Elegia para Joachim Ziemssen,
um militar de olhos doces.
Por Delfina Rodrigues
“ Será possível que ele vá deixar-me sozinho aqui em cima, a
mim que somente subi para visitá-lo?”
Afloro com os lábios a testa gelada de meu primo (564), num
último adeus. E a voz racional de Settembrini ecoa em mim: “ Não, a morte não era
um fantasma nem um mistério; era um fenómeno inequívoco, racional, fisiologicamente
necessário e desejável; perder um tempo excessivo com a sua contemplação seria
roubar à vida o que lhe cabe.” (478) Mas era da Morte que falava então e a
morte em que me demoro é a de Joachim Ziemssen, meu primo e meu companheiro. A
minha comoção é física e espiritual e nenhuma teoria ou filosofia a consegue
dirimir. É um facto que não existia entre nós a “ summa consensio rerum”, eu, um
paisano “viajeiro ávido de formação (placet experiri)”, (689) ele de uma outra
têmpera, perseverante construtor de uma carreira militar que lhe mereceu os
últimos pensamentos e as últimas palavras (era preciso pedir a prorrogação da
licença, disse.), mas uniam-nos laços familiares e afectivos que a coexistência
prolongada em Berghof solidificou e que o álbum mental que ora folheio me
permite reviver.
Estava então há seis meses cá em cima, com vaticínio de outros seis, mas a contagem do tempo, preveniu-me, não era igual à da planície - sucediam-se os equinócios e os solstícios, Carnavais , Páscoas e Natais, as estações vinham, com matizes por vezes imprevisíveis, mas a vivência subjectiva do tempo era outra. Tutelou a minha aclimatação ao “modus vivendi” e à gíria cá de cima, desconstruindo, com leveza, as minhas primeiras perplexidades: falava de “ronco”, “ruídos intercostais”,“charutos de mercúrio”, “interiores em decomposição orgânica”, “pneumotorax”, “Sociedade de Meio-Pulmão”…sem se refugiar em eufemismos reconfortantes. Passou-me vívidas imagens de cadáveres transportados em trenós, montanha abaixo, e perante um caso totalmente desesperado, dizia que “em breve esticará a canela”, com a naturalidade de quem não tolerava um comportamento covarde perante a morte, em consonância, aliás, com a atitude de Berhens, que detestava que se fizessem “fitas”. A morte, sombra ominosa que pairava sobre as nossas vidas, era um tabu, não nomeada, ou apenas sussurrada, vivida nos bastidores para não afectar a vida dos que contracenavam no palco, em primeiro plano. Quartos fumigados com formalina, cadáveres transportados durante a noite, sussurros, rápida recomposição da vida…
Comove-me ainda a visão das aquilégias e campânulas que
colocou no meu quarto para me dar as boas-vindas, dos picos envoltos em nuvens
que contemplámos juntos e cujos nomes me ensinou, das nossas descidas à aldeia,
do conforto que juntos levamos a leitos de morte, impulsionados pela minha
natural irrequietude a que aquiesceu depois de ponderada hesitação…
Behrens, “sempre disposto a matar o bezerro para o filho
pródigo”, acolheu-o, mas confirmou com o seu regresso a leviandade da partida:
“Chegou a ser tenente, mas de que lhe serviu?” Quanta linearidade nesta
observação, senhor conselheiro! Quanto vale o sonho de um homem?
Delfina Rodrigues
O ETERNO
RETORNO-UNS OLHOS TÁRTAROS
Por Elsa Viegas
Tentar iniciar um texto com uma
frase à altura de algumas das famosas da literatura mundial, foi durante muito
tempo o meu desejo; desejo temerário e inibidor que me fez socorrer das
palavras de Thomas Mann.
Hans Castorp “... habituou-se, no
fundo da sua alma, a este relacionamento silencioso e distante com Pribislav
Hippe que considerava uma constante da sua existência. As emoções que a
situação consigo transportava enchiam-no de alegria e era com intensidade que
vivia a tensão do dia a dia, a eventualidade de um encontro, o roçar de um
ombro, a troca de um olhar, os pequenos prazeres, silentes e delicados,
proporcionados por aquele seu segredo, e até as desilusões que por sua vez não
faltavam: a maior sucedia, sem dúvida, quando Pribislav <faltava> e o
pátio ficava, de súbito, vazio e desolado, o dia desprovido de toda a graça e
encanto, mas a esperança pertinaz ficava.”(pag. 143)
Durante
muito tempo Hans Castorp não pensaria que a imagem, no tempo tão longínquo, de
Pribislav Hippe lhe viesse à memória no meio de um estado de exaustão provocado
por uma intensa hemoptise; sentiu-se transportado para tempos e vivências do
passado.
Os detalhes
singulares do adolescente, acorreram- lhe com o êxtase de outrora:o cabelo loiro muito curto, a fisionomia
atraente, os olhos de um azul acinzentado,
rasgados e oblíquos, que para os colegas do colégio haviam servido de
pretexto para o alcunhar de “O Tártaro”.
Imagens que
o tempo tinha tornado vagas e difusas, sentimentos, que alimentaram a tensão do
dia a dia e a expectativa de um encontro mesmo que efémero e que acabaria por
ocorrer, inócuo e prosaico, mas para Hans Castorp tão impressivo e persistente;
uma simples troca de palavras entre colegas iniciada por: “Desculpa, podias
emprestar-me um lápis?”(pag.143)
-“ Não tens
por acaso um lápis?”(pag.376)
E tantos
anos passados, Hans Castorp mergulhava de novo num turbilhão de sentimentos; o
coração galopando a um ritmo descontrolado, a respiração ofegante, os folículos
pilosos eriçados… e os olhos maravilhosamente oblíquos de Cláudia Chauchat
fundem-se com os de Hippe. A boca e a voz de ambos sobrepõem-se, do mesmo modo,
os sentimentos!
O retorno do passado, o eterno retorno, ou não tão eterno assim, muito do que vivenciamos lasso e distante mesmo assim permanece em nós, condiciona-nos e pode reavivar em inesperadas circunstâncias.

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