sábado, 9 de maio de 2026

A MONTANHA MÁGICA

 

                             


A Montanha Mágica

 

Temas de reflexão

 

 

·      Hans Castorp, um jovem simples

·      Uns olhos tártaros

·      Settembrini e Nafta_ duelos intelectuais

·      O tempo na montanha mágica

·      A música em Berghof

·      O doce Joachim

·      A relação narrador/narratário

·      Montanha vs planície

·      A sala de jantar

·      Doença e morte em Berghof

·      A varanda

·      «Absolutamente! Permita-me… Arrumado!»

 






Uma pequena abordagem à temática do tempo na Montanha Mágica de Thomas Mann

 por Conceição Rocha

Desde o início da leitura da Obra tive a percepção de que o tema Tempo, ora implícita ora explicitamente,  envolve  toda a acção, todos os pensamentos, todos os sentimentos de um  grupo de pessoas especiais reunidas num espaço especial, em circunstâncias especiais.  E essa pregnância do tempo influenciou-me também a mim, enquanto leitora: a dimensão que geralmente a leitura de ficção me toca enquanto ajuda a passar bons momentos no caminho da conclusão, do que vem aí nas páginas seguintes, do que esta ou aquela personagem se tornaram no fim dos acontecimentos, da imaginação da ou do autor em me contar tudo isso, foi aqui transformado numa certa passividade (activa), em que o que vem na página seguinte é sobretudo da ordem da introspecção. Um romance que para mim careceu de muito tempo não só pela sua extensão, mas sobretudo pelo que mobilizou de adesão a um espaço e um viver da temporalidade completamente fora da minha experiência. Por isso demorei a compreende-lo. Mas não estou aqui para falar do “tempo meu”.

Posto isso, vejamos:

O texto centra-se na personagem Hans Castorp que vem inicialmente passar 3 semanas a um sanatório de montanha para visitar um primo afetado de tuberculose. Esse tempo de permanência vai posteriormente deslizar para 7 anos, até ao início da 1ª guerra. Esta é a dimensão factual do tempo no romance.

O espaço é o sanatório e a sua vida interna, decisivo para entender o tempo, o tempo nesse espaço, por oposição ao exterior, o “lá em baixo”, ou seja, o resto do mundo, dos não doentes, dos não afetados.


Existem nesses dois espaços, com particular importância para o primeiro, outras personagens decisivas – o humanista-racionalista Settembrini, o emotivo, autoritário e de triste fim Naftta (as duas faces da História), o extrovertido Mynheer Peperkorn e Clawdia Chauchat, a mulher sujeito e objecto de desejo. Os médicos também intervêm mas, no que diz respeito à dimensão temporal, com menos importância. E o resto dos doentes e funcionários completam a paisagem espácio-temporal como personagens, em que a única dimensão temporal que se adivinha ocorre quando há sinais de morte.

O Tempo

Há no romance dois tempos: aquele em que decorre a narrativa, o tempo em que Thomas Mann baliza o romance e o tempo do interior das personagens, o tempo sentido particularmente pelo Hans Castorp, tempo interior, que por ele é sentido em forma de tédio, de divisão de tarefas repetidas até à exaustão ainda que refletidas e por vezes emocionais, introspectadas, interiorizadas, ocasionalmente inquietas pelos seus pensamentos e pelos debates entre Nafta e Settembrini ou inspiradas pela desejada  Clawdia Chauchat.

O tempo no sanatório é abolido. Settembrini diz em determinado momento – “o tempo do sentimento eliminou o tempo dos relógios”. Os pensionistas nunca discutem o sentido do tempo que decorre entre a sua entrada, o quotidiano de refeições abundantes, descansos, tratamentos e algumas diversões e o fim da estadia, ou melhor, um fim para a estadia. Este facto distingue os que vivem em baixo, na planície e os de cima, no sanatório. Pergunto-me: a Montanha será mágica por isso?

Thomas Mann encontra forma de nos transmitir a pregnância da temática do Tempo fazendo-o tema de debate conjuntamente com a Morte e a Cultura, entre Naftha e Settembrini e a observação inquietada de Hans, que confessa um dia estar farto da “vida horizontal”, desencarnada de tempo,  junto de Joaquim e depois consigo próprio nas suas rotinas.  Ele não está em harmonia com o mundo. A sua passividade, geralmente lúcida, fa-lo pairar sobre o tempo que flui, ou mesmo fora do tempo. Nessa bolha de si mesmo podemos incluir o desejo por Clawdia e a reflexão sobre as duas propostas de leitura do mundo que Settembrini e Naftha lhe querem inculcar (aquela humanista, a outra autoritária, a guerra e a paz, a democracia e a autocracia). Os dois amigos inseparáveis, sempre enredados em debate sobre o valor das pessoas e a sua complexidade, são considerados por Castorp adoráveis tagarelas que ocasionalmente lhe induzem produtivas abstrações sobre o bem e o mal, mas nunca propósitos de planear um futuro.

No fim da narrativa Thomas Mann escreve sobre o tempo, a meu ver,  de uma forma mais visível e ainda mais significativa do que  no resto do romance. Num primeiro momento, aqueles 3 dias que medeiam entre a marcação do duelo e a sua concretização, depois as horas, depois os últimos preparativos, são particularmente sentidos por Castorp e por mim leitora, na ânsia de um desfecho de desistência ou de morte. Aí o tempo surge vivo, concreto, dramático, sofrido até ao último minuto.

Num segundo momento, mais longínquo, sete anos passaram com a presença de Hans Castorp e poder-se-ia dizer “que se tratava de um espaço de tempo mítico e pitoresco”. Anódino nas suas rotinas, pontuado pelos acontecimentos que constituem a pequena grande história do Berghof e da planície. Hans terá percorrido todas as mesas, até a dos russos maus, agora melhores, terá deixado despontar uma barbicha incipiente, o seu vestuário mostraria algum desleixo fruto da rotina e os próprios médicos, enfermeiras e pessoal tendem a deixa-lo em paz, como se faz àqueles que temos garantidos na nossa paisagem quotidiana. O Tempo, “mas não o que é medido pelos relógios da estação de comboio, cujo ponteiro avança aos solavancos de 5 em 5 minutos – o tempo dos relógios pequeninos (…) comparável ao do crescimento da relva, que nenhum olho humano vislumbra mas que todavia não para de suceder (…), o tempo, dizíamos, tinha prosseguido ao seu ritmo imperecível, sinuoso, secreto e contudo diligente, a produzir mudanças”. Essas mudanças vão liquidando o sentido de liberdade do nosso protagonista, que deixa de descer ao vale, e deixa de se  corresponder com a  família .

Num culminar de desprezo passivo pelo tempo, “assim jazia Hans Castorp na sua cadeira de repouso e assim completava o ano novo, pela sétima vez, no pino do verão – altura da sua chegada – o seu ciclo”;  não manda consertar o relógio nem renova o calendário, fazendo-o em nome da liberdade. Até ao colapso, o golpe no andar dos dias que representa uma guerra, fábrica de fim do tempo de vida para os que vitima.

Poderia falar de vários outros intervenientes separados por um certo nevoeiro das personagens centrais, personagens que circulam entre a sala de jantar, os quartos, as varandas de descanso e os consultórios sempre num tempo circular só interrompido pela morte ou por saída precária, mas pouco acrescentaria a essa temática do tempo sem tempo verbalizado, sentido em si mesmo a não ser por pequenos acontecimentos que abrem alguma brecha na ementa monótona do quotidiano. No entanto é justo lembrar que dessas rupturas ocasionais também foram responsáveis o exuberante Mynheer Peperkorm e  Clawdia Chauchat, cada um a seu modo.

A dimensão do tempo suspenso, intemporal, indizível acaba. A 1ª guerra fere mais ferozmente a vida “de cima”, que é já em si uma ferida que, porque permanente, se torna exterior ao próprio Tempo.

 

Porto, Abril de 2026


 

                            Hans Castorp, um jovem simples

                                     por Alexandra Azevedo

      Começar a leitura de A Montanha Mágica não foi, para mim, a habitual emoção de imergir numa aventura nova.

     A princípio um pouco entediada, aborrecia-me  com o peso incómodo das muitas páginas, da letra miudinha, das  personagens e da história parada. Sim, a história estava sempre parada. Aliás, eu já temia isso  depois de ter lido o “Propósito” em que o autor tem a gentileza de nos alertar que a leitura que se avizinha não será tarefa breve _ “desde quando é que o prazer ou o tédio despertados por uma história são consequência do espaço ou do tempo que ela nos toma?” tal como breve não foi a sua escrita: “Não será, pois, num abrir e fechar de olhos que o narrador conseguirá contar a história de Hans. Nem os sete dias da semana, nem os sete meses do ano serão suficientes para tal feito. O melhor que ele  tem a fazer é não tentar prever quanto tempo se manterá envolvido em tal projecto. Sete anos é que decerto – Deus nos valha - não serão precisos!”

     Iniciei pois a leitura, desconfiada destas  premissas em que o próprio autor antecipa as prováveis reações negativas dos seus leitores, mas não foram sete dias, nem sete anos, nem mesmo sete meses que demorei a subir a montanha. Foram quatro meses

     Durante quatro meses, deitei-me, disciplinadamente, todas as noites com Hans Castorp. Acabei por me afeiçoar a ele. Preocupava-me:  Põe o termómetro! dizia-lhe. Não fiques tanto tempo à noite na varanda! Ainda ficas mesmo doente! Nunca se sabe o que vai na cabeça de um escritor e  pode mesmo resolver que no final tu também morres para provar uma qualquer teoria da vida humana, um qualquer sentido último das coisas que os grandes autores sempre inventam. Seria sempre só no final, pensava eu com algum alívio. E, assim, eram, pelo menos 832 páginas de vida que esperariam Hans.

      Gostar de Hans foi fácil porque Hans era um jovem simples. Nunca foi excepcional em nada, nunca fez nada de heróico, nem manifestou  desde cedo nenhum sonho de grandeza. E, aparte um certo fascínio pelos barcos “ o que lhe valeu, no fundo, foram as suas origens, o cosmopolitismo dos seus costumes e, por último, uma certa apetência pela matemática ainda que desapaixonada” ( 46) para se  tornar naturalmente engenheiro naval quando procurou “uma profissão que fosse a ideal a seus olhos e aos olhos do mundo” (46) Respeitava o trabalho Como poderia Hans Castorp não respeitar o trabalho? Teria sido contranatura” (47) O que não significava que gostasse de trabalhar.

     Hans era, nas palavras do seu criador “mediano, se bem que num sentido bastante louvável” (45)

     É esta mediania louvável que faz dele a página  em branco que Settembrini e Naphta disputam à vez. Os dois intelectuais desejam influenciar o jovem Hans tanto quanto este deseja ser influenciado. Hans não tem um parti pris. Ouve ambos os pedagogos com o mesmo interesse e respeito. Como talvez o próprio autor teria, na sua juventude , estado receptivo a tudo quanto pudesse informá-lo e sobretudo formá-lo. O bildungsroman, o romance de formação que Montanha Mágica constitui, deixa, no leitor, este sentimento de que Hans é o próprio Thomas Mann em jovem, aberto a todas as explicações do mundo, respeitoso de todos os pontos de vista. Mas inequivocamente há uma escolha que vai fazendo, cada vez com mais clareza, pelas ideias humanistas e progressistas de Settembrini, abandonando o misticismo e o autoritarismo de Naphta que começa a qualificar como “o feio Nafta” , acabando por lhe dar como destino o suicídio, suicidárias que  foram as suas ideias de autoritarismo que o mundo conheceria  mais tarde. Na planície.

 

Mann, T (2009) A Montanha Mágica, Publicações Dom Quixote, Alfragide

A MONTANHA MÁGICA

 



                                      A música em "A Montanha Mágica"

                                                      Thomas Mann


                                          


                                                  por Ângela Melo

 

    O dia-a-dia do Berghof descrito com a precisão e cadência de um ritual. Thomas Mann prende-nos à experiência do tempo no sentido metafórico, mas também literal.  Um embuste, este da transposição do leitor, que adverte para o alcance simbólico do texto. Suspeita-se então que coincidências de forma ou de significado não sejam apenas fortuitas mas possam assinalar relações com outras essências. Entre muitas, a música, já que o próprio Mann se incluía “nos músicos que se juntaram às fileiras dos escritores” e admitia fazer uso de esquemas musicais: a forma Sonata e os Leitmotive. Os últimos, temas recorrentes que na versão operática se concretizam por temas curtos ou frases musicais, associados a personagens, lugares ou estados de alma. Operam como anúncio, acentuação de uma entrada ou como presença de uma ausência, servindo de subtexto e reforçando a unidade da obra. Wagner usou-os de forma dinâmica, indo além da repetição pura.  Bem mais tarde, o próprio cinema irá recuperar o legado nos efeitos das bandas sonoras, conduzindo emocionalmente a plateia ou multiplicando atmosferas em torno da cena.

Thomas Mann parece enxertar a mesma técnica em passagens da Montanha Mágica, salvaguardado que fique o pendor especulativo da hipótese e dos exemplos à mão: as chegadas tardias de Mme Chauchat à sala de refeições, tão ansiadas por Castorp, que invariavelmente se fazem anunciar pelo estrondo do bater da porta, seguido do deslizar silencioso até à mesa dos russos boa, levando uma mão ao retoque do cabelo preso na nuca e a outra ao bolso do casaco;  ou a repetição inopinada de Tous-les-deux, messieurs…Tous-les-deux, messieurs… o papaguear trágico que identifica a mulher sem nome que veste de negro, mãe de Lauro, o segundo filho moribundo da Tous-les-deux;  ou o invariável acender da luz branca do tecto, ao invés da luz quente do candeeirinho de mesa, um subtexto que acompanha as visitas de Settembrini a Castorp, quando imóvel durante um mês no seu leito de quarto, Settembrini o pedagogo das Luzes, o inabalável da límpida claridade da Razão…

Thomas Mann parece ainda fazer uso dos Leitmotive como forma de coesão do conjunto da sua obra, tendo em conta a recorrência temática - o Tempo, a Consciência e a Morte, a Doença, a Decadência, a Beleza e a Música.  



TEMPO  

É à sombra do bem-estar dos hóspedes que cresce o pressentimento de que algo vai acontecer, de que não existe futuro para ser sonhado. No Berghof vive-se apenas o presente, esse tempo suspenso e prolongado, anterior ao desfecho. O pressentimento como efeito literário equivale na música ao da nota suspensa ou prolongada, um desacorde certeiro que suspende a resolução tonal, tão inquietante de sensação quanto ousado na antecipação da música moderna, como é dado ouvir no Prelúdio de Tristão e Isolda (1857-59), de Wagner, compositor por quem Mann era fascinado.

CONSCIÊNCIA       

O absoluto isolamento na paz branca da montanha. Mas Thomas Mann não deixa o mundo de fora, o das ideias e correntes do pensamento, da ciência, arte ou técnica, o mundo que se atravessa no intelecto e que vai ganhando espaço na consciência de forma sedimentar.   

    À época da Montanha Mágica, a autoridade do tempo uniforme de Newton já tinha sido destituída: Einstein e Henry Bergson haviam demonstrado que espaço, tempo e vivência se influenciam. Por sua vez, é inequívoco o ascendente de Freud e de Jung sobre o Dr. Krokowski, o psicólogo do Berghof que se dedica aos fenómenos do oculto e que disseca a alma e a vida humana dos sonhos. De resto, o retrato espectral de Mme Chauchat (raios X,1895), a luz branca do tecto (néon,1903) e a luz quente do candeeirinho (incandescente,1879), a minúcia construtiva do gramofone e os discos de ebonite (1895), entre tudo o mais da ciência à técnica que profundamente interessa ao autor. 

    Settembrini, o apolíneo amante da razão, o optimista do progresso, e Naphta, o religioso do ressentimento, a ferida aberta pela laicização da “verdade” que à morte atribui força anímica, ambos pedagogos rivais na formação de Castorp. Uma terceira personagem irá impressionar o jovem: Peeperkorn, o rico negociante, de personalidade dionisíaca e corpo de retórica sem verbo. Os extremos oferecidos à consciência de Castorp, numa alusão às inquietações da época.

   

    A resolução dos opostos vai ocorrer no subcapítulo da Neve quando o jovem Hans é colocado perante a morte. O equivalente na música à forma Sonata: apresentação dos temas opostos; desenvolvimento temático com indecisão harmónica; resolução final, por conciliação entre temas ou através de ideia nova. Castorp decide-se pelo meio entre os extremos. Na verdade, encontrar a solidez do centro talvez seja mesmo o cerne da reflexão do romance. 2 ²

MORTE      

    Tannhauser, o cavaleiro trovador da ópera homónima de Wagner, que viveu 7 anos no mágico monte Olimpo seduzido pelos prazeres de Vénus, decide voltar à terra ao encontro do amor espiritual que o há-de salvar. Mas os heróis de Wagner não pertencem à epopeia, acabam sempre tragicamente derrotados.

    Na última cena, Hans Castorp, molhado até aos ossos, corre de espingarda em punho ao crepúsculo de um campo de batalha na Flandres. Canta para si uma das canções de A Viagem de Inverno, ciclo composto por Schubert no ano da sua morte. Aí se narra a história de um rapaz tomado por amor rejeitado que numa noite gelada se força a partir, iniciando uma viagem solitária e sem destino, que mais parece uma viagem interior. A morte, apesar de perseguida, é-lhe negada. Schubert substituiu o título original, Uma viagem de inverno, por A viagem de inverno, vinculando à composição a dimensão intemporal.

 

Angela Melo

11.03. 2026


O ócio discreto da burguesia

                                                                                                                                          

                                                                                                                                          A Montanha Mágica, Thomas Mann, 1924

 

nas altas montanhas

A longa viagem, desde Hamburgo junto ao mar, até às altas montanhas na Suíça, transportara Hans Castorp ___ um jovem simples 18, embora cativante 17 ___ para fora do tempo e do espaço.

Retido no Sanatório Internacional Berghof, situado a meia-encosta entre a povoação no vale e os picos inacessíveis e gelados, foi confrontado com um mundo fechado, onde o tempo quase parara, e com um espaço coberto de neve a perder de vista, onde quase tudo era imutável.

a burguesia moribunda

Mas a existência no Berghof não se assemelhava minimamente à estada num presídio ou numa mina siberiana 547    

Nesse universo fechado, que encerrava a classe alta da sociedade internacional 550, a vida e a morte aconteciam sem sobressalto, com a simplicidade e o ritmo da monotonia diária, com o luxo que as exigências da burguesia doente reclamavam, num mundo antes da I Grande Guerra.

Embora tivesse que renunciar às alegrias e atribulações da humanidade 547, Hans Castorp levava uma vida despreocupada e ociosa, que a doença libertava da censura e do pecado, e que era propícia em tudo 547.

Sentia-se absolutamente pertencente a uma comunidade diferente, mais fechada 552 , onde o mundo apresentava um aspecto de conto de fadas, infantil e excêntrico 549

as forças em confronto

Aqui em cima 26, o ócio do tempo passado na varanda, inconsciente do fardo da vida orgânica 549, comodamente deitado na cadeira de repouso de madeira envernizada…debaixo do guarda-sol 91, nada tinha a ver com o tédio, lá em baixo, na povoação habitada por gente sã,(…) homens e mulheres imbuídos da importância das suas actividades  551 ; nada tinha a ver com o tédio de alguém que trabalhara sempre todo o dia e se encontrava de repente sem trabalho, sem expectativas de uma refeição quente antes que escurecesse, sem um tecto onde se abrigasse, à noite, da neve implacável.

 

 

O ócio liberta ( em oposição a Arbeit macht frei )

Hans Castorp, amava a vida na neve 550, que enchia a alma 541; eram belas estas montanhas invernosas (…) que despertavam sentimentos de respeito 553, sentimentos associados ao sublime e ao sagrado.549 No conforto do Berghof, a suspensão do tempo e do espaço, e a ausência de actividade física, era propícia à introspecção e à meditação; enquanto contemplava a neve e comparava a vida na neve com a vida à beira-mar, meditando na monotonia primordial da paisagem que era comum a ambas as esferas 550, Hans Castorp  reflectia sobre o caracter subjectivo do tempo, a vida e a morte, a saúde e a doença, a beleza e o horror.

Quando passeavam no jardim, assistia aos debates sobre a condição humana, entre as maldades de Naphta 803___oposto à dignidade dos homens e às belas letras 197___ e Settembrini___o homem da razão 803, defensor da vida e da liberdade___, que se confrontavam para cultivar a vontade de formação da juventude ávida de luz 545. Gostava de os acompanhar porque achava que eram ideias dignas de se ouvir, (…) e para as testar no seu foro íntimo 196. Fazia-o no papel de uma pessoa desperta (…) não como um sonhador néscio 196 e tinha a percepção que existia um equilíbrio entre os opostos. Cresceram dentro dele dois desejos: estar sozinho com os seus pensamentos e ter um contacto mais íntimo e mais livre com a montanha devastada pela neve 551 Sentiu vontade de alcançar a pureza dos picos inacessíveis.

em busca de si

Em confronto com a natureza, insondável e indiferente, andava às voltas sobre si mesmo. Meditou quão longe estava o filho da civilização (…) distante e estranho à natureza selvagem e pensou no homem rude que depende dela desde a mais tenra idade, vive com ela numa intimidade austera.554

No silêncio da morte sob a neve 556, sentiu a mesma inquietação que num conciliábulo com Naphta e Settembrini, que levava igualmente a regiões intransitáveis e altamente perigosas. 556

Entre a vida e a morte, Hans Castorp delirava e no seu sonho pensava em Hippe e Clavdia; conclui que só o amor se opõe à morte 578.  O sonho fê-lo acordar para a vida e correr para casa, e com grande liberalidade, por assim dizer, em linha recta, encaminhou-se para o vale 578

Sozinho, perdido na neve e nos seus pensamentos, Hans Castorp___um rapaz sem qualidades___tinha chegado à clareira no meio da floresta, tinha atravessado a ponte sobre o inferno As-Sirãt, tinha-se encontrado a si mesmo e escolhido activamente a vida.

“Finis Operis”

Thomas Mann termina com uma reflexão sobre o horror da guerra, com a incerteza do futuro, e com um fio de esperança: ouvimos Hans a cantar no campo de batalha uma canção de amor. Em nome da verdade e do amor, o ser humano não deve conceder à morte nenhum domínio sobre os seus pensamentos578

 

Clube de Leitura,Janeiro 2026                                                                               Manuela Pereira


 Posfácio

                                                                                                                                          

                                                                                                                                           A Montanha Mágica, Thomas Mann, 1924

Thomas Mann [1912 (…2014-2018…) 1924] ________ Buildungsresender (viajante em formação)        

 

Em A montanha mágica, Thomas Mann fala-nos do ‘mundo de antes da grande guerra, com cujo início tanta coisa começou que praticamente não terá deixado de começar. ´. Proposição 17/18                    Para falar desse mundo, conta-nos a história ‘de um filho problemático da vida837 um jovem estudante de engenharia naval filho da alta burguesia alemã, ‘não por sua causa (…) mas por causa da história’. Proposição 17

Thomas Mann leva-o até às altas montanhas, onde pára o tempo e o espaço. ___ em 1905, Einstein tinha começado a publicar a sua Teoria da Relatividade e a sua concepção de espaço-tempo como uma entidade geométrica unificada. ___ Para que nada perturbe o ócio de Hans Castorp, encerra-o no mundo fechado e ocioso da alta burguesia internacional, que vive a sua época dourada num ambiente de luxo e erotismo, enquanto ignora as difíceis condições de vida do resto do mundo.

O ócio e o lazer são necessários à reflexão e ao debate de ideias ___ Marx tinha-o referido, O Capital – 1867, quando descreve um mundo ideal onde todos teriam tempo livre e ocioso, não só para se divertirem, mas para ampliarem os seus conhecimentos e capacidade de reflexão; em 1935, Bertrand Russell publica O elogio do ócio. ___. Nesse ambiente de ócio criativo, Hans Castorp contempla a beleza da neve e medita, assiste ao confronto ideológico entre Leo Nafta e Lodovico Settembrini, nas suas intermináveis discussões sobre todos os assuntos. E assim se vai apercebendo do mundo em convulsão e do horror da guerra que se aproxima.

No seu tempo de lazer entra no mundo dos sonhos ___ Freud tinha publicado A interpretação dos sonhos – 1899 e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade – 1905___ e Mann convoca o Dr. Krokovsky, ‘psicanalista’ que aborda temas como o amor e a morte na sua conferência ‘O amor como força patogénica ‘146.  Hans Castorp ao entrar no mundo dos sonhos evoca a memória erótica de Pribislav Hippe e vive emoções intensas com a sensual Clavdia Chauchat. Perdido na neve o viajante em formação termina o seu percurso intelectual e espiritual, quebrando as barreiras das antigas convenções sociais, recusando o imobilismo e a atracção da morte; escolhendo o amor e a liberdade. (à semelhança de Thomas Mann?)

Addio, Giovanni mio!’829

 

Clube de Leitura_Janeiro 2026                                                                              Manuela Pereira     




                       A Montanha Mágica: Settembrini e Naphta – duelos intelectuais

                                                                   

                                                                          por Blandina Lopes 

   Thomas Mann, no seu romance A Montanha Mágica (1924), dedica uma parte significativa da segunda metade da obra com um intenso combate de ideias entre os personagens Lodovico Settembrini e Leo Naphta. De um lado, apresenta-nos o advogado do progresso e da organização racional da vida humana, ou seja, Settembrini; do outro, o homem que prega o espírito absoluto e o sobrenatural, ou seja, Naphta. Ambos estão a competir pela formação da alma do jovem Hans Castorp, que é o protagonista do romance.

   Hans Castorp simboliza o jovem alemão pré-guerra, com uma condição de saúde que o prende ao sanatório Berghof, em Davos-Plazt, onde se desenvolve uma discussão filosófica com implicações político-ideológicas entre as figuras de Settembrini e Naphta. A narrativa da obra, por sua vez, combina elementos de romance de formação e ensaio filosófico, abordando temas como: tempo, doença, música, amor e morte.

   Porém, por mais que o desenvolvimento, diríamos mesmo, algo exagerado do debate filosófico deixe, por vezes, o próprio Hans Castorp consternado, o confronto entre os dois personagens simboliza uma controvérsia intelectual que atravessou a Europa a partir do fim do século XIX. O duelo entre Settembrini e Naphta, que será o culminar dramático dos combates intelectuais por eles protagonizados, é um sintoma da excitação nervosa que precedeu a I Guerra Mundial e uma das premonições de uma catástrofe próxima.

   Estes dois personagens representam polos opostos: Settembrini, humanista liberal, defensor do progresso, da luz, do racionalismo, inspirado por tradições italianas de liberdade e revolução; Naphta, jesuíta niilista, retrógrado, crítico do capitalismo, do Estado moderno, da ciência e defensor de uma visão medieval, autoritária e restauradora.

   Assim, enquanto Settembrini valoriza a forma, a cultura clássica, a liberdade e a crítica ao dogmatismo, Naphta critica o racionalismo, a revolução e o progresso científico, defendendo uma mundividência baseada na religião, na tradição e na ordem autoritária. Ambos representam as tendências ideológicas que, à época, polarizavam a Europa, alimentando o conflito político e social, com o duelo que culmina na violência simbólica do final do romance, onde Naphta se suicida e Settembrini renuncia à violência.

   Sintetizando: A Montanha Mágica é um romance que combina narrativa de formação, ensaio filosófico e crítica social, oferecendo uma reflexão profunda sobre o momento histórico europeu e sobre as tendências ideológicas extremas vivenciadas, principalmente, a partir do século XIX e que se estenderam ao século XX. ​Através do duelo entre Settembrini e Naphta, Thomas Mann expõe as contradições e os perigos de uma Europa dividida entre o ideal de luz e o retorno às trevas, evidenciando a complexidade do período pré-guerra e as suas implicações para a história mundial.

 

   Para ilustrarmos o que foi exposto ao longo do texto, nada melhor do que recorrermos às próprias palavras de Thomas Mann, em A Montanha Mágica:

     Settembrini olhou para ele com olhos negros onde se via um brilho melancólico. “Engenheiro”, disse ele, com voz opressa, “Engenheiro”! (…)

   “Quantas vezes lhe disse que é preciso saber o que se é e pensar com propriedade! O que é próprio de um homem ocidental, mau grado todas as Proposições[1], é a razão, a análise, a ação e o progresso – não a cama ociosa do monge!”

   Naphta estivera a escutar. Disse, virando-se para trás:

   “Do monge! É aos monges que temos de agradecer a cultura do solo europeu! Temos de lhes agradecer que a Alemanha, a França e a Itália não estejam cobertas de florestas virgens e pântanos primitivos, mas antes nos forneçam trigo, fruta e vinho! Os monges, meu caro senhor, trabalharam, disso não há dúvida…”

E, mais adiante, o diálogo/duelo intelectual continua afirmando Settembrini: “Ora, deixe-me em paz com a fatalidade! A razão humana só tem de querer ser mais forte do que a fatalidade, e é!”

(Naphta) “Só pode desejar-se o que já é destino. A Europa capitalista quer o seu.” (…) E Settembrini acrescenta: “O Estado nacional é o princípio deste mundo que o senhor gostaria de imputar ao Diabo. Faça, porém, as nações livres e iguais, proteja as pequenas e fracas da opressão, crie justiça, crie fronteiras nacionais…” (Relógio D’Água Editores, 2020, 443-448)

 

 Clube de Leitura

 

A Montanha Mágica, Thomas Mann

 

Blandina Lopes

 

 

 

 



[1] Está a referir-se às 68 Proposições de Miguel Molinos condenadas pela Igreja em 1687 (Bula Coelestis Pastor), que definem o quietismo, uma mística passiva que defendia a aniquilação da vontade própria, contemplação pura e passividade interior como caminho para a perfeição, rejeitando a autoanálise e a necessidade de atos ascéticos para a santidade.



A MORTE EM BERGHOF

por Maria João Leite de Castro

                                                                                                                                      A vida é morrer, não há maneira de dourar a pílula

                                                                                                                  Behren                                                           

Embora subjacente a toda a narrativa, no desenvolvimento do romance, a morte insinua-se, num primeiro momento, como subtil e asséptica. Está latente na desinfeção dos quartos com fumigações de formol, eivada de discrição e consumada “nos bastidores”. O caixão é trazido de manhãzinha, no mais estrito segredo, e a pessoa é levada em certos períodos, por exemplo, durante as refeições, para não incomodar os outros doentes.

A morte que ocorrera dois dias antes no quarto destinado a Hans Castorp, surge minimamente humanizada, pois Joachim referiu ter-se tratado de uma americana, cujo noivo não se comportou propriamente com compostura. Passava a vida a vir para o corredor chorar como se fosse um rapazinho (pág. 28). Eventualmente endurecido pelas mortes que sofrera em criança, Castorp ficou mais impressionado pela tosse cavernosa de um dos habitantes do sanatório do que propriamente por se deitar, na sua primeira noite, num leito de morto, pronto, um leito de morte normal (pág. 35). Na realidade, ele próprio, refletindo sobre a sua relação com a morte, refere que o próprio facto de ter sido órfão tão cedo o faz relacionar-se com a tristeza e com a morte como se estivesse no seu elemento (pag.139). (…) Tu não gostas de ver um caixão? – pergunta a Joachim – (…) acho que um caixão é um móvel perfeitamente belo, mesmo quando está vazio, mas, quando jaz alguém lá dentro, é de uma enorme solenidade, a meu ver. (pag. 139).

A ideia  de venerabilidade da morte, proposta por Castorp, é posta em causa pelo seu tutor, Settembrini, que a rejeita veementemente, considerando que essa ideia é, ela própria, uma doença herdada de uma religiosidade supersticiosa ( para quem a ideia de sofrimento equivalia a um salvo conduto para a entrada no reino dos céus) expulsa pela razão e pelo iluminismo e pelo verdadeiro progresso da humanidade. A única forma saudável e nobre de ver a morte, segundo Settembrini é reconhecê-la como parte integrante da vida. Daí que Settembrini seja apologista da cremação.

No entanto, Castorp discorda de Settembrini e dedica-se, inclusivamente, a visitar os “filhos da morte”, como protesto contra o egoísmo reinante e num espírito médico-espiritual. (pág.359). Parece-lhe imoral o desaparecimento discreto dos mortos, discorda do monopólio da dignidade humana (pag. 349) proposta por Settembrini e a própria ideia de humano que lhe é subjacente: Mas o que quer dizer humano? Humano é tudo. O temor a Deus, com a sua solenidade humilde (…) é uma modalidade muito digna da humanidade, quer-me parecer, e, por outro lado, a palavra “humano” pode servir para cobrir todos os desmazelos e inércias (…) – Pág. 349.

Entretanto, as mortes vão-se sucedendo em Berghof  e algumas delas (as mortes de Joachim, Peeperkorn, Naphta …) vão afetando de forma diferente, mas sempre intensa, o percurso individual de Hans Castorp, eivado de contradições e perplexidades.

Devolvido à planície em cenário de guerra, rodeado de morte anónima e de destruição, o destino de Castorp não nos é revelado, assim como não poderemos supor sequer como as ideias que foram sendo forjadas na montanha resistiriam ao embate da vida real.

Maria João Leite de Castro