segunda-feira, 25 de maio de 2026

 

Mynheer Peeperkorn

                                                                       por Maria Amélia Correia 

 

    Ei-lo que irrompe montanha acima num trenó acompanhado de Claúdia Chauchat e de um criado malaio, envoltos em peles, a caminho do sanatório/mortório de Berghof, em grande estilo. Hospedaram-se no 1º andar em aposentos de luxo superior, contíguos e comunicantes. A sua entrada na sala das refeições, seguindo cavalheirescamente Claudia (sem o estrondo da porta envidraçada) provocou espanto. Falava alto dirigindo-se a todos (“meus senhores e minhas senhoras”) com adjetivos grandíloquos, se bem que o seu discurso carecesse muitas vezes de conteúdo, a sua figura majestática, a sua gestualidade teatral, mas harmoniosa, dava a sensação de um maestro que dirigia a orquestra, no caso, os comensais que se sentavam nas várias mesas e se rendiam frente a esta personalidade. Acompanhava a refeição com quantidades pantagruélicas de vinho tinto e café fortíssimo, feito em cafeteira própria, e para terminar usava digestivos a que chamava pão.

    A anã, que servia à mesa, passou a ganhar identidade. Emerentia foi gabada pela sua pequenez e passou a ser apelidada carinhosamente por Emezinha, Emita ou Rentinha. Rentinha deixava tudo para servir o seu senhor, e os empregados de Berghof, mercê das belas gorjetas que lhes dispensava, trabalhavam a qualquer hora. A sua generosidade não se manifestava apenas materialmente, pois também sabia, não só ouvir as pessoas, como também apreciá-las e elogiar-lhes as qualidades. Os mexericos começaram de imediato: Possuía uma grande plantação de café em Java, era riquíssimo, dono de um belo palacete em Haia, uma mansão em Scheveningen, oferecera um belo colar de pérolas e vestidos de noite à sua acompanhante, com quem tinha comunhão de bens, enfim era um grande “magnete” como o apelidou a Sra. Storh que não se deu conta que o seu erro o qualificou perfeitamente.

Os chochos convívios noturnos de Berghof passaram a ter outra dinâmica. Convidava todos para serões memoráveis com vinhos e iguarias várias, conseguindo que na cozinha se trabalhasse até de madrugada. Era extraordinariamente cortês e amável com todos conseguindo que os mais invejosos e os mais humilhados o respeitassem. Sabia animar os mais timoratos,que de faces vermelhas e alvoroçados, participaram na orgia noturna. Mesmo a Sra. Magnus que teve um chelique e quase desmaiou, recusou terminantemente retirar-se para o quarto. Nessa noite inesquecível foi percetível o seu lado temperamental, quando considerou que as carnes frias eram sensaborias, com um acesso de cólera régia e um murro na mesa, mas aí Madame Chauchat demonstrou  uma vez mais grande habilidade em acalmar o vulcânico companheiro. Como fazia regularmente Peeperkorn tratava-a por minha filha beijava-lhe a mão devotamente e serenava.

    Settembrinni e Naphta eram também convidados para passeios que organizava, mas suas discussões filosóficas perdiam qualquer fulgor junto à personalidade carismática de Peeperkorn. Foi assim que rapidamente Settembrinni percebeu que perdera influência sobre o seu pupilo.

    Nos acessos de febre de malária, que o faziam cada vez mais frequentemente recolher à cama, recebia a visita de Castorp. Aí revelou-se um observador perspicaz e lúcido conseguindo que Castorp deixasse cair a máscara com a qual se protegia e confessasse honestamente a sua paixão por Claúdia numa conversa de homem para homem. Castorp tornou-se o seu mais devoto admirador.

    Enfim este homem apaixonado pela vida até aos seus limites, uma personalidade excessiva, verdadeiramente dionisíaca, percebeu que já não podia vivê-la como desejava e renunciou a ela, em grande estilo, como era seu apanágio. Chapeau!!!

 

MªAmélia L. V. Correia

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário