quinta-feira, 24 de abril de 2025

FILOMENO _GONZALO TORRENTE BALLESTER

 

Filomeno, a meu pesar  


                                                                    por Manuela Pereira 

                                                              

                                                            Filomeno, Gonzalo Torrente   Ballester_1988

 

Em Filomeno, Ballester fala-nos da difícil passagem da infância à idade adulta do menino Ademar, a par com a guerra travada entre a aristocracia rural e a pequena burguesia urbana, liberal e democrática. Filomeno, a seu pesar, cresce numa Europa abalada pela guerra, que fará a transição para o mundo moderno com conflitos sangrentos.

Filomeno Ademar é o símbolo desse mundo em transição, é o símbolo do homem desse tempo.  Vive todas as convulsões da guerra com a angústia interior causada pela recusa do seu nome paterno, com a mesma violência que a avó recusa o pai Freijomil e as suas origens humildes, pela dificuldade de conciliar os seus nomes em confronto _ Ademar d’Alemcatre, o príncipe _ de origem aristocrática e a sua origem simultaneamente burguesa _ Filomeno Freixomil, o galego.

Só depois da morte da avó dona Margarida e da falta da maternal Belinha, quando no final da Primeira Guerra desaparecem grande parte das monarquias europeias, deixa o conforto da infância no pequeno paço dos vales minhotos e é levado à passagem à vida adulta pelo pai, que o convence a sair para o mundo, a educar-se e a projetar-se no futuro.

Futuro em que a sociedade agrária se transformará, no final de guerras sucessivas e violentas, numa sociedade industrial e capitalista, com as consequentes transformações do sistema político. É a passagem para o mundo moderno e , depois de deambular pela Europa  e por várias paixões, Filomeno é um homem moderno, já seguro de si e daquilo que quer.

Reconciliado consigo próprio ao voltar à origem, à terra onde nasceu, vai sobreviver à ditadura de Franco sem recuar nas suas convicções. Pondera transformar o paço minhoto numa propriedade capitalista da terra, fazendo sociedade com ‘brasileiros de torna viagem’ e sonha com uma viagem ao Brasil.

Villavieja

Sobreviveu, tal como “a aristocracia sobreviveu, mas sob uma forma nova, fundada daí em diante no dinheiro, mais do que no nascimento.”.

Filomeno reconhece: “Nunca me ocorreu, no entanto, pensar que em Villavieja seria eu próprio, porque na realidade nunca soubera de fonte segura quem eu era. (…) Hoje penso ter superado essas preocupações, que considero mera literatura.” (436)

 


 

 

Manuela Pereira                                                                                                 Clube Leitura_14/ 03/ 2025


             Ademar de Alemcastre, o fidalgo


                                                                                 por Ângela Melo

 

 

Foi com prazer e quase de um fôlego que li Filomeno. Mas tendo entrado tão bem no livro não encontrei o caminho de volta, fiquei lá dentro. Não foi pelo assunto ou a trama em si, foi a cisma de apanhar melhor o texto, o que estaria a dizer para lá do que é dito, e a vontade de espreitar a narrativa pelo avesso. Afinal, o que fazia funcionar a sedução do leitor?  

 

1 - jogar um jogo - a realidade não precisa de realismo. Autor, narrador e personagem são o mesmo, a personagem fala de si como personagem, numa dupla existência de real e ficcionada.

A formatação em relato de memórias na primeira pessoa reforça a ambiguidade, entra como um registo autobiográfico e pede-nos que acreditemos na existência da personagem para lá do livro.

Do mesmo jogo participam os factos históricos chamados ao contexto, das tenazes do regime, o franquista em especial, aos sinais da guerra, uns e outros prontos a certificar a ficção como realidade. Mas neste particular, Ballester não parece fazer deles um ponto de fusão, não os intrinca que baste no enredo, o que levaria aliás a avanços na direcção trágica. Em boa medida, deixa-os no quarto ao lado. 

 

2persuadir o nosso empenho. Na decifração da ironia, presente ao longo do texto e perita em dissimular o que na verdade quer dizer. Depois a deduzir a fisionomia das personagens e dos lugares, que vão comparecendo mas ao abrigo do traço minimalista, sem a evidência de um retrato. De Filomeno, fora os palpites quanto ao bom porte, nada mais é explicitado além do olho azul herdado da mãe.

 

Um fidalgo

Já o temperamento das personagens é mais declarado. De Filomeno, em particular, pelo efeito de contraste - entre a presença esbatida da personagem e a nitidez das outras, todas de passagem ao invés da centralidade de Filomeno, mas todas dotadas de idiossincrasias mais verificáveis.

 

Não que a Filomeno falte consciência reflexiva, matéria que ocupa até boa parte do texto mas que assim mesmo não faculta limpidez bastante, vai-nos mantendo a presumir:   

Que se distraía de si mesmo, que se sentia vazio de imagens e de emoções, que atuava por curiosidade, disse quando estudava em Madrid; convém deixarmos de ser sinceros para usar a ironia como método universal de julgamento 259, dito mais tarde, no regresso de Londres; eu tinha sobre muitos a vantagem de não me levar a sério, de considerar as minhas ideias como erros ou meras fantasias, 305, dito aquando da estadia em Paris.

 

3 consolar-nos com um trajeto virtuoso.  Ao confesso contemplador da realidade, algo errático e sonhador, sucede um Filomeno mais sabedor e experiente, que ganha aura enquanto cronista neutro. Vai surpreender-nos depois um Filomeno ideologicamente orientado, capaz de se expor e vincular como é dado ver na condução da tertúlia, no cortejo fúnebre de Flora ou no confronto com o presbítero e com o governador franquista, esse mesmo que do país acaba por expulsá-lo. Por fim um Filomeno administrador do património herdado, de manhã, porque à tarde escreve, dividido entre o murmúrio dos eucaliptos e o passo incerto em busca de uma mulher. 

 

4intrigar-nos. A sequência dos factos obedece ao tempo linear. Mas não existe um desfecho, o livro termina à beira de um recomeço, ao jeito do tempo cíclico e sem saída, como parece demonstrar o retorno periódico ao paço minhoto, lugar vital e da reparação, encarregado de assinalar o início e o fim de cada etapa de Filomeno. Uma mulher e quatro andamentos parecem por sua vez dinamizar cada período: Belinha, Úrsula, Clélia, Maria de Fátima e Flora; encontro, iniciação, separação e retorno.

 

 

A partir do desdobramento do tempo, a mesma realidade pode assumir várias espessuras. Um suplemento de mundo interno parece então mergulhar no trajeto de Filomeno. O amor como impossibilidade ou a melancolia como fado cuidam de vir à tona.

 

Poder-se-ia continuar a escavar o texto, a exumar a pegada dos esquemas narrativos, precisamente os mesmos que estarão carecas de se saberem usados pelo artifício literário. E para além da mera serventia, uma maior escavação tenderia sempre a enterrar o magnetismo do texto, quando afinal é na relação entre o modo de escrever e a têmpera da personagem onde encontro a melhor prova da estratégia que os criou.

 

A linguagem que Ballester empresta a Filomeno soa a refinamento natural e lavado, algo british mas sem os tiques de classe, tão discreta quanto atenta e de reparo sensível, e tão bem temperada pela modéstia de quem deprecia os próprios méritos.  

 

Ballester não parece usar a linguagem de Filomeno apenas como ferramenta para comunicar. Adiante do assunto, do enredo, é o corpo das palavras que realmente cria a personagem e onde o romance descobre a sua própria energia, é afinal a escrita que se converte em assunto.

 

Nota final  

Paira na atmosfera do livro um ideal de decência, um paradigma de civilidade.  Pergunto-me o que pretende Ballester com a entrada de Ademar Alemcastre, o fidalgo letrado de nobreza herdada, com privilégio de paço e solar, senhorio de foros e renda própria, ainda que de imperfeita sorte…a falha parental, uma baixa autoestima.  

 

Talvez Ballester quisesse sublinhar, na sua demonstrada tendência liberal, que nem ao privilégio de nascença se podem descontar méritos quando conquistados.

 

Ou talvez Ballester, na sua evidente oposição à alma rasteira e à falsidade, à injúria dos mandões e sua afronta à vida privada, tivesse criado uma alegoria à autoridade moral para os enfrentar a todos com determinação elegante, sem a baixeza de uma querela. Um senhor de si, de integridade e honra, de meios próprios para seu sustento, versado nas artes e letras, viajado e de respeitosos contactos, ao sofrimento alheio sensível e reparador, discreto, tímido até, mas afável e bem-apessoado…Convenhamos que fazia falta um talismã ou um toque de mito que electrizasse a virtude saturada do curriculum, faltava uma aura a coroar o candidato – eis então a etiqueta de berço. Esse predicado, sim, capaz de accionar o mecanismo da ficção social e seus imaginários derivados, como o despertar da autoridade senhorial de uma ascendência de séculos, ao invés do tempo presente, voraz e provisório, onde nascem e medram os poderes fátuos.

É para aí que convergem o paço, o solar e a herdade, como arquiteturas que enraízam uma pertença e preservam uma continuidade longa, os mesmos recursos que o romantismo, a seu tempo e modo, não se cansou de explorar. Aliás, em Ademar, não consigo deixar de pressentir uma estética de vocação romântica ainda que com linhas vermelhas - sem disparos do ego ou arrebatamentos de perdição, mas certamente afiliada ao idealismo, à construção de uma subjectividade e à defesa intransigente das liberdades de pensamento e expressão.

Uma estética que parece agora actualizar-se à medida que nos devolve uma inquietante relação de valores em perigo de extinção.

 

Angela Melo,

30.03. 2025


Filomeno de Freijomil

 VS Ademar de Alemcastre

A importância de um nome


por Maria João Leite de Castro

Logo no início do livro, o autor tece consideráveis reflexões sobre o(s) nome(s) que entretece(m), de forma quase antagónica, a sua própria identidade.

Antagónica porque ligada a países diferentes, embora próximos, mas também e, sobretudo, porque remetem para famílias de origens socioculturais divergentes, sendo que o único elo de ligação entre elas é precisamente Filomeno ou Ademar.

Em Portugal, prevalece o Ademar, assumido pela avó Margarida, de ascendência inglesa, o que lhe dava também o sobrenome de Alemcastre, que Ademar prezava porque lhe remetia para o mais além, o plus ultra eivado de mistério que tanto agradava ao incipiente poeta. O Filomeno Freijomil desaparecia quando passava a raia, numa carruagem puxada a seis cavalos, e entrava no paço minhoto, onde o afecto de Belinha suplantava a falta de carinho e o vazio deixado pela mãe que nunca conhecera…

Enquanto, pelo lado da mãe e da avó Margarida, Ademar era descendente de reis (….) e de amantes de reis (pág.13), pelo lado do pai, Filomeno herdara o nome do avô, carteiro rural numa zona montanhosa próximo de Zamora e de Portugal, cujo filho – o pai de Filomeno – se distinguira desde miúdo pela sua inteligência, trabalho, disciplina e ambição.

Heranças diferentes que se traduziam também em expectativas muito diferentes e exigências quase antagónicas na cabeça do menino, como Belinha amorosamente lhe chamava.

A minha avó dissera-me milhares de vezes “ a tua obrigação na vida é repetir a figura do teu avô Ademar” (…) A meta, quando fiquei sob a autoridade de meu pai, não era um homem concreto, mas uma noção relativa: ser o primeiro da turma, o primeiro do ano, o assombro dos professores; e depois, o primeiro da cidade e o seu assombro(…), (pág.25).


Ao longo da vida, naturalmente que esta dualidade se foi suavizando, mas ela estará sempre presente, marcando indelevelmente o que o autor foi ou, como ele próprio diz, o que não chegou a ser. Ela é referida em vários momentos do livro, como por exemplo, quando chegou a Madrid para começar os seus estudos universitários e se apresentou no hotel como Filomeno Freijomil (pág 84) Filomeno! Como me pareceu estranho! O sorriso que o homem do balcão me dirigiu seria de amabilidade ou por causa do meu nome?

O nome pelo qual é tratado, interfere também na forma como se relaciona com as pessoas. Quando conhece o Professor Romualdo Estévez, o seu professor de francês, e ele o chamou de Ademar, emociona-se (pág.102) Ademar! Emocionou-me ter-me chamado assim e, de repente, toda a minha desconfiança se transformou em simpatia.

Galiza


O mesmo professor reconhece também a importância do nome, independentemente das conotações subjectivas que ele possa ter para o nosso autor (pag.102) Filomeno! Esse é o inconveniente. Já reparou no que podia ser em Madrid se se chamasse Ademar de Alemcastre? Entraria na literatura com o pé direito. Não sabe o que faz um nome!

A sua ligação a Antero de Quental que, assume, pode ter qualquer coisa a ver consigo, traduz essa sua ambivalência. Numa conversa com Benito refere (pag.140) não sei bem o que é. Ando um pouco perdido, sabes? Mas isso não é novidade. Sempre andei perdido. E ao refletir sobre a dificuldade de expressar por palavras os seus sentimentos a outrem, pensa (pag.141/142) As de Quental sim, comunicam-nos, mas eu não sou Antero, sou Ademar, nem sequer Ademar, sou Filomeno, aquele nome pelo qual ninguém me chama, ou, quando muito, por senhor Freijomil. Até Florita tinha ficado chocada: «Como te vou chamar? Filo? Filo é nome de mulher!» O meu nome nem sequer dava para um diminutivo carinhoso.

Os nomes que o envolviam davam-lhe também formas de estar diferentes, como sublinha Benito, quando passa com ele umas férias no paço minhoto. (pág 155) Outra das suas descobertas, talvez a mais surpreendente, foi a de que toda a gente me chamasse Ademar de Alemcastre, e não Filomeno Freijomil, e que, sob aquele nome, eu me comportasse com mais desenvoltura. Como já se começava a falar de múltipla personalidade, e esse tema aparecia em romances e comédias, chegou a perguntar-me se eu tinha uma dupla personalidade. Expliquei-lhe a minha situação como pude: de qualquer forma eu vivia em parte como homem moderno e em parte como sobrevivente retardado.

A reconciliação com o nome Filomeno surge com Ursula, sendo esta a primeira a gabar-lhe a sua beleza. (pág. 206) Meu Deus! Era a primeira vez que alguém me dizia semelhante coisa do meu nome, aquele fardo que tanto me pesava; desde então, até me reconciliei com ele e decidi enterrar Ademar juntamente com o passado. Bom, não o esqueceria totalmente porque, nas minhas recordações de Belinha, continuava a ser Ademar. «Meu menino, meu pequeno Ademar!». Posteriormente, com Clelia, é o Filomeno que é assumido, perguntando-se inclusive, como poderia “recuperar” o Ademar. (pág.327) Ursula e Clelia tinham-me amado como Filomeno.

As constantes ambivalências aqui referidas seriam motivo para questionamentos, cujas respostas não quero assumir, porque não tenho competência para tal, mas que, eventualmente, nos ajudariam a compreender um pouco melhor a personalidade imprecisa do narrador, as suas indecisões, o vazio que muitas vezes envolve a sua existência (pag. 326) (…)encontrei-me aos 26 anos bem entrados sem uma única aspiração, sem um desejo concreto que não fosse ir vivendo, não digo que aos trancos e aos barrancos porque tinha a vida assegurada, mas sim bastante ao acaso do que pudesse aparecer ao virar da esquina (…), a sua passividade e baixa auto estima. Acredito que a forma como “resolvemos” a nossa identidade se relaciona também com o nome que nos atribuem ou que herdamos e com o modo como o assumimos (ou rejeitamos).

Maria João Leite de Castro

31/03/2025


                                     Panorâmica geral do que foi/é ser mulher na                                   Contemporaneidade


                                                                                                   por Blandina Lopes


   O século XIX foi um século de ruturas a todos os níveis, principalmente a nível socioeconómico e político, não descurando o desenvolvimento científico-tecnológico que teve a sua concretização com a Revolução industrial. As revoluções norte americana (1775-1784) e francesa (1789-1799) já eram prenúncio do que posteriormente iria eclodir, em termos de transformações mais ou menos radicais, nas sociedades ocidentais. No que à Revolução Francesa diz respeito, sabemos que ela foi, para a europa ocidental, o paradigma de mudanças muito significativas nos planos económico, social e também político. No entanto, no que toca às mulheres e aos seus direitos cívicos, sabemos também que, tal como comenta Élisabeth Sledziewski no seu artigo “Revolução francesa. A viragem”, se compreende porque é a reação contra a mulher cívica tão viva e o desejo de confinamento das mulheres tão inigualável, mesmo no tempo da Revolução. E mais adiante, corroborando esta ideia, afirma: Muitos dos que se batem heroicamente pela instrução e pelo sufrágio universal, para que o último dos camponeses possa tornar-se um cidadão esclarecido, recusam categoricamente beneficiar as mulheres com igual promoção, e apavoram-se com a ideia de que esta lhes possa conferir um poder. Pois integrar as cidadãs no corpo político é fazer delas decisoras, sujeitos ativos da Revolução, em pé de igualdade com os homens: hipótese para muitos, nessa época, insuportável. Em compensação, a ideia de que os homens fazem as leis civis emancipadoras para a mulher é mais tranquilizadora, uma vez que esta se mantém então em posição de objeto: objeto de uma legislação progressista, mas, apesar de tudo, objeto.”[1]

   Apesar deste contexto de revoluções a vários níveis, só o século XIX[2], nas perspetivas de Geneviève Fraisse e Michellle Perrot, será o século do nascimento do feminismo, palavra emblemática que designa tanto mudanças estruturais importantes (trabalho assalariado, autonomia do indivíduo civil, direito à instrução) como o aparecimento coletivo das mulheres na cena política. Ou seja, este século é precisamente o momento histórico em que a vida das mulheres (europeias/ocidentais) muda ou, melhor dizendo, o momento histórico em que a perspetiva da sua vida muda; foi, por isso, um tempo da modernidade em que é tornada possível uma posição de sujeito, de indivíduo de corpo inteiro e de atriz política e de futura cidadã de plenos direitos civis.

   E, referindo-se ao século XIX como século de profundas alterações, as mesmas autoras afirmam o seguinte: Com efeito, se no início do século se pensa que todas as mulheres devem ter uma mesma destinação, uma única tarefa, a de esposa e de mãe (reencontramos aqui  o “todas as mulheres” do pensamento democrático, mas como reprodutoras da espécie, não como cidadãs), o final do século, consciente das transgressões e da diversidade das escolhas femininas, propõe uma norma mais subtil, a que faz de cada história feminina um destino controlado. Poder-se-ia entender que é dada a liberdade ao indivíduo feminino, a quem se reconhece a escolha de um percurso pessoal. Nada é, no entanto, menos certo…”.[3] Acrescentamos ainda que vão ser precisos muitos mais anos para que essa realidade se concretize. Mesmo o século XX vai ser palco de muitas lutas e reivindicações para que as mulheres conquistem direitos e reconhecimento de plena cidadania.




   Os séculos XX[4] e XXI vão ser os séculos da globalização, por excelência, e dos seus efeitos a muitos níveis, incluindo o da luta pelos direitos das mulheres, não só nas sociedades ocidentais como noutras partes do mundo. O século XX foi palco de duas guerras mundiais que alteraram profundamente a nova ordem geopolítica do mundo e que, ao mesmo tempo, também provocaram revoluções científicas e tecnológicas que trouxeram mudanças, muitas vezes, radicais para os modos de vida das populações em geral e das mulheres em particular. Foi um século que proporcionou tanto aos homens como às mulheres melhor saúde e longevidade, uma maior democratização da escolaridade e, fundamentalmente, modos de vida marcados pela urbanização e pela multiplicação dos consumos de bens e de serviços. No que toca mais especificamente às mulheres, assistiu-se a uma transformação do trabalho doméstico e do regime da maternidade que diminuiu o tempo necessário a essas atividades de reprodução e lhes permitiu uma maior participação na vida social.

   E, para reforçarmos o argumento segundo o qual o século XX trouxe às mulheres uma maior participação na vida social, numa relação não ainda de paridade com os homens, mas já mais próxima destes, recorremos às palavras de Françoise Thébaud, segundo as quais É verdade que, para as mulheres, a guerra (referindo-se à 1ª Grande Guerra de 1914-18) constitui uma experiência de liberdade e de responsabilidade sem precedentes. Em primeiro lugar, pela valorização do trabalho feminino ao serviço da pátria e pela abertura de novas oportunidades profissionais, em que as mulheres descobrem, geralmente com prazer, o manuseamento de utensílios e técnicas que desconheciam. A guerra destrói, por necessidade, as barreiras que opunham trabalhos masculinos e trabalhos femininos e que vedavam às mulheres numerosas profissões superiores.[5] A título de exemplificação, destacamos o facto de as raparigas começarem a frequentar a educação superior, nomeadamente, na Sorbonne e em Oxford.

Estas conquistas e outras subsequentes não vão ter mais um ponto de retorno, antes pelo contrário, vão consolidar-se e alargar-se a todos os setores da vida social, quer no século XX quer nesta primeira metade do século XXI. No entanto, e apesar de todas estas ruturas com a tradição, elas não foram de modo algum definitivas, uma vez que quando “tocam os sinos do armistício” a 11 de novembro de 1918, a desmobilização feminina é, por toda a parte, rápida e brutal, principalmente para as operárias de guerra, as primeiras a serem despedidas e a voltarem, na maior parte das vezes, ao lar e às tarefas consideradas especificamente femininas.

    Foi igualmente na segunda metade do século XX que se deu a descoberta de um fármaco – a pílula contracetiva oral combinada[6] – e que se revelou como uma das causas, senão mesmo a causa principal, da revolução dos costumes e da emancipação sexual das mulheres. Com o advento da pílula contracetiva, os códigos tradicionais de comportamento relacionados principalmente com a sexualidade humana e com os relacionamentos interpessoais sofreram ruturas sem retorno, nas décadas de 60 e de 70, no mundo ocidental, e que ainda hoje, mais precisamente na primeira metade do século XXI, continuam a fazer-se sentir de uma forma mais global. Saliente-se que, como consequência direta desta dita “liberdade sexual”, a homossexualidade e outras formas alternativas de sexualidade e a legalização do aborto foram fenómenos sociológicos e culturais que começaram progressivamente a ganhar força nas sociedades ocidentais.

   Outro fator importante e a destacar foi o desenvolvimento das ciências da Informação, mais precisamente, a Informática, a Cibernética e a Inteligência Artificial, e, simultaneamente, o poder cada vez maior dos media e mais tarde das ditas redes sociais. Esta conjuntura aliada a uma cada vez maior liberdade cívica e política (principalmente a partir das duas guerras mundiais e da nova ordem geopolítica) foram determinantes para uma crescente valorização das mulheres e dos seus direitos não só enquanto pessoas, mas sobretudo enquanto cidadãs livres e autónomas. Foi neste século que surgiram, em maior quantidade e com mais frequência, nomes femininos muito importantes em vários domínios como os da arte, da ciência e da filosofia. Saliente-se que o século XX foi, principalmente a partir da segunda metade, o século em que as repercussões das Guerras Mundiais, da Guerra Fria e da Globalização criaram um mundo em que as pessoas estiveram mais unidas do que em qualquer outro período da história da humanidade, criando mesmo o denominado Direito Internacional, plasmado na Declaração Universal dos Direitos Humanos[7] e na Carta das Nações Unidas[8].

   No entanto, e paradoxalmente, o período que se seguiu às duas Grandes Guerras foi também um período de bipolarização e de grandes conflitos entre as duas superpotências, uma liderada pelos Estados Unidos da América e a outra liderada pela União Soviética (capitalismo versus comunismo), que desembocou no que se denominou período da Guerra Fria[9] e que teve como consequência nefasta para a paz mundial a corrida ao armamento nuclear. Mas, ao mesmo tempo, esta rivalidade entre as duas superpotências contribuiu para o desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico, nomeadamente, no campo da ciência/engenharia aeroespacial levando o Homem à Lua e abrindo horizontes, no campo do espaço, tal como analogamente tinha acontecido nos séculos XV/XVI com os denominados Descobrimentos de outros lugares na Terra e que eram até aí completamente desconhecidos dos europeus.

   Em meados do século XX, o ensino tornou-se obrigatório e gratuito em muitos países, pois representava uma forma de incutir valores e novas formas de vida, através da escola, numa altura em que os meios de comunicação social (media) eram veículos de uma cultura de massas, também eles transmissores de modelos de vida e de ideologias. A televisão, a rádio, a imprensa escrita e o cinema atingiam todo o tipo de pessoas, transmitindo a todas as classes sociais modelos comportamentais estandardizados. A difusão da imprensa teve início no final do século XIX; contudo, com a alfabetização mais ou menos generalizada e a melhoria das condições de vida, o seu poder e influência aumentaram consideravelmente nos séculos subsequentes. Todos estes fatores tiveram repercussões na luta e consequente conquista de direitos, por parte das mulheres.

   Salientamos, a propósito, uma obra relevante neste âmbito, de uma filósofa francesa cujo pensamento iremos analisar oportunamente; referimo-nos a Simone de Beauvoir[10] e à sua obra O Segundo Sexo, publicada originalmente em 1949 e onde a autora inaugura o segundo volume (Experiência Vivida), proferindo uma das frases mais emblemáticas do seu pensamento e que será considerada como referência para o movimento feminista – Não se nasce mulher: torna-se mulher. Esta frase ilustra de modo muito explícito o movimento filosófico existencialista, de que o companheiro de Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre[11], é considerado uma das figuras mais importantes e autor da obra O Existencialismo é um Humanismo, obra que é, igualmente, precursora desse movimento filosófico tão marcante da segunda metade do século XX.

   Mesmo assistindo a uma progressiva evolução no que toca à representação simbólica do que é ser mulher ao longo dos tempos e, como acabamos de enunciar, principalmente a partir do século XX com a conquista, por parte das mulheres, de direitos cívicos e do estatuto de sujeito (e não de mero objeto), continua a subsistir uma conceção de inferioridade da mulher em relação ao homem. Por exemplo, o filósofo madrileno José Ortega y Gasset[12], na sua obra El Hombre y la gente, publicada em 1957, considera que a mulher mais do que diferente, é inferior ao homem, isto é, é dotada de uma “inferioridade constitutiva” relativamente ao homem. Segundo o mesmo filósofo, é ao aceitar a sua condição que a mulher cumpre a sua missão específica, sempre relativa ao homem, ou seja, como ele próprio afirma na obra acima referida: O destino da mulher é existir em função do homem. Assim, a diferença entre os sexos é, muitas vezes, descrita em termos de menos e de mais, e não em termos de uma verdadeira alteridade, estando assim integralmente associada ao homem, relativamente ao qual a mulher encontra a sua posição de complementaridade. Em última análise, o contributo das mulheres é importante e considerável, mas sempre como alimento e prazer da vida e da criação dos homens.[13]

   Outro exemplo, vindo também de um intelectual do sexo masculino, é a conceção da Teoria Psicanalítica freudiana que, apesar da sua complexidade, se apresenta igualmente bastante redutora (a partir do masculino) no que à sexualidade feminina diz respeito, sem ter em linha de conta uma real alteridade. Sigmund Freud[14], impregnado pelos preconceitos sexistas da sua época, sublinha a dissimetria dos sexos, mas a partir de um monismo fálico, isto é, não há libido senão masculina. Mesmo morfologicamente, para já não mencionar a dimensão sociocultural, o sexo feminino é definido negativamente por relação ao sexo masculino, ou seja, a mulher está privada de pénis e tem o seu sucedâneo no clitóris. É com alguma nostalgia que Freud verifica que a evolução a que se assiste já na sua época, arrisca a conduzir ao desaparecimento da coisa mais deliciosa que o mundo tem para nos oferecer: o nosso ideal de feminilidade. Chega mesmo a criticar, a este propósito, o feminismo de J. S. Mill porque este reclama a igualdade na relação entre os sexos feminino e masculino.

   Na sequência de um pensamento filosófico, maioritariamente produzido por homens[15], na segunda metade do século XX, e num contexto histórico-filosófico de pós-modernidade, vai surgir o que se pode denominar de pensamento feminista e que, ainda na primeira metade do século XXI, continua a influenciar as práticas e as lutas levadas a cabo no sentido de conferir às mulheres, na sua relação com os homens, uma paridade em direitos económicos, sociais, políticos e cívicos, no sentido de construir um quotidiano em que não faça mais sentido a existência dessas lutas porque essa paridade foi, efetivamente, conseguida, na(s) família (s), fora dela(s), na(s) escola(s), na(s) universidade(s), nas relações de trabalho, enfim, em todas as instâncias da realidade existencial. Assim, dando relevo ao surgimento desse pensamento feminista que se vai desenvolver a partir dos anos setenta, consideramos com Françoise Collin que ele participou, em muitos aspetos, de algumas correntes filosóficas, nomeadamente, do marxismo, da psicanálise, da crítica da metafísica encetada pelo movimento filosófico da pós-modernidade, do estruturalismo e do existencialismo. Subscrevemos, então, as seguintes palavras relativas ao mencionado pensamento feminista: Ele parte, com efeito, da constatação segundo a qual a estrutura das relações entre homens e mulheres é uma estrutura de poder, que assegura a dominação daqueles sobre estas. Partindo deste ponto comum, o pensamento feminista diversifica-se infinitamente quando se trata de saber como e com que objetivo essa estrutura deve ser abolida, e o que é feito da diferença sexual quando ela escapa à sua determinação sócio histórica.[16]

   Para concluirmos esta incursão histórica, sem ser necessariamente historicista, do que foi/é ser mulher ao longo dos tempos, pretendemos deixar uma mensagem positiva e de esperança, qual Caixa de Pandora, para as futuras relações entre homens e mulheres, não subalternizando as especificidades de ambos os géneros nem hierarquizando a importância de cada um deles.  Ao elencarmos algumas datas e respetivos acontecimentos/documentos da evolução dos direitos das mulheres é nosso propósito realçar o quão difícil e complexo tem sido para as mulheres, muitas vezes em conjunto e não em relação necessariamente antagónica com os homens, conquistar direitos que lhes são intrínsecos e inalienáveis.

   Sintetizando, destacamos numa ordem cronológica e não hierarquizada, os seguintes documentos/acontecimentos:

·        Em 1791, na França, Olympe de Gouges publicou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, criticando a exclusão da mulher nos documentos oficiais da Revolução Francesa, nomeadamente, da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789.

·        Em 1848, em Nova York, Elizabeth Cady Stanton e Lucretia Mott organizaram a Primeira Convenção dos Direitos da Mulher, criticando a exclusão das mulheres e a sua menorização em relação aos homens.

·        Em 1893, a Nova Zelândia tornou-se o primeiro país da história da humanidade a legalizar o voto feminino.

·        Em 1911, o dia 8 de março foi datado como o Dia Internacional da Mulher, com diversos protestos na Rússia, na Áustria, na Dinamarca, na Alemanha e na Suíça, exigindo direitos cívicos, nomeadamente, o direito ao voto.

·        Em 1920, no Egito, a Sociedade Egípcia de Médicos realizou a Primeira Campanha na história contra a mutilação genital feminina (MGF). Nos EUA, foi ratificada a 19ª Emenda Constitucional, dando às mulheres o direito ao voto.

·        Em 1946, na Assembleia Geral da ONU, Eleanor Roosevelt fez um memorável discurso reivindicando um maior envolvimento das mulheres quer em assuntos nacionais quer internacionais.

·        Em 1960 (dia 25 de novembro), na República Dominicana, as mulheres Minerva, Maria Teresa e Patria, conhecidas como Irmãs Maribal, foram brutalmente assassinadas por protestarem contra a ditadura de Rafael Trujillo. Como consequência deste acontecimento, em 1999, a Assembleia Geral da Nações Unidas designou a data de 25 de novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.

·        Em 1975, no México, foi realizada pela ONU a primeira Conferência Mundial da Mulher, dando início à Década da Mulher.

·        Em 1993, foi adotada, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres; este documento é visto como um complemento e reforço ao trabalho da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, tratado internacional aprovado em 1979, pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

·        Em 1995, foi publicada a Declaração de Beijing, como resolução da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, servindo como um guia de boas práticas para o estabelecimento da igualdade entre os homens e as mulheres, no mundo.

·        Em 2000, o Conselho de Segurança da ONU adotou a Resolução 1325 sobre as mulheres, a paz e a segurança reconhecendo que as mulheres são afetadas de maneiras diferentes por guerras e apela para a participação feminina na prevenção e resolução de conflitos.

·        Em 2015, a Igualdade de Género foi colocada como uma das metas a ser atingida até 2030, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos pela ONU e conhecidos pela Agenda 2030.

·        Finalmente, e entre outros, em 2017, ocorreu a Marcha das Mulheres que, tendo a sua iniciativa em Washington D.C., acabou por se alastrar a muitas cidades do planeta.[17]

      Terminada esta breve reflexão com um carácter mais generalista acerca do que foi/é ser mulher ao longo dos tempos, nos próximos capítulos ir-nos-emos focar, de modo mais específico, nas produções filosóficas elaboradas por mulheres que, de uma forma ou de outra, tiveram de romper, na maior parte das vezes, com alguns dos estereótipos e preconceitos dominantes nas épocas em que viveram. O que não significa necessariamente que estejamos a defender a existência de um pensamento filosófico com características exclusivamente femininas, em oposição radical ao pensamento filosófico produzido pelos homens. Pelo contrário, defendemos que é na relação de reciprocidade entre os géneros feminino e masculino que a evolução da relação dialética entre ação e pensamento humanos se forja.

    Apesar disso, estamos conscientes de que esse processo evolutivo não foi linear e foi construído, frequentemente, à custa de ruturas (embora na continuidade do devir espácio-temporal) encetadas por mulheres. Assim, é nosso propósito salientar que, desde a Antiguidade clássica até à Contemporaneidade não faltam exemplos dessas ruturas, pelas ideias defendidas nas suas obras que, do nosso ponto de vista, não tiveram a divulgação merecida e que até foram votadas ao esquecimento, quer na maior parte dos programas dos cursos de Filosofia nas Universidades, quer nos programas da disciplina de Filosofia do Ensino Secundário.[18]

 

 

 

Blandina Lopes

Clube de Leitura, 31 de março de 2025



[1] Élisabeth G. Sledziewski, “Revolução Francesa. A viragem” in Georges Duby e Michelle Perrot, História das Mulheres – O Século XIX, sob a direção de Geneviève Fraisse e Michelle Perrot (trad, Porto: Edições Afrontamento, 1994), vol.4, 47-48.

[2] Foi precisamente neste século que, nos campos filosófico e científico, surgiram algumas teorias que vão ser “guias” do pensamento e da ação humanos posteriores. Queremos destacar, por exemplo, a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin (1809-1882), a teoria psicanalista de Sigmund Freud (1856-1939), a teoria do materialismo dialético de Friedrich Engels ((1820-1895) e de Karl Marx (1818-1883) e a teoria do positivismo de Auguste Comte (1798-1857). Todas elas tiveram consequências no desenvolvimento quer da ciência quer da filosofia quer ainda no modus vivendi ocidentais dos séculos XX e XXI.

[3] Geneviève Fraisse e Michelle Perrot, in G. Duby e M. Perrot, ibid., 20.

[4] Em termos muito genéricos e simples, mas sem serem redutores, subscrevemos a caracterização relativa às mulheres no século XX, feita na “Introdução”, por Françoise Thébaud, dizendo que este século (…) é igualmente o século em que as mulheres, cada vez mais mulheres, tomam a palavra e o controlo das suas identidades visuais; sublinhando o desafio político da representação, elas tentam quebrar os estereótipos e propõem múltiplas vias de realização pessoal.  in G. Duby e M. Perrot, História das Mulheres – O Século XX, sob a direção de Françoise Thébaud (trad, Porto: Edições Afrontamento, 1995), vol.5,11.

[5] Françoise Thébaud, “A Grande Guerra – O triunfo da divisão sexual” in G. Duby e M. Perrot, ibid., 49

[6] A pílula contracetiva oral combinada, coloquialmente conhecida como “a pílula” foi inicialmente aprovada nos Estados Unidos em 1960 e estendeu-se muito rapidamente aos países da Europa ocidental, variando a sua utilização de país para país. Ela foi efetivamente um catalisador para a revolução sexual e, ao mesmo tempo, o contracetivo mais importante para transferir o poder sobre os direitos reprodutivos dos homens para as mulheres.

[7] Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217 A III) em 10 de dezembro de 1948. Logo no artigo 1º se afirma perentoriamente o seguinte: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Saliente-se que é dito todos os seres humanos e não todos os homens, não distinguindo, portanto, os géneros masculino e feminino. Além disso, também é destacado o espírito de solidariedade entre os povos, sejam ocidentais ou de outras partes do globo.

[8]Foi assinada em São Francisco em 26 de junho de 1945, após o término da Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional, entrando em vigor a 24 de outubro daquele mesmo ano.

[9] Período (1947-1991) de grande tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos da América e os seus respetivos aliados, entre o denominado Bloco Oriental e o denominado Bloco Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial. É assim chamada de “Fria” porque não chegaram a concretizar-se combates em grande escala entre as duas superpotências. Foi um conflito mais de ordem ideológica e geopolítica e de luta pela influência global das duas superpotências já referidas.

[10] Simone de Beauvoir (1908-1986), filósofa e escritora francesa, existencialista, ativista política e feminista. As suas principais obras, entre outras, são: A Convidada (1943), O Sangue dos Outros (1944), O Segundo Sexo (vol. 1 Factos e Mitos e vol. 2 A Experiência Vivida) (1949) e Os Mandarins (1954).

[11]Jean-Paul Sarte (1905-1980), filósofo e escritor francês, conhecido como representante do existencialismo (ateu) e que entendia que os intelectuais devem ter um papel ativo na sociedade. Duas das frases paradigmáticas do seu existencialismo são precisamente: O Homem está condenado à liberdade e A existência precede a essência.  Foi-lhe atribuído o prémio Nobel da Literatura em 1964, prémio esse que ele se recusou a receber.

[12] José Ortega y Gasset (1883-1955) foi um filósofo, ensaísta, jornalista e ativista político, fundador da Escola de Madrid, considerado por muitos como um dos principais, senão mesmo, o filósofo mais importante de Espanha do século XX.

[13] Cf. Françoise Collin, “Diferença e diferendo. A questão das mulheres na Filosofia”, in G. Duby e M. Perrot, ibid., 318-319

[14] Sigmund Freud (1856-1939), foi um neurologista e psiquiatra austríaco, criador da Psicanálise, teoria que revolucionou a Psicologia e que teve uma forte influência não só nesse campo como também na Filosofia dos séculos XX e XXI.

[15] Destacamos para o efeito nomes como: Michel Foucault (1926-1984), Emmanuel Levinas (1906-1995), Gilles Deleuze (1925-1995), Jean-François Lyotard (1924-1998), Jean Baudrillard (1929-2007) e o já referido anteriormente Jean-Paul Sartre, entre outros. Todos eles, de uma maneira ou de outra, tiveram presente nas suas reflexões a problemática do feminino vs. masculino.

[16] Françoise Collin, ibid., 342-343

[17] As fontes donde foram retirados estes documentos/acontecimentos foram a Organização das Nações Unidas (ONU) e ONU Mulheres.

[18] Estamos a referirmo-nos aos programas da sociedade portuguesa em específico, uma vez que desconhecemos os programas de outras sociedades e nem é nossa finalidade levar a cabo esse tipo de investigação, nesta obra.




Clube de Leitura da EASR

FILOMENO PARA MEU PESAR

 A importância de um nome


por Margarida Mouta

      À pergunta «Quem és tu?»  que o herói grego Diomedes faz a Glauco (aliado dos troianos), Ulisses responde: «porque queres saber da minha linhagem? / Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens. / Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço/ faz nascer outras, quando sobrevem a estação da primavera: / assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir»

Ilíada, Homero

O meu exemplar da obra em análise é uma 2ª edição das Publicações Dom Quixote e data de Março de 2000. Intitula-se Filomeno para meu pesar, na tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, tradução que traduz fielmente o título original, Filomeno a mi pesar.



As recentes edições da obra abreviaram o título, menosprezando o lamento contido na escolha inicial de Ballester. No meu entender, a inclusão da expressão “para meu pesar” indicia um caminho, mas aceito a opinião dos que defendem que também pode limitar o leitor ab initio. Se é verdade que os nomes e os apelidos nos grudam a uma existência singular de que nos apropriamos no acto do registo civil, momento em que nos remetem de imediato para a nossa identidade pessoal, para o sentimento de pertença a um núcleo familiar, não é menos verdade que, pelos sinais de pedigree ou de plebeísmo que os distinguem, eles podem também dar lugar a reações expectáveis de bajulação ou rejeição, consoante os casos e que, por muito que nos espantem, continuam, malgré tout, presentes em muitos círculos sociais. É o fado! Já dizia o Fausto (não o de Goethe que, segundo Heine, ocultava as origens da sua família paterna), mas o nosso Bordalo Dias de “Por este rio acima”: Eu cá sou dos Fonsecas /Eu cá sou dos Madureiras/De ferro e puro sangue /O que me corre nas veias… Mas, convenhamos: um Mello (com dois éles) um Corte-Real (de preferência precedido de um Telles, também com dois eles), um Pamplona Reyes, um d’Orey (ambos com ípsilon), um Braamcamp ou Ademar de Alemcastre infundem respeito. A genealogia infunde respeito. Os nomes “mesmo próprio para cartão de visita” infundem respeito.

Pondo de lado a onomástica ligada à história familiar ou ao clã, pensemos tão só nos nomes próprios e apelidos que, associados ou não a uma história familiar, dão origem – como no caso do nosso Filomeno – a constrangimentos de quem os carrega toda a vida como um estigma. No meu liceu, havia um professor cujo nome era Francisco Ligório Pardal Marcela. A esposa, que era a minha professora de Francês, foi baptizada, para todo o sempre de “Morcela”. Há uns anos, tive um aluno timorense que era a imagem viva da indolência, da placidez e da bonomia. De seu nome (próprio e apelido), Domingos Plácido Boavida. Ostentar no Cartão de Cidadão nomes como o do professor Pardal Morcela ou como o de José Coito Pina, António Penetra Murcho, Portugal Feliz ou Cinderela de Fátima também gera em nós respeito pelos seus portadores. Sobretudo porque não os renegaram e os vestem como uma segunda pele. Filomeno, o desta ficção disfarçada de autobiografia, será ora Filomeno Freijomil ora Ademar de Alemcastre. Dois nomes para a mesma personagem cuja existência feita de indecisão e de incerteza, parece estar condenada a ser trapaceada pelo destino. O próprio Filomeno está convicto de que se não lhe tivessem dado um nome próprio tão arrevesado, tão fora de moda, tão ridículo como o que lhe deram, nunca se teria tornado o jovem perturbado que Ballester nos descreve. Se Filomeno foi uma imposição do pai, que o faz herdeiro do nome do progenitor, carteiro rural numa zona montanhosa próxima de Portugal, Ademar foi-o da sua avó Margarida, que, com a ameaça de o deserdar se não o aceitasse, o leva a fazer-se chamar pelo nome do bisavô materno. Essa avó, “aquela espécie de dragão de olhos verdes”, “incapaz para a ternura, mais temida que respeitada”, mas que soube transmitir-lhe, desde o berço, a noção da importância da sua própria independência.

 Para ela, que não gostava de Filomeno, mas também não achava graça a Freijomil, ele seria incontestável e definitivamente Ademar de Alencastre.  Este segundo nome, proveniente do bisavô Ademar Pinheiro de Alemcastre vinculava-o a seguir uma meta: “A tua obrigação na vida é repetir a figura do teu avô Ademar” - dizia-lhe a avó vezes sem conta. É certo que o nome herdado do bisavô lhe dava um cunho mais ilustre, porque, embora “acomodado à alma portuguesa”, não deixava de evocar os Lencastres, antepassados que tinham vindo da Inglaterra para Portugal, provavelmente acompanhando a futura esposa de D. João I, distintíssima mãe da ínclita geração. Mas embora o Alemcastre lhe agradasse, sobretudo pelo fascínio da partícula “além” que lhe dava uma aura de mistério – o que o levava a pensar que trazia o mistério consigo – a aristocracia do nome nunca o impediu de experimentar o sentimento de que esse mistério não deixara nunca de ser para ele como “uma prenda com a qual não sabia brincar”.

De qualquer maneira, o nosso Filomeno reconhece a supremacia das questões biográficas que nele tornam visíveis as influências do fado. A dupla designação por que será conhecido é da inteira responsabilidade tanto do avô Filomeno Freijomil, que o ligará para sempre a Villavieja del Oro, como do bisavô Ademar de Alemcastre que o vinculará ao ambiente aristocrático do Paço Minhoto.

Nos dias da infância com Belinha, será “meu menino, meu pequeno Ademar”; no liceu e nos anos de estudante em Madrid será Freijomil; no período de jornalista em Paris, reconciliando-se com o fardo que tanto lhe pesava, decide enterrar Ademar e, tanto para Úrsula Braun como para Cleia será Filomeno; nos seus tempos de aprendiz de banqueiro em Inglaterra, no trato com o Major Thompson, (inapto para a pronunciação de Freijomil), será apenas cavalheiro; nos anos de permanência em Portugal, para Maria de Fátima será Ademar, para os pais desta, Sr. Alemcastre, com sotaque brasileiro; nos últimos anos de recolhimento em Villavieja, na boca de Flora será filho, filhinho; para os restantes, Filomeno, Senhor Freijomil, ou Senhor Alemcastre.

Enfim...! Que há num simples nome? What’in a name?

O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume”?

 Não resisto a trazer aqui à colação o velho William, nesta que é, talvez, uma das mais célebres réplicas do teatro de Shakespeare. Julieta tenta, em vão, persuadir-se de que os nomes não importam, não tanto quanto se pensa.

 

'Tis but thy name that is my enemy;
Thou art thyself, though not a Montague.
What's Montague? it is nor hand, nor foot,
Nor arm, nor face, nor any other part
Belonging to a man. O, be some other name!
What's in a name? that which we call a rose
By any other name would smell as sweet;
So Romeo would, were he not Romeo call'd,
Retain that dear perfection which he owes
Without that title. Romeo, doff thy name,
And for that name which is no part of thee
Take all myself.

 

Romeo and Juliet (2.2.38-49) William Shakespeare

 

Meu inimigo é apenas o teu nome.

Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses.

Que é Montecchio?

Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo.

Sê outro nome. Que há num simples nome?

 O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume.

Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu,

conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título.

 Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo,
fica comigo inteira.

 

https://williamshakespearewilliam.blogspot.com/2009/02/romeu-e-julieta-ato-ii-cena-ii.html

 

E porque as palavras (e as ideias) se atraem nas questões que nos colocam, também não resisto a trazer aqui o poema de Ana Luísa Amaral (“What’s in a name” ) que convoca o acto de nomear, formulando a pergunta que alberga o mito: O que há num nome?

Pergunto: o que há num nome?

De que espessura é feito se atendido,
que guerras o amparam,
paralelas?

Linhagens, chãos servis,
raças domadas por algumas sílabas,
alicerces da história nas leis que se forjaram
a fogo e labareda?

Extirpado o nome, ficará o amor,
ficarás tu e eu — mesmo na morte,
mesmo que em mito só

E mesmo o mito (escuta!),
a nossa história breve
que alguns lerão como matéria inerte,
ficará para o sempre do humano

E outros
o hão de sempre recolher,
quando o seu século dele carecer

E, meu amor, força maior de mim,
seremos para eles como a rosa —

Não, como o seu perfume:

ingovernado livre                                                                                                                  Ana Luísa Amaral

in What’s in a name, Ed. Assírio e Alvim, Abril de 2017

 

Na materialidade do texto, o poema fala-nos de guerras, linhagens, chãos servis, fogo e labareda. Na espessura de que é feito, responde à pergunta, apontando para si próprio, mesmo que seja apenas matéria inerte. Extirpado o nome, ficará o amor. Extirpado o nome da flor, a rosa será algo que irá além do seu próprio corpo. Algo que contém em si o ingovernado e livre perfume.

No final do romance de Torrente Ballester, damo-nos conta de que os nomes a que a personagem está associada não parecem ter afectado o princípio básico que norteia a sua conduta. O “nosso” Filomeno orientar-se-á sempre no respeito pela sua individualidade e pela dos outros. Um traço comum ao autor que lhe dá vida? Tudo leva a crer que sim. Há quem fale em alter-ego. Não vou tão longe, embora admita sem esforço o artifício que lhe permitiu falar de si sem se expor, materializando, talvez, o desejo de se reinventar na biografia de um outro a quem emprestou memórias do seu próprio eu.

Seja como for, artifícios à parte, tal como acontece com a rosa de Shakespeare ou de Ana Luísa Amaral, extirpado o nome, de Filomeno ficará o que vai além do próprio romance, o remanescente da nossa leitura ou, se quisermos, o ingovernado e “livre perfume” que ficará “para o sempre do humano.” 

 Margarida Mouta

20 de Março de 2025



 À douta apreciação dos “contertúlios” do clube de leitura da EASR, um olhar sobre

 O Clube de leitura da casa de Flora, rente ao texto…


                                                      por Delfina Rodrigues

 

Algures, no seu paço minhoto, Ademar de Alemcastre - ou Filomeno de Freijomil? - não resiste ao impulso de escrever as suas recordações: “…neste transe de escrever as minhas recordações”, lê-se logo na primeira página desta narrativa autodiegética.

Não é ainda um velho, tempo biográfico favorável às revisitações, mas a ideia de escrever as suas memórias surgiu-lhe como uma imposição do espírito, uma pulsão, de repente, quase ao chegar ali e “rever inteiro o mundo das (…) recordações” - “indóceis”, “inclassificáveis” e “indomáveis” - dos primeiros trinta e tal anos de vida, vivida ora em Espanha, Galiza, ora em Portugal, com passagens por Madrid, Lisboa, Londres, Paris, num pitoresco desfile de lugares e ambientes, sua cor local, amores, familiares e amigos,  convivas…  tipos psicológicos e sociais diversos, com a História a acontecer e o ar do tempo a sobrevoar a narrativa, sob o espectro do fascismo italiano, do nazismo e   das ditaduras peninsulares a emoldurar as vidas individuais, que aqui têm a primazia. Não quer fazer História. Não é a escrita da História que o motiva: “Os factos sobre os quais eu escrevia da minha solidão no paço não eram ainda História mas tão-só actualidade(p.348); “ O que eu tento agora recordar, e relatar, era a minha situação pessoal, escondido entre bosques e vacas, enquanto fora de Portugal a guerra de Espanha acabava e se preparava a curto prazo, a outra.”(p.438).

Apesar da condição de ostracizado do seu próprio país, que o encarou como uma ameaça, como aliás todos os inimigos da liberdade encaram as almas livres, a sua permanência ali não é uma inevitabilidade. A voz do director do jornal de Lisboa com que ainda colabora desinquieta-o: “Oh homem, o que faz você aí, nesse buraco, Ademar? Posso enviá-lo para onde quiser…” (p.537)

Ele sabe. Mas não quer. Ou não quer ainda. Há que encerrar este tempo de transição entre um passado agora cristalizado no discurso em processo e um futuro olhado com temperado pessimismo, mas onde poderá ainda caber Maria de Fátima, uma das quase “mulheres da sua vida”.

Chegou aqui vindo de Villavieja del Oro, daquela que foi a sua última estadia na terra natal, que o acolheu em sobressalto cívico, num clima de suspeição e mistério gerador de todas as especulações: associavam-no a uma vida dissoluta, mundana, intelectual e galante, politicamente dissonante dos valores vigentes, a avaliar pela desconfiança que as autoridades revelavam em relação a ele. Confrontavam-se correntes de opinião e ouvia-se: “Parece mentira ao que chegou o filho do Sr. Práxedes Freijomil, tão de direita.” (p.461) Embora ninguém conseguisse concretizar ao certo ao que tinha chegado. Era um estádio difuso, uma aura de santidade diabólica, de vício e de virtude, a velha tentação de ocupar o vazio deixado pela falta de informação. Acima de tudo, inquietava-os o seu conhecimento dos movimentos artísticos: “O fundamento mais sólido e, embora pareça estranho, mais perigoso da minha fama era o meu conhecimento de literatura e dos movimentos artísticos anteriores e contemporâneos da guerra…” (p.461) Pense-se no isolamento dos intelectuais de Villavieja, confinados e coagidos pela censura franquista, sem acesso às últimas novidades científicas nem às últimas correntes filosóficas ou artísticas.



 Filomeno passa a Integrar, naturalmente, o círculo intelectual contra-corrente, como uma lufada de ar fresco, ao lado de figuras como Emílio Roca, o poeta, e Agapito de Baldomir, professor e intelectual, contrabalançados por D. Braulio e doña Eulália Sobrado, representantes locais da inescapável moral da Igreja e do Estado.

 Assim se desenvolve a vida possível em ambiente social e intelectualmente pouco estimulante, mas rico em peripécias caricaturais, censórias, que o ridículo sempre espreita onde a inteligência embota. Até ao momento em que os encantos de Briseida, antes Laura Martinez, opõem Filomeno a Celestino, na voz corrente, ou se assiste à reencarnação da disputa entre Aquiles e Agamémnon pela sua Briseida, na voz culta de Agapito de Baldomir. Filomeno prescindiu de Briseida para Celestino, como Aquiles o fizera para Agamémnon, mas se Aquiles “ficou ressentido”, ele, mais experiente nestas questões, deixou o campo livre, que o mesmo é dizer que as ”catacumbas intelectuais da cidade”, reunidas habitualmente no Café Moderno, primeiro, e depois na Rosa de Té, ficaram sem espaço de reunião.

E “Foi assim que se instalou no salão reservado de um bordel, com espelhos nas paredes e uma Nossa Senhora das Dores por cima da cómoda, um grupo literário mais ou menos provinciano” (p.497). Flora, a anfitriã, que havia outrora sido aconchego amigo do pai, abre agora as portas ao filho.

Os três elementos iniciais mais “6 desenganados do Café Moderno, onde a literatura se politizara até já não ser reconhecida” (p.498) iniciaram aí a sua actividade, que cedo passou de uma série de conversas anárquicas para uma “espécie de aula onde cada noite um dos contertúlios lia um trabalho breve que depois se discutia”. E “ao conjunto das intervenções e discussões, pelo seu carácter “obrigatoriamente irónico, ou pelo menos satírico, sempre informal, mas nem por isso leviano”, dava-se o nome de “Críticas da razão humanística”. Filomeno, cujos pontos de vista eram auxiliados e suportados pelos jornais ingleses e franceses que recebia de Lisboa, clandestinamente, era o presidente do grupo e os temas eram tratados com total independência.

As sessões decorriam sem hora limite, prolongadas habitualmente por explanações de Filomeno sobre qualquer tema de interesse, literário, histórico ou de atualidade internacional. Ao exterior chegavam ecos dos assuntos tratados, com inevitáveis infidelidades (mutatis mutandis, é a aplicação da verdade condensada em traduttore traditori), mas crescente interesse. Aumentavam os candidatos e foram aceites mais três ou quatro e” alguns adolescentes espertos, estudantes em Santiago ou aspirantes a poeta”. Só não eram aceites, paradoxalmente, trabalhadoras do lupanar. O consumo mínimo obrigatório garantia a Flora o negócio e a natureza do grupo garantia a promoção. Assim, salvaguardados os interesses das partes, a durabilidade das conferências parecia garantida, não foram os braços tentaculares do regime, instruídos na captação de sinais que pudessem abalá-lo. Também não foi tão rápida a queda, apesar disso, porque o escasso conhecimento, ou a estiolada inteligência, não lhes permitia descortinar naqueles discursos se se tratava de seita ou célula anarquista. Isto é, não percebiam nada do que ouviam, o que tornava doloroso, para o agente de serviço, redigir os relatórios que deveria entregar no governo civil. Não crendo que ali residisse perigo bastante e agradado com a oportunidade de alimentar, nesse espaço, as suas fantasias antes de regressar à monotonia previsível do lar, pediu auxílio a Filomeno, que passou a redigir, ele próprio, os relatórios de actividades, “com algumas asneiras” para serem credíveis.

Assim decorreram semanas de produtivo trabalho, tendo chegado a organizar um concurso para ver quem era capaz de falar mais tempo sobre nada. Com a crescente reputação, foram-lhes oferecidos outros espaços que aumentassem a capacidade de acolhimento de participantes, mas não trocaram por nada o gozo que lhes dava a “originalidade de uma reunião científica” em semelhante sede.

Todavia, a rivalidade entre duas autoridades locais, o subchefe, próximo da esquerda, e o governador civil, da direita, precipitou o fim das conferências. A pedido do subchefe, alguns jovens promissores vinham aí iniciar-se na arte da dialética e da oratória e, não obstante a sua postura tendencialmente passiva, colocaram algumas questões cujas respostas foram naturalmente discordantes da ortodoxia reinante. A fuga de informação é incontrolável e a casa de Flora recebe, inopinadamente, a visita do comissário em pessoa. Não tendo detectado sinais que abalassem o regime, sugere a integração regular de trabalhadoras do lupanar no clube, criando assim um clima insuspeito, devolvido o espaço à sua natureza intrínseca. Flora anuiu, depois de garantido o ressarcimento do prejuízo causado e Villavieja del Oro pôde rir-se da generosidade governamental empenhada em alargar a cultura às classes pecadoras.

Uma vez mais apaziguados os ânimos, seguir-se-iam “sessões admiráveis”. Agapito de Baldomir pôde mesmo “expor em hendecassílabos emparelhados as últimas descobertas da genética”. (p.506). Tempos áureos antes do fim iminente. A paz conquistada foi desta vez perturbada com a entrada em cena da Polícia, que, numa identificação formal dos presentes, detecta, aliás, comprova, a existência de menores, em ambiente que lhes era vedado. Isto é: presos por ter prostitutas e presos por não ter!

As consequências, cumpridas as primeiras formalidades legais, na esquadra, não se fizeram esperar:

- O subchefe foi substituído, acusado de corruptor de menores;

- Flora sofre uma verdadeira apoplexia com a iminente perda do negócio, e perde a vida;

- Villavieja del Oro, famosa pelas suas tertúlias intelectuais, a “Atenas do Noroeste”, como era designada, vê precocemente morta a promessa de revitalização dos tempos áureos dos “Grandes Mestres”;

- Filomeno Freijomil (ou Ademar de Alemcastre?) é ostracizado do seu próprio país, porque líder livre das tertúlias da casa da Flora e porque líder desafiador do poder do Estado e da Igreja, durante o seu cortejo fúnebre, garantindo-lhe o direito a um enterro consentâneo com a sua religiosidade e com a dignidade humana.

E a literatura ganhou “Filomeno, a mi pesar”, este magnífico relato terno, irónico, empático, sem doutrina, sem juízos de valor à superfície, da vida de Filomeno de Alemcastre, o plebeu e o aristocrata, onde, através das personagens em açcão, do fluir da História, não falta a revelação de vícios e virtudes humanos e a denúncia de perversões de regimes políticos, sempre, sempre, com o ridículo à espreita.

 

Março de 2025

Delfina





“Nunca consegui escrever nada com projectos, planos, programas, esquemas, prazos. Grão a Grão, verso a verso, enche a galinha o papa. Pôr o carro à frente dos bois. Assim é que funciona para mim.”

11/3/15, Adília Lopes “ Modus Operandi

 

Para mim nada funciona…

…mas vamos lá ver se consigo alguma coisita em honra das minhas companheiras!

Ana Teixera


 

Filomeno e a condição humana


por  Ana Teixeira

Filomeno Ademar de Alemcastre Freixomil, com raízes galaico-portuguesas, a personagem central da obra de Gonzalo Torrente Ballester em "Filomeno, a meu pesar", cresce no meio de um turbilhão histórico e político. O autor, apesar de não enquadrar diretamente a Guerra Civil Espanhola, a influência do fascismo em Portugal com a consolidação do regime salazarista, nem a ascensão do nazismo na década de 30, oferece perspectivas, que no desenrolar da História, se podem situar no contexto social da época.

Através da leitura de “Filomeno, meu pesar”, apesar de Ballester se centrar essencialmente nos afectos e convicções deste, através do relato das suas experiências de vida quer amorosas, quer de simples interações sociais, julgo ser possível vislumbrar como em regimes totalitários, a liberdade individual é severamente restringida, moldando as relações humanas e a própria essência do ser. As pessoas sentem medo de se expressar, de se associar com os outros ou de desafiar a autoridade. Isso leva a uma desconfiança generalizada, onde os relacionamentos são marcados pela cautela e pelo receio.  As pessoas perdem a capacidade de se verem como agentes de mudança ou como indivíduos com valor intrínseco, sem ferramentas para contribuir para a mudança social, sem capacidade de lutarem contra o que as esmaga. Isso resulta numa conformidade, em que os indivíduos se adaptam ao que o regime exige, sacrificando as suas próprias crenças e valores (veja-se a durabilidade tanto do regime franquista em Espanha, como do regime salazarista em Portugal).



Contudo, li a história de Filomeno como uma tentativa de alguém se reconhecer a si próprio, numa reflexão sobre a busca de identidade e liberdade, numa luta constante contra essa conformidade. Primeiro, de forma inconsciente, através da literatura e depois através das vivências e aprendizagens profissionais e amorosas, tanto em Londres como em Paris, graças à influência, respetivamente, de Úrsula e Clélia, que permitiram a Filomeno reforçar a sua capacidade de discriminação e discernimento, essencialmente, políticos.

Com Úrsula, Filomeno reforçou a sua consciência política e a avaliação das repercussões da ideologia nazi e dos regimes totalitários na vida do cidadão comum. Com Clélia emerge um enorme impulso de solidariedade, numa conjuntura de guerra num país ocupado pelo nazismo. Assim, a amizade e amor por Úrsula e Clélia não servem apenas como apoio emocional, mas também como catalisador para a transformação de Filomeno. Através delas, descobre que a partilha e a empatia são elementos essenciais à humanidade. 

Curiosamente não é no ensino, nomeadamente na aprendizagem do ensino superior que se pode ver qualquer influência na estruturação do pensamento e formação ética de Filomeno. Esta fez-se de forma informal através da sua autoformação com a leitura dos autores clássicos, na participação em grupos de tertúlia literária num pequeno café-concerto, que ainda adolescente gostava de frequentar, com a convivencialidade amorosa desenvolvida em Londres e Paris e, mais tarde, já no fim da segunda grande Guerra, no retorno à casa paterna, em discussões literárias e trocas de ideias que se realizavam clandestinamente no bordel de Flora.

Ao longo da narrativa, Filomeno revela-se uma figura paradoxal: um homem que, embora não se tivesse mobilizado politicamente contra regimes que reconhecia opressivos, busca incessantemente a sua própria voz, desenvolvendo uma forte consciencialização cívica. É nesta busca, que vejo na presente obra de Torrente Ballester, um espelho da condição humana.

 

 

Ana Teixeira

31/03/2025

Filomeno

                                                

 


 

                Ademar de Alemcastre, o fidalgo

                             por Alexandra Azevedo

Filomeno não era, não queria ser Filomeno. Odiava o nome galego que herdara, contrariado, do avô paterno, por imposição do seu próprio pai e fantasiava que a mãe, portuguesa e aristocrata, se tivesse sobrevivido ao parto, nunca teria permitido que tal má sorte o atingisse. “A minha mãe teria gostado do nome Filomeno? Imagino que não. Atrevo-me até a pensar que, se ela tivesse vivido depois do meu nascimento, ter-se-ia oposto a que lançassem sobre o seu filho, e para sempre, semelhante rótulo, por muito que a recordação do meu avô o impusesse do seu obscuro além-túmulo” (p. 12)

Assim, a sua identidade mudava  conforme a geografia. Era Filomeno Freijomil em Villavieja, na Galiza e transformava-se em Ademar de Alemcastre, mal passava a fronteira para Portugal.

Aliás, a sua avó materna, Margarida, impusera que o seu nome fosse Ademar. _ “Se Filomeno foi uma imposição de meu pai, Ademar foi-o de minha avó com a ameaça de me deserdar se não o aceitasse” ( p. 12) 

A preferência pela ascendência portuguesa desenha-se desde o princípio das suas memórias. Desde logo, pelo tipo físico que herdou desse lado da família: os olhos azúis, os cabelos ruivos, a altura, ainda que não um tipo físico tipicamente português. Destaca, em especial, os olhos verdes da avó Margarida _ “os da minha avó materna eram de um verde profundo e habituaram-me, desde que nasci,  a obedecer-lhe com tão-só-olhar-me”. (p. 12)  

Mas, para além do nome próprio português, o narrador confessa a sua preferência pelo apelido aristocrata Alemcastre  “não pela prosápia britânica, real pelos quatro costados, que estabelece uma certa relação ténue entre os dramas de Shakespeare e eu, mas por esse «além» que lhe tinham acrescentado”,“ acomodando o nome à alma portuguesa”.

Esta preferência deixa pressentir, subtilmente, o afastamento quando não a rejeição pela família paterna e sobretudo por um pai que nunca soube, aos seus olhos, dar-lhe o carinho e amparo que o órfão de mãe que era, necessitava. No entanto, justifica o facto de o pai ter acedido a separar-se dele  com a ameaça “da avó de se meter num convento e deixar tudo às freiras.” (p.21)

Aliás, os seus amigos comentando a história fantasiosa que “com a cumplicidade das estrelas e do champanhe”(p.21) lhes contara sobre o seu nascimento clandestino no paço minhoto da avó, diziam-lhe: «A vontade que tens de ser um verdadeiro português!» (p.21)

A verdade é que o seu lado português e a condição de pertença à elite aristocrata e possidente portuguesa não raras vezes o deixam surpreendido. Em criança, na peregrinação empreendida pela avó por terras de Inglaterra para visitar as sepulturas dos Lancaster ingleses  de que provinham os Alemcastre portugueses, o narrador dá por si a lamentar não ser um verdadeiro príncipe (como a miss dissera a um clérigo que estranhara a forma como andava vestido e como o tratavam), só para poder ser sepultado num daqueles sumptuosos túmulos que vira.

Também  Sotero, o terrível Sotero, “o Sábio”, seu colega de liceu que fazia gala em mostrar a sua superioridade nos estudos e o olhava com desprezo por não ser tão bom aluno como ele próprio, também Sotero ficou impressionado com o paço minhoto, sobretudo com a biblioteca e  com o facto de  Filomeno (era esse o seu nome no liceu da Galiza) não se interessar por ela : _ E chegaste aos treze anos sem ler nada disto? (p. 44)

No  entanto, quando Ademar acompanhou Sotero a casa “do homem que sabia tudo”, o professor, don Braulio,  ficou a saber  que a sua condição de fidalgo fazia dele um explorador de classe.

_ Com que então, é este o fidalgote? (…)_ pertences à classe dos exploradores e será difícil redimires-te (---)_ Porque tu és a injustiça viva, a injustiça andante” (p.48) Ademar de Alemcastre olhou-o estupefacto e ficou com vontade de se ir embora.

Já na idade adulta, em Paris, a trabalhar na secção cultural de um jornal de Lisboa, o Sr. Magalhães, o jornalista português que o recebe, ignorante da sua desafogada situação económica e das suas origens de classe, aconselha-o a inventar um pseudónimo já que Freijomil não era muito português, e quando  Filomeno lhe propõe Ademar de Alemcastre, muda radicalmente de atitude.

_Por que escolheu esse nome?

_Era do meu bisavô.

_Ah! Isso vem alterar as coisas…

E, de repente, em vez de se sentir acima de mim como até àquele momento, sentiu-se involuntariamente apoucado.

_Um Alemcastre é um Alemcastre – disse em português (p.265)

            E é ao paço do Minho que finalmente regressa quando a permanência na Espanha franquista se tornou perigosa depois de… ter participado no  funeral de uma prostituta que os poderes de então não permitiam que fosse “no campo santo”. A ironia que percorre o relato deste acontecimento faz desabar, comicamente,  toda a retórica dos valores da Igreja e do Estado em nome dos quais se proibia este funeral.

Por isso, é à terra em que viveu a infância com a avó materna  e que ao longo da vida sempre recordou como um lugar de felicidade que naturalmente retorna.



“Estou no paço minhoto. Para que outro sítio iria eu?  (p. 532)

  

Ballester, T (2024) Filomeno, Quetzal Editores, Lisboa



             Filomeno, a meu pesar     

                                                                         por Manuela Pereira                                                           

                                                            Filomeno, Gonzalo Torrente   Ballester_1988

Filomeno Ademar Távora d’Alemcastre  Freijomil  Taboada viveu a sua infância a vaguear pelo pequeno paço dos vales minhotos e pelo solar de Villavieja del Oro, ambos herdados pela sua avó aristocrata dona Margarida, com “toda a História de Portugal por trás”.(17) Entre “velhas baladas portuguesas vindas do fundo dos séculos” (11) e sem mãe que lhe cantasse “canções de embalar em galego”(11), Filomeno cismava que a mãe se teria com certeza oposto a que lhe chamassem tal nome e fantasiava o casamento dos pais e o seu nascimento, atravessando  “as portas do mistério sem sair das paredes do paço”.(14) Preferia o nome Ademar, era assim que lhe chamava Belinha!, e envergonhava-se por se chamar Filomeno, tanto quanto a avó d’Alemcastre desprezava o seu pai e as suas humildes origens galegas, um vulgar Freijomil.(26) Mas Filomeno estava convencido que sem o seu avô Freijomil e sem o seu pai, “já nas Cortes do Reino” (17), a quem a opinião popular conferia “a posse da maior quantidade de inteligência de toda a província” e esperava dele “que viesse a ser senador” (19), sem eles, não seria possível. “Porque sem eles (eu) seria inexplicável.” (14)

Assim passou a infância e a adolescência, dividido entre quem era e quem queria ser, com ecos ao longe de uma guerra que não entendia. A guerra com a avó, já depois de ela morrer, foi ganha pelo pai, que achou conveniente enviá-lo para Madrid ‘uma cidade moderna’, para que estudasse Direito e se formasse advogado. (77) Era já quase um homem e viviam-se tempos difíceis. Atravessou a guerra civil e a vitória de Franco em Espanha, e a ditadura de Salazar em Portugal. Com o fantasma de uma nova guerra na Europa abriu-se para ele a descoberta do mundo e partiu de Madrid para Londres, Paris e Lisboa. Deambulando entre novos amigos, novas paixões e novos ideais, foi tomando consciência dos seus próprios desejos e foi mesmo aceitando o nome que tanto o humilhara - Filomeno. Nessa procura de um equilíbrio pessoal, manteve-se sempre numa posição de neutralidade, nunca manifestando as suas preferências, os seus ideais liberais. Aprendeu a aceitar as diferenças, a respeitar a individualidade dos outros e conseguiu fazer-se respeitar por quem o rodeava. Embora fosse apontado como tendo ideais esquerdistas, a luta de Filomeno foi sempre pela preservação da sua identidade e pela liberdade de fazer o que mais gostava.

Quando regressou à Galiza e recebeu em Villavieja o cónego don Braulio, que tinha “um poder aureolado de chamas” (464) era já um homem consciente de si e seguro das suas convicções. Mais tarde, no Governo Civil, onde foi chamado com a acusação de ter organizado o escândalo do dia anterior (524) à pergunta do Governador “Quem é você, quem são as pessoas para julgar se uma situação é justa ou não?” respondeu “….muitos de nós ainda conservamos a capacidade de opinar e de manter pontos de vista próprios acerca do que se passa no mundo”.(525) afirmando-se um cidadão livre, que mereceu finalmente os nomes que lhe couberam em sorte – Filomeno e Ademar.

 

Manuela Pereira                                                                                                  Clube Leitura_14/ 03/ 2025  


 


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