segunda-feira, 25 de maio de 2026

 

Elegia para Joachim Ziemssen, um militar de olhos doces.

                                                            Por Delfina Rodrigues

 

“ Será possível que ele vá deixar-me sozinho aqui em cima, a mim que somente subi para visitá-lo?”

  

   Afloro com os lábios a testa gelada de meu primo (564), num último adeus. E a voz racional de Settembrini ecoa em mim: “ Não, a morte não era um fantasma nem um mistério; era um fenómeno inequívoco, racional, fisiologicamente necessário e desejável; perder um tempo excessivo com a sua contemplação seria roubar à vida o que lhe cabe.” (478) Mas era da Morte que falava então e a morte em que me demoro é a de Joachim Ziemssen, meu primo e meu companheiro. A minha comoção é física e espiritual e nenhuma teoria ou filosofia a consegue dirimir. É um facto que não existia entre nós a “ summa consensio rerum”, eu, um paisano “viajeiro ávido de formação (placet experiri)”, (689) ele de uma outra têmpera, perseverante construtor de uma carreira militar que lhe mereceu os últimos pensamentos e as últimas palavras (era preciso pedir a prorrogação da licença, disse.), mas uniam-nos laços familiares e afectivos que a coexistência prolongada em Berghof solidificou e que o álbum mental que ora folheio me permite reviver.

    Chega-me a sua voz “compassada e hamburguesa”, o seu aspecto sadio, “alto, espadaúdo”, “talhado para a farda”, os seus olhos negros, algo melancólicos, “positivamente belo apesar das orelhas”, a grande dor da sua vida, na estaçãozinha de Davos-Dorf, onde me fora esperar, visitante de três semanas. E a nossa saudação contida, como convinha a pessoas de maneiras frias e reservadas.

   Estava então há seis meses cá em cima, com vaticínio de outros seis, mas a contagem do tempo, preveniu-me, não era igual à da planície - sucediam-se os equinócios e os solstícios, Carnavais , Páscoas e Natais, as estações vinham, com matizes por vezes imprevisíveis, mas a vivência subjectiva do tempo era outra. Tutelou a minha aclimatação ao “modus vivendi” e à gíria cá de cima, desconstruindo, com leveza, as minhas primeiras perplexidades: falava de “ronco”, “ruídos intercostais”,“charutos de mercúrio”, “interiores em decomposição orgânica”, “pneumotorax”, “Sociedade de Meio-Pulmão”…sem se refugiar em eufemismos reconfortantes. Passou-me vívidas imagens de cadáveres transportados em trenós, montanha abaixo, e perante um caso totalmente desesperado, dizia que “em breve esticará a canela”, com a naturalidade de quem não tolerava um comportamento covarde perante a morte, em consonância, aliás, com a atitude de Berhens, que detestava que se fizessem “fitas”. A morte, sombra ominosa que pairava sobre as nossas vidas, era um tabu, não nomeada, ou apenas sussurrada, vivida nos bastidores para não afectar a vida dos que contracenavam no palco, em primeiro plano. Quartos fumigados com formalina, cadáveres transportados durante a noite, sussurros, rápida recomposição da vida…

   Comove-me ainda a visão das aquilégias e campânulas que colocou no meu quarto para me dar as boas-vindas, dos picos envoltos em nuvens que contemplámos juntos e cujos nomes me ensinou, das nossas descidas à aldeia, do conforto que juntos levamos a leitos de morte, impulsionados pela minha natural irrequietude a que aquiesceu depois de ponderada hesitação…

 E um dia, cansado de ver a vida em suspenso, num paroxismo de dor que sucessivos adiamentos do regresso à planície lhe causaram, explodiu, a sua linguagem endureceu e proclamou a sua intenção de partir: “ Basta! Isto é uma porcaria! Tudo isto é uma porcaria! Tudo isto é uma porcaria…”. Disse com lágrimas nos seus olhos “belos e brandos”e partiu apesar de Berhens.

 Voltou mais tarde. E a notícia do seu regresso despertou sentimentos antitéticos, de pesar e de contentamento. O seu carácter “leal e cavalheiresco” tinha granjeado a simpatia geral e até os “eu bem disse”ficaram retidos na garganta. No seu declínio físico – a rebellio carnis-  foram muitas as vozes que o consolaram. Settembrini, o pedagogo humanista, que o tratava por tenente antes de o ser, promovia-o agora a capitano. Naphta, o escolástico, esconjurava a morte, sublinhando o carácter “pequeno e suplementar”deste tratamento.

   Behrens, “sempre disposto a matar o bezerro para o filho pródigo”, acolheu-o, mas confirmou com o seu regresso a leviandade da partida: “Chegou a ser tenente, mas de que lhe serviu?” Quanta linearidade nesta observação, senhor conselheiro! Quanto vale o sonho de um homem?

    A morte foi descendo, para mim visível primeiro nos olhos - o olhar foi-se tornando incerto e tímido – depois em múltiplos sinais, confirmada na forma como Behrens me evitava e na sua rudeza sofrida quando, não podendo escapar à minha perseguição, sublinhou, uma vez mais, a nossa diferença: “Não se agarra à bata das pessoas pedindo que o iludam com palavras confortantes” (553). E quando o estetoscópio se ergueu pela última vez do seu peito, perante o seu rosto imóvel, ainda mais belo e mais viril, “enquadrado por uma barba de guerreiro”, ao confirmar a iminência da sua morte, disfarçou a sua comoção com juízos críticos: “Grande louco, arriscou tudo à doida”, “safou-se para o campo da honra, o desertor” (562), “grande louco, vai cabeça esquentada”(563)

    Vieram despedir-se os que te estimaram. E não faltaram os “oráculos píticos”. Settembrini, num apelo à contenção dos presentes, definia-te como “Un giavonotto tanto simpático, tanto stimabile!”; Naphta, com a sua mordacidade aguçada perante o adversário ideológico, regozijava-se com a atitude séria de quem, afinal, vê mais que a Liberdade e o Progresso. Ambos abalados, porventura, pelo confronto das verdades abstractas com a “nudez crua” da realidade. Também a Sr.ª Sothr se comoveu com a tua morte, “chorou com entusiasmo”e, igual a si própria, quis consagrar a tua heroicidade com a “erótica” de Beethoven.

    Quanto a mim, aqui, da alta montanha onde permaneço apesar da tua ausência, “ fico a olhar de longe, e escuto, um cemitério húmido da planície, onde uma espada cintila e se abate, ressoam vozes de comando e uma tripla descarga -  três salvas heróicas - crepita sobre o túmulo de soldado de Joachim Ziemssen.”

                                                                           

     Abril de 2026

Delfina Rodrigues

 Nota: As páginas referidas dizem respeito à Edição Livros do Brasil.


O ETERNO RETORNO-UNS OLHOS TÁRTAROS

Por Elsa Viegas

 

    Tentar iniciar um texto com uma frase à altura de algumas das famosas da literatura mundial, foi durante muito tempo o meu desejo; desejo temerário e inibidor que me fez socorrer das palavras de Thomas Mann.

    Hans Castorp “... habituou-se, no fundo da sua alma, a este relacionamento silencioso e distante com Pribislav Hippe que considerava uma constante da sua existência. As emoções que a situação consigo transportava enchiam-no de alegria e era com intensidade que vivia a tensão do dia a dia, a eventualidade de um encontro, o roçar de um ombro, a troca de um olhar, os pequenos prazeres, silentes e delicados, proporcionados por aquele seu segredo, e até as desilusões que por sua vez não faltavam: a maior sucedia, sem dúvida, quando Pribislav <faltava> e o pátio ficava, de súbito, vazio e desolado, o dia desprovido de toda a graça e encanto, mas a esperança pertinaz ficava.”(pag. 143)

Durante muito tempo Hans Castorp não pensaria que a imagem, no tempo tão longínquo, de Pribislav Hippe lhe viesse à memória no meio de um estado de exaustão provocado por uma intensa hemoptise; sentiu-se transportado para tempos e vivências do passado.



    Os detalhes singulares do adolescente, acorreram- lhe com o êxtase de outrora:o  cabelo loiro muito curto, a fisionomia atraente, os olhos de um azul acinzentado,  rasgados e oblíquos, que para os colegas do colégio haviam servido de pretexto para o alcunhar de “O Tártaro”.

    Imagens que o tempo tinha tornado vagas e difusas, sentimentos, que alimentaram a tensão do dia a dia e a expectativa de um encontro mesmo que efémero e que acabaria por ocorrer, inócuo e prosaico, mas para Hans Castorp tão impressivo e persistente; uma simples troca de palavras entre colegas iniciada por: “Desculpa, podias emprestar-me um lápis?”(pag.143)

-“ Não tens por acaso um lápis?”(pag.376)

    E tantos anos passados, Hans Castorp mergulhava de novo num turbilhão de sentimentos; o coração galopando a um ritmo descontrolado, a respiração ofegante, os folículos pilosos eriçados… e os olhos maravilhosamente oblíquos de Cláudia Chauchat fundem-se com os de Hippe. A boca e a voz de ambos sobrepõem-se, do mesmo modo, os sentimentos!

     O retorno do passado, o eterno retorno, ou não tão eterno assim, muito do que vivenciamos lasso e distante mesmo assim permanece em nós, condiciona-nos e pode reavivar em inesperadas circunstâncias.

 


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