Julien Sorel, o homem
fatal
por
Maria José Marques
Julien
Sorel, personagem principal do romance de Stendhal Le Rouge et Le Noir é
um jovem ambicioso que usa a sedução como um instrumento de promoção
pessoal tal como uma mulher fatal da literatura ou do cinema.
Mulheres fatais são, tipicamente, vilãs
ou pelo menos moralmente ambíguas sempre associadas a uma atmosfera de
mistificação e constrangimento. Uma mulher fatal tenta alcançar os seus
objectivos, nem sempre claros, pela astúcia e manipulação usando os seus
atributos femininos : a beleza e atracção sexual. Em alguns casos recorre mais
depressa à coerção do que aos seus encantos pessoais. Por vezes a mulher fatal
apresenta-se como vítima apanhada numa situação de que não consegue fugir. É
uma outsider. O passado da mulher fatal é algo de que foge, que a
persegue, ou que quer esquecer começando uma vida nova. Quem for apanhado no
seu caminho, que ela deseja ascendente, pode bem acabar numa terrível queda.
Filho de um bruto carpinteiro Julien ambiciona
melhor estatuto na vida. Perdidas as ilusões de progresso pessoal numa carreira
militar depois da queda do seu ídolo, Napoleão, encara a carreira eclesiástica como
oportunidade de alcançar fortuna. Sensível e inteligente, dotado de uma
prodigiosa memória, capaz de decorar a bíblia em latim - e o mais que lhe seja
pedido – aparenta uma religiosidade que lhe vai garantindo ascensão social.
Primeiro degrau na ascensão: é contratado para
preceptor dos filhos de Monsieur de Rênal, ele próprio querendo assim
mostrar-se rico e evoluído. E logo Julien a querer conquistar posição: “Prefiro
renunciar a tudo isto (…) a ter de comer com os criados “ (p.25 ). A sedução
de Mme de Rênal é o passo seguinte que se impõe. O fatal Sorel e o seu comportamento calculista
: ” Tenho tanto mais dever de conquistar esta mulher(…)porque se algum dia
conseguir fortuna e alguém me deitar à cara o baixo emprego de preceptor, posso
dar a entender que foi por amor que aceitei este lugar.” As motivações
egoístas do fatal Sorel e uma boa dose de coacção, pequenos mas insistentes
gestos de carícia e atenção despertam a paixão e vencem os receios e escrúpulos de Madame de
Rênal e “ Nada ,numa palavra , teria faltado para a completa felicidade do
nosso herói( …)se soubesse desfrutar dessa felicidade .” Esta é a maldição
do homem fatal: tem sempre uma reserva sentimental que o impede de se entregar
à felicidade do momento em vista da ambição futura. A família Rênal proporciona
dinheiro, boas roupas, boas maneiras, no entanto “Pela sua parte, não sentia
senão ódio e horror pela alta sociedade junto da qual era agora admitido, mas
apenas na extremidade da mesa”.
Entre a delícias da vida amorosa e
sobressaltos e tortura dos remorsos causados em Mme. de Rênal pela paixão
adúltera, ilícita, a ambição do jovem
Sorel vê-se ameaçada pelas convenções, rivalidades e mesquinhez da sociedade provinciana
e também pela sua própria natureza contraditória , sensibilidade e orgulho.
Torna-se urgente uma retirada.
Depois da ascensão a queda. Julien Sorel
o fatal outsider, hipócrita, ambicioso, arrivista repudia um eventual romance
com Elise, a criadinha de quarto que sonhava casar-se com ele, e cujo despeito
e sentimentos feridos a levam a revelar o segredo dos amantes Louise Rênal e
Julien Sorel que se vê constrangido a seguir outra carreira.
Forçado
a retirar-se para o seminário de Besançon, toda a capacidade de fingimento e
bajulação do fatal Sorel é posta à prova. O que parece ser um pequeno revés, um
interregno sem futuro, bem pode levá-lo a maior glória quando lhe proporciona
uma situação em Paris, chez Monsieur de la Mole. No convívio com a alta sociedade da capital a sua origem provinciana e pobre trouxe-lhe
momentos de humilhação mas também de
aprendizagem. O fatal Sorel vai refinar a sua arte de manipulação e seduzir
Mathilde de la Mole, a rebelde aristocrata filha do seu patrão. Garantida a
paixão e a inevitabilidade de um casamento na iminência de um herdeiro Julien
está prestes a alcançar o almejado estatuto social. Mas eis que a vida do herói
fatal também é cheia de fatalidades.
Louise de Rênal denuncia a Mathilde o
carácter traiçoeiro de Julien. Julien volta
a Verrières para assassinar Louise por
esta ter posto em perigo o seu casamento com Mathilde. Mas, além de ter falhado
o golpe, descobriu que a sua paixão por ela se avivara. Por fatalidade foi
julgado e condenado à morte. O impassível Julien Sorel tem então oportunidade
de se redimir não recorrendo da sentença. Com a sua execução Mathilde ficará
viúva e assim disponível para casar vantajosamente com monsieur de Croisenois. Madame
de Rênal não morreu às mãos de Julien mas morreu, por causa do tumulto de
paixões que ele criou, três dias depois da sua execução.
Tímido e agressivo, sensível e
implacável, vulnerável e extremamente ambicioso, Julien Sorel atrai e repele o
leitor. A apreciação e justificação das suas acções está nas palavras que dirige
ao júri que o julga.
“ O meu crime é atroz e foi premeditado.
Portanto mereço a morte, senhores jurados. Contudo, ainda que a minha culpa
fosse menor, estou perante homens que ,sem terem em conta a minha juventude e a
piedade que ela mereça, pretenderão castigar em mim e desencorajar para sempre
essa espécie de rapazes que, nascidos numa classe inferior, e oprimidos de
certo modo pela pobreza, têm a sorte de conseguir uma boa educação e a audácia
de se intrometerem naquilo a que o orgulho das pessoas ricas chama boa sociedade.
Foi
esse o meu crime, senhores, e será castigado ainda com mais severidade por não
ser julgado pelos meus iguais. Não vejo nos bancos dos jurados nenhum camponês
enriquecido, mas unicamente burgueses indignados… “
O
seu crime maior é, a seus olhos, a “ audácia
(…)de se intrometer na boa sociedade“ . Adultério, homicídio,
enganos…para ele tudo encontra atenuante na condição do seu nascimento.
Pobres
vítimas ! Pobre homem fatal !
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