A Música em A MONTANHA MÁGICA
Por Ângela Melo
O dia-a-dia do Berghof descrito com a precisão
e cadência de um ritual. Thomas Mann prende-nos à experiência do tempo no sentido metafórico, mas também literal. Um embuste, este
da transposição do leitor, que adverte para o alcance simbólico
do texto. Suspeita-se então que coincidências de forma ou de significado não sejam
apenas fortuitas mas possam assinalar relações com outras essências.
Entre muitas, a música, já que o próprio Mann se incluía “nos músicos que se juntaram às fileiras dos escritores” 1e admitia fazer uso de esquemas musicais: a forma Sonata e os Leitmotive.
Os últimos, temas recorrentes que na versão operática se concretizam por
temas curtos ou frases musicais, associados a personagens, lugares ou estados
de alma. Operam como anúncio, acentuação de uma entrada ou como presença de uma
ausência, servindo de subtexto e reforçando a unidade da obra. Wagner usou-os
de forma dinâmica, indo além da repetição pura. Bem mais tarde, o próprio cinema irá recuperar
o legado nos efeitos das bandas sonoras, conduzindo
emocionalmente a plateia ou multiplicando atmosferas em torno da cena.
Thomas Mann parece enxertar a mesma técnica em
passagens da Montanha Mágica, salvaguardado que fique o pendor especulativo da
hipótese e dos exemplos à mão: as chegadas tardias de Mme Chauchat à sala de
refeições, tão ansiadas por Castorp, que invariavelmente se fazem anunciar pelo
estrondo do bater da porta, seguido do deslizar silencioso até à mesa dos
russos boa, levando uma mão ao retoque do cabelo preso na nuca e a outra ao
bolso do casaco; ou a repetição inopinada de Tous-les-deux, messieurs…Tous-les-deux, messieurs… o papaguear trágico
que identifica a mulher sem nome que veste de negro, mãe de Lauro, o segundo
filho moribundo da Tous-les-deux; ou o invariável
acender da luz branca do tecto, ao invés da luz quente do candeeirinho de mesa,
um subtexto que acompanha as visitas de Settembrini a Castorp, quando imóvel durante
um mês no seu leito de quarto, Settembrini o pedagogo das Luzes, o inabalável
da límpida claridade da Razão…
Thomas Mann parece ainda fazer uso dos Leitmotive
como forma de coesão do conjunto da sua obra, tendo em conta a recorrência
temática - o Tempo, a Consciência e a Morte, a Doença, a Decadência, a Beleza e
a Música.
TEMPO
É à sombra do bem-estar dos hóspedes que cresce o pressentimento
de que algo vai acontecer, de que não existe futuro para ser sonhado. No
Berghof vive-se apenas o presente, esse tempo suspenso e prolongado, anterior
ao desfecho. O pressentimento como efeito
literário equivale na música ao da nota suspensa ou prolongada, um desacorde certeiro
que suspende a resolução tonal, tão inquietante de sensação quanto ousado na
antecipação da música moderna, como é dado ouvir no Prelúdio de Tristão e Isolda (1857-59), de Wagner,
compositor por quem Mann era fascinado.
CONSCIÊNCIA
O absoluto isolamento na paz branca da montanha.
Mas Thomas Mann não deixa o mundo de fora, o das ideias e correntes do pensamento, da ciência, arte
ou técnica, o mundo que se atravessa no intelecto e que vai ganhando espaço na
consciência de forma sedimentar.
À época da Montanha Mágica, a autoridade do tempo
uniforme de Newton já tinha sido destituída: Einstein e Henry Bergson haviam
demonstrado que espaço, tempo e vivência se influenciam. Por sua vez, é inequívoco o ascendente de Freud e de Jung sobre o Dr.
Krokowski, o psicólogo do Berghof que se dedica aos fenómenos do oculto e que disseca
a alma e a vida humana dos sonhos. De resto, o retrato espectral
de Mme Chauchat (raios X,1895), a luz branca do tecto (néon,1903) e a luz
quente do candeeirinho (incandescente,1879), a minúcia construtiva do gramofone e os discos de ebonite (1895),
entre tudo o mais da ciência à técnica que profundamente interessa ao autor.
Settembrini, o apolíneo
amante da razão, o optimista do progresso, e Naphta, o religioso do ressentimento,
a ferida aberta pela
laicização da “verdade” que à morte atribui força anímica, ambos pedagogos rivais
na formação de Castorp. Uma terceira personagem irá impressionar
o jovem: Peeperkorn, o rico negociante, de personalidade dionisíaca e corpo de retórica sem
verbo. Os extremos oferecidos
à consciência de Castorp, numa alusão às inquietações da época.
A resolução dos opostos vai ocorrer no subcapítulo
da Neve quando o jovem Hans é colocado perante a morte. O equivalente na música à forma Sonata: apresentação dos temas opostos; desenvolvimento temático com indecisão
harmónica; resolução final, por conciliação entre temas ou através de ideia
nova. Castorp decide-se pelo meio
entre os extremos. Na verdade, encontrar
a solidez do centro talvez seja mesmo o cerne da reflexão do romance. 2 ²
MORTE
Tannhauser, o cavaleiro trovador da ópera
homónima de Wagner, que
viveu 7 anos no mágico monte Olimpo seduzido pelos prazeres de Vénus, decide voltar à terra ao encontro
do amor espiritual que o há-de salvar. Mas
os heróis de Wagner não pertencem à epopeia, acabam sempre tragicamente derrotados.
Na última cena, Hans Castorp, molhado até aos
ossos, corre de espingarda em punho ao crepúsculo de um campo de batalha na
Flandres. Canta para si uma das canções de A Viagem de Inverno, ciclo
composto por Schubert no ano da sua morte. Aí se narra a história
de um rapaz tomado por amor rejeitado que
numa noite gelada se força a partir, iniciando uma viagem solitária e sem
destino, que mais parece uma viagem
interior. A morte, apesar de perseguida,
é-lhe negada. Schubert substituiu o título original, Uma viagem de inverno,
por A viagem de inverno, vinculando à composição a dimensão intemporal.
Angela Melo
11.03. 2026
Bibliografia consultada
1 MANN,Thomas, Introdução à Montanha Mágica. Palestra
proferida aos alunos da Universidade de Princeton (EUA), 10 de maio de 1939.
2 WOOD, James, A herança perdida. Lisboa:Quetzal Editores, 2012.
p. 324
CICLO DE MIÉRCOLES, O Universo Musical de Thomas Mann.
Fundación
Juan March, noviembre-diciembre 2014
Disponível em:
VIEIRA DE ALMEIDA, Nuno Miguel Marvão, Perspectivas
de interpretação sobre a Winterreise de Schubert. Dissertação de
Doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade de Lisboa, Fevereiro 2015.
Disponível em:
https://run.unl.pt/entities/publication/7c68f3e7-13b0-4b13-ad79-ca1eacce1e13

Sem comentários:
Enviar um comentário