segunda-feira, 25 de maio de 2026

 

                                                            


                                      A Música em A MONTANHA MÁGICA   


                                                   Por Ângela Melo                                                                                                                                                            

      

  

O dia-a-dia do Berghof descrito com a precisão e cadência de um ritual. Thomas Mann prende-nos à experiência do tempo no sentido metafórico, mas também literal.  Um embuste, este da transposição do leitor, que adverte para o alcance simbólico do texto. Suspeita-se então que coincidências de forma ou de significado não sejam apenas fortuitas mas possam assinalar relações com outras essências. Entre muitas, a música, já que o próprio Mann se incluía “nos músicos que se juntaram às fileiras dos escritores” 1e admitia fazer uso de esquemas musicais: a forma Sonata e os Leitmotive. Os últimos, temas recorrentes que na versão operática se concretizam por temas curtos ou frases musicais, associados a personagens, lugares ou estados de alma. Operam como anúncio, acentuação de uma entrada ou como presença de uma ausência, servindo de subtexto e reforçando a unidade da obra. Wagner usou-os de forma dinâmica, indo além da repetição pura.  Bem mais tarde, o próprio cinema irá recuperar o legado nos efeitos das bandas sonoras, conduzindo emocionalmente a plateia ou multiplicando atmosferas em torno da cena.

Thomas Mann parece enxertar a mesma técnica em passagens da Montanha Mágica, salvaguardado que fique o pendor especulativo da hipótese e dos exemplos à mão: as chegadas tardias de Mme Chauchat à sala de refeições, tão ansiadas por Castorp, que invariavelmente se fazem anunciar pelo estrondo do bater da porta, seguido do deslizar silencioso até à mesa dos russos boa, levando uma mão ao retoque do cabelo preso na nuca e a outra ao bolso do casaco;  ou a repetição inopinada de Tous-les-deux, messieurs…Tous-les-deux, messieurs… o papaguear trágico que identifica a mulher sem nome que veste de negro, mãe de Lauro, o segundo filho moribundo da Tous-les-deux;  ou o invariável acender da luz branca do tecto, ao invés da luz quente do candeeirinho de mesa, um subtexto que acompanha as visitas de Settembrini a Castorp, quando imóvel durante um mês no seu leito de quarto, Settembrini o pedagogo das Luzes, o inabalável da límpida claridade da Razão…

Thomas Mann parece ainda fazer uso dos Leitmotive como forma de coesão do conjunto da sua obra, tendo em conta a recorrência temática - o Tempo, a Consciência e a Morte, a Doença, a Decadência, a Beleza e a Música.  

TEMPO  

É à sombra do bem-estar dos hóspedes que cresce o pressentimento de que algo vai acontecer, de que não existe futuro para ser sonhado. No Berghof vive-se apenas o presente, esse tempo suspenso e prolongado, anterior ao desfecho. O pressentimento como efeito literário equivale na música ao da nota suspensa ou prolongada, um desacorde certeiro que suspende a resolução tonal, tão inquietante de sensação quanto ousado na antecipação da música moderna, como é dado ouvir no Prelúdio de Tristão e Isolda (1857-59), de Wagner, compositor por quem Mann era fascinado.

CONSCIÊNCIA       

O absoluto isolamento na paz branca da montanha. Mas Thomas Mann não deixa o mundo de fora, o das ideias e correntes do pensamento, da ciência, arte ou técnica, o mundo que se atravessa no intelecto e que vai ganhando espaço na consciência de forma sedimentar.   

À época da Montanha Mágica, a autoridade do tempo uniforme de Newton já tinha sido destituída: Einstein e Henry Bergson haviam demonstrado que espaço, tempo e vivência se influenciam. Por sua vez, é inequívoco o ascendente de Freud e de Jung sobre o Dr. Krokowski, o psicólogo do Berghof que se dedica aos fenómenos do oculto e que disseca a alma e a vida humana dos sonhos. De resto, o retrato espectral de Mme Chauchat (raios X,1895), a luz branca do tecto (néon,1903) e a luz quente do candeeirinho (incandescente,1879), a minúcia construtiva do gramofone e os discos de ebonite (1895), entre tudo o mais da ciência à técnica que profundamente interessa ao autor. 

Settembrini, o apolíneo amante da razão, o optimista do progresso, e Naphta, o religioso do ressentimento, a ferida aberta pela laicização da “verdade” que à morte atribui força anímica, ambos pedagogos rivais na formação de Castorp. Uma terceira personagem irá impressionar o jovem: Peeperkorn, o rico negociante, de personalidade dionisíaca e corpo de retórica sem verbo. Os extremos oferecidos à consciência de Castorp, numa alusão às inquietações da época.

 

 


 

A resolução dos opostos vai ocorrer no subcapítulo da Neve quando o jovem Hans é colocado perante a morte. O equivalente na música à forma Sonata: apresentação dos temas opostos; desenvolvimento temático com indecisão harmónica; resolução final, por conciliação entre temas ou através de ideia nova. Castorp decide-se pelo meio entre os extremos. Na verdade, encontrar a solidez do centro talvez seja mesmo o cerne da reflexão do romance. 2 ²

MORTE      

Tannhauser, o cavaleiro trovador da ópera homónima de Wagner, que viveu 7 anos no mágico monte Olimpo seduzido pelos prazeres de Vénus, decide voltar à terra ao encontro do amor espiritual que o há-de salvar. Mas os heróis de Wagner não pertencem à epopeia, acabam sempre tragicamente derrotados.

Na última cena, Hans Castorp, molhado até aos ossos, corre de espingarda em punho ao crepúsculo de um campo de batalha na Flandres. Canta para si uma das canções de A Viagem de Inverno, ciclo composto por Schubert no ano da sua morte. Aí se narra a história de um rapaz tomado por amor rejeitado que numa noite gelada se força a partir, iniciando uma viagem solitária e sem destino, que mais parece uma viagem interior. A morte, apesar de perseguida, é-lhe negada. Schubert substituiu o título original, Uma viagem de inverno, por A viagem de inverno, vinculando à composição a dimensão intemporal.

 

 

Angela Melo

11.03. 2026

 

Bibliografia consultada

1  MANN,Thomas, Introdução à Montanha Mágica. Palestra proferida aos alunos da Universidade de Princeton (EUA), 10 de maio de 1939. 

2   WOOD, James, A herança perdida. Lisboa:Quetzal Editores, 2012. p. 324

 

CICLO DE MIÉRCOLES, O Universo Musical de Thomas Mann. Fundación Juan March, noviembre-diciembre 2014

Disponível em:

VIEIRA DE ALMEIDA, Nuno Miguel Marvão, Perspectivas de interpretação sobre a Winterreise de Schubert. Dissertação de Doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, Fevereiro 2015.

Disponível em:

https://run.unl.pt/entities/publication/7c68f3e7-13b0-4b13-ad79-ca1eacce1e13

 

 

 

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