Mynheer Peeperkorn
por Maria Amélia Correia
Ei-lo que
irrompe montanha acima num trenó acompanhado de Claúdia Chauchat e de um criado
malaio, envoltos em peles, a caminho do sanatório/mortório de Berghof, em
grande estilo. Hospedaram-se no 1º andar em aposentos de luxo superior,
contíguos e comunicantes. A sua entrada na sala das refeições, seguindo
cavalheirescamente Claudia (sem o estrondo da porta envidraçada) provocou
espanto. Falava alto dirigindo-se a todos (“meus senhores e minhas senhoras”)
com adjetivos grandíloquos, se bem que o seu discurso carecesse muitas vezes de
conteúdo, a sua figura majestática, a sua gestualidade teatral, mas harmoniosa,
dava a sensação de um maestro que dirigia a orquestra, no caso, os comensais
que se sentavam nas várias mesas e se rendiam frente a esta personalidade.
Acompanhava a refeição com quantidades pantagruélicas de vinho tinto e café
fortíssimo, feito em cafeteira própria, e para terminar usava digestivos a que
chamava pão.
A anã, que
servia à mesa, passou a ganhar identidade. Emerentia foi gabada pela sua
pequenez e passou a ser apelidada carinhosamente por Emezinha, Emita ou Rentinha.
Rentinha deixava tudo para servir o seu senhor, e os empregados de Berghof,
mercê das belas gorjetas que lhes dispensava, trabalhavam a qualquer hora. A
sua generosidade não se manifestava apenas materialmente, pois também sabia,
não só ouvir as pessoas, como também apreciá-las e elogiar-lhes as qualidades.
Os mexericos começaram de imediato: Possuía uma
grande plantação de café em Java, era riquíssimo, dono de um belo palacete em
Haia, uma mansão em Scheveningen, oferecera um belo colar de pérolas e vestidos
de noite à sua acompanhante, com quem tinha comunhão de bens, enfim era um
grande “magnete” como o apelidou a Sra. Storh que não se deu conta que o seu
erro o qualificou perfeitamente.
Os chochos convívios noturnos de Berghof passaram a ter outra dinâmica. Convidava todos para serões memoráveis com vinhos e iguarias várias, conseguindo que na cozinha se trabalhasse até de madrugada. Era extraordinariamente cortês e amável com todos conseguindo que os mais invejosos e os mais humilhados o respeitassem. Sabia animar os mais timoratos,que de faces vermelhas e alvoroçados, participaram na orgia noturna. Mesmo a Sra. Magnus que teve um chelique e quase desmaiou, recusou terminantemente retirar-se para o quarto. Nessa noite inesquecível foi percetível o seu lado temperamental, quando considerou que as carnes frias eram sensaborias, com um acesso de cólera régia e um murro na mesa, mas aí Madame Chauchat demonstrou uma vez mais grande habilidade em acalmar o vulcânico companheiro. Como fazia regularmente Peeperkorn tratava-a por minha filha beijava-lhe a mão devotamente e serenava.
Settembrinni
e Naphta eram também convidados para passeios que organizava, mas suas
discussões filosóficas perdiam qualquer fulgor junto à personalidade
carismática de Peeperkorn. Foi assim que rapidamente Settembrinni percebeu que
perdera influência sobre o seu pupilo.
Nos acessos
de febre de malária, que o faziam cada vez mais frequentemente recolher à cama,
recebia a visita de Castorp. Aí revelou-se um observador perspicaz e lúcido
conseguindo que Castorp deixasse cair a máscara com a qual se protegia e
confessasse honestamente a sua paixão por Claúdia numa conversa de homem para
homem. Castorp tornou-se o seu mais devoto admirador.
Enfim este
homem apaixonado pela vida até aos seus limites, uma personalidade excessiva,
verdadeiramente dionisíaca, percebeu que já não podia vivê-la como desejava e
renunciou a ela, em grande estilo, como era seu apanágio. Chapeau!!!
MªAmélia L.
V. Correia
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