sábado, 9 de maio de 2026

A MONTANHA MÁGICA

 

                             


A Montanha Mágica

 

Temas de reflexão

 

 

·      Hans Castorp, um jovem simples

·      Uns olhos tártaros

·      Settembrini e Nafta_ duelos intelectuais

·      O tempo na montanha mágica

·      A música em Berghof

·      O doce Joachim

·      A relação narrador/narratário

·      Montanha vs planície

·      A sala de jantar

·      Doença e morte em Berghof

·      A varanda

·      «Absolutamente! Permita-me… Arrumado!»

 






Uma pequena abordagem à temática do tempo na Montanha Mágica de Thomas Mann

 por Conceição Rocha

Desde o início da leitura da Obra tive a percepção de que o tema Tempo, ora implícita ora explicitamente,  envolve  toda a acção, todos os pensamentos, todos os sentimentos de um  grupo de pessoas especiais reunidas num espaço especial, em circunstâncias especiais.  E essa pregnância do tempo influenciou-me também a mim, enquanto leitora: a dimensão que geralmente a leitura de ficção me toca enquanto ajuda a passar bons momentos no caminho da conclusão, do que vem aí nas páginas seguintes, do que esta ou aquela personagem se tornaram no fim dos acontecimentos, da imaginação da ou do autor em me contar tudo isso, foi aqui transformado numa certa passividade (activa), em que o que vem na página seguinte é sobretudo da ordem da introspecção. Um romance que para mim careceu de muito tempo não só pela sua extensão, mas sobretudo pelo que mobilizou de adesão a um espaço e um viver da temporalidade completamente fora da minha experiência. Por isso demorei a compreende-lo. Mas não estou aqui para falar do “tempo meu”.

Posto isso, vejamos:

O texto centra-se na personagem Hans Castorp que vem inicialmente passar 3 semanas a um sanatório de montanha para visitar um primo afetado de tuberculose. Esse tempo de permanência vai posteriormente deslizar para 7 anos, até ao início da 1ª guerra. Esta é a dimensão factual do tempo no romance.

O espaço é o sanatório e a sua vida interna, decisivo para entender o tempo, o tempo nesse espaço, por oposição ao exterior, o “lá em baixo”, ou seja, o resto do mundo, dos não doentes, dos não afetados.


Existem nesses dois espaços, com particular importância para o primeiro, outras personagens decisivas – o humanista-racionalista Settembrini, o emotivo, autoritário e de triste fim Naftta (as duas faces da História), o extrovertido Mynheer Peperkorn e Clawdia Chauchat, a mulher sujeito e objecto de desejo. Os médicos também intervêm mas, no que diz respeito à dimensão temporal, com menos importância. E o resto dos doentes e funcionários completam a paisagem espácio-temporal como personagens, em que a única dimensão temporal que se adivinha ocorre quando há sinais de morte.

O Tempo

Há no romance dois tempos: aquele em que decorre a narrativa, o tempo em que Thomas Mann baliza o romance e o tempo do interior das personagens, o tempo sentido particularmente pelo Hans Castorp, tempo interior, que por ele é sentido em forma de tédio, de divisão de tarefas repetidas até à exaustão ainda que refletidas e por vezes emocionais, introspectadas, interiorizadas, ocasionalmente inquietas pelos seus pensamentos e pelos debates entre Nafta e Settembrini ou inspiradas pela desejada  Clawdia Chauchat.

O tempo no sanatório é abolido. Settembrini diz em determinado momento – “o tempo do sentimento eliminou o tempo dos relógios”. Os pensionistas nunca discutem o sentido do tempo que decorre entre a sua entrada, o quotidiano de refeições abundantes, descansos, tratamentos e algumas diversões e o fim da estadia, ou melhor, um fim para a estadia. Este facto distingue os que vivem em baixo, na planície e os de cima, no sanatório. Pergunto-me: a Montanha será mágica por isso?

Thomas Mann encontra forma de nos transmitir a pregnância da temática do Tempo fazendo-o tema de debate conjuntamente com a Morte e a Cultura, entre Naftha e Settembrini e a observação inquietada de Hans, que confessa um dia estar farto da “vida horizontal”, desencarnada de tempo,  junto de Joaquim e depois consigo próprio nas suas rotinas.  Ele não está em harmonia com o mundo. A sua passividade, geralmente lúcida, fa-lo pairar sobre o tempo que flui, ou mesmo fora do tempo. Nessa bolha de si mesmo podemos incluir o desejo por Clawdia e a reflexão sobre as duas propostas de leitura do mundo que Settembrini e Naftha lhe querem inculcar (aquela humanista, a outra autoritária, a guerra e a paz, a democracia e a autocracia). Os dois amigos inseparáveis, sempre enredados em debate sobre o valor das pessoas e a sua complexidade, são considerados por Castorp adoráveis tagarelas que ocasionalmente lhe induzem produtivas abstrações sobre o bem e o mal, mas nunca propósitos de planear um futuro.

No fim da narrativa Thomas Mann escreve sobre o tempo, a meu ver,  de uma forma mais visível e ainda mais significativa do que  no resto do romance. Num primeiro momento, aqueles 3 dias que medeiam entre a marcação do duelo e a sua concretização, depois as horas, depois os últimos preparativos, são particularmente sentidos por Castorp e por mim leitora, na ânsia de um desfecho de desistência ou de morte. Aí o tempo surge vivo, concreto, dramático, sofrido até ao último minuto.

Num segundo momento, mais longínquo, sete anos passaram com a presença de Hans Castorp e poder-se-ia dizer “que se tratava de um espaço de tempo mítico e pitoresco”. Anódino nas suas rotinas, pontuado pelos acontecimentos que constituem a pequena grande história do Berghof e da planície. Hans terá percorrido todas as mesas, até a dos russos maus, agora melhores, terá deixado despontar uma barbicha incipiente, o seu vestuário mostraria algum desleixo fruto da rotina e os próprios médicos, enfermeiras e pessoal tendem a deixa-lo em paz, como se faz àqueles que temos garantidos na nossa paisagem quotidiana. O Tempo, “mas não o que é medido pelos relógios da estação de comboio, cujo ponteiro avança aos solavancos de 5 em 5 minutos – o tempo dos relógios pequeninos (…) comparável ao do crescimento da relva, que nenhum olho humano vislumbra mas que todavia não para de suceder (…), o tempo, dizíamos, tinha prosseguido ao seu ritmo imperecível, sinuoso, secreto e contudo diligente, a produzir mudanças”. Essas mudanças vão liquidando o sentido de liberdade do nosso protagonista, que deixa de descer ao vale, e deixa de se  corresponder com a  família .

Num culminar de desprezo passivo pelo tempo, “assim jazia Hans Castorp na sua cadeira de repouso e assim completava o ano novo, pela sétima vez, no pino do verão – altura da sua chegada – o seu ciclo”;  não manda consertar o relógio nem renova o calendário, fazendo-o em nome da liberdade. Até ao colapso, o golpe no andar dos dias que representa uma guerra, fábrica de fim do tempo de vida para os que vitima.

Poderia falar de vários outros intervenientes separados por um certo nevoeiro das personagens centrais, personagens que circulam entre a sala de jantar, os quartos, as varandas de descanso e os consultórios sempre num tempo circular só interrompido pela morte ou por saída precária, mas pouco acrescentaria a essa temática do tempo sem tempo verbalizado, sentido em si mesmo a não ser por pequenos acontecimentos que abrem alguma brecha na ementa monótona do quotidiano. No entanto é justo lembrar que dessas rupturas ocasionais também foram responsáveis o exuberante Mynheer Peperkorm e  Clawdia Chauchat, cada um a seu modo.

A dimensão do tempo suspenso, intemporal, indizível acaba. A 1ª guerra fere mais ferozmente a vida “de cima”, que é já em si uma ferida que, porque permanente, se torna exterior ao próprio Tempo.

 

Porto, Abril de 2026


 

                            Hans Castorp, um jovem simples

                                     por Alexandra Azevedo

      Começar a leitura de A Montanha Mágica não foi, para mim, a habitual emoção de imergir numa aventura nova.

     A princípio um pouco entediada, aborrecia-me  com o peso incómodo das muitas páginas, da letra miudinha, das  personagens e da história parada. Sim, a história estava sempre parada. Aliás, eu já temia isso  depois de ter lido o “Propósito” em que o autor tem a gentileza de nos alertar que a leitura que se avizinha não será tarefa breve _ “desde quando é que o prazer ou o tédio despertados por uma história são consequência do espaço ou do tempo que ela nos toma?” tal como breve não foi a sua escrita: “Não será, pois, num abrir e fechar de olhos que o narrador conseguirá contar a história de Hans. Nem os sete dias da semana, nem os sete meses do ano serão suficientes para tal feito. O melhor que ele  tem a fazer é não tentar prever quanto tempo se manterá envolvido em tal projecto. Sete anos é que decerto – Deus nos valha - não serão precisos!”

     Iniciei pois a leitura, desconfiada destas  premissas em que o próprio autor antecipa as prováveis reações negativas dos seus leitores, mas não foram sete dias, nem sete anos, nem mesmo sete meses que demorei a subir a montanha. Foram quatro meses

     Durante quatro meses, deitei-me, disciplinadamente, todas as noites com Hans Castorp. Acabei por me afeiçoar a ele. Preocupava-me:  Põe o termómetro! dizia-lhe. Não fiques tanto tempo à noite na varanda! Ainda ficas mesmo doente! Nunca se sabe o que vai na cabeça de um escritor e  pode mesmo resolver que no final tu também morres para provar uma qualquer teoria da vida humana, um qualquer sentido último das coisas que os grandes autores sempre inventam. Seria sempre só no final, pensava eu com algum alívio. E, assim, eram, pelo menos 832 páginas de vida que esperariam Hans.

      Gostar de Hans foi fácil porque Hans era um jovem simples. Nunca foi excepcional em nada, nunca fez nada de heróico, nem manifestou  desde cedo nenhum sonho de grandeza. E, aparte um certo fascínio pelos barcos “ o que lhe valeu, no fundo, foram as suas origens, o cosmopolitismo dos seus costumes e, por último, uma certa apetência pela matemática ainda que desapaixonada” ( 46) para se  tornar naturalmente engenheiro naval quando procurou “uma profissão que fosse a ideal a seus olhos e aos olhos do mundo” (46) Respeitava o trabalho Como poderia Hans Castorp não respeitar o trabalho? Teria sido contranatura” (47) O que não significava que gostasse de trabalhar.

     Hans era, nas palavras do seu criador “mediano, se bem que num sentido bastante louvável” (45)

     É esta mediania louvável que faz dele a página  em branco que Settembrini e Naphta disputam à vez. Os dois intelectuais desejam influenciar o jovem Hans tanto quanto este deseja ser influenciado. Hans não tem um parti pris. Ouve ambos os pedagogos com o mesmo interesse e respeito. Como talvez o próprio autor teria, na sua juventude , estado receptivo a tudo quanto pudesse informá-lo e sobretudo formá-lo. O bildungsroman, o romance de formação que Montanha Mágica constitui, deixa, no leitor, este sentimento de que Hans é o próprio Thomas Mann em jovem, aberto a todas as explicações do mundo, respeitoso de todos os pontos de vista. Mas inequivocamente há uma escolha que vai fazendo, cada vez com mais clareza, pelas ideias humanistas e progressistas de Settembrini, abandonando o misticismo e o autoritarismo de Naphta que começa a qualificar como “o feio Nafta” , acabando por lhe dar como destino o suicídio, suicidárias que  foram as suas ideias de autoritarismo que o mundo conheceria  mais tarde. Na planície.

 

Mann, T (2009) A Montanha Mágica, Publicações Dom Quixote, Alfragide

A MONTANHA MÁGICA

 



                                      A música em "A Montanha Mágica"

                                                      Thomas Mann


                                          


                                                  por Ângela Melo

 

    O dia-a-dia do Berghof descrito com a precisão e cadência de um ritual. Thomas Mann prende-nos à experiência do tempo no sentido metafórico, mas também literal.  Um embuste, este da transposição do leitor, que adverte para o alcance simbólico do texto. Suspeita-se então que coincidências de forma ou de significado não sejam apenas fortuitas mas possam assinalar relações com outras essências. Entre muitas, a música, já que o próprio Mann se incluía “nos músicos que se juntaram às fileiras dos escritores” e admitia fazer uso de esquemas musicais: a forma Sonata e os Leitmotive. Os últimos, temas recorrentes que na versão operática se concretizam por temas curtos ou frases musicais, associados a personagens, lugares ou estados de alma. Operam como anúncio, acentuação de uma entrada ou como presença de uma ausência, servindo de subtexto e reforçando a unidade da obra. Wagner usou-os de forma dinâmica, indo além da repetição pura.  Bem mais tarde, o próprio cinema irá recuperar o legado nos efeitos das bandas sonoras, conduzindo emocionalmente a plateia ou multiplicando atmosferas em torno da cena.

Thomas Mann parece enxertar a mesma técnica em passagens da Montanha Mágica, salvaguardado que fique o pendor especulativo da hipótese e dos exemplos à mão: as chegadas tardias de Mme Chauchat à sala de refeições, tão ansiadas por Castorp, que invariavelmente se fazem anunciar pelo estrondo do bater da porta, seguido do deslizar silencioso até à mesa dos russos boa, levando uma mão ao retoque do cabelo preso na nuca e a outra ao bolso do casaco;  ou a repetição inopinada de Tous-les-deux, messieurs…Tous-les-deux, messieurs… o papaguear trágico que identifica a mulher sem nome que veste de negro, mãe de Lauro, o segundo filho moribundo da Tous-les-deux;  ou o invariável acender da luz branca do tecto, ao invés da luz quente do candeeirinho de mesa, um subtexto que acompanha as visitas de Settembrini a Castorp, quando imóvel durante um mês no seu leito de quarto, Settembrini o pedagogo das Luzes, o inabalável da límpida claridade da Razão…

Thomas Mann parece ainda fazer uso dos Leitmotive como forma de coesão do conjunto da sua obra, tendo em conta a recorrência temática - o Tempo, a Consciência e a Morte, a Doença, a Decadência, a Beleza e a Música.  



TEMPO  

É à sombra do bem-estar dos hóspedes que cresce o pressentimento de que algo vai acontecer, de que não existe futuro para ser sonhado. No Berghof vive-se apenas o presente, esse tempo suspenso e prolongado, anterior ao desfecho. O pressentimento como efeito literário equivale na música ao da nota suspensa ou prolongada, um desacorde certeiro que suspende a resolução tonal, tão inquietante de sensação quanto ousado na antecipação da música moderna, como é dado ouvir no Prelúdio de Tristão e Isolda (1857-59), de Wagner, compositor por quem Mann era fascinado.

CONSCIÊNCIA       

O absoluto isolamento na paz branca da montanha. Mas Thomas Mann não deixa o mundo de fora, o das ideias e correntes do pensamento, da ciência, arte ou técnica, o mundo que se atravessa no intelecto e que vai ganhando espaço na consciência de forma sedimentar.   

    À época da Montanha Mágica, a autoridade do tempo uniforme de Newton já tinha sido destituída: Einstein e Henry Bergson haviam demonstrado que espaço, tempo e vivência se influenciam. Por sua vez, é inequívoco o ascendente de Freud e de Jung sobre o Dr. Krokowski, o psicólogo do Berghof que se dedica aos fenómenos do oculto e que disseca a alma e a vida humana dos sonhos. De resto, o retrato espectral de Mme Chauchat (raios X,1895), a luz branca do tecto (néon,1903) e a luz quente do candeeirinho (incandescente,1879), a minúcia construtiva do gramofone e os discos de ebonite (1895), entre tudo o mais da ciência à técnica que profundamente interessa ao autor. 

    Settembrini, o apolíneo amante da razão, o optimista do progresso, e Naphta, o religioso do ressentimento, a ferida aberta pela laicização da “verdade” que à morte atribui força anímica, ambos pedagogos rivais na formação de Castorp. Uma terceira personagem irá impressionar o jovem: Peeperkorn, o rico negociante, de personalidade dionisíaca e corpo de retórica sem verbo. Os extremos oferecidos à consciência de Castorp, numa alusão às inquietações da época.

   

    A resolução dos opostos vai ocorrer no subcapítulo da Neve quando o jovem Hans é colocado perante a morte. O equivalente na música à forma Sonata: apresentação dos temas opostos; desenvolvimento temático com indecisão harmónica; resolução final, por conciliação entre temas ou através de ideia nova. Castorp decide-se pelo meio entre os extremos. Na verdade, encontrar a solidez do centro talvez seja mesmo o cerne da reflexão do romance. 2 ²

MORTE      

    Tannhauser, o cavaleiro trovador da ópera homónima de Wagner, que viveu 7 anos no mágico monte Olimpo seduzido pelos prazeres de Vénus, decide voltar à terra ao encontro do amor espiritual que o há-de salvar. Mas os heróis de Wagner não pertencem à epopeia, acabam sempre tragicamente derrotados.

    Na última cena, Hans Castorp, molhado até aos ossos, corre de espingarda em punho ao crepúsculo de um campo de batalha na Flandres. Canta para si uma das canções de A Viagem de Inverno, ciclo composto por Schubert no ano da sua morte. Aí se narra a história de um rapaz tomado por amor rejeitado que numa noite gelada se força a partir, iniciando uma viagem solitária e sem destino, que mais parece uma viagem interior. A morte, apesar de perseguida, é-lhe negada. Schubert substituiu o título original, Uma viagem de inverno, por A viagem de inverno, vinculando à composição a dimensão intemporal.

 

Angela Melo

11.03. 2026


O ócio discreto da burguesia

                                                                                                                                          

                                                                                                                                          A Montanha Mágica, Thomas Mann, 1924

 

nas altas montanhas

A longa viagem, desde Hamburgo junto ao mar, até às altas montanhas na Suíça, transportara Hans Castorp ___ um jovem simples 18, embora cativante 17 ___ para fora do tempo e do espaço.

Retido no Sanatório Internacional Berghof, situado a meia-encosta entre a povoação no vale e os picos inacessíveis e gelados, foi confrontado com um mundo fechado, onde o tempo quase parara, e com um espaço coberto de neve a perder de vista, onde quase tudo era imutável.

a burguesia moribunda

Mas a existência no Berghof não se assemelhava minimamente à estada num presídio ou numa mina siberiana 547    

Nesse universo fechado, que encerrava a classe alta da sociedade internacional 550, a vida e a morte aconteciam sem sobressalto, com a simplicidade e o ritmo da monotonia diária, com o luxo que as exigências da burguesia doente reclamavam, num mundo antes da I Grande Guerra.

Embora tivesse que renunciar às alegrias e atribulações da humanidade 547, Hans Castorp levava uma vida despreocupada e ociosa, que a doença libertava da censura e do pecado, e que era propícia em tudo 547.

Sentia-se absolutamente pertencente a uma comunidade diferente, mais fechada 552 , onde o mundo apresentava um aspecto de conto de fadas, infantil e excêntrico 549

as forças em confronto

Aqui em cima 26, o ócio do tempo passado na varanda, inconsciente do fardo da vida orgânica 549, comodamente deitado na cadeira de repouso de madeira envernizada…debaixo do guarda-sol 91, nada tinha a ver com o tédio, lá em baixo, na povoação habitada por gente sã,(…) homens e mulheres imbuídos da importância das suas actividades  551 ; nada tinha a ver com o tédio de alguém que trabalhara sempre todo o dia e se encontrava de repente sem trabalho, sem expectativas de uma refeição quente antes que escurecesse, sem um tecto onde se abrigasse, à noite, da neve implacável.

 

 

O ócio liberta ( em oposição a Arbeit macht frei )

Hans Castorp, amava a vida na neve 550, que enchia a alma 541; eram belas estas montanhas invernosas (…) que despertavam sentimentos de respeito 553, sentimentos associados ao sublime e ao sagrado.549 No conforto do Berghof, a suspensão do tempo e do espaço, e a ausência de actividade física, era propícia à introspecção e à meditação; enquanto contemplava a neve e comparava a vida na neve com a vida à beira-mar, meditando na monotonia primordial da paisagem que era comum a ambas as esferas 550, Hans Castorp  reflectia sobre o caracter subjectivo do tempo, a vida e a morte, a saúde e a doença, a beleza e o horror.

Quando passeavam no jardim, assistia aos debates sobre a condição humana, entre as maldades de Naphta 803___oposto à dignidade dos homens e às belas letras 197___ e Settembrini___o homem da razão 803, defensor da vida e da liberdade___, que se confrontavam para cultivar a vontade de formação da juventude ávida de luz 545. Gostava de os acompanhar porque achava que eram ideias dignas de se ouvir, (…) e para as testar no seu foro íntimo 196. Fazia-o no papel de uma pessoa desperta (…) não como um sonhador néscio 196 e tinha a percepção que existia um equilíbrio entre os opostos. Cresceram dentro dele dois desejos: estar sozinho com os seus pensamentos e ter um contacto mais íntimo e mais livre com a montanha devastada pela neve 551 Sentiu vontade de alcançar a pureza dos picos inacessíveis.

em busca de si

Em confronto com a natureza, insondável e indiferente, andava às voltas sobre si mesmo. Meditou quão longe estava o filho da civilização (…) distante e estranho à natureza selvagem e pensou no homem rude que depende dela desde a mais tenra idade, vive com ela numa intimidade austera.554

No silêncio da morte sob a neve 556, sentiu a mesma inquietação que num conciliábulo com Naphta e Settembrini, que levava igualmente a regiões intransitáveis e altamente perigosas. 556

Entre a vida e a morte, Hans Castorp delirava e no seu sonho pensava em Hippe e Clavdia; conclui que só o amor se opõe à morte 578.  O sonho fê-lo acordar para a vida e correr para casa, e com grande liberalidade, por assim dizer, em linha recta, encaminhou-se para o vale 578

Sozinho, perdido na neve e nos seus pensamentos, Hans Castorp___um rapaz sem qualidades___tinha chegado à clareira no meio da floresta, tinha atravessado a ponte sobre o inferno As-Sirãt, tinha-se encontrado a si mesmo e escolhido activamente a vida.

“Finis Operis”

Thomas Mann termina com uma reflexão sobre o horror da guerra, com a incerteza do futuro, e com um fio de esperança: ouvimos Hans a cantar no campo de batalha uma canção de amor. Em nome da verdade e do amor, o ser humano não deve conceder à morte nenhum domínio sobre os seus pensamentos578

 

Clube de Leitura,Janeiro 2026                                                                               Manuela Pereira


 Posfácio

                                                                                                                                          

                                                                                                                                           A Montanha Mágica, Thomas Mann, 1924

Thomas Mann [1912 (…2014-2018…) 1924] ________ Buildungsresender (viajante em formação)        

 

Em A montanha mágica, Thomas Mann fala-nos do ‘mundo de antes da grande guerra, com cujo início tanta coisa começou que praticamente não terá deixado de começar. ´. Proposição 17/18                    Para falar desse mundo, conta-nos a história ‘de um filho problemático da vida837 um jovem estudante de engenharia naval filho da alta burguesia alemã, ‘não por sua causa (…) mas por causa da história’. Proposição 17

Thomas Mann leva-o até às altas montanhas, onde pára o tempo e o espaço. ___ em 1905, Einstein tinha começado a publicar a sua Teoria da Relatividade e a sua concepção de espaço-tempo como uma entidade geométrica unificada. ___ Para que nada perturbe o ócio de Hans Castorp, encerra-o no mundo fechado e ocioso da alta burguesia internacional, que vive a sua época dourada num ambiente de luxo e erotismo, enquanto ignora as difíceis condições de vida do resto do mundo.

O ócio e o lazer são necessários à reflexão e ao debate de ideias ___ Marx tinha-o referido, O Capital – 1867, quando descreve um mundo ideal onde todos teriam tempo livre e ocioso, não só para se divertirem, mas para ampliarem os seus conhecimentos e capacidade de reflexão; em 1935, Bertrand Russell publica O elogio do ócio. ___. Nesse ambiente de ócio criativo, Hans Castorp contempla a beleza da neve e medita, assiste ao confronto ideológico entre Leo Nafta e Lodovico Settembrini, nas suas intermináveis discussões sobre todos os assuntos. E assim se vai apercebendo do mundo em convulsão e do horror da guerra que se aproxima.

No seu tempo de lazer entra no mundo dos sonhos ___ Freud tinha publicado A interpretação dos sonhos – 1899 e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade – 1905___ e Mann convoca o Dr. Krokovsky, ‘psicanalista’ que aborda temas como o amor e a morte na sua conferência ‘O amor como força patogénica ‘146.  Hans Castorp ao entrar no mundo dos sonhos evoca a memória erótica de Pribislav Hippe e vive emoções intensas com a sensual Clavdia Chauchat. Perdido na neve o viajante em formação termina o seu percurso intelectual e espiritual, quebrando as barreiras das antigas convenções sociais, recusando o imobilismo e a atracção da morte; escolhendo o amor e a liberdade. (à semelhança de Thomas Mann?)

Addio, Giovanni mio!’829

 

Clube de Leitura_Janeiro 2026                                                                              Manuela Pereira     




                       A Montanha Mágica: Settembrini e Naphta – duelos intelectuais

                                                                   

                                                                          por Blandina Lopes 

   Thomas Mann, no seu romance A Montanha Mágica (1924), dedica uma parte significativa da segunda metade da obra com um intenso combate de ideias entre os personagens Lodovico Settembrini e Leo Naphta. De um lado, apresenta-nos o advogado do progresso e da organização racional da vida humana, ou seja, Settembrini; do outro, o homem que prega o espírito absoluto e o sobrenatural, ou seja, Naphta. Ambos estão a competir pela formação da alma do jovem Hans Castorp, que é o protagonista do romance.

   Hans Castorp simboliza o jovem alemão pré-guerra, com uma condição de saúde que o prende ao sanatório Berghof, em Davos-Plazt, onde se desenvolve uma discussão filosófica com implicações político-ideológicas entre as figuras de Settembrini e Naphta. A narrativa da obra, por sua vez, combina elementos de romance de formação e ensaio filosófico, abordando temas como: tempo, doença, música, amor e morte.

   Porém, por mais que o desenvolvimento, diríamos mesmo, algo exagerado do debate filosófico deixe, por vezes, o próprio Hans Castorp consternado, o confronto entre os dois personagens simboliza uma controvérsia intelectual que atravessou a Europa a partir do fim do século XIX. O duelo entre Settembrini e Naphta, que será o culminar dramático dos combates intelectuais por eles protagonizados, é um sintoma da excitação nervosa que precedeu a I Guerra Mundial e uma das premonições de uma catástrofe próxima.

   Estes dois personagens representam polos opostos: Settembrini, humanista liberal, defensor do progresso, da luz, do racionalismo, inspirado por tradições italianas de liberdade e revolução; Naphta, jesuíta niilista, retrógrado, crítico do capitalismo, do Estado moderno, da ciência e defensor de uma visão medieval, autoritária e restauradora.

   Assim, enquanto Settembrini valoriza a forma, a cultura clássica, a liberdade e a crítica ao dogmatismo, Naphta critica o racionalismo, a revolução e o progresso científico, defendendo uma mundividência baseada na religião, na tradição e na ordem autoritária. Ambos representam as tendências ideológicas que, à época, polarizavam a Europa, alimentando o conflito político e social, com o duelo que culmina na violência simbólica do final do romance, onde Naphta se suicida e Settembrini renuncia à violência.

   Sintetizando: A Montanha Mágica é um romance que combina narrativa de formação, ensaio filosófico e crítica social, oferecendo uma reflexão profunda sobre o momento histórico europeu e sobre as tendências ideológicas extremas vivenciadas, principalmente, a partir do século XIX e que se estenderam ao século XX. ​Através do duelo entre Settembrini e Naphta, Thomas Mann expõe as contradições e os perigos de uma Europa dividida entre o ideal de luz e o retorno às trevas, evidenciando a complexidade do período pré-guerra e as suas implicações para a história mundial.

 

   Para ilustrarmos o que foi exposto ao longo do texto, nada melhor do que recorrermos às próprias palavras de Thomas Mann, em A Montanha Mágica:

     Settembrini olhou para ele com olhos negros onde se via um brilho melancólico. “Engenheiro”, disse ele, com voz opressa, “Engenheiro”! (…)

   “Quantas vezes lhe disse que é preciso saber o que se é e pensar com propriedade! O que é próprio de um homem ocidental, mau grado todas as Proposições[1], é a razão, a análise, a ação e o progresso – não a cama ociosa do monge!”

   Naphta estivera a escutar. Disse, virando-se para trás:

   “Do monge! É aos monges que temos de agradecer a cultura do solo europeu! Temos de lhes agradecer que a Alemanha, a França e a Itália não estejam cobertas de florestas virgens e pântanos primitivos, mas antes nos forneçam trigo, fruta e vinho! Os monges, meu caro senhor, trabalharam, disso não há dúvida…”

E, mais adiante, o diálogo/duelo intelectual continua afirmando Settembrini: “Ora, deixe-me em paz com a fatalidade! A razão humana só tem de querer ser mais forte do que a fatalidade, e é!”

(Naphta) “Só pode desejar-se o que já é destino. A Europa capitalista quer o seu.” (…) E Settembrini acrescenta: “O Estado nacional é o princípio deste mundo que o senhor gostaria de imputar ao Diabo. Faça, porém, as nações livres e iguais, proteja as pequenas e fracas da opressão, crie justiça, crie fronteiras nacionais…” (Relógio D’Água Editores, 2020, 443-448)

 

 Clube de Leitura

 

A Montanha Mágica, Thomas Mann

 

Blandina Lopes

 

 

 

 



[1] Está a referir-se às 68 Proposições de Miguel Molinos condenadas pela Igreja em 1687 (Bula Coelestis Pastor), que definem o quietismo, uma mística passiva que defendia a aniquilação da vontade própria, contemplação pura e passividade interior como caminho para a perfeição, rejeitando a autoanálise e a necessidade de atos ascéticos para a santidade.



A MORTE EM BERGHOF

por Maria João Leite de Castro

                                                                                                                                      A vida é morrer, não há maneira de dourar a pílula

                                                                                                                  Behren                                                           

Embora subjacente a toda a narrativa, no desenvolvimento do romance, a morte insinua-se, num primeiro momento, como subtil e asséptica. Está latente na desinfeção dos quartos com fumigações de formol, eivada de discrição e consumada “nos bastidores”. O caixão é trazido de manhãzinha, no mais estrito segredo, e a pessoa é levada em certos períodos, por exemplo, durante as refeições, para não incomodar os outros doentes.

A morte que ocorrera dois dias antes no quarto destinado a Hans Castorp, surge minimamente humanizada, pois Joachim referiu ter-se tratado de uma americana, cujo noivo não se comportou propriamente com compostura. Passava a vida a vir para o corredor chorar como se fosse um rapazinho (pág. 28). Eventualmente endurecido pelas mortes que sofrera em criança, Castorp ficou mais impressionado pela tosse cavernosa de um dos habitantes do sanatório do que propriamente por se deitar, na sua primeira noite, num leito de morto, pronto, um leito de morte normal (pág. 35). Na realidade, ele próprio, refletindo sobre a sua relação com a morte, refere que o próprio facto de ter sido órfão tão cedo o faz relacionar-se com a tristeza e com a morte como se estivesse no seu elemento (pag.139). (…) Tu não gostas de ver um caixão? – pergunta a Joachim – (…) acho que um caixão é um móvel perfeitamente belo, mesmo quando está vazio, mas, quando jaz alguém lá dentro, é de uma enorme solenidade, a meu ver. (pag. 139).

A ideia  de venerabilidade da morte, proposta por Castorp, é posta em causa pelo seu tutor, Settembrini, que a rejeita veementemente, considerando que essa ideia é, ela própria, uma doença herdada de uma religiosidade supersticiosa ( para quem a ideia de sofrimento equivalia a um salvo conduto para a entrada no reino dos céus) expulsa pela razão e pelo iluminismo e pelo verdadeiro progresso da humanidade. A única forma saudável e nobre de ver a morte, segundo Settembrini é reconhecê-la como parte integrante da vida. Daí que Settembrini seja apologista da cremação.

No entanto, Castorp discorda de Settembrini e dedica-se, inclusivamente, a visitar os “filhos da morte”, como protesto contra o egoísmo reinante e num espírito médico-espiritual. (pág.359). Parece-lhe imoral o desaparecimento discreto dos mortos, discorda do monopólio da dignidade humana (pag. 349) proposta por Settembrini e a própria ideia de humano que lhe é subjacente: Mas o que quer dizer humano? Humano é tudo. O temor a Deus, com a sua solenidade humilde (…) é uma modalidade muito digna da humanidade, quer-me parecer, e, por outro lado, a palavra “humano” pode servir para cobrir todos os desmazelos e inércias (…) – Pág. 349.

Entretanto, as mortes vão-se sucedendo em Berghof  e algumas delas (as mortes de Joachim, Peeperkorn, Naphta …) vão afetando de forma diferente, mas sempre intensa, o percurso individual de Hans Castorp, eivado de contradições e perplexidades.

Devolvido à planície em cenário de guerra, rodeado de morte anónima e de destruição, o destino de Castorp não nos é revelado, assim como não poderemos supor sequer como as ideias que foram sendo forjadas na montanha resistiriam ao embate da vida real.

Maria João Leite de Castro



 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

 



Camilo vs Calisto: pontos de contacto e de afastamento

por Alexandra Azevedo 

São muitos os pontos de contacto entre Camilo, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco  e Calisto, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, a sua criatura.

O herói de “A Queda de Um Anjo” é um fidalgo de Trás-os-Montes, tal como Camilo cujo pai era um fidalgote transmontano,  e o próprio nome da personagem é significativo na medida em que, sob um sorriso irónico, traduz uma determinada atitude mental e ideológica. Calisto vive no Portugal profundo, em Caçarelhos, um burgo perdido em Trás-os-Montes, num Portugal cristalizado no tempo que, no século XIX, vive à margem de todas as transformações, uma sociedade anquilosada sustentada numa economia agrária ultrapassada. É aí que se ergue a figura do herói do romance como a personagem dominante da terra.

A sua formação é, claramente, uma recriação literária da própria experiência biográfica de Camilo. Calisto é o retrato de Camilo antes  de este ir para o Porto. Nascido em Lisboa, Camilo ficou órfão muito cedo e foi viver com uma tia paterna , em Vila Real e , mais tarde , para casa de uma irmã mais velha em Vilarinho da Samardã, uma pequena povoação transmontana. Esta última  mudança trará também mudanças profundas na sua educação graças à influência de um padre, familiar do cunhado que o iniciou na leitura dos clássicos.


Tal como o seu criador, Calisto é versado em latinidades, tem conhecimentos de grego, é grande leitor dos clássicos latinos e portugueses e um profundo conhecedor de crónicas e genealogias. Calisto é um tradicionalista do ponto de vista literário e social. Vive no século XIX como se fora no século XVII.

Também  do ponto de vista político, Calisto se aproxima de Camilo. Este último dizia de si próprio ser “um português velho”. Era miguelista do mesmo modo que  Calisto se  afirma legitimista. Calisto é um idealista  ingénuo em Caçarelhos tal como Camilo o era em Samardã. Há, assim, ao longo da narrativa, um olhar simultaneamente  irónico e compreensivo do autor face à  personagem que se apresenta como  o seu alter-ego. Esta ironia amável   estende-se mesmo depois da transformação que  Lisboa opera em Calisto, quando este , como o seu autor quando foi para o Porto, entra definitivamente  no século XIX com tudo quanto de positivo e negativo isso implica.  

Do meu ponto de vista, Calisto só se afasta de Camilo na medida em que ao contrário do seu criador é  uma personagem de ficção. Ou talvez não. Talvez esse seja, apenas, mais um ponto de contacto.


A s                                                                        A Sátira em CAMILO CASTELO BRANC

                                                 

                                                                                          por Ângela Melo

 pppp

 

A escrita de Camilo não corre vagarosa entre os meandros do sublime ou da metafísica – Calisto Elói não é o jovem Werther da Agra de Freimas.

A escrita de Camilo é torrencial, corta a direito e vai certeira ao ponto. Frases curtas e concisas, mas cheias de combustível.  

 

Ao juntar palavras sem afinidade semântica, Camilo força o trânsito do significado. Contudo, a metáfora não convida ao dilema, desagua sem complicação num imaginário imediato de apreciável magnitude sísmica. E aí saltam as emoções, as faíscas do texto, salta a imparável sátira:

(…) engoliu o morgado três frases de polpa, que lhe inflavam os bócios e foi ao jantar, sacrificando-se às inalteráveis horas de repasto. 15      

Para o conto do morgado, Camilo providencia uma dicção que parece mais antiga do que ambos, um ecoar remoto, quem sabe, dos sermões de Vieira ou da cronística de um Fernão Lopes…

Ao certo, uma eloquência, erudita em vocabulário, instruído sabe Deus por que in-fólios, fora as partes tomadas ao vernáculo decerto conservadas em salmoura por serras adentro. Um domínio da língua sem o qual nem metáforas nem ironia poderiam ser as mesmas.  

 

Já quanto à moralidade (a existir) fica-se desconcertado com o romance.

Percebe-se que Camilo não é piedoso, mas ao cotar a sátira em tal apreço deixa-nos a oscilar entre o riso e uma provocação - a ambivalência do ponto de vista do autor.  

 

O amor, esse bom tirano 

Calisto estreia-se no sobressalto erótico e transfigura-se. Abandona antigos vínculos, esposa incluída,

e passa a conviver com os inimigos - o progresso, o luxo, o amor interdito. Camilo não lhe impõe expiação ou funesta consequência. Amor e desejo mais se parecem aqui com uma prontidão biológica, uma força vital.

Um atalho para o “eu absoluto”, um aceno do romântico?  Um conhecimento de causa?

 

O amor como redenção

Adão, segundo o mito bíblico da Queda, rendido ao pecado e expulso do paraíso, cai na consciência de si sem escapatória: ou se redime pela cruz ou se entrega à perdição. Camilo descompõe o tema. Cria Calisto-anjo (os anjos não têm sexo) e expulsa-o do paraíso tramontano. Mas Calisto não se perde, é redimido pelo amor. Ingressa noutro paraíso, em risonho adultério e luminosa ascensão - de risível a respeitável. O Criador deve ter invejado a felicidade do homem! Por fim, quem cai é a Queda.   


 

A caixa negra de Freud

Camilo não podia conhecer a doutrina do inconsciente, mas estava a par da desordem que governa a fundura do humano. Uma dualidade parece habitá-lo, por procuração em Calisto, a quem em simultâneo constrói e destrói o retrato.

Uma evasão romântica, o romance como um alter ego? É pela sátira que se distancia do que está tão perto de si, a dor do conflito interno, o ridículo da ordem social?

 

Aparentemente, Camilo segue a direcção do vento progressista – a liberalidade da capital em contraste com o torpor da província, anacronismo tanto mais didático quanto mais cúmplice do efeito literário, já que o romance se entrega aí com afincado virtuosismo cómico.  

 

Mas talvez Camilo não tivesse antecipado a determinação de Calisto que parece tomar as rédeas do guião quando, de súbito, homem inteiro e liberto do ancien régime de província. Não fora a desordeira sátira, e o sortilégio da capital ficaria a reluzir na mente do leitor. Assim, o que se oferece é um camiliano pezinho dentro, e outro fora.

 

Dê as voltas que der, não desembrulho a ambivalência.  Ao procurar a lógica no dissenso dos contrários caí no logro de fugir à sátira para encontrar o “próprio” Camilo.

E por mor desta pessoal e privada Queda, sátira  jamais !!!

 Ângela Melo

30.10. 2025



A Queda de um Anjo – a sátira e Calisto Elói

 por Blandina Lopes

  

   Em primeiro lugar, afigura-se-nos relevante definir, muito genericamente, o que é o género satírico na Literatura, género esse em que se enquadra o romance de Camilo Castelo Branco (1825-1890), A Queda de um Anjo (1866). Assim, quando se fala em sátira, estamos a referirmo-nos a uma técnica literária que ridiculariza um determinado tema (indivíduos, organizações, estados), geralmente como forma de intervenção política ou outra. O que distingue a sátira da paródia é que a primeira não tem de ter necessariamente um carácter cómico, enquanto a segunda tem-no. O humor satírico tenta, muitas vezes, obter um efeito cómico pela justaposição da sátira com a realidade. O principal objetivo da sátira pode ser político, social ou moral - e não, obrigatoriamente, cómico. O humor satírico tende, pois, para a subtileza, a ironia. É precisamente, quanto a nós, o que se verifica neste romance de Camilo Castelo Branco, através do seu principal protagonista, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, cuja queda, no âmbito nomeadamente moral, vai ser o tema fulcral do mesmo.

   Sintetizando, a sátira n'A Queda de um Anjo tem como primordial alvo o desvirtuamento dos costumes e a hipocrisia da sociedade portuguesa do século XIX. Camilo Castelo Branco utiliza o seu protagonista, Calisto Elói, para satirizar/ridicularizar a transformação dos valores rurais e conservadores em face das novas ideias liberais e da vida citadina de Lisboa. Daí, a oposição entre Caçarelhos e tudo o que esta aldeia transmontana representava do conservadorismo do Portugal rural e tradicional e a capital Lisboa e tudo o que representa do Portugal moderno, não só de valores, mas também de ideias e de costumes.


   Assim, Camilo dedicou todo o primeiro capítulo à caracterização, diríamos já com laivos satíricos, do protagonista Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, (que) tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. (…) Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure.[1](…) Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo. (…) Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de empecer a roda do progresso, contando que o progresso não lhe entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo. (ps 9 e 11)

   O próprio título do romance – A queda de um Anjo – é já, em si mesmo, uma ironia. A transformação de Calisto Elói é o principal motor da sátira na narrativa, e isso porque o “anjo que se corrompe”, Calisto Elói, é inicialmente apresentado com uma pureza e uns ideais ingénuos que o colocam numa posição elevada, mas a sua "queda" é inevitável. Ao chegar a Lisboa, ele é seduzido pela vida moderna, o que o leva a "perder" a sua moral. Além disso, também protagoniza a fragilidade das convicções, uma vez que tenta defender os seus ideais conservadores no parlamento, mas acaba por ceder à sedução das ideias e dos prazeres da capital, tornando-se naquilo que criticava. A sua "evolução" é, afinal de contas, uma regressão moral. Por outras palavras, o movimento descritivo da personagem mostra que o narrador o eleva a um tal estatuto social que, mais adiante, proporcionar-lhe-á uma grande queda, já preanunciada no título da obra.

   Calisto Elói, eleito deputado de Miranda, muda-se para Lisboa a fim de defender as necessidades do seu município. Por algum tempo ainda sustenta a pomposa retórica e o conservadorismo no vestir-se, o que novamente faz dele motivo de escárnio e zombaria pelos membros da Câmara. Damos a voz ao narrador com a finalidade de ilustrarmos o que acabámos de enunciar: Ao meio-dia entrou o morgado na Câmara, e fez sensação. As calças de xadrez eram uma das grandes desgraças, que a Providência, por intermédio do Sr. Nunes aljubeta, mandara a este mundo. Como se a substância não fosse já um crime de leso-gosto e lesa-seriedade, ainda por cima as pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino, fadistamente. (p 78) Contudo, à medida que saboreava os ares da capital portuguesa, deparava-se com a modernidade que, progressivamente, vai interiorizar e adotar.

   Assim, pareceu-nos que, com a leitura intermitentemente saborosa deste romance, Camilo ao ter em vista o conservadorismo e o moralismo defendidos pelo anjo transmontano, o desfecho apresenta, no entanto, uma espécie de redenção sem sofrimento, já que, no final do romance e a despeito do que o próprio narrador ouvia dizer, o protagonista acabou por ficar a viver com a brasileira D. Ifigénia Ponce de Leão, com quem teve dois filhos, foi também condecorado com o título de Barão de Agra de Freimas e, para não ser pouco, com boa saúde e largo capital financeiro. Resumindo, o que mais nos seduziu em A Queda de um Anjo foi, exatamente, o facto de Camilo, através da personagem de Calisto Elói e não só, narrar de modo caricatural, satírico e humorístico, a vida social e política portuguesa do seu tempo. Quase nos atreveríamos a transpor e a fazer algumas analogias com o que se passa atualmente. É esse também um dos encantos da Literatura que, usando artifícios linguísticos e figuras de estilo, pode percorrer séculos, tornando-se mesmo hodierna.

   Não podíamos terminar este breve comentário sem uma citação situada na Conclusão, em que o narrador diz o seguinte:

   Deixá-lo ser feliz: deixá-lo. Calisto Elói, aquele santo homem lá das serras, o anjo do fragmento paradisíaco do Portugal velho, caiu.

   Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quase todos os outros, e com mais algumas vantagens que o comum dos homens.

   Dinheiro a rodo!

   Uma prima que o preza muito!

   Dois meninos que se cavalgam no costado!

  Saúde de ferro!

  E barão! (p 182)

 

 

 

 

 


 

Clube de Leitura – A Queda de um Anjo, de Camilo Castelo Branco 



[1] In utroque jure significa "em um e noutro direito", referindo-se à dupla competência no direito civil e no direito canónico.

 

Caçarelhos vs Lisboa

                                                                      por Delfina Rodrigues

“Remenda teu pano, chegar-te-á ao ano”, Teodora de Figueiroa

O luxo(…)é o espantalho dos ânimos sandios e cainhos.”Libório de Meireles

 Caçarelhos e Lisboa, dois espaços geográfica e socialmente contrastantes, adquirem na obra uma importância maior do que um mero palco de acção onde se move o “herói do conto”, o morgado da Agra de Freimas.

  Em Caçarelhos, terras de Miranda, no-lo dá a conhecer o narrador, enquadrado por sua ilustre genealogia, títulos e propriedades, traços de personalidade e interesses, e relação matrimonial com sua prima Teodora, zelosa cuidadora dos Lares, com criados e animais incluídos, que, se não estimulava os sentidos, engrandecia o património - por herança e pelo seu ânimo cainho, consentâneo mais com os padrões locais do que com os privilégios de nascença - tornando-o o maior proprietário da comarca.

 Em discurso directo o encontramos no adro da igreja de Caçarelhos, ágora paroquial, exibindo sua clássica erudição e vetustos valores de pendor legitimista. Aí germina e floresce a ideia que o fará deputado por Miranda, tão cansados andavam os locais de se verem representados por “uns rapazes bem falantes” eleitos por “Miranda e outros sertões lusitanos, que desconheciam, topograficamente, em que parte demoravam os povos seus comitentes, nem entendiam que os aborígenes das serranias tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regímen da constituição”(p.17)

 Parte então Calisto para Lisboa, não obstante a promessa feita a “onze retratos que tinha de onze avós de não voltar a tocar o cancro social com suas mãos impolutas”, após frustrada experiência na Câmara de Bragrança.


 Parte, mas leva Caçarelhos consigo, na bagagem e no espírito: precedem-no duas cargas de livros, “nenhum dos quais tinha menos de 150 anos”; segue-o uma carga de presunto e orelheira e de bom vinho velho; acompanha-o a modéstia e anacronismo do guarda-roupa e um ideário com que pretendia fustigar os desmandos da modernidade e “restaurar os costumes desbaratados”. Chega a Lisboa dez dias mais tarde, com a sua timidez provinciana mas forte determinação moral.

 Depressa se confronta com a profunda assimetria entre a sua mundividência e o modus vivendi da capital:

 Ao “remenda teu pano…” opõe-se o luxo garboso, “o oiro, as pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades.”; à natureza rude de cujo seio acaba de sair, opõe-se “a lavareda destes focos das grandes cidades”; às “boninas da vida campestre”, às virtudes conjugais de Teodora, à “pureza de vida” com que entrara em Lisboa, opõem-se as “devassidões postas em música”, a celebração de Lucrécia Bórgia, a leitura de Balzac,a frivolidade; ao adro da igreja, fórum da discussão da res publica e privada, opõe-se  o Parlamento e sua retórica enfática e os salões privados; a um mundo onde o amor não era necessário para selar um casamento, um outro se impõe onde o amor se procura; ao Portugal velho, enfim, que Caçarelhos aqui representa, sobrepõem-se a ideia nova, o liberalismo, os ventos da modernidade que em Lisboa fervilham.

 É ouvi-lo, na sua primeira sessão parlamentar, qual “ Cícero a delatar a conjuração de Catilina”, a vituperar contra o despesismo da capital, a entrega aos prazeres hedonistas, aos lascivos amores e outras derrapagens da boa moral antiga que as comédias exibem, quando ”o lavrador quebrado de trabalho…se priva do apresigo de uma sardinha…para regalo da capital.”:

   “ Irei dizer aos meus constituintes que não se desfaçam dos cordões e arrecadas de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas despeitoradas das Lucrécias Bórgias que custam 40 libras por noite”.

E lembra que “os serranos das províncias do Lácio não eram constrangidos a pagarem as delícias dos patrícios romanos.”

 Assim falará o deputado por Miranda, ou o provinciano, como por antonomásia é tantas vezes referido, até ser tocado pelo amor e pela sua força transfiguradora, até se apagar Caçarelhos da sua figura e do seu coração e Lisboa entrar, paulatinamente, na forma e nas ideias…e Portugal com ele.

 

Porto, 7 de Novembro 2025


 Camilo Castelo Branco

 

                                                               O “coup de foudre” ou 

                                                        a energia transformadora da paixão.


                                                                     por Manuela Pereira

“O amor é tão engenhoso como a natureza” (230)

 

A primeira vez que avistou a prima Ifigénia, a brasileira, “Calisto maquinalmente levou a mão ao coração: trespassara-lho uma azagaia eléctrica.”

Assim, nos descreve Camilo o “coup de foudre”. (158)

E continua, contando-nos “como Calisto abriu do peito ´graves e doces palavras’ e ‘deu largas à sua alma’; ‘como confessou não saber o que era a felicidade.’ (164/165)

Calisto Elói diz a Ifigénia: “Roía-me o abutre de um desejo vago…” mas “a sujeição da consciência ao dever… era cerrar os ouvidos da alma”. Disse ainda que “tinha consumado a paralisia do coração”, e que “a vinda para Lisboa foi (para ele) o ressurgimento da vida.”, ao achar-se “entre homens aquecidos à luz deste século.”.(166)

“Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito.” (166)

Como quem ‘desperta a arrancar do peito uma frecha ´;´Foi o estremecer do Terramoto, que alarma terrores e se aquieta.´. ‘Medi a profundeza da minha alma, e pude ver que seria capaz de um crime.”.

É esse o momento em que o anjo se transforma em homem.


Quando Calisto Elói vê “uma formosura que dobra a alma” e percebe que há mulheres “diante das quais um homem precisa de chorar.” (166)

A descrição desta “expansão” que também “foi causa a uma dor” (167), conta-nos uma “paixão súbita” que, Camilo reconhece, estala ´com estrondos deste tamanho”, “quando o amor nos assalta de improviso.” (167)

E assim, tal como ao nascer, “o baptismo das doces lágrimas (…) chamaram ‘o coração à vida.” (167)

Quando se abriram as Câmaras, perante o impávido abade de Estevães, Calisto afirmou “Estou português do século XIX.”.

E acrescentou : “As ideias não se formam na cabeça do homem; voejam na atmosfera, respiram-se no ar, bebem-se na água, coam-se no sangue, entram nas moléculas, e refundem, reformam e    renovam a compleição do homem.” (212)

Calisto Elói não estava perdido, tinha encontrado a felicidade.

 

Aprenderá em Paris dois versos de Molière:

(229)

´Quel mal cela fait-il?

La jambe en devient elle

Plus tortue, après tout,

et la taille moins belle?´


A transformação física de Calisto

por Maria João Leite de Castro

Acompanhando a sua «queda» (ou evolução) também a transformação física de Calisto é bem expressiva da radical mudança que se dá na sua vida.

Inicialmente, o seu guarda roupa era modesto e, com excepção do chapéu armado, do calção de tafetá e espadim (com que ele, na qualidade de fidalgo/cavaleiro, desfilava nas procissões de Miranda) tudo nele indicava a austeridade que o norteava, a veneração do passado e da moral antiga. Vestindo-se nos alfaiates de Miranda, Calisto usava casaca de briche (sendo que a gola e as portinholas da casaca eram sérias demais), calças rematando em polainas abotoadas de madrepérola e botas aguçadas no bico.

Quando eleito para o Parlamento, o Morgado de Agra de Freimas preocupou-se mais com os livros que levava consigo e com as garrafas de vinho velho do que com a modernização da sua vestimenta e, apesar de o abade de Estevão várias vezes o aconselhar a reformar a sua roupa, Calisto Elói de Barbuda, fiel aos seus princípios, fugia do luxo, que considerava espantalho dos ânimos sandios e cainhos (pág.58).

Esse desajustamento tornou-se motivo de gazeta e também de consternação na capital, de tal forma que, quando foi visitar D. Bruno de Mascarenhas para o confrontar sobre a sua relação com D. Catarina Sarmento, o escudeiro anuncia ao fidalgo, uma «ratazana», segundo as suas palavras, um sujeitório vestido ratonamente (pag.70).

 Poder-se-ia dizer que a primeira vez que Calisto sentiu vontade de mudar de fatiota foi quando acometido por um calor de ventosa, acompanhado de vibrações eléctricas e vaporações cálidas, situado entre a quarta e a quinta costela, sintomas físicos de um amor pela primeira vez sentido por D. Adelaide. Foi nessa altura que, para além da repugnância pelo pequeno almoço, o nosso fidalgo olhou também com desdém para a casaca de briche e para as pantalonas apolainadas.


Decidiu então aprimorar a sua vestimenta e dirigiu-se ao estabelecimento do Sr. Nunes onde foi vestido com um fato paletó de pano cor de rato e umas calças de xadrez cinzento e colete azul de rebuço, com botões de coralinas falsas. Comprou ainda no Chiado um chapéu de molas de merino e outro de castor, à Inglesa. E enfiou pela primeira vez, e com grande dificuldade, um par de luvas.

Foi ainda por amor de D. Adelaide que o nosso anjo, já com uma pena caída, decidiu imolar as delícias pituitárias, substituindo o rapé pelo charuto. E para coroar a mudança de figurino, transitou progressivamente da pêra e meia barba, para um bigode, trocou os seus velhos óculos de prata por uma luneta de vidro e molas, delineou reformas capilares e submeteu-se às orientações do alfaiate Keil, que falava francês, e ao qual encomendou duas andainas de fato.

Assim, a quando da chegada da belíssima viúva Ifigénia Ponce de Leão, que mais uma vez provocou no nosso morgado Calisto uma azagaia eléctrica que lhe trespassou o coração, tanto a saleta – também ela aprimorada com móveis de nome francês – como Calisto Elói, estavam prontos para a receber.


                                                                                 Camilo Castelo Branco

                                        “Elogio do adultério ou amores de salvação”

                                                 por Maria Amélia Correia

Calisto Elói regressou de Campolide humilhado, com a dignidade esfrangalhada, mas não a tal ponto que lhe tenha tirado o apetite. Antes de se entregar nas asas de Morfeu, embutiu uns ovos estrelados com presunto, que isto de ir para a cama de barriga vazia só para heróis românticos… 

Fez ele bem, pois o destino reservara-lhe uma excecional surpresa - a visita de D. Ifigénia de Teive Ponce Leão. A história desta belíssima viúva era de fazer chorar as pedras da calçada e as carências serôdias do morgado predispunham-no a engolir araras, tanto mais que estas vinham diretamente do Brasil. A beldade já tentara impingir sua história a outros, pretensamente parentes, mas saíram-lhe uns brutos, que não foram em arolas, não reconheceram qualquer parentesco não se condoeram com a pobre viúva, nem se deixaram seduzir por ela.

O morgado, cavalheiro sentimental, generoso e carente, encontrou de imediato ligação entre eles por via dos Teive e passou a trata-la por prima. Há que ajudar a prima, que se dane o trambolho em Caçarelhos, porque quem prova caviar, já não quer caldo com broa.  

Esmeraram-se na troca de galhardetes e o fidalgo como era homem de palavra puxou os cordões à bolsa para presentear a prima com todos os luxos imagináveis.  


 

 

A morgada de Travanca é que estava à beira de um ataque de nervos, [MAC1] farejando a traição do marido e principalmente ao ver desaparecer as suas fazendas que tanto lhe custaram a poupar. Lopo de Gamboa, o primo, começou a frequentar-lhe a casa, muito a propósito, para a consolar.

Este peralvilho rural vivia à custa do irmão morgado e tinha má fama no respeitante a mulheres. Lá pelas terras de Miranda não eram necessários grandes merecimentos, que aliás não possuía, para seduzir solteiras e casadas. Falava-se à boca cheia da sua sorte em não ter tido um corretivo à altura, aplicado por irmãos namorados ou maridos traídos.
Lopo já há muito andava de olho gordo na prima, ou melhor na sua fortuna, um afrodisíaco capaz de substituir todos os encantos de que Teodora era completamente desprovida. Vai daí toca de confessar à prima a sua paixão antiga por ela e como tinha sido para ele um golpe fatal o casamento dela com Elói

O farsola chegou mesmo a chorar o que deixou a prima com um olhar de parvajola sem saber o que pensar.

Quando morgada de Travanca pode verificar “in loco” que o seu marido vivia luxuosamente e maritalmente com a bela brasileira entregou o gove[MAC2] rno da sua casa, assim como o seu coração ao primo Lopo. “A cintura adelgaçou-se; apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os quadris; amaciou-se-lhe a cútis; branquearam-se-lhes os braços; escampou-se-lhe a fronte com riçado dos cabelos; toda ela adquiriu no andar certo requebro e donaire que lhe ia tão natural como se tivesse sido educada por salas e adestrada em flexuras de dança”. Obviamente não ganhou a palidez e busto de marfim da sua concorrente, mas Lopo também não possuía o gosto gourmet que Calisto havia adquirido.

 O tálamo conjugal que só conhecera jejuns e abstinências regozijou, com os prazeres da carne. A morgada nunca mais viu teias de aranha no teto pois o seu olhar demorava-se mais no querido esposo e no pequeno Barnabé que veio alegrar a vida de ambos.

Calisto conheceu o amor e a felicidade junto de Ifigénia. Refinou os gostos, tornou-se cosmopolita, um cavalheiro elegante, homem de salão.

Largou os clássicos, afeiçoado aos romancistas franceses, que lidos perfuntoriamente completaram a sua educação sentimental. 

Tornou-se liberal e deixou-se de patranhas de moralismos arcaicos e castrantes, para se tornar uma mente aberta e progressista e mundana.

Ifigénia presenteou-o com dois meninos loiros e assim conheceu as alegrias da paternidade.

Quanto à fidalga abandonou pitos e parrecos, deixou de se preocupar com o penso da burra, os alqueires de milho e a salgadeira, para na intimidade do seu lar, atender ao marido extremoso e ao menino que se tornara um rapazinho encantador. Aprendeu a bordar tornou-se mais exigente com as criadas e até recebia parentes para tomar uma xícara de chá acompanhada de bolinhos.

Os respetivos parceiros, que tiveram uma vida regalada como jamais haviam sonhado, quanto a mim merecida, pois fizeram com que os seus companheiros evoluíssem alguns séculos.

Bendito adultério! Perdição não, salvação, e nisto acompanhamos Camilo, nada como um final feliz.

Maria Amélia L. V. Correia



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As mulheres em A queda de um anjo

 por Conceição Rocha

 

As mulheres na Queda de um anjo são uma pontuação na história de vida de um homem – Calisto Elói de Barbuda, morgado da Agra de Freimas – que veremos irá abraçar com o mesmo pletórico entusiasmo as letras clássicas com o seu corolário de moralidade puritana  e a mundanidade citadina  berço de devotado amor.  Teodora e Ifigénia, e passo Adelaide e o episódio que abalou o lado esquerdo do peito entre a quarta e a quinta costela de Calisto no salão do desembargador Sarmento, pois a contagem de palavras me exige economia, são as duas peças-chave  daquela vida  que se desenvolve em espaços e tempos distintos – a biblioteca  da quinta, onde diariamente Catões e Sénecas fundamentam o dever ser da vida humana, e Lisboa, com os seus salões à parisiense, o teatro de ópera e o Parlamento, sede da verborreia de uma monarquia em decadência, servida por discursadores palavrosos uns mais legitimistas outros mais progressistas.   Calisto marcha de legitimista quieto, calado e incapaz de empecer a roda do progresso, a corajoso arauto das ideias iluminadas que ecoam da França e desabam sem grande entusiasmo dos pares nos bancos do Parlamento.

Dizíamos, pois, que o génio de Camilo nos dá a mulher certa para cada fase de Calisto: A  primeira – Teodora – é-nos apresentada com mais abundância de detalhes, mais vocalidade, mais cores emocionais, mais vontade de dominar as situações com energia, quer estas passem pela administração da despensa e da capoeira, quer pelo esforço corajoso de se modernizar e perseguir o criminoso no local do crime, para o trazer à razão, ou seja, a Caçarelhos. Não admira que seja tratada com mais minúcia  do que a outra, pois esta ocupa o centro do melodrama, que aliás Camilo reproduz em muitas figuras femininas das suas ficções..


A outra – Ifigénia – parece-me mais uma personagem queirosiana do que camiliana. Mulher dotada de todos os encantos, sabendo fazer destes o capital de sedução para um ingénuo neófito da cidade grande, discreta mas vistosíssima, predisposta a refazer a vida se o for num palacete com lacaio e governante, caleche, joias e camarote no S. Carlos.  A mulher certa para o novo Elói, riquíssimo das rendas das suas terras e finalmente reconvertido a Voltaire e ao Iluminismo, ao charuto, à sobrecasaca e à bengala de castão de prata.

Tudo o mais que se possa dizer destas duas mulheres que exprimem Calisto Elói nos dois grandes momentos da vida será muito pobre em palavras se não recorrermos  às  do próprio Camilo, tão perfeitas estas que cada frase é um retrato, uma escultura, uma descrição objectivada pelas palavras certas.

Assim,

D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, [é] senhora de raro aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o necessário para ter juízo.

 Menina estabilíssima por virtudes, mas mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta.

Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes de maliciar suspeitas daquela matrona, em tudo romana, do puro estofo das Cornélias, Pôncias e Árrias.

Ai maridos, maridos! Quando a Providência vos enviar mulheres deste raro cunho, encostai a face ao regaço delas e não queirais saber como é que o inimigo de Deus enfeita as suas cúmplices na perdição da humanidade.


 

Mas, o amor diz o seu fiat lux primeiro que Deus.

E disse-o com Ifigénia, a mulher que o roubou à Pátria, à esposa e aos amigos e [é] bonita como um serafim, na voz do intriguista Brás Lobato.

Uma mulher daquelas que Lúcifer fazia quando assaltava no deserto a pudícia dos Antões, dos Paulos, dos Pacómios e Hilariões.

Ifigénia, a prima que desentranhou desde o primeiro momento [a Calisto]  suspiros cavos, (…) que lhe fez pular como o arfar de vulcões a vida no peito.

Ifigénia, cuja episódica ausência era uma serpente de fogo que abafava [em Calisto] os respiradouros das goelas.

De Ifigénia pouco mais sabemos do que ser portadora de beleza notável, elegância irrepreensível e oportunismo certeiro. O seu carácter, o seu dia a dia, o que pensa para lá das conveniências e circunstâncias, tudo isso é uma discreta ausência de informação, Camilo dá-nos o escasso quanto baste  sobre o seu papel no coração e na carteira de Calisto Elói.

Teodora continua assim a ocupar o centro feminino do romance, lutadora agora pela causa perdida de um amor indiferente aos arroubos,  às lágrimas e aos tratamentos esmerados de salpicões e leite creme.

[A sua] desesperação aumenta à medida que a fleuma do marido lhe crava o dardo do desengano no coração ainda fiel [o que] a pôs em começos de tísica.

            Mas Teodora reage com o desespero e a coragem que a imaginação lhe permite: põe as moedas de ouro a bom recato e parte para o epicentro do pecado, por sorte encontrando  quem a atavie melhor e lhe modifique o penteado. Começa aí um ligeiro laivo de amor próprio, de confiança em si, no seu discernimento e até na sua figura.

                       E a novela evolui numa felicidade geral, já que não faltando cabedais a ambas as partes nem conselhos interesseiros por parte do primo Lopo de Gamboa, que nunca deu mau burro ao dízimo em coisas de coração, Teodora, mulher energética e positiva, ao sair de casa da Ifigénia compreende que a consorte fiel, a mulher que fez eclipse nas virtudes conjugais do Industão, sentiu quebrar-se o último cabelo que a prendia à história das esposas exemplares.

             Conclui Camilo que a mulher é afinal um mistério. Teodora recupera das feridas conjugais com uma fuga para outra quinta, a de Travanca, onde irá viver com o primo Lopo, este mais de bordeis do que de bibliotecas, e dará à luz um pequeno Barnabé.  Possivelmente o recobro emocional ter-se-á devido mais à simplicidade de Teodora e à sua vontade de gerir a vida como geria vinhedos e searas, estábulo e galinheiros. Mas isso sou eu que digo, num momento fugaz de carência de feminismo.

             De Ifigénia  só sabemos que se acomodou à vida de luxo e conforto, continua o silêncio de Camilo em  tratar-lhe emoções e pensamentos,  sem desvios por paixões outras que nos levem a desconfiar que a paixão de Calisto não enfrentará as agruras do desencanto. Assim, bela e silenciosa, prossegue a vida com o ditoso Calisto e dois meninos que garantirão sucessão e genealogia ao nosso agora malhado e governamental, no dizer do inconformado amigo e ex-correligionário Abade de Estevães.