sexta-feira, 28 de novembro de 2025

 



Camilo vs Calisto: pontos de contacto e de afastamento

por Alexandra Azevedo 

São muitos os pontos de contacto entre Camilo, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco  e Calisto, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, a sua criatura.

O herói de “A Queda de Um Anjo” é um fidalgo de Trás-os-Montes, tal como Camilo cujo pai era um fidalgote transmontano,  e o próprio nome da personagem é significativo na medida em que, sob um sorriso irónico, traduz uma determinada atitude mental e ideológica. Calisto vive no Portugal profundo, em Caçarelhos, um burgo perdido em Trás-os-Montes, num Portugal cristalizado no tempo que, no século XIX, vive à margem de todas as transformações, uma sociedade anquilosada sustentada numa economia agrária ultrapassada. É aí que se ergue a figura do herói do romance como a personagem dominante da terra.

A sua formação é, claramente, uma recriação literária da própria experiência biográfica de Camilo. Calisto é o retrato de Camilo antes  de este ir para o Porto. Nascido em Lisboa, Camilo ficou órfão muito cedo e foi viver com uma tia paterna , em Vila Real e , mais tarde , para casa de uma irmã mais velha em Vilarinho da Samardã, uma pequena povoação transmontana. Esta última  mudança trará também mudanças profundas na sua educação graças à influência de um padre, familiar do cunhado que o iniciou na leitura dos clássicos.


Tal como o seu criador, Calisto é versado em latinidades, tem conhecimentos de grego, é grande leitor dos clássicos latinos e portugueses e um profundo conhecedor de crónicas e genealogias. Calisto é um tradicionalista do ponto de vista literário e social. Vive no século XIX como se fora no século XVII.

Também  do ponto de vista político, Calisto se aproxima de Camilo. Este último dizia de si próprio ser “um português velho”. Era miguelista do mesmo modo que  Calisto se  afirma legitimista. Calisto é um idealista  ingénuo em Caçarelhos tal como Camilo o era em Samardã. Há, assim, ao longo da narrativa, um olhar simultaneamente  irónico e compreensivo do autor face à  personagem que se apresenta como  o seu alter-ego. Esta ironia amável   estende-se mesmo depois da transformação que  Lisboa opera em Calisto, quando este , como o seu autor quando foi para o Porto, entra definitivamente  no século XIX com tudo quanto de positivo e negativo isso implica.  

Do meu ponto de vista, Calisto só se afasta de Camilo na medida em que ao contrário do seu criador é  uma personagem de ficção. Ou talvez não. Talvez esse seja, apenas, mais um ponto de contacto.


A s                                                                        A Sátira em CAMILO CASTELO BRANC

                                                 

                                                                                          por Ângela Melo

 pppp

 

A escrita de Camilo não corre vagarosa entre os meandros do sublime ou da metafísica – Calisto Elói não é o jovem Werther da Agra de Freimas.

A escrita de Camilo é torrencial, corta a direito e vai certeira ao ponto. Frases curtas e concisas, mas cheias de combustível.  

 

Ao juntar palavras sem afinidade semântica, Camilo força o trânsito do significado. Contudo, a metáfora não convida ao dilema, desagua sem complicação num imaginário imediato de apreciável magnitude sísmica. E aí saltam as emoções, as faíscas do texto, salta a imparável sátira:

(…) engoliu o morgado três frases de polpa, que lhe inflavam os bócios e foi ao jantar, sacrificando-se às inalteráveis horas de repasto. 15      

Para o conto do morgado, Camilo providencia uma dicção que parece mais antiga do que ambos, um ecoar remoto, quem sabe, dos sermões de Vieira ou da cronística de um Fernão Lopes…

Ao certo, uma eloquência, erudita em vocabulário, instruído sabe Deus por que in-fólios, fora as partes tomadas ao vernáculo decerto conservadas em salmoura por serras adentro. Um domínio da língua sem o qual nem metáforas nem ironia poderiam ser as mesmas.  

 

Já quanto à moralidade (a existir) fica-se desconcertado com o romance.

Percebe-se que Camilo não é piedoso, mas ao cotar a sátira em tal apreço deixa-nos a oscilar entre o riso e uma provocação - a ambivalência do ponto de vista do autor.  

 

O amor, esse bom tirano 

Calisto estreia-se no sobressalto erótico e transfigura-se. Abandona antigos vínculos, esposa incluída,

e passa a conviver com os inimigos - o progresso, o luxo, o amor interdito. Camilo não lhe impõe expiação ou funesta consequência. Amor e desejo mais se parecem aqui com uma prontidão biológica, uma força vital.

Um atalho para o “eu absoluto”, um aceno do romântico?  Um conhecimento de causa?

 

O amor como redenção

Adão, segundo o mito bíblico da Queda, rendido ao pecado e expulso do paraíso, cai na consciência de si sem escapatória: ou se redime pela cruz ou se entrega à perdição. Camilo descompõe o tema. Cria Calisto-anjo (os anjos não têm sexo) e expulsa-o do paraíso tramontano. Mas Calisto não se perde, é redimido pelo amor. Ingressa noutro paraíso, em risonho adultério e luminosa ascensão - de risível a respeitável. O Criador deve ter invejado a felicidade do homem! Por fim, quem cai é a Queda.   


 

A caixa negra de Freud

Camilo não podia conhecer a doutrina do inconsciente, mas estava a par da desordem que governa a fundura do humano. Uma dualidade parece habitá-lo, por procuração em Calisto, a quem em simultâneo constrói e destrói o retrato.

Uma evasão romântica, o romance como um alter ego? É pela sátira que se distancia do que está tão perto de si, a dor do conflito interno, o ridículo da ordem social?

 

Aparentemente, Camilo segue a direcção do vento progressista – a liberalidade da capital em contraste com o torpor da província, anacronismo tanto mais didático quanto mais cúmplice do efeito literário, já que o romance se entrega aí com afincado virtuosismo cómico.  

 

Mas talvez Camilo não tivesse antecipado a determinação de Calisto que parece tomar as rédeas do guião quando, de súbito, homem inteiro e liberto do ancien régime de província. Não fora a desordeira sátira, e o sortilégio da capital ficaria a reluzir na mente do leitor. Assim, o que se oferece é um camiliano pezinho dentro, e outro fora.

 

Dê as voltas que der, não desembrulho a ambivalência.  Ao procurar a lógica no dissenso dos contrários caí no logro de fugir à sátira para encontrar o “próprio” Camilo.

E por mor desta pessoal e privada Queda, sátira  jamais !!!

 Ângela Melo

30.10. 2025



A Queda de um Anjo – a sátira e Calisto Elói

 por Blandina Lopes

  

   Em primeiro lugar, afigura-se-nos relevante definir, muito genericamente, o que é o género satírico na Literatura, género esse em que se enquadra o romance de Camilo Castelo Branco (1825-1890), A Queda de um Anjo (1866). Assim, quando se fala em sátira, estamos a referirmo-nos a uma técnica literária que ridiculariza um determinado tema (indivíduos, organizações, estados), geralmente como forma de intervenção política ou outra. O que distingue a sátira da paródia é que a primeira não tem de ter necessariamente um carácter cómico, enquanto a segunda tem-no. O humor satírico tenta, muitas vezes, obter um efeito cómico pela justaposição da sátira com a realidade. O principal objetivo da sátira pode ser político, social ou moral - e não, obrigatoriamente, cómico. O humor satírico tende, pois, para a subtileza, a ironia. É precisamente, quanto a nós, o que se verifica neste romance de Camilo Castelo Branco, através do seu principal protagonista, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, cuja queda, no âmbito nomeadamente moral, vai ser o tema fulcral do mesmo.

   Sintetizando, a sátira n'A Queda de um Anjo tem como primordial alvo o desvirtuamento dos costumes e a hipocrisia da sociedade portuguesa do século XIX. Camilo Castelo Branco utiliza o seu protagonista, Calisto Elói, para satirizar/ridicularizar a transformação dos valores rurais e conservadores em face das novas ideias liberais e da vida citadina de Lisboa. Daí, a oposição entre Caçarelhos e tudo o que esta aldeia transmontana representava do conservadorismo do Portugal rural e tradicional e a capital Lisboa e tudo o que representa do Portugal moderno, não só de valores, mas também de ideias e de costumes.


   Assim, Camilo dedicou todo o primeiro capítulo à caracterização, diríamos já com laivos satíricos, do protagonista Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, (que) tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. (…) Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure.[1](…) Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo. (…) Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de empecer a roda do progresso, contando que o progresso não lhe entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo. (ps 9 e 11)

   O próprio título do romance – A queda de um Anjo – é já, em si mesmo, uma ironia. A transformação de Calisto Elói é o principal motor da sátira na narrativa, e isso porque o “anjo que se corrompe”, Calisto Elói, é inicialmente apresentado com uma pureza e uns ideais ingénuos que o colocam numa posição elevada, mas a sua "queda" é inevitável. Ao chegar a Lisboa, ele é seduzido pela vida moderna, o que o leva a "perder" a sua moral. Além disso, também protagoniza a fragilidade das convicções, uma vez que tenta defender os seus ideais conservadores no parlamento, mas acaba por ceder à sedução das ideias e dos prazeres da capital, tornando-se naquilo que criticava. A sua "evolução" é, afinal de contas, uma regressão moral. Por outras palavras, o movimento descritivo da personagem mostra que o narrador o eleva a um tal estatuto social que, mais adiante, proporcionar-lhe-á uma grande queda, já preanunciada no título da obra.

   Calisto Elói, eleito deputado de Miranda, muda-se para Lisboa a fim de defender as necessidades do seu município. Por algum tempo ainda sustenta a pomposa retórica e o conservadorismo no vestir-se, o que novamente faz dele motivo de escárnio e zombaria pelos membros da Câmara. Damos a voz ao narrador com a finalidade de ilustrarmos o que acabámos de enunciar: Ao meio-dia entrou o morgado na Câmara, e fez sensação. As calças de xadrez eram uma das grandes desgraças, que a Providência, por intermédio do Sr. Nunes aljubeta, mandara a este mundo. Como se a substância não fosse já um crime de leso-gosto e lesa-seriedade, ainda por cima as pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino, fadistamente. (p 78) Contudo, à medida que saboreava os ares da capital portuguesa, deparava-se com a modernidade que, progressivamente, vai interiorizar e adotar.

   Assim, pareceu-nos que, com a leitura intermitentemente saborosa deste romance, Camilo ao ter em vista o conservadorismo e o moralismo defendidos pelo anjo transmontano, o desfecho apresenta, no entanto, uma espécie de redenção sem sofrimento, já que, no final do romance e a despeito do que o próprio narrador ouvia dizer, o protagonista acabou por ficar a viver com a brasileira D. Ifigénia Ponce de Leão, com quem teve dois filhos, foi também condecorado com o título de Barão de Agra de Freimas e, para não ser pouco, com boa saúde e largo capital financeiro. Resumindo, o que mais nos seduziu em A Queda de um Anjo foi, exatamente, o facto de Camilo, através da personagem de Calisto Elói e não só, narrar de modo caricatural, satírico e humorístico, a vida social e política portuguesa do seu tempo. Quase nos atreveríamos a transpor e a fazer algumas analogias com o que se passa atualmente. É esse também um dos encantos da Literatura que, usando artifícios linguísticos e figuras de estilo, pode percorrer séculos, tornando-se mesmo hodierna.

   Não podíamos terminar este breve comentário sem uma citação situada na Conclusão, em que o narrador diz o seguinte:

   Deixá-lo ser feliz: deixá-lo. Calisto Elói, aquele santo homem lá das serras, o anjo do fragmento paradisíaco do Portugal velho, caiu.

   Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quase todos os outros, e com mais algumas vantagens que o comum dos homens.

   Dinheiro a rodo!

   Uma prima que o preza muito!

   Dois meninos que se cavalgam no costado!

  Saúde de ferro!

  E barão! (p 182)

 

 

 

 

 


 

Clube de Leitura – A Queda de um Anjo, de Camilo Castelo Branco 



[1] In utroque jure significa "em um e noutro direito", referindo-se à dupla competência no direito civil e no direito canónico.

 

Caçarelhos vs Lisboa

                                                                      por Delfina Rodrigues

“Remenda teu pano, chegar-te-á ao ano”, Teodora de Figueiroa

O luxo(…)é o espantalho dos ânimos sandios e cainhos.”Libório de Meireles

 Caçarelhos e Lisboa, dois espaços geográfica e socialmente contrastantes, adquirem na obra uma importância maior do que um mero palco de acção onde se move o “herói do conto”, o morgado da Agra de Freimas.

  Em Caçarelhos, terras de Miranda, no-lo dá a conhecer o narrador, enquadrado por sua ilustre genealogia, títulos e propriedades, traços de personalidade e interesses, e relação matrimonial com sua prima Teodora, zelosa cuidadora dos Lares, com criados e animais incluídos, que, se não estimulava os sentidos, engrandecia o património - por herança e pelo seu ânimo cainho, consentâneo mais com os padrões locais do que com os privilégios de nascença - tornando-o o maior proprietário da comarca.

 Em discurso directo o encontramos no adro da igreja de Caçarelhos, ágora paroquial, exibindo sua clássica erudição e vetustos valores de pendor legitimista. Aí germina e floresce a ideia que o fará deputado por Miranda, tão cansados andavam os locais de se verem representados por “uns rapazes bem falantes” eleitos por “Miranda e outros sertões lusitanos, que desconheciam, topograficamente, em que parte demoravam os povos seus comitentes, nem entendiam que os aborígenes das serranias tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regímen da constituição”(p.17)

 Parte então Calisto para Lisboa, não obstante a promessa feita a “onze retratos que tinha de onze avós de não voltar a tocar o cancro social com suas mãos impolutas”, após frustrada experiência na Câmara de Bragrança.


 Parte, mas leva Caçarelhos consigo, na bagagem e no espírito: precedem-no duas cargas de livros, “nenhum dos quais tinha menos de 150 anos”; segue-o uma carga de presunto e orelheira e de bom vinho velho; acompanha-o a modéstia e anacronismo do guarda-roupa e um ideário com que pretendia fustigar os desmandos da modernidade e “restaurar os costumes desbaratados”. Chega a Lisboa dez dias mais tarde, com a sua timidez provinciana mas forte determinação moral.

 Depressa se confronta com a profunda assimetria entre a sua mundividência e o modus vivendi da capital:

 Ao “remenda teu pano…” opõe-se o luxo garboso, “o oiro, as pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades.”; à natureza rude de cujo seio acaba de sair, opõe-se “a lavareda destes focos das grandes cidades”; às “boninas da vida campestre”, às virtudes conjugais de Teodora, à “pureza de vida” com que entrara em Lisboa, opõem-se as “devassidões postas em música”, a celebração de Lucrécia Bórgia, a leitura de Balzac,a frivolidade; ao adro da igreja, fórum da discussão da res publica e privada, opõe-se  o Parlamento e sua retórica enfática e os salões privados; a um mundo onde o amor não era necessário para selar um casamento, um outro se impõe onde o amor se procura; ao Portugal velho, enfim, que Caçarelhos aqui representa, sobrepõem-se a ideia nova, o liberalismo, os ventos da modernidade que em Lisboa fervilham.

 É ouvi-lo, na sua primeira sessão parlamentar, qual “ Cícero a delatar a conjuração de Catilina”, a vituperar contra o despesismo da capital, a entrega aos prazeres hedonistas, aos lascivos amores e outras derrapagens da boa moral antiga que as comédias exibem, quando ”o lavrador quebrado de trabalho…se priva do apresigo de uma sardinha…para regalo da capital.”:

   “ Irei dizer aos meus constituintes que não se desfaçam dos cordões e arrecadas de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas despeitoradas das Lucrécias Bórgias que custam 40 libras por noite”.

E lembra que “os serranos das províncias do Lácio não eram constrangidos a pagarem as delícias dos patrícios romanos.”

 Assim falará o deputado por Miranda, ou o provinciano, como por antonomásia é tantas vezes referido, até ser tocado pelo amor e pela sua força transfiguradora, até se apagar Caçarelhos da sua figura e do seu coração e Lisboa entrar, paulatinamente, na forma e nas ideias…e Portugal com ele.

 

Porto, 7 de Novembro 2025


 Camilo Castelo Branco

 

                                                               O “coup de foudre” ou 

                                                        a energia transformadora da paixão.


                                                                     por Manuela Pereira

“O amor é tão engenhoso como a natureza” (230)

 

A primeira vez que avistou a prima Ifigénia, a brasileira, “Calisto maquinalmente levou a mão ao coração: trespassara-lho uma azagaia eléctrica.”

Assim, nos descreve Camilo o “coup de foudre”. (158)

E continua, contando-nos “como Calisto abriu do peito ´graves e doces palavras’ e ‘deu largas à sua alma’; ‘como confessou não saber o que era a felicidade.’ (164/165)

Calisto Elói diz a Ifigénia: “Roía-me o abutre de um desejo vago…” mas “a sujeição da consciência ao dever… era cerrar os ouvidos da alma”. Disse ainda que “tinha consumado a paralisia do coração”, e que “a vinda para Lisboa foi (para ele) o ressurgimento da vida.”, ao achar-se “entre homens aquecidos à luz deste século.”.(166)

“Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito.” (166)

Como quem ‘desperta a arrancar do peito uma frecha ´;´Foi o estremecer do Terramoto, que alarma terrores e se aquieta.´. ‘Medi a profundeza da minha alma, e pude ver que seria capaz de um crime.”.

É esse o momento em que o anjo se transforma em homem.


Quando Calisto Elói vê “uma formosura que dobra a alma” e percebe que há mulheres “diante das quais um homem precisa de chorar.” (166)

A descrição desta “expansão” que também “foi causa a uma dor” (167), conta-nos uma “paixão súbita” que, Camilo reconhece, estala ´com estrondos deste tamanho”, “quando o amor nos assalta de improviso.” (167)

E assim, tal como ao nascer, “o baptismo das doces lágrimas (…) chamaram ‘o coração à vida.” (167)

Quando se abriram as Câmaras, perante o impávido abade de Estevães, Calisto afirmou “Estou português do século XIX.”.

E acrescentou : “As ideias não se formam na cabeça do homem; voejam na atmosfera, respiram-se no ar, bebem-se na água, coam-se no sangue, entram nas moléculas, e refundem, reformam e    renovam a compleição do homem.” (212)

Calisto Elói não estava perdido, tinha encontrado a felicidade.

 

Aprenderá em Paris dois versos de Molière:

(229)

´Quel mal cela fait-il?

La jambe en devient elle

Plus tortue, après tout,

et la taille moins belle?´


A transformação física de Calisto

por Maria João Leite de Castro

Acompanhando a sua «queda» (ou evolução) também a transformação física de Calisto é bem expressiva da radical mudança que se dá na sua vida.

Inicialmente, o seu guarda roupa era modesto e, com excepção do chapéu armado, do calção de tafetá e espadim (com que ele, na qualidade de fidalgo/cavaleiro, desfilava nas procissões de Miranda) tudo nele indicava a austeridade que o norteava, a veneração do passado e da moral antiga. Vestindo-se nos alfaiates de Miranda, Calisto usava casaca de briche (sendo que a gola e as portinholas da casaca eram sérias demais), calças rematando em polainas abotoadas de madrepérola e botas aguçadas no bico.

Quando eleito para o Parlamento, o Morgado de Agra de Freimas preocupou-se mais com os livros que levava consigo e com as garrafas de vinho velho do que com a modernização da sua vestimenta e, apesar de o abade de Estevão várias vezes o aconselhar a reformar a sua roupa, Calisto Elói de Barbuda, fiel aos seus princípios, fugia do luxo, que considerava espantalho dos ânimos sandios e cainhos (pág.58).

Esse desajustamento tornou-se motivo de gazeta e também de consternação na capital, de tal forma que, quando foi visitar D. Bruno de Mascarenhas para o confrontar sobre a sua relação com D. Catarina Sarmento, o escudeiro anuncia ao fidalgo, uma «ratazana», segundo as suas palavras, um sujeitório vestido ratonamente (pag.70).

 Poder-se-ia dizer que a primeira vez que Calisto sentiu vontade de mudar de fatiota foi quando acometido por um calor de ventosa, acompanhado de vibrações eléctricas e vaporações cálidas, situado entre a quarta e a quinta costela, sintomas físicos de um amor pela primeira vez sentido por D. Adelaide. Foi nessa altura que, para além da repugnância pelo pequeno almoço, o nosso fidalgo olhou também com desdém para a casaca de briche e para as pantalonas apolainadas.


Decidiu então aprimorar a sua vestimenta e dirigiu-se ao estabelecimento do Sr. Nunes onde foi vestido com um fato paletó de pano cor de rato e umas calças de xadrez cinzento e colete azul de rebuço, com botões de coralinas falsas. Comprou ainda no Chiado um chapéu de molas de merino e outro de castor, à Inglesa. E enfiou pela primeira vez, e com grande dificuldade, um par de luvas.

Foi ainda por amor de D. Adelaide que o nosso anjo, já com uma pena caída, decidiu imolar as delícias pituitárias, substituindo o rapé pelo charuto. E para coroar a mudança de figurino, transitou progressivamente da pêra e meia barba, para um bigode, trocou os seus velhos óculos de prata por uma luneta de vidro e molas, delineou reformas capilares e submeteu-se às orientações do alfaiate Keil, que falava francês, e ao qual encomendou duas andainas de fato.

Assim, a quando da chegada da belíssima viúva Ifigénia Ponce de Leão, que mais uma vez provocou no nosso morgado Calisto uma azagaia eléctrica que lhe trespassou o coração, tanto a saleta – também ela aprimorada com móveis de nome francês – como Calisto Elói, estavam prontos para a receber.


                                                                                 Camilo Castelo Branco

                                        “Elogio do adultério ou amores de salvação”

                                                 por Maria Amélia Correia

Calisto Elói regressou de Campolide humilhado, com a dignidade esfrangalhada, mas não a tal ponto que lhe tenha tirado o apetite. Antes de se entregar nas asas de Morfeu, embutiu uns ovos estrelados com presunto, que isto de ir para a cama de barriga vazia só para heróis românticos… 

Fez ele bem, pois o destino reservara-lhe uma excecional surpresa - a visita de D. Ifigénia de Teive Ponce Leão. A história desta belíssima viúva era de fazer chorar as pedras da calçada e as carências serôdias do morgado predispunham-no a engolir araras, tanto mais que estas vinham diretamente do Brasil. A beldade já tentara impingir sua história a outros, pretensamente parentes, mas saíram-lhe uns brutos, que não foram em arolas, não reconheceram qualquer parentesco não se condoeram com a pobre viúva, nem se deixaram seduzir por ela.

O morgado, cavalheiro sentimental, generoso e carente, encontrou de imediato ligação entre eles por via dos Teive e passou a trata-la por prima. Há que ajudar a prima, que se dane o trambolho em Caçarelhos, porque quem prova caviar, já não quer caldo com broa.  

Esmeraram-se na troca de galhardetes e o fidalgo como era homem de palavra puxou os cordões à bolsa para presentear a prima com todos os luxos imagináveis.  


 

 

A morgada de Travanca é que estava à beira de um ataque de nervos, [MAC1] farejando a traição do marido e principalmente ao ver desaparecer as suas fazendas que tanto lhe custaram a poupar. Lopo de Gamboa, o primo, começou a frequentar-lhe a casa, muito a propósito, para a consolar.

Este peralvilho rural vivia à custa do irmão morgado e tinha má fama no respeitante a mulheres. Lá pelas terras de Miranda não eram necessários grandes merecimentos, que aliás não possuía, para seduzir solteiras e casadas. Falava-se à boca cheia da sua sorte em não ter tido um corretivo à altura, aplicado por irmãos namorados ou maridos traídos.
Lopo já há muito andava de olho gordo na prima, ou melhor na sua fortuna, um afrodisíaco capaz de substituir todos os encantos de que Teodora era completamente desprovida. Vai daí toca de confessar à prima a sua paixão antiga por ela e como tinha sido para ele um golpe fatal o casamento dela com Elói

O farsola chegou mesmo a chorar o que deixou a prima com um olhar de parvajola sem saber o que pensar.

Quando morgada de Travanca pode verificar “in loco” que o seu marido vivia luxuosamente e maritalmente com a bela brasileira entregou o gove[MAC2] rno da sua casa, assim como o seu coração ao primo Lopo. “A cintura adelgaçou-se; apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os quadris; amaciou-se-lhe a cútis; branquearam-se-lhes os braços; escampou-se-lhe a fronte com riçado dos cabelos; toda ela adquiriu no andar certo requebro e donaire que lhe ia tão natural como se tivesse sido educada por salas e adestrada em flexuras de dança”. Obviamente não ganhou a palidez e busto de marfim da sua concorrente, mas Lopo também não possuía o gosto gourmet que Calisto havia adquirido.

 O tálamo conjugal que só conhecera jejuns e abstinências regozijou, com os prazeres da carne. A morgada nunca mais viu teias de aranha no teto pois o seu olhar demorava-se mais no querido esposo e no pequeno Barnabé que veio alegrar a vida de ambos.

Calisto conheceu o amor e a felicidade junto de Ifigénia. Refinou os gostos, tornou-se cosmopolita, um cavalheiro elegante, homem de salão.

Largou os clássicos, afeiçoado aos romancistas franceses, que lidos perfuntoriamente completaram a sua educação sentimental. 

Tornou-se liberal e deixou-se de patranhas de moralismos arcaicos e castrantes, para se tornar uma mente aberta e progressista e mundana.

Ifigénia presenteou-o com dois meninos loiros e assim conheceu as alegrias da paternidade.

Quanto à fidalga abandonou pitos e parrecos, deixou de se preocupar com o penso da burra, os alqueires de milho e a salgadeira, para na intimidade do seu lar, atender ao marido extremoso e ao menino que se tornara um rapazinho encantador. Aprendeu a bordar tornou-se mais exigente com as criadas e até recebia parentes para tomar uma xícara de chá acompanhada de bolinhos.

Os respetivos parceiros, que tiveram uma vida regalada como jamais haviam sonhado, quanto a mim merecida, pois fizeram com que os seus companheiros evoluíssem alguns séculos.

Bendito adultério! Perdição não, salvação, e nisto acompanhamos Camilo, nada como um final feliz.

Maria Amélia L. V. Correia



 [

As mulheres em A queda de um anjo

 por Conceição Rocha

 

As mulheres na Queda de um anjo são uma pontuação na história de vida de um homem – Calisto Elói de Barbuda, morgado da Agra de Freimas – que veremos irá abraçar com o mesmo pletórico entusiasmo as letras clássicas com o seu corolário de moralidade puritana  e a mundanidade citadina  berço de devotado amor.  Teodora e Ifigénia, e passo Adelaide e o episódio que abalou o lado esquerdo do peito entre a quarta e a quinta costela de Calisto no salão do desembargador Sarmento, pois a contagem de palavras me exige economia, são as duas peças-chave  daquela vida  que se desenvolve em espaços e tempos distintos – a biblioteca  da quinta, onde diariamente Catões e Sénecas fundamentam o dever ser da vida humana, e Lisboa, com os seus salões à parisiense, o teatro de ópera e o Parlamento, sede da verborreia de uma monarquia em decadência, servida por discursadores palavrosos uns mais legitimistas outros mais progressistas.   Calisto marcha de legitimista quieto, calado e incapaz de empecer a roda do progresso, a corajoso arauto das ideias iluminadas que ecoam da França e desabam sem grande entusiasmo dos pares nos bancos do Parlamento.

Dizíamos, pois, que o génio de Camilo nos dá a mulher certa para cada fase de Calisto: A  primeira – Teodora – é-nos apresentada com mais abundância de detalhes, mais vocalidade, mais cores emocionais, mais vontade de dominar as situações com energia, quer estas passem pela administração da despensa e da capoeira, quer pelo esforço corajoso de se modernizar e perseguir o criminoso no local do crime, para o trazer à razão, ou seja, a Caçarelhos. Não admira que seja tratada com mais minúcia  do que a outra, pois esta ocupa o centro do melodrama, que aliás Camilo reproduz em muitas figuras femininas das suas ficções..


A outra – Ifigénia – parece-me mais uma personagem queirosiana do que camiliana. Mulher dotada de todos os encantos, sabendo fazer destes o capital de sedução para um ingénuo neófito da cidade grande, discreta mas vistosíssima, predisposta a refazer a vida se o for num palacete com lacaio e governante, caleche, joias e camarote no S. Carlos.  A mulher certa para o novo Elói, riquíssimo das rendas das suas terras e finalmente reconvertido a Voltaire e ao Iluminismo, ao charuto, à sobrecasaca e à bengala de castão de prata.

Tudo o mais que se possa dizer destas duas mulheres que exprimem Calisto Elói nos dois grandes momentos da vida será muito pobre em palavras se não recorrermos  às  do próprio Camilo, tão perfeitas estas que cada frase é um retrato, uma escultura, uma descrição objectivada pelas palavras certas.

Assim,

D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, [é] senhora de raro aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o necessário para ter juízo.

 Menina estabilíssima por virtudes, mas mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta.

Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes de maliciar suspeitas daquela matrona, em tudo romana, do puro estofo das Cornélias, Pôncias e Árrias.

Ai maridos, maridos! Quando a Providência vos enviar mulheres deste raro cunho, encostai a face ao regaço delas e não queirais saber como é que o inimigo de Deus enfeita as suas cúmplices na perdição da humanidade.


 

Mas, o amor diz o seu fiat lux primeiro que Deus.

E disse-o com Ifigénia, a mulher que o roubou à Pátria, à esposa e aos amigos e [é] bonita como um serafim, na voz do intriguista Brás Lobato.

Uma mulher daquelas que Lúcifer fazia quando assaltava no deserto a pudícia dos Antões, dos Paulos, dos Pacómios e Hilariões.

Ifigénia, a prima que desentranhou desde o primeiro momento [a Calisto]  suspiros cavos, (…) que lhe fez pular como o arfar de vulcões a vida no peito.

Ifigénia, cuja episódica ausência era uma serpente de fogo que abafava [em Calisto] os respiradouros das goelas.

De Ifigénia pouco mais sabemos do que ser portadora de beleza notável, elegância irrepreensível e oportunismo certeiro. O seu carácter, o seu dia a dia, o que pensa para lá das conveniências e circunstâncias, tudo isso é uma discreta ausência de informação, Camilo dá-nos o escasso quanto baste  sobre o seu papel no coração e na carteira de Calisto Elói.

Teodora continua assim a ocupar o centro feminino do romance, lutadora agora pela causa perdida de um amor indiferente aos arroubos,  às lágrimas e aos tratamentos esmerados de salpicões e leite creme.

[A sua] desesperação aumenta à medida que a fleuma do marido lhe crava o dardo do desengano no coração ainda fiel [o que] a pôs em começos de tísica.

            Mas Teodora reage com o desespero e a coragem que a imaginação lhe permite: põe as moedas de ouro a bom recato e parte para o epicentro do pecado, por sorte encontrando  quem a atavie melhor e lhe modifique o penteado. Começa aí um ligeiro laivo de amor próprio, de confiança em si, no seu discernimento e até na sua figura.

                       E a novela evolui numa felicidade geral, já que não faltando cabedais a ambas as partes nem conselhos interesseiros por parte do primo Lopo de Gamboa, que nunca deu mau burro ao dízimo em coisas de coração, Teodora, mulher energética e positiva, ao sair de casa da Ifigénia compreende que a consorte fiel, a mulher que fez eclipse nas virtudes conjugais do Industão, sentiu quebrar-se o último cabelo que a prendia à história das esposas exemplares.

             Conclui Camilo que a mulher é afinal um mistério. Teodora recupera das feridas conjugais com uma fuga para outra quinta, a de Travanca, onde irá viver com o primo Lopo, este mais de bordeis do que de bibliotecas, e dará à luz um pequeno Barnabé.  Possivelmente o recobro emocional ter-se-á devido mais à simplicidade de Teodora e à sua vontade de gerir a vida como geria vinhedos e searas, estábulo e galinheiros. Mas isso sou eu que digo, num momento fugaz de carência de feminismo.

             De Ifigénia  só sabemos que se acomodou à vida de luxo e conforto, continua o silêncio de Camilo em  tratar-lhe emoções e pensamentos,  sem desvios por paixões outras que nos levem a desconfiar que a paixão de Calisto não enfrentará as agruras do desencanto. Assim, bela e silenciosa, prossegue a vida com o ditoso Calisto e dois meninos que garantirão sucessão e genealogia ao nosso agora malhado e governamental, no dizer do inconformado amigo e ex-correligionário Abade de Estevães.

 

           

 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 14 de outubro de 2025

A Queda de Um Anjo

               
         Temas de reflexão 


• As mulheres em A Queda de Um Anjo

 • Camilo e Calisto_ pontos de contacto e de afastamento

 • A sátira em A Queda deUm Anjo

 • Caçarelhos vs Lisboa 

 • A transformação física de Calisto 

• O nome do herói




segunda-feira, 30 de junho de 2025

ARQUIPÉLAGO _ Joel Neto


 ARQUIPÉLAGO 

JOEL NETO


Temas:

· José Artur _ em busca do tempo perdido

· Os Açores e o mito da Atlântida

· O terramoto de 1980

· A tourada açoriana

· O movimento independentista açoriano

· A gastronomia da Ilha Terceira

· O culto do Espírito Santo

· Açores _ o eterno apelo do retorno à ilha

· Luísa

· A presença da paisagem natural no romance 




                              Terramoto de 1980

                                         por Maria das Mercês Coelho


Arquipélago é um vocábulo relevante e significativo.

Por definição ou condição é o somatório de espaços físicos de diversas apetências, geograficamente balizado em redor por fronteiras marítimas. Ilhas navegando numa solidão acompanhada com o horizonte a sugerir amplitude ou a fechar-se entre brumas.

Título feliz escolheu Joel Neto para um romance, sustentado em factos reais paisagens e patronímicos particulares da Terceira, como Drumonde, Bretão, Goulart, Berbereia.

Ao longo da narrativa evidencia bizarrias da linguagem popular para expressar imposição/autoridade, por ex. nos diálogos “bebe mais uma sequer”( pg 264), “muda de conversa sequer” ( pg 290), assim como referências a vivências insulares. Entre várias, as irmandades do Espírito Santo; as tradições natalícias do “menino mija”; a tourada à corda e o traje dos pastores, e nela, a referência ao quinto toiro (correm quatro toiros, sendo que o 5º, é o ambiente da tasca sempre presente no evento e onde o álcool potencia outras tantas energias ou rodopios); os bailinhos de carnaval, a justiça da noite, o movimento pró independentista da FLA, e tantos outros factos do passado/presente.

Regista lendas. Para memória futura.

A Atlântida afundada por uma catástrofe de que sobraram nove picos, as ilhas açorianas, com a Terceira no centro onde se reuniam os reis atlantes; o Peter Francisco, raptado em menino da freguesia de Porto Judeu e levado para a América onde se tornou homem de vigorosa compleição física e gestos de heroicidade na luta da independência dos Estados Unidos “George Washington não teria ganho a guerra sem ele”(pg. 28).

Rituais de esoterismo na Grota do Medo enformam ritmo à ficção, que Onésimo T. Almeida elogia como “uma magnífica voz da consciência açoriana

 

O fio condutor da narrativa é o sismo de 1980.



A calamidade atingiu três ilhas do grupo central - São Jorge, Graciosa e Terceira - com especial incidência na última, arrasando impiedosamente a cidade de Angra do Heroísmo. Vitimou mortalmente 73 pessoas, feriu outras quatro centenas, infligindo arrasadores danos em edifícios públicos e habitações.

No universo de pouca terra pouca gente, contabilizadas 20 000 pessoas desalojadas. Vinte segundos que desmoronaram anos de trabalho e destaparam, em alguns casos, ”o véu que cobria a miséria de cada casa”.

Sobreviventes a vulcões, furacões, maresias e cataclismos, os açorianos interiorizaram resistências.

Novos tempos da história sopravam, os quais estancaram o recurso à emigração das populações sinistradas, como o passado nos contava. Não obstante, JN, com outra roupagem, disso dá nota, deslocando José Ruben e Graciete e o filho para fora da ilha. Destino, Lisboa.

Era jovem a democracia de Abril. As ilhas passaram a designar-se como REGIÃO alcançando a histórica aspiração de autonomia política ou administrativa.

Ainda os factos. Um grupo de personalidades - juristas, historiadores, arquitectos, engenheiros e intelectuais - vislumbrou o futuro após a catástrofe.

Reconstruir, salvaguardando o património do centro histórico da cidade.

Em três anos a cidade de Angra do Heroísmo ficou inscrita na lista de património mundial da Unesco erguendo-se das ruínas com obras de requalificação exemplares. Simultaneamente, campanhas de sensibilização apelavam a uma consciência cívica de manutenção da caracterização urbana e rural, valorizada com a oportunidade de imprimir conforto contemporâneo.

Não sem custos e alguma resistência a burocracias e supervisão.

A reconstrução dos edifícios começou “ as paredes mudando de alvenaria para betão armado” com “a ilha a encher-se de uma população diversa e volúvel, às vezes simpática outras vezes apenas interessante. Viu as mulheres a fecharem-se em casa, com medo, e o medo não era só daquilo em que a ilha se transformava, mas das mudanças que ocorriam dentro delas”.

Na ficção escutamos as hesitações e o peso das angústias do Prof. José Artur, regressado de Lisboa para dar vida à casa dos antepassados “as mais simples rotinas encontravam as maiores dificuldades, e os efeitos que estas provocavam na psicologia das pessoas eram como que novos cataclismos, porque tudo nelas intensificava a sua sensação de impotência”.

Outro olhar no regresso às origens. Outros ritmos de vida divididos entre o silêncio e o afã da sobrevivência. E as sombras que questionavam o passado afectivo na casa dos avós, sobressaltado pela procura da compreensão duma vivência que se esfumava.

O autor põe o dedo na ferida relativamente a um assunto inquietante dos nossos dias. A negligência e os meus tratos infantis. Elizabete Dutra personifica a vulnerabilidade de quem não tem peso ou visibilidade.

De sinal contrário é a mensagem de valorização feminina. Luísa, insinuante mas recatada, faz bater alto o coração do personagem que merece a expectativa da afirmação.

A concretização da paixão amorosa arremata bem a narrativa, assim como a reconciliação com o filho André.

Joel Neto entretece a ficção, um tanto autobiográfica e outro tanto fantasiosa, em tom de expressiva homenagem à ilha de nascimento.

Há um fôlego cativante na leitura deste livro, que (me) seduz.

Permito-me uma nota de rodapé. Muito pessoal, porque na interpretação humana vemos muitos factos através duma lente subjectiva.

Joel Neto tinha 6 anos de idade na altura do terramoto. O abanão que provocou o sismo não deve caber nas suas memórias infantis. Outras sim. O alvoroço familiar, a necessidade de segurança e os sobressaltos consequentes de medo de réplicas que colocava as pessoas a dormir em tendas na rua.

Quando ocorreu a crise sísmica do vulcão dos Capelinhos no Faial, 1957/1958 - os abalos de terra também se sentiam diluídos na minha Graciosa ilha. Com os meus pais e irmão íamos de carro até ao lado sul da ilha apaziguando medos. De lá se avistava a mancha incandescente da fase efusiva da erupção. Guardo essa imagem, mas não a sensação da convulsão do solo, sendo certo que então tinha a mesma idade que o autor aquando do grande terramoto da Terceira.

Será memorial a inspiração do personagem que não sentia os sismos?

 

Ilha Graciosa, 13 de Junho de 2025

Maria das Mercês Coelho



A GASTRONOMIA DA TERCEIRA, em Arquipélago, de Joel Neto

                                                         por  Delfina Rodrigues

De resto, a mesa constituiu sempre um dos fortes, senão o mais forte alicerce das sociedades humanas. Já os Gregos diziam, na sua linguagem pitoresca e livre, que “a mesa é a alcoviteira da amizade!” Não só na vida íntima, mas na vida pública das nações, o jantar constitui a melhor e a mais solene cerimónia que os homens acharam para consagrar todos os seus grandes actos, imprimir-lhe um carácter de união e de comunhão social.”

                                                                                        Eça de Queirós, in “Cozinha Arqueológica”

 

Vem a epígrafe a propósito do tema eleito, pretendendo assim elevá-lo a foro de 1.ª grandeza na exegese literária, ao filiá-lo em nobre tradição histórica e literária e pretendendo ao mesmo tempo prevenir o receptor mais incauto de que não se tratará apenas de mero receituário terceirense ou guia gastronómico açoriano.

A mesa, a gastronomia, são, de facto, tema recorrente na literatura, em prosa e em verso: a definir perfis, a desenhar ambientes, a apurar quadros históricos, a desencadear memórias involuntárias, imprecisas, inefáveis, proustianas, a permitir experiências sensoriais ímpares, sendo disso exemplo, para além de Eça de Queirós, acima citado, o incontornável  Camilo Castelo Branco,[1] Aquilino Ribeiro, das Terras do Demo, por exemplo, Machado de Assis, …, para só citar alguns, os primeiros que a memória permitiu.

Como não recordar os “petits pois” à la Cohen, em jantar do Hotel Central, em Os Maias, ou o delicioso arroz de favas e o “louro frango“ acompanhados por “um vinho fresco, esperto, seivoso” no jantar servido em Tormes para “suas incelências”, em A Cidade e as Serras?… Em Arquipélago, são evocados cheiros e sabores que remetem para o universo da infância da personagem principal, José Artur, e para a ancestralidade açoriana, cósmica, conferindo ao sabor o estatuto que, segundo o autor, nem sempre lhe é atribuído na literatura. Afirma, em entrevista publicada no YouTube, que, quando olhamos para a literatura em geral, o sabor é o último sentido cantado pelos escritores ou, pelo menos, “o menos cantado”. E que “a literatura, a poesia em geral, falam do que os olhos vêem, do que os ouvidos ouvem, do que o nariz cheira, do que as mãos tocam e, ainda assim, o último sentido é o que a boca degusta”. Para sublinhar, enfim, que comer é muito mais que sabor, que todos os sentidos são convocados e, acima de todos, aquele que mais lhe interessa, “um sexto sentido que é o sentido da memória”, o que “nos liga aos nossos passados mais umbilicalmente”.

Deter-me-ei, então, em trechos do livro que fazem jus às suas afirmações e sustentam essa sua visão.

Remonta a 1980, o ano do Terramoto, a 1.ª referência ao Cabrinha (p.38), personagem incontornável na abordagem deste tema, donde provinham os cálices de aguardente-da-terra e bolachas para temperar o árduo trabalho dos reconstrutores da terra destruída.

Desse mesmo tempo cronológico, é evocada a alcatra feita por Maria Edite, a avó, cozida ao longo da tarde em vinho de cheiro e cravinho (p.50). E, ainda, num jantar que antecedeu a partida de José Artur para Lisboa, um bolo quente de sobremesa.

Com José Artur de regresso à terra da sua infância, entramos pela 1.ª vez na taberna do Cabrinha (p.75), verdadeiro santuário de culto para necessidades físicas e espirituais. E a personagem impõe-se, desde logo, no seu perfil acolhedor, disfarçado com graçolas: “Pois está claro que temos o que comer. Se isto é uma casa de pasto, está aqui para as pessoas pastarem”. Assim mesmo, no seu humor popular e galhofeiro.

Alcatra da Ilha Terceira


E pouco depois, a confirmar a sua assertividade, chegou uma alcatra “fumegante num alguidar de barro de cujo interior provinham diferentes odores a infância e a flores”, que aqueceu a sala inteira. José Artur “Levou o garfo à boca e fechou os olhos, a manteiga e o cravo-da-Índia e o toucinho de fumo diluindo-se e recombinando-se numa afluência de sabores que se metamorfoseava. Ganhavam, perdiam e recuperavam cambiantes, à medida que entravam em acção novos ingredientes ainda…”

“Comeu até ao fim, numa voragem antiga, e depois pegou nos últimos pedacinhos de pão doce e pôs-se a ensopar o resto do molho”. E reconheceu a massa sovada que lhe soube “a terramoto e a redenção”.

Impressões reiteradas em sucessivas experiências na Taberna do Cabrinha, designadamente quando levava à boca “a primeira porção de sopa do Espírito Santo, ou de bolo de milho da sertã, ou de cavala recheada”, saídas das mãos bondosas de La Salete (p.93), ou quando provou a sopa azeda saída das mesmas mãos mágicas:

“Cortou duas toscas fatias de pão e pô-las no fundo de um prato. Polvilhou-as com canela, tornou a ajeitá-las e derramou-lhes por cima um espesso caldo acastanhado. Ao lado, cubos de carne repartiam uma travessa com rodelas de enchidos, nacos de abóbora e batatas-doces. Cheirava a canela e noz-moscada, e José Artur esfregou as mãos.”

E estacou à primeira colherada. Porque, “num ápice, desfilaram vários sabores vindos como que do próprio interior do tempo. E, quando ele se pôs a percorrê-los sentiu que se sentavam em volta os seus antepassados, os pais e os avós e os avós destes, e os velhos da Terra Chã e da Terceira, e os açorianos até ao povoamento, e deste até ao próprio Génesis, quando na manhã do sexto dia o Senhor olhou sobre a sua obra e decidiu que estava, afinal, incompleta” (p.119). Como não evocar, neste momento, Proust, ou Swann, em Du côté de chez Swann, quando mergulha a sua madalena na taça de chá e “…toda Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardim, da minha taça de chá”?

Foi ainda na Taberna do Cabrinha que viveu momentos de grande cumplicidade com o filho, na sua visita aos Açores, onde La Salete lhes serviu uma pecaminosa sopa do Espírito Santo em tempo de Quaresma. Uma vez mais, impõem-se os “cheiros a lenha e a temperos antigos, … e as panelas de ferro” a remeteram-nos para outro tempo, um tempo antes deles, antes da existência daquela terra e dos próprios homens…” (p.151). E “A manteiga e a hortelã fundiam-se-lhes na boca e o repolho apaziguava-lhes o palato e o vinha branco e a pimenta da Jamaica aliavam-se para uma investida final que os fazia querer chorar e rir” - a antítese em auxílio da complexidade do sentir e do dizer - a dar razão a André quando exclamava que o pai tinha estado a esconder-lhe o melhor de tudo. (p.151).

Como Jacinto, em Tormes, perante o assombro dos sabores primordiais servidos com a simplicidade dos primeiros tempos.

A mesma cumplicidade com o filho foi testemunhada na esplanada de um restaurante sobre o porto de pesca, onde iniciaram a refeição com um creme de marisco servido dentro de um pão, seguido de “uma combinação de diferentes peixes muito bem grelhados, lírio, enxaréu, boca-negra e outros de que André nunca ouvira falar.” (p.186) A arrancar avaliação superlativa, com o uso do diminutivo e da frase exclamativa: “meu Deus, este peixinho!”. E é de novo a voz de Jacinto que ecoa nestas páginas, deslumbrado com o sabor e a pureza do jantarinho de Tormes.

Nem faltaram” umas lapinhas “- uma vez mais o diminutivo a atestar a excelência do produto - a prolongar o momento, a selar afectos escondidos, a estreitar laços, a dizer o indizível, a dar razão aos gregos citados por Eça de Queirós.

Antes da partida de André para Lisboa, regressam ainda ao Cabrinha, e nós com eles, para assistirmos ao desfile de iguarias que La Salete experimentou: “bolos de milho na sertã, cavala com molho cru e arroz de algas com lapas, alfenim, doce de vinagre e filhoses de forno”. E umas queijadas que as freiras da ilha haviam criado para oferecer à rainha há mais de cem anos, com “especiarias vindas dos mais recônditos lugares do planeta e onde se concentravam seiscentos anos de História daquela ilha e do próprio país”. (p.191)

Também aí, José Artur procurou alimento e consolação para a perda de Luísa, quando esta lhe anunciou o casamento com Pedro Orlando, a última de uma série de perdas que acumulava, mas o “coelho guisado com sal a mais”, precedido de” uma canja de peixe que lhe pareceu uma mixórdia”, não produziram o efeito compensador que apenas uma garrafa de vinho e um abraço erótico em La Salete, a cozinheira de peitos abundantes, conseguiram imitar.

Não querendo e não podendo ser exaustiva, abeiro-me do fim, não deixando de lembrar que no dia do funeral do José Artur, corria o ano de 2048, André, Maria Rosa e La Salete se sentaram na Taberna do Cabrinha a “debicar uma alcatra” e a lembrar os seus mortos, os que já tinham partido, conscientes de que naquela ilha, “como em qualquer lugar do mundo, o Mal e o Bem conviviam um com o outro” e, deduzo, de que a mesa era lugar de privilégio para a glorificação da vida e para o conhecimento do povo que Arquipélago celebra.

E para acabar, uma vez Eça de Queirós, quando afirma que “um pitéu nos dá uma ideia mais completa de um povo que o prefere do que a forma de uma lança ou de um jarro.” E que” O homem põe tanto da sua individualidade nas invenções da cozinha como nas da Arte.”

 

                  Porto,16.de junho de 2025

                  Delfina Rodrigues

 



[1] Lembremos “Camilo e o Garfo, de José Viale Moutinho



                       A presença da paisagem natural no romance                                                                                                                                      

                                                                                                                                                                    Arquipélago,  Joel  Neto , 2015


                                                                                    por Manuela Pereira

 

Na sua deriva pela ilha em busca de si mesmo, José Artur, com o fiel amigo Papillon, ‘atacou enfim a ladeira´58, ‘olhou as montanhas que tentavam perfurar a neblina’70, desceu ‘vales orlados de hortências’89, ‘atravessou túneis de faia ao fim dos quais se encontrava o mar’ (…) percorreu canadas ribeirinhas’90, ‘abrigou-se da chuva sob uma gruta de bagacina’90, e sentou-se em silêncio num prado a perder de vista’90. ‘O céu muito estrelado parecendo antecipar mais um dia de sol’46 fê-lo cerrar os olhos e ‘cheirou-lhe a água salgada, e, ao fundo, o marulhar das ondas aproximou-se e partiu’431.

Acompanhando as suas deambulações vamos conhecendo a ilha, imersos na natureza que nos invade, e ficamos com um retrato preciso da Terceira, avistando ao longe a ‘silhueta da Graciosa a desaparecer na neblina’207 e ‘o recorte de S.Jorge (…) com aquela cor impossível, que não era castanho nem cinzento, nem verde sequer ___ que era isso tudo ao mesmo tempo e era rosa também, como o dia que se extinguia atrás dela’ 200/365.

À chegada ao aeroporto das Lages, ‘no final de uma tarde de trovoada e ventos cruzados’60 o táxi onde seguia ‘seccionou a ilha pelo coração (…) percorrendo a extensa recta que cruzava o planalto’70 e assim vamos conhecendo a morfologia da ilha, enquanto se atravessam ‘as montanhas à direita e à esquera’70 e se vira depois ‘na direcção de um mar encapelado e metálico’70, olhando ‘a mata de cerrados (…) com diferentes tonalidades de verde (…) num xadrez a que os muros de basalto acrescentavam novos contrastes’71. Mais tarde, avistando o Pico de Sta Bárbara, promontórios, falésias, ‘lajes com relheiras’274 e lagoas naturais’, percorrendo a Canada de Sto António, no sopé do monte Brasil (…) com a Baía de Angra aos pés, onde o ‘vento carpinteiro’ atirava os navios ‘contra as rochas’185.

Ficamos a conhecer a fauna: ‘as vacas pensativas’ 70, ‘os toiros de corrida’, ‘os cagarros, chamados pardelas de-bico-amarelo’ 15, símbolo dos Açores e das duras leis da natureza, mais do que o açor (apesar do seu nome dele ser derivado, não há notícia de um pássaro tão grande ter feito ninho ou caçado nas ilhas), ‘os pardais do telhado e os melros’ 45, ’a labandeira’ 91/412 e ‘os morcegos diurnos’ 273.  A flora da ilha: ‘os vinhedos, pastagens, tanques de água com nenúfares’ 421, ‘os ouriços e castanheiros’ 99,’ as azáleas, hortências, as árvores de fogo, beladonas, camélias, magnólias, olaias, hibiscos, jarros e erva azeda’ 118, ’as amoreiras’ 197, e até ‘plantações de canábis’ 289. As cores e os cheiros da terra: ‘o basalto negro’ 16, o amarelo do bico das pardelas 15, as cores do poente, ‘a quantidade de verdes que aquelas ilhas conseguiam reunir’ 45; ‘o cheiro a lenha, a temperos antigos, e enxofre’ 157, ‘cheiro de outros jardins: lírios, rosas, gardénias 185, ‘a eucaliptos, gasolina, marisco e solidão’ 70, ‘o cheiro a ressalga’ 206, ’a água salgada’ 431, ‘a chuva miudinha’ 352.

Ilha Terceira


Seguindo José Artur na sua viagem à volta da ilha, e do seu mundo interior, enquanto meditava nas suas frustrações, na sua indecisão com Luísa, na ligação com o filho André. vamos conhecendo os seus humores, as descobertas sobre si mesmo, e a descoberta de pessoas, rituais e acontecimentos passados.

Os seus humores, enquanto calcorreava a ilha, por vezes em sintonia outras vezes contrastando com o clima, ao longo de mais de um ano, descrevem-nos as quatro estações desse ambiente instável, onde ainda por cima o tempo mudava de um momento para o outro, num curto espaço de vinte e quatro horas.

A Primavera, quando ‘um dia floriu o jasmim’183 e ‘uma brisa ergueu-se, trazendo a primeira caruma’206

‘O melhor do Verão’ quando ‘o orvalho salpicava as noites com mais respeito do que volúpia e os dias iam clareando manhã fora, até repousarem sobre uma limpidez quase feérica’.274

‘E um dia o vento soprou uma rajada enérgica’399. Chegara ‘o Outono (…), o tempo mais deprimente do ano. Os cagarros tinham partido (…) e, ainda por cima, chovia’349.

No Inverno, ‘não soprava uma brisa, as nuvens cerradas num tecto compacto que se abatia sobre a sua cabeça’413. ‘Ao fundo a trovoada aproximava-se de terra descarregando (…) relâmpagos cada vez mais brilhantes’421. ‘Um frio desconfortável penetrava pelas frinchas’334. ‘com sucessivas vagas intervaladas por ameaças de ciclones e dias de chuva torrencial, como se o inverno quisesse demonstrar aos terramotos quem mandava ali’148, enquanto o Atlântico Norte continuava a despenhar-se contra o outro lado do molhe’66.

E compreendemos Nemésio quando escreve: “A geografia para nós, vale tanto como a história”90.

Porque ‘Debaixo de nós, ela arde’ pensou José Artur, ‘debaixo de nós ela arde, e arde intensamente’70, repetiu. ‘Sob os meus pés ardem vulcões e terramotos. As ventanias planeiam a sua vingança, e é contra a morte que o povo festeja’355.

Com a inclemência de um clima que não deixa sequer criar uma horta, a exuberância da natureza aparece como a verdadeira personagem nesta história, neste olhar sobre os Açores, sobre ‘a identidade de um pequeno povo’83, da sua ilha e do seu Arquipélago de afectos.

‘A sua ilha era mais do que um caldeirão de humores vulcânicos e tectónicos’185, pensa José Artur. E, na sua carta de demissão, escreve a João Torcato Salvaterra ‘do último paraíso do planeta’: ‘estas ilhas estão entre os mais belos e autênticos lugares do mundo’355.

 

 

 

MALO  MORI  LIBERI  QUAM  IN  PACE  SUBJECTI  386

 

 Clube de Leitura, 16 Junho 2025                                                                               Manuela Pereira

 

 Na sua deriva pela ilha em busca de si mesmo, José Artur, com o fiel amigo Papillon,...

Acompanhando as suas deambulações vamos conhecendo a ilha, imersos na natureza que nos invade, e ficamos com um retrato preciso da Terceira, avistando ao longe a Graciosa e S.Jorge.

À chegada ao aeroporto das Lages, vamos conhecendo a morfologia da ilha

Ficamos a conhecer a fauna A flora da ilha. As cores e os cheiros da terra

Seguindo José Artur na sua viagem à volta da ilha, e do seu mundo interior, enquanto meditava nas suas frustrações, na sua indecisão com Luísa, na ligação com o filho André. vamos conhecendo os seus humores, as descobertas sobre si mesmo, e a descoberta de pessoas, rituais e acontecimentos passados

Os seus humores, enquanto calcorreava a ilha, por vezes em sintonia outras vezes contrastando com o clima, ao longo de mais de um ano, descrevem-nos as quatro estações desse ambiente instável, onde ainda por cima o tempo mudava de um momento para o outro, num curto espaço de vinte e quatro horas.

Com a inclemência de um clima que não deixa sequer criar uma horta, a exuberância da natureza aparece como a verdadeira personagem nesta história, neste olhar sobre os Açores, sobre ‘a identidade de um pequeno povo’83, da sua ilha e do seu Arquipélago de afectos.

E escreve a João Torcato Salvaterra, na sua carta de demissão ‘do último paraíso do planeta’: ‘estas ilhas estão entre os mais belos e autênticos lugares do mundo’355.

 MALO  MORI  LIBERI  QUAM  IN  PACE  SUBJECTI  386

 

                                           José Artur _ em busca do tempo perdido

                                                            por Ângela Melo

 

Se Arquipélago fosse um filme, inclinação que o texto não enjeita, a câmara teria de seguir José Artur em filmagem contínua. Mas José Artur, a personagem aonde toda a acção converge, não chama a si a função de narrador.  

Em Arquipélago o narrador é soberano e anónimo. Conta a história no pretérito e na terceira pessoa e é dentro da sua fala que espontaneamente surgem as falas directas das personagens, algumas em registo mimético do dizer local.

É ao abrigo desta encenação que se desdobra uma narrativa eficaz que parece nascer sem dor de parto. Uma escrita arejada e cromática, sem aparato nem opacidade, que se mantém ao largo da fundura das personagens preferindo-lhe uma pronúncia leve, algo cinematográfica, através de sinais - o puxar repentino de um cigarro, o sacudir do corpo na cadeira, o desvio do olhar…

 

O romance mantém-nos por bom tempo confusos e expectantes: uma linha de tempo hábil, de cronologia sinuosa, a suster um assunto que não se identifica – uma encruzilhada de situações, dilemas e assombrações dispersas, em simetria com o próprio doutoramento de José Artur, destituído sequer de um problema científico definido, um labirinto sem fio condutor. Mais à frente a dispersão começa a arrumar-se em sequências lógicas, desenhando um trajecto que tudo irá ligar e a tudo dará um propósito. O acaso não existe, o que parecia de pontual efeito era afinal cúmplice do mecanismo da peripécia, como no policial ou na tragédia clássica.

 

Com outras afinidades, ora ao romance de atmosfera, a parte sensorial do ambiente possui, em Arquipélago, protagonismo próprio, actua como estimulante.

É à vista do oceano, abissal, misterioso e insondável, que o romance elege um chão bem assente em realidades sensíveis. Do mosaico de cerrados e matas às espécies botânicas, um verdadeiro catálogo e outro maior ainda para cheiros e sabores culinários, como o clímax olfactivo das especiarias do Basílio Simões, ou os petiscos da taberna do Cabrinha, esse absoluto em matéria de palato. Por sua vez o clima é acometido com o rigor de um analista, só o spray marítimo merece um glossário - da ressalga às neblinas, dos padrões de nuvem à tendência dos nevoeiros…e de novo os cheiros e sons da paisagem, o toque a enxofre da atmosfera, a transpiração da lava quente e da bagacina, o estrondar das ondas contra a rocha…

As coisas parecem tomadas de vida e intencionalidade, a escrita está impregnada de animismo:

A lâmpada da rua espalhava uma luz ténue, que chegava a desfalecer aos vidros da janela. 334 

Um dia floriu o jasmim e a ilha como que tornou a mudar de identidade.183

Mas todo este mundo impressivo não se confunde com o apelo de um inventário. Serve para activar as memórias em estado latente, para conduzir José Artur a terra firme e se atrever na procura do tempo perdido. O tempo a que talvez tivessem de recuar se quisessem começar de novo. 151     

 

Recuar ao tempo arcaico?

A Atlântida, Platão, os Fenícios ou o povo dos Açores anterior aos portugueses. Chegam todos ao romance por um esboço de epopeia que não se deve à mão de Joel Neto. Nasceu e andou a ressoar por algum tempo no meio académico, não só açoriano. Mas afinal era um mito, nada foi provado.

 


 

O interesse pelas hipóteses abertas não se extinguiu mas ficou confinado ao espaço literário, como demonstra o autor ao trazer para a Terra Chã outras mitologias da centralidade: o axis mundi, pilar cósmico que conecta passado e futuro, céu e terra, intuído por José Artur frente à Rocha de Chambre; mais o ônfalo da Grota do Medo, o umbigo-centro do mundo, ambos a apontar para uma ordem cósmica que tudo rege e a que tudo se submete, o destino a que não se escapa. Por certo medos e entusiasmos de um professor de Civilizações Pré-Clássicas durante uma fase ansiosa e indecisa da sua vida, onde fantástico e histórico alimentam o romance com impasses e expectativa.

 

É com a sugestão de um ethos para a Terra Chã que Joel Neto irá vitaminar e ao mesmo tempo desembaraçar a trama. Um complexo de antigos embustes e vilanias é posto a circular no território isolado de uma micro sociedade patriarcal quando, na luta pela vida, se cede à tentação do instinto, bem ilustrado na parábola do cagarro: - Deixa-o morrer, só um em cada dez consegue alcançar o seu destino.    

 

Serão então os enigmas, as culpas ou o ressentimento dos antepassados a marcar o tempo a que é preciso voltar para começar de novo.  Ao conseguir dissipá-los, José Artur desata o nó dos fracassos que ele próprio transporta como ruínas penduradas à cintura. Haviam passado trinta e três anos sobre o sismo que fizera desabar as casas da ilha.

E aí parece estar outro tópico, essencial para a catarse do desfecho, a ruína e o reerguer a partir dela, um investimento que Joel Neto trata quase ao nível de uma saga – a reconciliação das partes separadas, o esconjuro dos atravessados à má-fé, a decifração do vestígio, a construção da ordem que configura o escombro, já não a ordem cósmica mas a microcósmica, bem no umbigo do humano, transfer simbólico que parece aludir à maturidade conquistada por José Artur, por fim agente do seu destino.

Depois de comprar a casa do avô e de recuperar o seu velho boca de sapo José Artur vê-se, pela primeira vez (…) acometido de uma inusitada paz (…) que de repente parecia ter lá estado o tempo todo à sua espera.253

 

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Uma trama complexa e bem montada, que não deixa de envolver significados que a transcendem, mas polarizada em torno de labirintos que nos prendem a atenção mas não nos conseguem magnetizar.

 

The last but not the least, Luísa. A personagem mais silenciosa e talvez a mais sugestiva do romance. - Era como se as coisas continuassem a ganhar vida à sua passagem. 96 

Dentro dos géneros que vai cruzando, Arquipélago não deixa de ser um romance de amor. 

 

 

Ângela Melo,

10.06.2025

                           Açores _ o eterno apelo do retorno à ilha

                                                          por Alexandra Azevedo

José Artur, o neto de José Guilherme, saiu da ilha Terceira,  ainda criança, na sequência do terramoto de 1980. Mas o eterno apelo do retorno à ilha que afecta todo o açoriano que sai para o “continente” irá acabar por obrigá-lo a voltar. Olhando para trás, José Artur reduz a sua vida no continente  a “uma sucessão de passagens e de fugas. A mudança para Lisboa, a separação dos pais, o estrelato no liceu, o estrelato na faculdade e o estrelato na investigação, depois transformado num brilho modesto e daí numa sombra de si próprio ­­– era como se de nada disso ele tivesse sido protagonista, mas quando muito testemunha, numa cidade de cheiro insalubre a que nunca teria podido chamar sua” (p.144)

O açoriano nunca pode chamar sua a uma terra que não seja a sua ilha natal.

Este  desenraizamento, no entanto, não parece afectar de igual modo o emigrante económico que partiu para o Canadá ou os Estados Unidos. É como se essa decisão, porque  motivada por razões de sobrevivência, não configurasse uma traição à ilha, mas apenas um  destino que há que cumprir, o destino de  quem é pobre.

Por outro lado, o sentimento de traição que leva ao regresso não atinge por igual homens e mulheres. As mulheres ainda que sentindo as naturais saudades de quem partiu, parecem prezar mais aspectos concretos da vida quotidiana e familiar e as facilidades que uma cidade grande proporciona. É como se a responsabilidade social, o dever de ficar para participar no desenvolvimento do lugar onde se nasceu, não fizessem parte das suas preocupações nem dos seus deveres. É como se o ágora continuasse a ser exclusivamente masculino. 


Não por acaso, portanto, é em José Artur que o autor projecta o remorso de ter abandonado a ilha e o consequente retorno. Mas, como é obvio, o espaço romantizado e idealizado na distância, revela-se na sua realidade menos radiosa e as descobertas sucedem-se:  “Um ritual macabro, os ossos de uma criança desaparecida há muitos anos, a informação de que o avô estivera preso, desconfianças e ressentimentos entre vizinhos – era demasiada matéria, e demasiado contraditória, a não ser  talvez que um homem estivesse preparado para chegar a conclusões definitivas sobre a omnipresença do Mal” (p. 263)

Também Joel Neto regressa à ilha Terceira depois de viver largos anos  em Lisboa. Poderá, assim,  haver algo de autobiográfico neste romance, na ânsia do retorno e no embate com a realidade. Mas, seja como for,

o homem açoriano nunca pode chamar sua a uma terra que não seja a sua ilha natal.

 

Alexandra Azevedo

Junho  2025