terça-feira, 3 de abril de 2012

O Coração é um Caçador Solitário




 O CONTEXTO HISTÓRICO


 A GRANDE DEPRESSÃO

por Manuela Pereira
 
 




 







O Coração é um Caçador Solitário

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               




O Texto

 
O Coração é um caçador solitário

 Carson McCullers

O mudo cantor

por António Nabais

Mesmo sabendo-se que este é, em grande parte, um romance autobiográfico, a verdade é que a personagem principal não será Mick Kelly, mas sim John Singer, um mudo. Aliás, o romance esteve para ser intitulado The Mute e, para além disso, de acordo com as palavras da autora, Singer era um “um catalisador emocional para todas as outras personagens”.
                John Singer é-nos apresentado, antes de mais, na sua relação com Antonapoulos, como um protector, uma figura feminina entre a esposa e a mãe, se aceitarmos o estereótipo da mulher como alguém que protege e aceita, incondicionalmente, o seu amado (curiosamente, e a propósito, na p. 225, a mãe de Biff era considerada "severa como um homem”). Ainda assim, não consegue livrar Antonapoulos do internamento. A partir desse momento, no entanto, fica, aparentemente, livre para poder ajudar outros.
Todas as personagens que se ligam, posteriormente, a Singer vivem, de algum modo, desamparadas. Todas elas precisam se ser acarinhadas, ouvidas. A mudez, secundada pelo instinto protector de Singer, tornam-no numa espécie de vazadouro de sentimentos e de pensamentos. 
                Embora seja evidente o facto de que o romance se passa no Sul dos Estados Unidos, o espaço que nos é dado a conhecer é, sobretudo, o interior das personagens. Aliás, a narração assenta, muitas vezes, numa focalização interna que nos leva a acompanhar a história com base na percepção e no conhecimento de cada personagem. Exemplos disso surgem na p. 63 ("Uma miúda encontrava-se sentada no alpendre da casa. Já a vira antes.") ou nas pp. 150-151 (Blount é, na visão de Copeland, um “branco” em que “detectou um olhar demente, estranho, fixo e abandonado”).
                Singer é, então, a folha em branco em que são inscritos todos os pensamentos das personagens. O facto de ser mudo transforma-o no receptor ideal, em alguém que, do ponto da vista dos outros, é sempre um igual. Na p. 138, podemos aperceber-nos daquilo que pensa o Dr. Copeland: “Ele era muito diferente dos outros brancos. Era um homem inteligente, que compreendia a força do verdadeiro propósito de uma forma que os outros brancos não compreendiam. Sabia ouvir, e o seu rosto possuía algo de judeu, a noção de se pertencer a uma classe oprimida.” Mais à frente, na p. 201, Singer é apresentado como um autêntico Zelig, reclamado como seu por etnias e profissões.
                A ligação entre Singer e as personagens que mais se aproximam dele, ao longo da história, é de tal como forte que, na p. 210, quando todos se encontram ao mesmo tempo no seu quarto, podemos ler: “Todas as pessoas falavam directamente para o mudo. Os seus pensamentos pareciam convergir nele, como os raios de uma roda convergem no eixo.” É o próprio narrador que, através de uma comparação feliz, sintetiza o papel de Singer na obra.
Não consegui saber se a escolha do nome do mudo terá algum simbolismo, mas não deixa de ser, no mínimo, uma ironia que o apelido de uma personagem que não emite sons signifique ‘cantor’. Em primeiro lugar, isso parece indiciar uma comunhão com Mick, cuja vida interior é habitada pela música.
Para além disso, o canto é, relativamente à música, primordial, mas o que pode cantar um mudo? A verdade é que as personagens parecem compreender tudo aquilo que (não) diz e tudo aquilo que parece dizer é-lhes agradável, música para não para os ouvidos, mas para a alma. Orfeu, a personagem mitológica, tinha um efeito apaziguador sobre os elementos, graças ao seu canto. Deste modo, podemos ver em Singer um Orfeu mudo.
Curiosamente, e continuando a aproveitar o mito de Orfeu, é ainda possível entrever mais uma homologia: tal como Orfeu falhou com Eurídice, também Singer não consegue resgatar Antonapoulos dos Infernos. Tal como Orfeu, morre.
Singer, de certa maneira, acaba por ser vítima do seu altruísmo e do egoísmo alheio: para os outros, foi sempre um instrumento, viram nele apenas aquilo que queriam ver. Note-se, aliás, que é só nas pp. 213 ss. que nos apercebemos daquilo que Singer sente, quando podemos, finalmente, ouvi-lo, através da carta que escreve.

  



O negro, a miúda, o homem do bigode e o dono do New York Café
  por Alexandra Azevedo

Mick, uma miúda de 13 anos que amava a música sobre todas as coisas e queria ser famosa aos dezassete, Biff, o dono de um café  que gostava de “gente anormal” e  nutria um certo carinho pelas pessoas doentes e pelos aleijados, Jake um mecânico de carrocéis que fazia  parte dos que sabiam e que alucinadamente queria levar os outros ao conhecimento da Verdade e, finalmente,  o Dr. Copeland, um médico negro que queria  recuperar a dignidade da sua raça são quatro  personagens que, aparentemente  nada têm em comum.
Aparentemente.
 Na verdade, todos são irremediavelmente solitários e cada um vê no Sr. Singer, surdo-mudo,… o ouvinte ideal!
Singer, por seu lado só tem no pensamento o seu amigo Antonapoulos e na carta que lhe escreve, refere-se aos seus improváveis amigos desta forma: o negro, a miúda, o homem do bigode e o dono do New York Café (pág. 214) e explica-lhe  que estão todos muito absorvidos, isto é, todos têm uma paixão que valorizam acima de tudo, realçando a diferença que separa o  dono do café dos outros: Esse homem é um observador. (pág. 214)    
  Todos sobem ao quarto de Singer para falar com ele, mas é a si próprios que querem ouvir. O efeito Singer é o mesmo do psiquiatra: tal como este que apenas interrompe o paciente com um ou outro monossílabo para desencadear nova torrente de palavras, também Singer com um olhar ou um sorriso incentiva os monólogos dos seus assíduos visitantes  deixando-os  falar sem nada contrapor, porque, tal como escreve ao amigo analfabeto, é uma grande falta de educação ignorar os sentimentos dos outros. (pág.. 215)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Coração é um Caçador Solitário




A AUTORA                           

                                                           Vida e Obra de Carson McCullers   
   
por Conceição Rocha








O Coração é um Caçador Solitário

por Adelino Geraço

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Coração é um Caçador Solitário


Temas de reflexão para a próxima sessão


O Texto
  • a relação de Mick, Biff e Jake com o Sr. Singer
  • a relação de Singer com Antonapoulos
  • a relação entre Jake e Dr. Copeland
  • os cheiros
  • o título
  • a solidão
O Contexto
  • Os anos da Grande Depressão
  • Os conflitos raciais nos Estados Unidos
A Autora
  • Vida e obra

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Carson McCullers

         
 Carson McCullers (1917- 1967) _ um dos grandes nomes da literatura americana do século XX.











O Coração É Um Caçador Solitário"_ romance
      

                                                                                                
  

     









quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Retorno



                                                                 
Ítacas há muitas

por António Nabais            


A palavra nostalgia é de origem grega, incluindo os elementos nostos ‘regresso’ e algia ‘dor’. Da Odisseia diz-se que é exactamente um poema sobre o regresso e o regresso pode ser fonte de dor. O romance O Retorno de Dulce Maria Cardoso é, também ele, sobre um regresso e sobre a dor desse regresso.
Sem grande esforço, parece-me possível encontrar alguns paralelismos entre a epopeia homérica e a narrativa portuguesa, começando, desde logo, pelo facto de que o ponto de partida de ambos é o fim de uma guerra, o que não é o mesmo que dizer que as personagens encontrem imediatamente a paz.
Rui, a personagem principal, é, assim, um Telémaco que deseja o regresso de pai, embora, neste caso, esteja fora da Ítaca amada. O pai desempenha o papel de um Ulisses cujo percurso configura uma perversão da Odisseia, já que Angola deixa de ser Ítaca e passa a ser Tróia e a própria odisseia.
As semelhanças entre O Retorno e a Telemaquia, a primeira parte da Odisseia, tornam-se evidentes, a partir do momento em que a família chega a um hotel que Rui se esforça por considerar uma casa, mas ainda não tinha chegado o tempo de votar a Ítaca.
A centralidade da personagem do filho é total, ou não tivesse a seu cargo a enunciação narrativa, que arrasta o leitor para a corrente da consciência da personagem. A mãe, Penélope de circunstância, tem nos "demónios" os substitutos dos pretendentes que ocuparam o palácio do marido, na sua ausência. Cabe a Rui ajudar a impedir que a mãe seja subjugada, enquanto ela própria tece, como pode, a resistência à loucura.
Nada sabemos da odisseia do pai, a não ser que lhe ficaram cicatrizes. Sabemos, isso sim, que, com a sua chegada, os demónios são afastados, a normalidade é reposta, sendo sintoma disso, por exemplo, o facto de Rui voltar a ser insultado pela irmã. Tal como Ulisses matou os pretendentes, também o pai afasta os demónios que incomodavam a mulher. Com o regresso do herói, a normalidade é reposta.
É certo que não teremos o privilégio de ouvir Ulisses contar que ciclopes ou sereias enfrentou, mas esse silenciamento parece resultar da necessidade de encontrar uma nova Ítaca. Pondo de lado a curiosa coincidência de que este Ulisses regressa à cidade que teria fundado, de acordo com a lenda, Ítaca deixa de ser Angola e passa a ser, antes de mais, a família e, até, a metrópole.