partido, o dele ou o de outro rapazinho.(…)A mãe fica em lágrimas, o pai nem por isso, ainda se ri (Oblomov 199) Também Afonso da Maia, para escândalo dos criados e dos amigos da família deixa Carlos brincar com os filhos dos caseiros em Santa Olávia, sujar-se na terra  e fazer ginástica na barra do trapézio. E perante o abade  que timidamente insiste que se “deve começar pelos clássicos e pelo latinzinho”, Afonso expõe a sua teoria: _ Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois… A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande…(Os Maias, 63)   
     Mas as semelhanças entre Andrei Stoltz e Carlos da Maia ficam-se pela infância  já que o Carlos adulto se aproxima mais de Oblomov com quem, aliás,  partilha o estatuto social e a cuidada preparação académica, pois tal como ele também Carlos falha o seu projecto de vida. Na verdade, ambos tinham na juventude grandes ambições. Dez anos antes, Oblomov sonhava, como lho recorda Andrei «servir a Rússia enquanto tiver forças, porque a Rússia necessita de braços e de cérebros para a exploração dos seus recursos inesgostáveis (as palavras são tuas); trabalhar para mais docemente descansar, e descansar significa viver outro lado da vida, artístico, mais elegante, a vida dos artistas, dos poetas» (Oblomov 237) Do mesmo modo, Carlos chega a Lisboa, já médico, disposto a uma vida de estudo e investigação e faz instalar um moderno laboratório “ com uma vasta de mesa de mármore e um amplo divã de crina para o repouso depois das grandes descobertas” mas “ não tinha realmente tempo de se ocupar do laboratório; e deixaria a Deus mais algumas semanas o privilégio de saber o segredo das coisas_ como ele dizia rindo ao avô. (Os Maias, 128)
    Assim, e aparentemente, a sociedade portuguesa está tão adormecida como a sociedade russa e ambas fazem murchar todos os sonhos de juventude que depressa se diluem na mediocridade  do quotidiano. É isto que constata Oblomov quando reage às invectivas de  Andrei para que saia da sua indolência: O mundo e a sociedade! Tu, Andrei, provavelmente levas-me de propósito para esse mundo e essa sociedade para que eu perca mais depressa o desejo de lá ir. Vida: que bela vida!(…) Tudo aquilo são pessoas mortas, adormecidas, piores do que eu, esses membros do mundo e da sociedade!(…)  E a nossa juventude, o que faz ela? Não está a dormir enquanto percorre a Avenida Nevski, a pé ou de carruagem, e enquanto dança? Uma contínua e fútil mistura dos dias! (Oblomov 227)  
   É flagrante a semelhança entre este desabafo de Oblomov e o espanto de Carlos, regressado de Paris, ao observar os jovens que passeiam na recente Avenida que substituía agora  o pacato e frondoso Passeio Público: Carlos pasmava. Que faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes de calça esguia? (…) E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos. (Os Maias, 702)
   Mas o próprio Carlos não é, afinal, muito diferente desses jovens que observa pois também ele leva uma vida fútil e sem objectivo Vivia, ria, governava o seu faetonte no Bois e como o próprio diz: Em dez anos não me tem sucedido nada, a não ser quando se me quebrou o faetonte na estrada de Saint-Cloud…Vim no «Figaro» (Os Maias, 713)
    Coincidem, deste modo, os dois romancistas na análise e no diagnóstico social que fazem e, se a personagem de Oblomov se entrega caricaturalmente, coerentemente e conscientemente à indolência, rejeitando a ideologia do trabalho que o seu amigo lhe apresenta, por inútil numa sociedade à deriva, também Carlos sofre de uma oblomovite à portuguesa e a sua  existência  é, assim, não menos caricaturalmente reduzida à do « homem rico que vive bem». Nada mais infensivo, mais nulo e mais agradável. (Os Maias, 713)
     Oblomov, o russo vs Carlos da Maia, o português podiam pois, perfeitamente, mudar os seus nomes para Iliá da Maia Oblomov vs Carlos Oblomov da Maia, ambos inúteis, ambos superiores, ambos irremediável e surpreendentemente irrelevantes.
     E trabalhar…que trabalhe o alemão!  

Gondar, 4 de Julho de 2016





quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Casa e o Mundo



Verba volant, scripta manent


A CASA E O MUNDO

por Alberto Teixeira

Tagore representa, no seu livro, uma metáfora da Índia nas vésperas da independência. Nikhil é um ocidentalizado pragmático. Percebe que a defesa do produto nacional, que poderá ser uma excelente opção política, é economicamente ruinosa. São dele as palavras “poderá a força prevalecer contra a vontade?” Sandip teve idêntica formação académica a Nikhil, foram ambos colegas de universidade. No entanto, não poderiam ser mais diferentes. Nikhil representa a boa educação britânica, a correção, as boas maneiras; Sandip é Nietzche a falar “ser justo é próprio de homens vulgares, aos grandes está reservado ser injusto; a liberdade baseia-se na injustiça”. Sandip está para além do bem e do mal “admitir um erro é o maior de todos os erros, é um exemplo típico de fraqueza”.Bimala é a Índia perdida entre duas posturas diferentes, “quando, como os rios, nos conservamos junto das nossas margens, nutrimos tudo quanto temos; quando as galgamos, destruímos  tudo o que somos”. Nada de mais profético! Bimala vai oscilando entre um casamento que, não sendo opressivo, não lhe coloca desafios e um potencial amante que a estimula. Hesita com cautela e sempre sob a espada do arrependimento, “se na hora precisa de se embriagar com qualquer coisa, que não seja com uma mulher”.
Nikhil e Bimala

Nikhil é um epicurista moderado e sensato, “é sem dúvida melhor encarar o mundo a rir do que inundá-lo de lágrimas, pois é graças à primeira atitude que o mundo vai andando”, mas também é um moderno face a Sandip que traz ao de cima tudo o que há de mais primitivo no ser humano, “aqueles que vencem neste mundo criam a verdade, não a respeitam cegamente; os que dominam não temem a mentira; os grandes mentiras são os principais ingredientes dos imensos caldeirões onde fervilham os programas políticos; o objetivo do homem não é a verdade e sim o êxito; mil ou duas mil rupias teriam o ar de roubo mesquinho, cinquenta mil manifestem-se de toda a amplitude do banditismo romântico”. 

Sandip
s

Sandip é um amoral que constrói o bem e o mal à sua medida que supõe ele está de acordo com a causa, com os desejos de toda a Índia. Nikhil tem uma postura democrata, um democrata liberal, “exercer a tirania para bem do país é tiranizar o país; a liberdade sentida é a maior coisa que pode haver para o homem, nada se lhe pode comparar, absolutamente nada; só quando chegamos ao ponto de deixar sair o pássaro da gaiola compreendemos como ele nos liberta, a nós”.  O altruísmo de Nikhil assenta na tradição religiosa indiana, muito semelhante ao credo budista em certas posturas. O seu Mestre, à boa maneira daqueles tutores dos príncipes da antiga Grécia, foi sempre o seu guia espiritual e mentor, “só somos senhores de nós próprios quando conseguimos expulsar os desejos do nosso espírito”. O não querer, não desejar é uma postura budista que pretende evitar o sofrimento pela não ação. Segundo esta doutrina o sofrimento é provocado pelo desejo frustrado, pelo impedimento de alcançar o que foi ambicionado. Na verdade, Buda era um príncipe que se despojou de tudo, cansado da riqueza. Foi um ato de coragem, mas não mais do que isso. Seria muito diferente se um faminto não quisesse pensar em comida para não sofrer e não ambicionasse um lauto jantar.

Entre os dois Bimala vai hesitando e Amulya, seu fiel servo, desabafa pelos dois “aquilo a que chamamos piedade é no fundo apenas piedade de nós próprios, antes compaixão, não temos coragem para seguirmos os nossos instintos mais delicados e por isso não atacamos”. Amulya não rouba nem Bimala chega a trair verdadeiramente o marido, “porque será que quando mudamos, não mudamos completamente?”. O medo da mudança! De passar definitivamente para o lado de lá. Bimala é a Índia fascinada pelo desejo de se afirmar, mas muito amarrada ao conforto Inglês, ao modo de vida dos Ingleses.
Quando Sandip pergunta a Nikhil “será que aquilo que acontece é a própria verdade?” e este lhe responde “que outra verdade poderá haver?” ficamos com um dualismo ancestral nas mãos, o  relativista e construtivista Sandip versus um realista algo ortodoxo, Nikhil. Para o primeiro a realidade é uma construção que se vai fazendo de acordo com as necessidades, para o outro a realidade é o que é, o que se sente e vê acontecer.
Nikhil estava destinado a um fim trágico como todos os que, durante uma tempestade, agem como se nada estivesse a acontecer e continuam plautinamente com a sua vida.


segunda-feira, 21 de março de 2016

A Casa e o Mundo


BIMALA E NIKHIL

por Maria João leite de Castro

A relação entre Bimala e Nikhil, embora contextualizada na época e no espaço, não é essencialmente diferente de uma relação amorosa em que a mulher se subalterniza face ao homem e considera que essa subalternização é, não só legítima e necessária, como também desejável.
Na verdade, embora Nikhil considerasse que marido e mulher são iguais no amor porque têm direitos iguais uns sobre os outros, Bimala, apesar de reconhecer a grandeza do marido nessa afirmação, admite que, se Nikhil aceitasse a sua adoração e veneração, ter-lhe-ia prestado um verdadeiro favor..
Penso que é neste aspecto que residem os maiores problemas que vão, ao fim de nove anos de casamento e de suposta ilusão de felicidade, ameaçar desmoronar toda a relação.

                      Tanto Nikhil como Bimala vivem contradições internas que espelham as contradições existentes no país entre modernidade/autonomia e tradição/submissão.
Nikhil é, de facto, a personagem mais livre da narrativa. Ele deseja também para Bimala essa autonomia e por isso não quer que ela fique confinada à casa, ao zenana e ao purdah, mas que desabroche completamente em toda a sua verdade e força. E mesmo quando reconhece que essa passagem do mundo estreito para o vasto mundo é tempestuosa e pode correr o risco de a perder, Nikhil aceita esse sofrimento em função daquilo que lhe parece justo.

Mas qual é verdade e a força de Bimala?
Ensinada desde criança a considerar a dedicação ao marido como a própria beleza, no seu aspecto interior é natural que, confrontada com a “modernidade” de Nikhil, se sinta simultaneamente orgulhosa e desencantada.
Esse desencantamento agudiza-se no encontro com Sandip, pois este personifica o ideal de masculinidade que Bimala se habituou a idolatrar: orgulhoso, intempestivo, agressivo, apaixonado, com um discurso hipnótico e adulador.
A entrega apaixonada à Causa é muito mais uma entrega a Sandip do que aos ideais que ambos afirmam professar. E essa entrega, embora Bimala a descreva como um estado de embriaguez na qual não reconhece o seu próprio “eu”, alterna com estados de lucidez em que se debate com sentimentos contraditórios, em que põe em causa as suas avaliações, o carácter de Sandip e Nikhil, os seus valores, etc.
Tal como Nikhil previa, Bimala atravessa tempestuosamente o caminho entre a casa e o mundo. E regressa a casa com maior consciência dos valores que pretende adoptar, das escolhas que deseja fazer…talvez a verdade de Bimala lhe tenha permitido deixar de ser peão do destino, apesar de continuar a ajoelhar perante os pés do marido, em sinal de reverência.
Talvez a sua força e verdade se revele nas últimas páginas quando diz (…) Havia tão pouco tempo, ainda, que me preocupara a tentar decidir o que levaria e como o acondicionaria! Mas agora parecia-me que não precisava de levar nada. Partir era o importante.