Camilo
vs Calisto: pontos de contacto e de afastamento
São
muitos os pontos de contacto entre Camilo, Camilo Ferreira Botelho Castelo
Branco e Calisto, Calisto Elói de Silos
e Benevides de Barbuda, a sua criatura.
O
herói de “A Queda de Um Anjo” é um fidalgo de Trás-os-Montes, tal como Camilo
cujo pai era um fidalgote transmontano,
e o próprio nome da personagem é significativo na medida em que, sob um
sorriso irónico, traduz uma determinada atitude mental e ideológica. Calisto
vive no Portugal profundo, em Caçarelhos, um burgo perdido em Trás-os-Montes,
num Portugal cristalizado no tempo que, no século XIX, vive à margem de todas
as transformações, uma sociedade anquilosada sustentada numa economia agrária
ultrapassada. É aí que se ergue a figura do herói do romance como a personagem
dominante da terra.
A sua formação é, claramente, uma recriação literária da própria experiência biográfica de Camilo. Calisto é o retrato de Camilo antes de este ir para o Porto. Nascido em Lisboa, Camilo ficou órfão muito cedo e foi viver com uma tia paterna , em Vila Real e , mais tarde , para casa de uma irmã mais velha em Vilarinho da Samardã, uma pequena povoação transmontana. Esta última mudança trará também mudanças profundas na sua educação graças à influência de um padre, familiar do cunhado que o iniciou na leitura dos clássicos.
Tal
como o seu criador, Calisto é versado em latinidades, tem conhecimentos de grego,
é grande leitor dos clássicos latinos e portugueses e um profundo conhecedor de
crónicas e genealogias. Calisto é um tradicionalista do ponto de vista
literário e social. Vive no século XIX como se fora no século XVII.
Também do ponto de vista político, Calisto se aproxima
de Camilo. Este último dizia de si próprio ser “um português velho”. Era
miguelista do mesmo modo que Calisto
se afirma legitimista. Calisto é um
idealista ingénuo em Caçarelhos tal como
Camilo o era em Samardã. Há, assim, ao longo da narrativa, um olhar
simultaneamente irónico e compreensivo do
autor face à personagem que se apresenta
como o seu alter-ego. Esta ironia amável
estende-se mesmo depois da
transformação que Lisboa opera em
Calisto, quando este , como o seu autor quando foi para o Porto, entra
definitivamente no século XIX com tudo
quanto de positivo e negativo isso implica.
Do meu ponto de vista, Calisto
só se afasta de Camilo na medida em que ao contrário do seu criador é uma personagem de ficção. Ou talvez não.
Talvez esse seja, apenas, mais um ponto de contacto.
A s A Sátira em CAMILO CASTELO BRANCO
por Ângela Melo
pppp
A escrita de Camilo não corre vagarosa entre
os meandros do sublime ou da metafísica – Calisto Elói não é o jovem Werther da
Agra de Freimas.
A escrita de
Camilo é torrencial, corta a direito e vai certeira ao ponto. Frases curtas e
concisas, mas cheias de combustível.
Ao juntar palavras sem afinidade
semântica, Camilo força o trânsito do significado. Contudo, a metáfora não convida
ao dilema, desagua sem complicação num imaginário imediato de apreciável
magnitude sísmica. E aí saltam as emoções, as faíscas do texto, salta a
imparável sátira:
(…) engoliu o morgado três frases de polpa, que lhe
inflavam os bócios e foi ao jantar, sacrificando-se às inalteráveis
horas de repasto. 15
Ao
certo, uma eloquência, erudita em vocabulário, instruído sabe Deus por que
in-fólios, fora as partes tomadas ao vernáculo decerto conservadas em salmoura por
serras adentro. Um domínio da língua sem o qual nem metáforas nem ironia poderiam
ser as mesmas.
Já quanto à moralidade (a
existir) fica-se desconcertado com o romance.
Percebe-se que Camilo não é piedoso, mas ao cotar a sátira em tal
apreço deixa-nos a oscilar entre
o riso e uma provocação - a ambivalência do ponto de vista do autor.
O amor, esse bom tirano
Calisto estreia-se
no sobressalto erótico e transfigura-se. Abandona antigos
vínculos, esposa incluída,
e passa a conviver com os inimigos - o progresso,
o luxo, o amor interdito. Camilo não lhe impõe expiação ou funesta
consequência. Amor e desejo mais se parecem aqui com uma prontidão biológica,
uma força vital.
Um atalho para o “eu absoluto”, um aceno
do romântico? Um conhecimento de causa?
O amor como redenção
Adão, segundo o mito bíblico da Queda, rendido ao pecado e expulso do paraíso, cai na consciência de si sem escapatória: ou se redime pela cruz ou se entrega à perdição. Camilo descompõe o tema. Cria Calisto-anjo (os anjos não têm sexo) e expulsa-o do paraíso tramontano. Mas Calisto não se perde, é redimido pelo amor. Ingressa noutro paraíso, em risonho adultério e luminosa ascensão - de risível a respeitável. O Criador deve ter invejado a felicidade do homem! Por fim, quem cai é a Queda.
A caixa negra de Freud
Camilo não podia conhecer a doutrina do
inconsciente, mas estava a par da desordem que governa a fundura do humano. Uma
dualidade parece habitá-lo, por procuração em Calisto, a quem em simultâneo constrói
e destrói o retrato.
Uma evasão romântica, o romance como um
alter ego? É pela sátira que se distancia do que está tão perto de si, a
dor do conflito interno, o ridículo da ordem social?
Aparentemente,
Camilo segue a direcção do vento progressista – a liberalidade da capital em
contraste com o torpor da província, anacronismo tanto mais didático quanto mais
cúmplice do efeito literário, já que o romance se entrega aí com afincado virtuosismo
cómico.
Mas
talvez Camilo não tivesse antecipado a determinação de Calisto que parece tomar
as rédeas do guião quando, de súbito, homem inteiro e liberto do ancien régime
de província. Não fora a desordeira sátira, e o sortilégio da capital ficaria a
reluzir na mente do leitor. Assim, o que se oferece é um camiliano pezinho
dentro, e outro fora.
Dê as voltas que der, não
desembrulho a ambivalência. Ao procurar
a lógica no dissenso dos contrários caí no logro de fugir à sátira para
encontrar o “próprio” Camilo.
E por mor desta pessoal e privada
Queda, sátira jamais !!!
Ângela Melo
30.10. 2025
A
Queda de um Anjo – a sátira e Calisto Elói
por Blandina Lopes
Em primeiro lugar,
afigura-se-nos relevante definir, muito genericamente, o que é o género
satírico na Literatura, género esse em que se enquadra o romance de Camilo
Castelo Branco (1825-1890), A Queda de um Anjo (1866). Assim,
quando se fala em sátira, estamos a referirmo-nos a uma técnica literária que
ridiculariza um determinado tema (indivíduos, organizações, estados),
geralmente como forma de intervenção política ou outra. O que distingue a
sátira da paródia é que a primeira não tem de ter necessariamente um carácter
cómico, enquanto a segunda tem-no. O humor satírico tenta, muitas vezes, obter
um efeito cómico pela justaposição da sátira com a realidade. O principal
objetivo da sátira pode ser político, social ou moral - e não,
obrigatoriamente, cómico. O humor satírico tende, pois, para a
subtileza, a ironia. É precisamente, quanto a nós, o que se verifica neste
romance de Camilo Castelo Branco, através do seu principal protagonista,
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, cuja queda, no âmbito
nomeadamente moral, vai ser o tema fulcral do mesmo.
Sintetizando, a sátira n'A Queda de um Anjo tem como primordial alvo o desvirtuamento dos costumes e a hipocrisia da sociedade portuguesa do século XIX. Camilo Castelo Branco utiliza o seu protagonista, Calisto Elói, para satirizar/ridicularizar a transformação dos valores rurais e conservadores em face das novas ideias liberais e da vida citadina de Lisboa. Daí, a oposição entre Caçarelhos e tudo o que esta aldeia transmontana representava do conservadorismo do Portugal rural e tradicional e a capital Lisboa e tudo o que representa do Portugal moderno, não só de valores, mas também de ideias e de costumes.
Assim, Camilo dedicou todo o primeiro
capítulo à caracterização, diríamos já com laivos satíricos, do protagonista Calisto
Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, (que) tem
hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos,
termo de Miranda. (…) Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o
filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in
utroque jure.[1](…) Casou o morgado, ao
tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa,
morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa,
ignorante mais que o necessário para ter juízo. (…) Em suma, Calisto era
legitimista quieto, calado, e incapaz de empecer a roda do progresso, contando
que o progresso não lhe entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo. (ps
9 e 11)
O próprio título do romance – A queda de um
Anjo – é já, em si mesmo, uma ironia. A transformação de Calisto Elói é o principal motor da
sátira na narrativa, e isso porque o “anjo que se corrompe”, Calisto Elói, é
inicialmente apresentado com uma pureza e uns ideais ingénuos que o colocam
numa posição elevada, mas a sua "queda" é inevitável. Ao chegar a
Lisboa, ele é seduzido pela vida moderna, o que o leva a "perder" a
sua moral. Além disso, também protagoniza a fragilidade das convicções, uma vez
que tenta defender os seus ideais conservadores no parlamento, mas acaba por
ceder à sedução das ideias e dos prazeres da capital, tornando-se naquilo que
criticava. A sua "evolução" é, afinal de contas, uma regressão
moral. Por outras palavras, o movimento descritivo da
personagem mostra que o narrador o eleva a um tal estatuto social que, mais
adiante, proporcionar-lhe-á uma grande queda, já preanunciada no título
da obra.
Calisto Elói, eleito deputado de Miranda,
muda-se para Lisboa a fim de defender as necessidades do seu município. Por
algum tempo ainda sustenta a pomposa retórica e o conservadorismo no vestir-se,
o que novamente faz dele motivo de escárnio e zombaria pelos membros da Câmara.
Damos a voz ao narrador com a finalidade de ilustrarmos o que acabámos de enunciar:
Ao meio-dia entrou o morgado na Câmara, e fez sensação. As calças de xadrez
eram uma das grandes desgraças, que a Providência, por intermédio do Sr. Nunes
aljubeta, mandara a este mundo. Como se a substância não fosse já um crime de
leso-gosto e lesa-seriedade, ainda por cima as pernas caíam sobre as botas em
feitio de boca de sino, fadistamente. (p 78) Contudo, à medida que
saboreava os ares da capital portuguesa, deparava-se com a modernidade que,
progressivamente, vai interiorizar e adotar.
Assim, pareceu-nos que, com a leitura
intermitentemente saborosa deste romance, Camilo ao ter em vista o
conservadorismo e o moralismo defendidos pelo anjo transmontano, o
desfecho apresenta, no entanto, uma espécie de redenção sem sofrimento, já que,
no final do romance e a despeito do que o próprio narrador ouvia dizer, o
protagonista acabou por ficar a viver com a brasileira D. Ifigénia Ponce de
Leão, com quem teve dois filhos, foi também condecorado com o título de Barão
de Agra de Freimas e, para não ser pouco, com boa saúde e largo capital
financeiro. Resumindo, o que mais nos seduziu em A Queda de um Anjo foi,
exatamente, o facto de Camilo, através da personagem de Calisto Elói e não só,
narrar de modo caricatural, satírico e humorístico, a vida social e política
portuguesa do seu tempo. Quase nos atreveríamos a transpor e a fazer algumas
analogias com o que se passa atualmente. É esse também um dos encantos da
Literatura que, usando artifícios linguísticos e figuras de estilo, pode percorrer
séculos, tornando-se mesmo hodierna.
Não podíamos terminar este breve comentário sem
uma citação situada na Conclusão, em que o narrador diz o seguinte:
Deixá-lo ser feliz: deixá-lo. Calisto
Elói, aquele santo homem lá das serras, o anjo do fragmento paradisíaco do
Portugal velho, caiu.
Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem,
homem como quase todos os outros, e com mais algumas vantagens que o comum dos
homens.
Dinheiro a rodo!
Uma prima que o preza muito!
Dois
meninos que se cavalgam no costado!
Saúde de ferro!
E barão! (p 182)
Clube de Leitura – A Queda de um Anjo,
de Camilo Castelo Branco
[1]
In utroque jure significa "em um e noutro
direito", referindo-se à dupla competência no direito civil e no direito
canónico.
Caçarelhos vs Lisboa
“Remenda teu pano,
chegar-te-á ao ano”, Teodora de Figueiroa
“O luxo(…)é o
espantalho dos ânimos sandios e cainhos.”Libório de Meireles
Em Caçarelhos, terras de Miranda, no-lo dá a conhecer o narrador,
enquadrado por sua ilustre genealogia, títulos e propriedades, traços de personalidade
e interesses, e relação matrimonial com sua prima Teodora, zelosa cuidadora dos
Lares, com criados e animais
incluídos, que, se não estimulava os sentidos, engrandecia o património - por
herança e pelo seu ânimo cainho, consentâneo mais com os padrões locais do que
com os privilégios de nascença - tornando-o o maior proprietário da comarca.
Em discurso directo o encontramos no adro da
igreja de Caçarelhos, ágora paroquial, exibindo sua clássica erudição e
vetustos valores de pendor legitimista. Aí germina e floresce a ideia que o
fará deputado por Miranda, tão cansados andavam os locais de se verem
representados por “uns rapazes bem falantes” eleitos por “Miranda e outros
sertões lusitanos, que desconheciam, topograficamente, em que parte demoravam
os povos seus comitentes, nem entendiam que os aborígenes das serranias
tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regímen
da constituição”(p.17)
“ Irei dizer aos
meus constituintes que não se desfaçam dos cordões e arrecadas de suas mulheres
e filhas, para enfeitarem as gargantas despeitoradas das Lucrécias Bórgias que
custam 40 libras por noite”.
E lembra que “os serranos das
províncias do Lácio não eram constrangidos a pagarem as delícias dos patrícios
romanos.”
Assim falará o deputado por Miranda, ou o provinciano, como por antonomásia é tantas vezes referido, até ser tocado pelo amor e pela sua força transfiguradora, até se apagar Caçarelhos da sua figura e do seu coração e Lisboa entrar, paulatinamente, na forma e nas ideias…e Portugal com ele.
Porto, 7 de Novembro 2025
Camilo Castelo Branco
O “coup de foudre” ou
a energia transformadora da paixão.
por Manuela Pereira
“O amor é tão engenhoso como a natureza” (230)
A primeira vez que avistou a prima Ifigénia, a brasileira, “Calisto
maquinalmente levou a mão ao coração: trespassara-lho uma azagaia eléctrica.”
Assim, nos descreve Camilo o “coup de foudre”. (158)
E continua, contando-nos “como Calisto abriu do peito ´graves e doces
palavras’ e ‘deu largas à sua alma’; ‘como confessou não saber o que era a
felicidade.’ (164/165)
Calisto Elói diz a Ifigénia: “Roía-me o abutre de um desejo vago…” mas “a
sujeição da consciência ao dever… era cerrar os ouvidos da alma”. Disse ainda
que “tinha consumado a paralisia do coração”, e que “a vinda para Lisboa foi
(para ele) o ressurgimento da vida.”, ao achar-se “entre homens aquecidos à luz
deste século.”.(166)
“Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito.” (166)
Como quem ‘desperta a arrancar do peito uma frecha ´;´Foi o estremecer do
Terramoto, que alarma terrores e se aquieta.´. ‘Medi a profundeza da minha
alma, e pude ver que seria capaz de um crime.”.
É esse o momento em que o anjo se transforma em homem.
Quando Calisto Elói vê “uma formosura que dobra a alma” e percebe que há
mulheres “diante das quais um homem precisa de chorar.” (166)
A descrição desta “expansão” que também “foi causa a uma dor” (167),
conta-nos uma “paixão súbita” que, Camilo reconhece, estala ´com estrondos
deste tamanho”, “quando o amor nos assalta de improviso.” (167)
E assim, tal como ao nascer, “o baptismo das doces lágrimas (…) chamaram ‘o
coração à vida.” (167)
Quando se abriram as Câmaras, perante o impávido abade de Estevães, Calisto
afirmou “Estou português do século XIX.”.
E acrescentou : “As ideias não se formam na cabeça do homem; voejam na
atmosfera, respiram-se no ar, bebem-se na água, coam-se no sangue, entram nas
moléculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.”
(212)
Calisto Elói não estava perdido, tinha encontrado a felicidade.
Aprenderá em Paris dois versos de Molière:
(229)
´Quel mal cela fait-il?
La jambe en devient elle
Plus tortue, après tout,
et la taille moins belle?´
A
transformação física de Calisto
por Maria João Leite de Castro
Acompanhando
a sua «queda» (ou evolução) também a transformação física de Calisto é bem
expressiva da radical mudança que se dá na sua vida.
Inicialmente,
o seu guarda roupa era modesto e, com excepção do chapéu armado, do calção de
tafetá e espadim (com que ele, na qualidade de fidalgo/cavaleiro, desfilava nas
procissões de Miranda) tudo nele indicava a austeridade que o norteava, a
veneração do passado e da moral antiga. Vestindo-se nos alfaiates de Miranda,
Calisto usava casaca de briche (sendo que a gola e as portinholas da casaca
eram sérias demais), calças rematando em polainas abotoadas de madrepérola e
botas aguçadas no bico.
Quando
eleito para o Parlamento, o Morgado de Agra de Freimas preocupou-se mais com os
livros que levava consigo e com as garrafas de vinho velho do que com a
modernização da sua vestimenta e, apesar de o abade de Estevão várias vezes o
aconselhar a reformar a sua roupa, Calisto Elói de Barbuda, fiel aos seus
princípios, fugia do luxo, que considerava espantalho dos ânimos sandios e
cainhos (pág.58).
Esse
desajustamento tornou-se motivo de gazeta e também de consternação na capital,
de tal forma que, quando foi visitar D. Bruno de Mascarenhas para o confrontar
sobre a sua relação com D. Catarina Sarmento, o escudeiro anuncia ao fidalgo,
uma «ratazana», segundo as suas palavras, um sujeitório vestido ratonamente (pag.70).
Poder-se-ia dizer que a primeira vez que Calisto sentiu vontade de mudar de fatiota foi quando acometido por um calor de ventosa, acompanhado de vibrações eléctricas e vaporações cálidas, situado entre a quarta e a quinta costela, sintomas físicos de um amor pela primeira vez sentido por D. Adelaide. Foi nessa altura que, para além da repugnância pelo pequeno almoço, o nosso fidalgo olhou também com desdém para a casaca de briche e para as pantalonas apolainadas.
Decidiu
então aprimorar a sua vestimenta e dirigiu-se ao estabelecimento do Sr. Nunes
onde foi vestido com um fato paletó de pano cor de rato e umas calças de xadrez
cinzento e colete azul de rebuço, com botões de coralinas falsas. Comprou ainda
no Chiado um chapéu de molas de merino e outro de castor, à Inglesa. E enfiou
pela primeira vez, e com grande dificuldade, um par de luvas.
Foi
ainda por amor de D. Adelaide que o nosso anjo, já com uma pena caída, decidiu imolar
as delícias pituitárias, substituindo o rapé pelo charuto. E para coroar a
mudança de figurino, transitou progressivamente da pêra e meia barba, para um
bigode, trocou os seus velhos óculos de prata por uma luneta de vidro e molas,
delineou reformas capilares e submeteu-se às orientações do alfaiate
Keil, que falava francês, e ao qual encomendou duas andainas de fato.
Assim,
a quando da chegada da belíssima viúva Ifigénia Ponce de Leão, que mais uma vez
provocou no nosso morgado Calisto uma azagaia eléctrica que lhe trespassou o
coração, tanto a saleta – também ela aprimorada com móveis de nome francês –
como Calisto Elói, estavam prontos para a receber.
Camilo Castelo Branco
“Elogio do adultério ou
amores de salvação”
por Maria Amélia Correia
Calisto Elói regressou de
Campolide humilhado, com a dignidade esfrangalhada, mas não a tal ponto que lhe
tenha tirado o apetite. Antes de se entregar nas asas de Morfeu, embutiu uns
ovos estrelados com presunto, que isto de ir para a cama de barriga vazia só
para heróis românticos…
Fez ele bem, pois o
destino reservara-lhe uma excecional surpresa - a visita de D. Ifigénia de
Teive Ponce Leão. A história desta belíssima viúva era de fazer chorar as
pedras da calçada e as carências serôdias do morgado predispunham-no a engolir
araras, tanto mais que estas vinham diretamente do Brasil. A beldade já tentara
impingir sua história a outros, pretensamente parentes, mas saíram-lhe uns brutos,
que não foram em arolas, não reconheceram qualquer parentesco não se condoeram
com a pobre viúva, nem se deixaram seduzir por ela.
O morgado, cavalheiro
sentimental, generoso e carente, encontrou de imediato ligação entre eles por
via dos Teive e passou a trata-la por prima. Há que ajudar a prima, que se dane
o trambolho em Caçarelhos, porque quem prova caviar, já não quer caldo com
broa.
Esmeraram-se na troca de galhardetes e o fidalgo como era homem de palavra puxou os cordões à bolsa para presentear a prima com todos os luxos imagináveis.
A morgada de Travanca é que estava à beira de um ataque de
nervos, [MAC1] farejando a traição do marido e principalmente ao ver desaparecer as suas
fazendas que tanto lhe custaram a poupar. Lopo de Gamboa, o primo, começou a
frequentar-lhe a casa, muito a propósito, para a consolar.
Este peralvilho rural vivia
à custa do irmão morgado e tinha má fama no respeitante a mulheres. Lá pelas
terras de Miranda não eram necessários grandes merecimentos, que aliás não
possuía, para seduzir solteiras e casadas. Falava-se à boca cheia da sua sorte
em não ter tido um corretivo à altura, aplicado por irmãos namorados ou maridos
traídos.
Lopo já há muito andava de olho gordo na prima, ou melhor na sua fortuna, um
afrodisíaco capaz de substituir todos os encantos de que Teodora era
completamente desprovida. Vai daí toca de confessar à prima a sua paixão antiga
por ela e como tinha sido para ele um golpe fatal o casamento dela com Elói
O farsola chegou mesmo a
chorar o que deixou a prima com um olhar de parvajola sem saber o que pensar.
Quando morgada de Travanca
pode verificar “in loco” que o seu marido vivia luxuosamente
e maritalmente com a bela brasileira entregou o gove[MAC2] rno da sua casa, assim como o seu coração ao primo
Lopo. “A cintura adelgaçou-se; apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os
quadris; amaciou-se-lhe a cútis; branquearam-se-lhes os braços; escampou-se-lhe
a fronte com riçado dos cabelos; toda ela adquiriu no andar certo requebro e
donaire que lhe ia tão natural como se tivesse sido educada por salas e
adestrada em flexuras de dança”. Obviamente não ganhou a palidez e busto de marfim
da sua concorrente, mas Lopo também não possuía o gosto gourmet que Calisto
havia adquirido.
O tálamo conjugal que só conhecera jejuns e
abstinências regozijou, com os prazeres da carne. A morgada nunca mais viu
teias de aranha no teto pois o seu olhar demorava-se mais no querido esposo e
no pequeno Barnabé que veio alegrar a vida de ambos.
Calisto conheceu o amor e
a felicidade junto de Ifigénia. Refinou os gostos, tornou-se cosmopolita, um
cavalheiro elegante, homem de salão.
Largou os clássicos,
afeiçoado aos romancistas franceses, que lidos perfuntoriamente completaram a
sua educação sentimental.
Tornou-se liberal e
deixou-se de patranhas de moralismos arcaicos e castrantes, para se tornar uma
mente aberta e progressista e mundana.
Ifigénia presenteou-o com
dois meninos loiros e assim conheceu as alegrias da paternidade.
Quanto à fidalga abandonou pitos e
parrecos, deixou de se preocupar com o penso da burra, os alqueires de milho e
a salgadeira, para na intimidade do seu lar, atender ao marido extremoso e ao
menino que se tornara um rapazinho encantador. Aprendeu a bordar tornou-se mais
exigente com as criadas e até recebia parentes para tomar uma xícara de chá acompanhada
de bolinhos.
Os respetivos parceiros, que tiveram
uma vida regalada como jamais haviam sonhado, quanto a mim merecida, pois
fizeram com que os seus companheiros evoluíssem alguns séculos.
Bendito adultério! Perdição não, salvação,
e nisto acompanhamos Camilo, nada como um final feliz.
Maria Amélia L. V. Correia
As mulheres em A queda de um anjo
por Conceição Rocha
As mulheres na Queda de um anjo são
uma pontuação na história de vida de um homem – Calisto Elói de Barbuda,
morgado da Agra de Freimas – que veremos irá abraçar com o mesmo pletórico
entusiasmo as letras clássicas com o seu corolário de moralidade puritana e a mundanidade citadina berço de devotado amor. Teodora e Ifigénia, e passo Adelaide e o
episódio que abalou o lado esquerdo do peito entre a quarta e a quinta costela de
Calisto no salão do desembargador Sarmento, pois a contagem de palavras me
exige economia, são as duas peças-chave daquela vida que se desenvolve em espaços e tempos
distintos – a biblioteca da quinta, onde
diariamente Catões e Sénecas fundamentam o dever ser da vida humana, e Lisboa,
com os seus salões à parisiense, o teatro de ópera e o Parlamento, sede da
verborreia de uma monarquia em decadência, servida por discursadores palavrosos
uns mais legitimistas outros mais progressistas. Calisto
marcha de legitimista quieto, calado e incapaz de empecer a roda do
progresso, a corajoso arauto das ideias iluminadas que ecoam da França e
desabam sem grande entusiasmo dos pares nos bancos do Parlamento.
Dizíamos, pois, que o génio de Camilo nos dá a mulher certa para cada fase de Calisto: A primeira – Teodora – é-nos apresentada com mais abundância de detalhes, mais vocalidade, mais cores emocionais, mais vontade de dominar as situações com energia, quer estas passem pela administração da despensa e da capoeira, quer pelo esforço corajoso de se modernizar e perseguir o criminoso no local do crime, para o trazer à razão, ou seja, a Caçarelhos. Não admira que seja tratada com mais minúcia do que a outra, pois esta ocupa o centro do melodrama, que aliás Camilo reproduz em muitas figuras femininas das suas ficções..
A outra – Ifigénia – parece-me mais
uma personagem queirosiana do que camiliana. Mulher dotada de todos os encantos,
sabendo fazer destes o capital de sedução para um ingénuo neófito da cidade
grande, discreta mas vistosíssima, predisposta a refazer a vida se o for num
palacete com lacaio e governante, caleche, joias e camarote no S. Carlos. A mulher certa para o novo Elói, riquíssimo
das rendas das suas terras e finalmente reconvertido a Voltaire e ao
Iluminismo, ao charuto, à sobrecasaca e à bengala de castão de prata.
Tudo o mais que se possa dizer destas
duas mulheres que exprimem Calisto Elói nos dois grandes momentos da vida será
muito pobre em palavras se não recorrermos às do
próprio Camilo, tão perfeitas estas que cada frase é um retrato, uma escultura,
uma descrição objectivada pelas palavras certas.
Assim,
D. Teodora Barbuda de Figueiroa,
morgada de Travanca, [é] senhora de raro aviso, e muito apontada em amanho de
casa, e ignorante mais que o necessário para ter juízo.
Menina estabilíssima por virtudes, mas mais
feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta.
Duvide-se da pureza das onze mil
virgens, antes de maliciar suspeitas daquela matrona, em tudo romana, do puro
estofo das Cornélias, Pôncias e Árrias.
Ai maridos, maridos! Quando a Providência vos enviar mulheres deste raro cunho, encostai a face ao regaço delas e não queirais saber como é que o inimigo de Deus enfeita as suas cúmplices na perdição da humanidade.
Mas, o amor diz o seu fiat lux
primeiro que Deus.
E disse-o com Ifigénia, a mulher
que o roubou à Pátria, à esposa e aos amigos e [é] bonita como um serafim,
na voz do intriguista Brás Lobato.
Uma mulher daquelas que Lúcifer fazia
quando assaltava no deserto a pudícia dos Antões, dos Paulos, dos Pacómios e
Hilariões.
Ifigénia, a prima que desentranhou
desde o primeiro momento [a Calisto] suspiros cavos, (…) que lhe fez pular como o
arfar de vulcões a vida no peito.
Ifigénia, cuja episódica ausência
era uma serpente de fogo que abafava [em Calisto] os respiradouros das
goelas.
De Ifigénia pouco mais sabemos do que
ser portadora de beleza notável, elegância irrepreensível e oportunismo certeiro.
O seu carácter, o seu dia a dia, o que pensa para lá das conveniências e
circunstâncias, tudo isso é uma discreta ausência de informação, Camilo dá-nos
o escasso quanto baste sobre o seu papel
no coração e na carteira de Calisto Elói.
Teodora continua assim a ocupar o
centro feminino do romance, lutadora agora pela causa perdida de um amor indiferente
aos arroubos, às lágrimas e aos
tratamentos esmerados de salpicões e leite creme.
[A sua] desesperação aumenta à
medida que a fleuma do marido lhe crava o dardo do desengano no coração ainda
fiel [o que] a pôs em começos de tísica.
Mas Teodora reage
com o desespero e a coragem que a imaginação lhe permite: põe as moedas de ouro
a bom recato e parte para o epicentro do pecado, por sorte encontrando quem a atavie melhor e lhe modifique o
penteado. Começa aí um ligeiro laivo de amor próprio, de confiança em si, no
seu discernimento e até na sua figura.
E a novela evolui numa felicidade geral, já que não faltando cabedais a ambas as partes nem conselhos interesseiros por parte do primo Lopo de Gamboa, que nunca deu mau burro ao dízimo em coisas de coração, Teodora, mulher energética e positiva, ao sair de casa da Ifigénia compreende que a consorte fiel, a mulher que fez eclipse nas virtudes conjugais do Industão, sentiu quebrar-se o último cabelo que a prendia à história das esposas exemplares.
Conclui Camilo que a mulher é afinal um mistério. Teodora recupera das feridas conjugais com uma fuga para outra quinta, a de Travanca, onde irá viver com o primo Lopo, este mais de bordeis do que de bibliotecas, e dará à luz um pequeno Barnabé. Possivelmente o recobro emocional ter-se-á devido mais à simplicidade de Teodora e à sua vontade de gerir a vida como geria vinhedos e searas, estábulo e galinheiros. Mas isso sou eu que digo, num momento fugaz de carência de feminismo.
De Ifigénia só sabemos que se acomodou à vida de luxo e conforto, continua o silêncio de Camilo em tratar-lhe emoções e pensamentos, sem desvios por paixões outras que nos levem a desconfiar que a paixão de Calisto não enfrentará as agruras do desencanto. Assim, bela e silenciosa, prossegue a vida com o ditoso Calisto e dois meninos que garantirão sucessão e genealogia ao nosso agora malhado e governamental, no dizer do inconformado amigo e ex-correligionário Abade de Estevães.













