A Montanha
Mágica
Temas de
reflexão
· Hans Castorp, um jovem simples
· Uns olhos tártaros
· Settembrini e Nafta_ duelos
intelectuais
· O tempo na montanha mágica
· A música em Berghof
· O doce Joachim
· A relação narrador/narratário
· Montanha vs planície
· A sala de jantar
· Doença e morte em Berghof
· A varanda
·
«Absolutamente!
Permita-me… Arrumado!»
Uma pequena abordagem à temática do
tempo na Montanha Mágica de Thomas Mann
por Conceição Rocha
Desde o início da leitura da Obra
tive a percepção de que o tema Tempo, ora implícita ora explicitamente, envolve
toda a acção, todos os pensamentos, todos os sentimentos de um grupo de pessoas especiais reunidas num
espaço especial, em circunstâncias especiais.
E essa pregnância do tempo influenciou-me também a mim, enquanto leitora:
a dimensão que geralmente a leitura de ficção me toca enquanto ajuda a passar
bons momentos no caminho da conclusão, do que vem aí nas páginas seguintes, do
que esta ou aquela personagem se tornaram no fim dos acontecimentos, da
imaginação da ou do autor em me contar tudo isso, foi aqui transformado numa
certa passividade (activa), em que o que vem na página seguinte é sobretudo da
ordem da introspecção. Um romance que para mim careceu de muito tempo não só
pela sua extensão, mas sobretudo pelo que mobilizou de adesão a um espaço e um viver
da temporalidade completamente fora da minha experiência. Por isso demorei a
compreende-lo. Mas não estou aqui para falar do “tempo meu”.
Posto isso, vejamos:
O texto centra-se na personagem Hans
Castorp que vem inicialmente passar 3 semanas a um sanatório de montanha para
visitar um primo afetado de tuberculose. Esse tempo de permanência vai
posteriormente deslizar para 7 anos, até ao início da 1ª guerra. Esta é a
dimensão factual do tempo no romance.
O espaço é o sanatório e a sua vida interna, decisivo para entender o tempo, o tempo nesse espaço, por oposição ao exterior, o “lá em baixo”, ou seja, o resto do mundo, dos não doentes, dos não afetados.
Existem nesses dois espaços, com
particular importância para o primeiro, outras personagens decisivas – o
humanista-racionalista Settembrini, o emotivo, autoritário e de triste fim Naftta
(as duas faces da História), o extrovertido Mynheer Peperkorn e Clawdia
Chauchat, a mulher sujeito e objecto de desejo. Os médicos também intervêm mas,
no que diz respeito à dimensão temporal, com menos importância. E o resto dos
doentes e funcionários completam a paisagem espácio-temporal como personagens,
em que a única dimensão temporal que se adivinha ocorre quando há sinais de
morte.
O Tempo
Há no romance dois tempos: aquele em
que decorre a narrativa, o tempo em que Thomas Mann baliza o romance e o tempo
do interior das personagens, o tempo sentido particularmente pelo Hans Castorp,
tempo interior, que por ele é sentido em forma de tédio, de divisão de tarefas
repetidas até à exaustão ainda que refletidas e por vezes emocionais,
introspectadas, interiorizadas, ocasionalmente inquietas pelos seus pensamentos
e pelos debates entre Nafta e Settembrini ou inspiradas pela desejada Clawdia Chauchat.
O tempo no sanatório é abolido. Settembrini
diz em determinado momento – “o tempo do sentimento eliminou o tempo dos
relógios”. Os pensionistas nunca discutem o sentido do tempo que decorre entre
a sua entrada, o quotidiano de refeições abundantes, descansos, tratamentos e
algumas diversões e o fim da estadia, ou melhor, um fim para a estadia. Este
facto distingue os que vivem em baixo, na planície e os de cima, no sanatório. Pergunto-me: a Montanha será mágica por isso?
Thomas Mann encontra forma de nos
transmitir a pregnância da temática do Tempo fazendo-o tema de debate
conjuntamente com a Morte e a Cultura, entre Naftha e Settembrini e a
observação inquietada de Hans, que confessa um dia estar farto da “vida
horizontal”, desencarnada de tempo, junto
de Joaquim e depois consigo próprio nas suas rotinas. Ele não está em harmonia com o mundo. A sua
passividade, geralmente lúcida, fa-lo pairar sobre o tempo que flui, ou mesmo
fora do tempo. Nessa bolha de si mesmo podemos incluir o desejo por Clawdia e a
reflexão sobre as duas propostas de leitura do mundo que Settembrini e Naftha
lhe querem inculcar (aquela humanista, a outra autoritária, a guerra e a paz, a
democracia e a autocracia). Os dois amigos inseparáveis, sempre enredados em
debate sobre o valor das pessoas e a sua complexidade, são considerados por
Castorp adoráveis tagarelas que ocasionalmente lhe induzem produtivas
abstrações sobre o bem e o mal, mas nunca propósitos de planear um futuro.
No fim da narrativa Thomas Mann
escreve sobre o tempo, a meu ver, de uma
forma mais visível e ainda mais significativa do que no resto do romance. Num primeiro momento,
aqueles 3 dias que medeiam entre a marcação do duelo e a sua concretização,
depois as horas, depois os últimos preparativos, são particularmente sentidos
por Castorp e por mim leitora, na ânsia de um desfecho de desistência ou de
morte. Aí o tempo surge vivo, concreto, dramático, sofrido até ao último minuto.
Num segundo momento, mais longínquo,
sete anos passaram com a presença de Hans Castorp e poder-se-ia dizer “que se
tratava de um espaço de tempo mítico e pitoresco”. Anódino nas suas rotinas,
pontuado pelos acontecimentos que constituem a pequena grande história do
Berghof e da planície. Hans terá percorrido todas as mesas, até a dos russos
maus, agora melhores, terá deixado despontar uma barbicha incipiente, o seu
vestuário mostraria algum desleixo fruto da rotina e os próprios médicos,
enfermeiras e pessoal tendem a deixa-lo em paz, como se faz àqueles que temos
garantidos na nossa paisagem quotidiana. O Tempo, “mas não o que é medido pelos
relógios da estação de comboio, cujo ponteiro avança aos solavancos de 5 em 5
minutos – o tempo dos relógios pequeninos (…) comparável ao do crescimento da
relva, que nenhum olho humano vislumbra mas que todavia não para de suceder
(…), o tempo, dizíamos, tinha prosseguido ao seu ritmo imperecível, sinuoso,
secreto e contudo diligente, a produzir mudanças”. Essas mudanças vão liquidando
o sentido de liberdade do nosso protagonista, que deixa de descer ao vale, e
deixa de se corresponder com a família .
Num culminar de desprezo passivo pelo
tempo, “assim jazia Hans Castorp na sua cadeira de repouso e assim completava o
ano novo, pela sétima vez, no pino do verão – altura da sua chegada – o seu
ciclo”; não manda consertar o relógio
nem renova o calendário, fazendo-o em nome da liberdade. Até ao colapso, o
golpe no andar dos dias que representa uma guerra, fábrica de fim do tempo de
vida para os que vitima.
Poderia falar de vários outros intervenientes
separados por um certo nevoeiro das personagens centrais, personagens que
circulam entre a sala de jantar, os quartos, as varandas de descanso e os
consultórios sempre num tempo circular só interrompido pela morte ou por saída
precária, mas pouco acrescentaria a essa temática do tempo sem tempo
verbalizado, sentido em si mesmo a não ser por pequenos acontecimentos que
abrem alguma brecha na ementa monótona do quotidiano. No entanto é justo
lembrar que dessas rupturas ocasionais também foram responsáveis o exuberante
Mynheer Peperkorm e Clawdia Chauchat,
cada um a seu modo.
A dimensão do tempo suspenso,
intemporal, indizível acaba. A 1ª guerra fere mais ferozmente a vida “de cima”,
que é já em si uma ferida que, porque permanente, se torna exterior ao próprio
Tempo.
Porto, Abril de 2026
Hans Castorp, um jovem simples
por Alexandra Azevedo
Começar a leitura
de A Montanha Mágica não foi, para mim, a habitual emoção de imergir numa
aventura nova.
A princípio um
pouco entediada, aborrecia-me com o peso
incómodo das muitas páginas, da letra miudinha, das personagens e da história parada. Sim, a
história estava sempre parada. Aliás, eu já temia isso depois de ter lido o “Propósito” em que o
autor tem a gentileza de nos alertar que a leitura que se avizinha não será
tarefa breve _ “desde quando é que o prazer ou o tédio despertados por uma
história são consequência do espaço ou do tempo que ela nos toma?” tal como
breve não foi a sua escrita: “Não será, pois, num abrir e fechar de olhos
que o narrador conseguirá contar a história de Hans. Nem os sete dias da
semana, nem os sete meses do ano serão suficientes para tal feito. O melhor que
ele tem a fazer é não tentar prever
quanto tempo se manterá envolvido em tal projecto. Sete anos é que decerto – Deus
nos valha - não serão precisos!”
Iniciei pois a
leitura, desconfiada destas premissas em
que o próprio autor antecipa as prováveis reações negativas dos seus leitores, mas
não foram sete dias, nem sete anos, nem mesmo sete meses que demorei a subir a
montanha. Foram quatro meses
Durante quatro
meses, deitei-me, disciplinadamente, todas as noites com Hans Castorp. Acabei
por me afeiçoar a ele. Preocupava-me: Põe
o termómetro! dizia-lhe. Não fiques tanto tempo à noite na varanda! Ainda ficas
mesmo doente! Nunca se sabe o que vai na cabeça de um escritor e pode mesmo resolver que no final tu também
morres para provar uma qualquer teoria da vida humana, um qualquer sentido
último das coisas que os grandes autores sempre inventam. Seria sempre só no
final, pensava eu com algum alívio. E, assim, eram, pelo menos 832 páginas de
vida que esperariam Hans.
Gostar de Hans foi fácil porque Hans era um
jovem simples. Nunca foi excepcional em nada, nunca fez nada de heróico, nem
manifestou desde cedo nenhum sonho de
grandeza. E, aparte um certo fascínio pelos barcos “ o que lhe valeu, no
fundo, foram as suas origens, o cosmopolitismo dos seus costumes e, por último,
uma certa apetência pela matemática ainda que desapaixonada” ( 46) para
se tornar naturalmente engenheiro naval
quando procurou “uma profissão que fosse a ideal a seus olhos e aos olhos do
mundo” (46) Respeitava o trabalho Como poderia Hans Castorp não
respeitar o trabalho? Teria sido contranatura” (47) O que não significava
que gostasse de trabalhar.
Hans era, nas
palavras do seu criador “mediano, se bem que num sentido bastante louvável”
(45)
É esta mediania
louvável que faz dele a página em
branco que Settembrini e Naphta disputam à vez. Os dois intelectuais desejam
influenciar o jovem Hans tanto quanto este deseja ser influenciado. Hans não
tem um parti pris. Ouve ambos os pedagogos com o mesmo interesse e
respeito. Como talvez o próprio autor teria, na sua juventude , estado
receptivo a tudo quanto pudesse informá-lo e sobretudo formá-lo. O
bildungsroman, o romance de formação que Montanha Mágica constitui, deixa, no
leitor, este sentimento de que Hans é o próprio Thomas Mann em jovem, aberto a
todas as explicações do mundo, respeitoso de todos os pontos de vista. Mas
inequivocamente há uma escolha que vai fazendo, cada vez com mais clareza,
pelas ideias humanistas e progressistas de Settembrini, abandonando o
misticismo e o autoritarismo de Naphta que começa a qualificar como “o feio Nafta”
, acabando por lhe dar como destino o suicídio, suicidárias que foram as suas ideias de autoritarismo que o
mundo conheceria mais tarde. Na
planície.
Mann, T (2009) A Montanha Mágica, Publicações Dom
Quixote, Alfragide

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