Filomeno, a meu pesar
por Manuela Pereira
Filomeno, Gonzalo Torrente Ballester_1988
Em
Filomeno, Ballester fala-nos da difícil passagem da infância à idade
adulta do menino Ademar, a par com a guerra travada entre a aristocracia rural
e a pequena burguesia urbana, liberal e democrática. Filomeno, a seu pesar, cresce
numa Europa abalada pela guerra, que fará a transição para o mundo moderno com conflitos
sangrentos.
Filomeno
Ademar é o símbolo desse mundo em transição, é o símbolo do homem desse tempo. Vive todas as convulsões da guerra com a angústia
interior causada pela recusa do seu nome paterno, com a mesma violência que a
avó recusa o pai Freijomil e as suas origens humildes, pela dificuldade de
conciliar os seus nomes em confronto _ Ademar d’Alemcatre, o príncipe _ de
origem aristocrática e a sua origem simultaneamente burguesa _ Filomeno Freixomil,
o galego.
Só
depois da morte da avó dona Margarida e da falta da maternal Belinha, quando no
final da Primeira Guerra desaparecem grande parte das monarquias europeias, deixa
o conforto da infância no pequeno paço dos vales minhotos e é levado à passagem
à vida adulta pelo pai, que o convence a sair para o mundo, a educar-se e a
projetar-se no futuro.
Futuro
em que a sociedade agrária se transformará, no final de guerras sucessivas e violentas,
numa sociedade industrial e capitalista, com as consequentes transformações do
sistema político. É a passagem para o mundo moderno e , depois de deambular
pela Europa e por várias paixões, Filomeno
é um homem moderno, já seguro de si e daquilo que quer.
Reconciliado
consigo próprio ao voltar à origem, à terra onde nasceu, vai sobreviver à
ditadura de Franco sem recuar nas suas convicções. Pondera transformar o paço
minhoto numa propriedade capitalista da terra, fazendo sociedade com
‘brasileiros de torna viagem’ e sonha com uma viagem ao Brasil.
Villavieja
Sobreviveu,
tal como “a aristocracia sobreviveu, mas sob uma forma nova, fundada daí em
diante no dinheiro, mais do que no nascimento.”.
Filomeno
reconhece: “Nunca me ocorreu, no entanto, pensar que em Villavieja seria eu
próprio, porque na realidade nunca soubera de fonte segura quem eu era. (…)
Hoje penso ter superado essas preocupações, que considero mera literatura.”
(436)
Manuela Pereira Clube
Leitura_14/ 03/ 2025
Ademar de Alemcastre, o fidalgo
por Ângela Melo
Foi com prazer e quase de um fôlego que li Filomeno. Mas tendo entrado
tão bem no livro não encontrei o caminho de volta, fiquei lá dentro. Não foi pelo
assunto ou a trama em si, foi a cisma de apanhar melhor o texto, o que estaria a
dizer para lá do que é dito, e a vontade de espreitar a narrativa pelo avesso. Afinal,
o que fazia funcionar a sedução do leitor?
1 - jogar um jogo - a
realidade não precisa de realismo. Autor, narrador e personagem são
o mesmo, a personagem fala de si como personagem, numa dupla existência de real
e ficcionada.
A formatação em relato de memórias na primeira pessoa reforça a
ambiguidade, entra como um registo autobiográfico e pede-nos que acreditemos na
existência da personagem para lá do livro.
Do mesmo jogo participam os factos históricos chamados ao
contexto, das tenazes do regime, o franquista em especial, aos sinais da guerra,
uns e outros prontos a certificar a ficção como realidade. Mas neste
particular, Ballester não parece fazer deles um ponto de fusão, não os intrinca
que baste no enredo, o que levaria aliás a avanços na direcção trágica. Em boa medida,
deixa-os no quarto ao lado.
2 – persuadir
o nosso empenho. Na decifração da ironia, presente ao longo do texto e
perita em dissimular o que na verdade quer dizer. Depois a deduzir a fisionomia das
personagens e dos lugares, que vão comparecendo mas ao abrigo do traço
minimalista, sem a evidência de um retrato. De Filomeno, fora os palpites quanto
ao bom porte, nada mais é explicitado além do olho azul herdado da mãe.
Já o temperamento
das personagens é mais declarado. De Filomeno, em particular, pelo efeito de contraste - entre
a presença esbatida da personagem e a nitidez das outras, todas de passagem ao
invés da centralidade de Filomeno, mas todas dotadas de idiossincrasias mais verificáveis.
Não que a Filomeno falte
consciência reflexiva, matéria que ocupa até boa parte do texto mas que assim mesmo
não faculta limpidez bastante, vai-nos mantendo a presumir:
Que se distraía de
si mesmo, que se sentia vazio de imagens e de emoções, que atuava
por curiosidade, disse quando estudava em Madrid; convém deixarmos de
ser sinceros para usar a ironia como método universal de julgamento 259, dito
mais tarde, no regresso de Londres; eu tinha sobre muitos a vantagem de não
me levar a sério, de considerar as minhas ideias como erros ou meras fantasias,
305, dito aquando da estadia em Paris.
3 – consolar-nos com um trajeto virtuoso. Ao
confesso contemplador da realidade, algo errático e sonhador, sucede
um Filomeno mais sabedor e experiente, que ganha aura enquanto
cronista neutro. Vai surpreender-nos depois um Filomeno ideologicamente orientado,
capaz de se expor e vincular como é dado ver na condução da tertúlia,
no cortejo fúnebre de Flora ou no confronto com o presbítero e com o governador franquista, esse mesmo que do país
acaba por expulsá-lo. Por fim um Filomeno administrador do património herdado, de
manhã, porque à tarde escreve, dividido entre o murmúrio dos eucaliptos e o
passo incerto em busca de uma mulher.
4 – intrigar-nos. A sequência dos factos obedece ao
tempo linear. Mas não existe um desfecho, o livro termina à beira de um recomeço,
ao jeito do tempo cíclico e sem saída, como parece demonstrar o retorno periódico ao paço minhoto, lugar vital e da
reparação, encarregado de assinalar o início e o fim de cada etapa de Filomeno.
Uma mulher e quatro andamentos parecem por sua vez dinamizar cada período:
Belinha, Úrsula, Clélia, Maria de Fátima e Flora; encontro, iniciação,
separação e retorno.
A partir do desdobramento do tempo, a mesma realidade pode assumir
várias espessuras. Um suplemento de mundo interno parece então mergulhar no
trajeto de Filomeno. O amor como impossibilidade ou a melancolia como fado cuidam
de vir à tona.
Poder-se-ia continuar a
escavar o texto, a exumar a pegada dos esquemas narrativos, precisamente os
mesmos que estarão carecas de se saberem usados pelo artifício literário. E para
além da mera serventia, uma maior escavação tenderia sempre a enterrar o
magnetismo do texto, quando afinal é na relação entre o modo de escrever e a
têmpera da personagem onde encontro a melhor prova da estratégia que os criou.
Nota final
Paira
na atmosfera do livro um ideal de decência, um paradigma de civilidade. Pergunto-me o que pretende Ballester com a entrada
de Ademar Alemcastre, o fidalgo letrado
de nobreza herdada, com privilégio de paço e solar, senhorio de foros e renda
própria, ainda que de imperfeita sorte…a falha parental, uma baixa autoestima.
Talvez Ballester quisesse sublinhar, na sua demonstrada tendência
liberal, que nem ao privilégio de nascença se podem descontar méritos quando
conquistados.
Ou talvez Ballester, na sua evidente oposição à alma
rasteira e à falsidade, à injúria dos mandões e sua afronta à vida privada,
tivesse criado uma alegoria à autoridade moral para os enfrentar a todos com determinação
elegante, sem a baixeza de uma querela. Um senhor de
si, de integridade e honra, de meios próprios para seu sustento, versado nas artes e letras, viajado e de respeitosos
contactos, ao sofrimento alheio sensível e reparador, discreto, tímido até, mas
afável e bem-apessoado…Convenhamos que fazia falta um talismã ou um toque de
mito que electrizasse a virtude saturada do curriculum, faltava uma aura
a coroar o candidato – eis então a etiqueta de berço. Esse
predicado, sim, capaz de accionar o mecanismo da ficção social e seus
imaginários derivados, como o despertar da autoridade senhorial de uma
ascendência de séculos, ao invés do tempo presente, voraz e provisório, onde nascem
e medram os poderes fátuos.
É para aí que convergem
o paço, o solar e a herdade, como arquiteturas que enraízam uma pertença e preservam
uma continuidade longa, os mesmos recursos que o romantismo, a seu tempo e
modo, não se cansou de explorar. Aliás, em Ademar, não
consigo deixar de pressentir uma estética de vocação romântica ainda que com
linhas vermelhas - sem disparos do ego ou arrebatamentos de perdição, mas
certamente afiliada ao idealismo, à construção de uma subjectividade e à defesa
intransigente das liberdades de pensamento e expressão.
Uma estética que parece agora actualizar-se à medida que nos devolve
uma inquietante relação de valores em perigo de extinção.
Angela Melo,
30.03. 2025
Filomeno de Freijomil
VS Ademar de Alemcastre
A
importância de um nome
por Maria João Leite de Castro
Logo
no início do livro, o autor tece consideráveis reflexões sobre o(s) nome(s) que
entretece(m), de forma quase antagónica, a sua própria identidade.
Antagónica
porque ligada a países diferentes, embora próximos, mas também e, sobretudo,
porque remetem para famílias de origens socioculturais divergentes, sendo que o
único elo de ligação entre elas é precisamente Filomeno ou Ademar.
Em
Portugal, prevalece o Ademar, assumido pela avó Margarida, de ascendência
inglesa, o que lhe dava também o sobrenome de Alemcastre, que Ademar prezava
porque lhe remetia para o mais além, o plus ultra eivado de
mistério que tanto agradava ao incipiente poeta. O Filomeno Freijomil
desaparecia quando passava a raia, numa carruagem puxada a seis cavalos, e
entrava no paço minhoto, onde o afecto de Belinha suplantava a falta de carinho
e o vazio deixado pela mãe que nunca conhecera…
Enquanto,
pelo lado da mãe e da avó Margarida, Ademar era descendente de reis (….) e
de amantes de reis (pág.13), pelo lado do pai, Filomeno herdara o nome do
avô, carteiro rural numa zona montanhosa próximo de Zamora e de Portugal, cujo
filho – o pai de Filomeno – se distinguira desde miúdo pela sua inteligência,
trabalho, disciplina e ambição.
Heranças
diferentes que se traduziam também em expectativas muito diferentes e
exigências quase antagónicas na cabeça do menino, como Belinha
amorosamente lhe chamava.
A
minha avó dissera-me milhares de vezes “ a tua obrigação na vida é repetir a
figura do teu avô Ademar” (…) A meta, quando fiquei sob a autoridade de meu
pai, não era um homem concreto, mas uma noção relativa: ser o primeiro da
turma, o primeiro do ano, o assombro dos professores; e depois, o primeiro da
cidade e o seu assombro(…), (pág.25).
Ao
longo da vida, naturalmente que esta dualidade se foi suavizando, mas ela
estará sempre presente, marcando indelevelmente o que o autor foi ou, como ele
próprio diz, o que não chegou a ser. Ela é referida em vários momentos do livro,
como por exemplo, quando chegou a Madrid para começar os seus estudos
universitários e se apresentou no hotel como Filomeno Freijomil (pág 84)
Filomeno! Como me pareceu estranho! O sorriso que o homem do balcão me dirigiu
seria de amabilidade ou por causa do meu nome?
O nome
pelo qual é tratado, interfere também na forma como se relaciona com as
pessoas. Quando conhece o Professor Romualdo Estévez, o seu professor de
francês, e ele o chamou de Ademar, emociona-se (pág.102) Ademar!
Emocionou-me ter-me chamado assim e, de repente, toda a minha desconfiança se
transformou em simpatia.
O
mesmo professor reconhece também a importância do nome, independentemente das
conotações subjectivas que ele possa ter para o nosso autor (pag.102)
Filomeno! Esse é o inconveniente. Já reparou no que podia ser em Madrid se se
chamasse Ademar de Alemcastre? Entraria na literatura com o pé direito. Não
sabe o que faz um nome!
A sua
ligação a Antero de Quental que, assume, pode ter qualquer coisa a ver consigo,
traduz essa sua ambivalência. Numa conversa com Benito refere (pag.140) não
sei bem o que é. Ando um pouco perdido, sabes? Mas isso não é novidade. Sempre
andei perdido. E ao refletir sobre a dificuldade de expressar por palavras
os seus sentimentos a outrem, pensa (pag.141/142) As de Quental sim,
comunicam-nos, mas eu não sou Antero, sou Ademar, nem sequer Ademar, sou
Filomeno, aquele nome pelo qual ninguém me chama, ou, quando muito, por senhor
Freijomil. Até Florita tinha ficado chocada: «Como te vou chamar? Filo? Filo é
nome de mulher!» O meu nome nem sequer dava para um diminutivo carinhoso.
Os
nomes que o envolviam davam-lhe também formas de estar diferentes, como
sublinha Benito, quando passa com ele umas férias no paço minhoto. (pág 155) Outra
das suas descobertas, talvez a mais surpreendente, foi a de que toda a gente me
chamasse Ademar de Alemcastre, e não Filomeno Freijomil, e que, sob aquele
nome, eu me comportasse com mais desenvoltura. Como já se começava a falar de
múltipla personalidade, e esse tema aparecia em romances e comédias, chegou a
perguntar-me se eu tinha uma dupla personalidade. Expliquei-lhe a minha
situação como pude: de qualquer forma eu vivia em parte como homem moderno e em
parte como sobrevivente retardado.
A
reconciliação com o nome Filomeno surge com Ursula, sendo esta a primeira a
gabar-lhe a sua beleza. (pág. 206) Meu Deus! Era a primeira vez que alguém
me dizia semelhante coisa do meu nome, aquele fardo que tanto me pesava; desde
então, até me reconciliei com ele e decidi enterrar Ademar juntamente com o
passado. Bom, não o esqueceria totalmente porque, nas minhas recordações de
Belinha, continuava a ser Ademar. «Meu menino, meu pequeno Ademar!». Posteriormente,
com Clelia, é o Filomeno que é assumido, perguntando-se inclusive, como poderia
“recuperar” o Ademar. (pág.327) Ursula e Clelia tinham-me amado como
Filomeno.
As
constantes ambivalências aqui referidas seriam motivo para questionamentos,
cujas respostas não quero assumir, porque não tenho competência para tal, mas
que, eventualmente, nos ajudariam a compreender um pouco melhor a personalidade
imprecisa do narrador, as suas indecisões, o vazio que muitas vezes envolve a
sua existência (pag. 326) (…)encontrei-me aos 26 anos bem entrados sem uma
única aspiração, sem um desejo concreto que não fosse ir vivendo, não digo que
aos trancos e aos barrancos porque tinha a vida assegurada, mas sim bastante ao
acaso do que pudesse aparecer ao virar da esquina (…), a sua passividade e
baixa auto estima. Acredito que a forma como “resolvemos” a nossa identidade se
relaciona também com o nome que nos atribuem ou que herdamos e com o modo como
o assumimos (ou rejeitamos).
Maria
João Leite de Castro
31/03/2025
Panorâmica geral do que
foi/é ser mulher na Contemporaneidade
por Blandina Lopes
O século XIX foi um
século de ruturas a todos os níveis, principalmente a nível socioeconómico e
político, não descurando o desenvolvimento científico-tecnológico que teve a
sua concretização com a Revolução industrial. As revoluções norte americana
(1775-1784) e francesa (1789-1799) já eram prenúncio do que posteriormente iria
eclodir, em termos de transformações mais ou menos radicais, nas sociedades
ocidentais. No que à Revolução Francesa diz respeito, sabemos que ela foi, para
a europa ocidental, o paradigma de mudanças muito significativas nos planos
económico, social e também político. No entanto, no que toca às mulheres e aos
seus direitos cívicos, sabemos também que, tal como comenta Élisabeth
Sledziewski no seu artigo “Revolução francesa. A viragem”, se compreende porque
é a reação contra a mulher cívica tão viva e o desejo de confinamento das
mulheres tão inigualável, mesmo no tempo da Revolução. E mais adiante,
corroborando esta ideia, afirma: Muitos dos que se batem heroicamente pela
instrução e pelo sufrágio universal, para que o último dos camponeses possa
tornar-se um cidadão esclarecido, recusam categoricamente beneficiar as
mulheres com igual promoção, e apavoram-se com a ideia de que esta lhes possa
conferir um poder. Pois integrar as cidadãs no corpo político é fazer delas
decisoras, sujeitos ativos da Revolução, em pé de igualdade com os homens:
hipótese para muitos, nessa época, insuportável. Em compensação, a ideia de que
os homens fazem as leis civis emancipadoras para a mulher é mais tranquilizadora,
uma vez que esta se mantém então em posição de objeto: objeto de uma legislação
progressista, mas, apesar de tudo, objeto.”[1]
Apesar deste contexto de revoluções a vários
níveis, só o século XIX[2],
nas perspetivas de Geneviève Fraisse e Michellle Perrot, será o século do
nascimento do feminismo, palavra emblemática que designa tanto mudanças
estruturais importantes (trabalho assalariado, autonomia do indivíduo civil,
direito à instrução) como o aparecimento coletivo das mulheres na cena política.
Ou seja, este século é precisamente o momento histórico em que a vida das
mulheres (europeias/ocidentais) muda ou, melhor dizendo, o momento histórico em
que a perspetiva da sua vida muda; foi, por isso, um tempo da modernidade em
que é tornada possível uma posição de sujeito, de indivíduo de corpo inteiro e
de atriz política e de futura cidadã de plenos direitos civis.
E, referindo-se ao século XIX como século de
profundas alterações, as mesmas autoras afirmam o seguinte: Com efeito, se
no início do século se pensa que todas as mulheres devem ter uma mesma
destinação, uma única tarefa, a de esposa e de mãe (reencontramos aqui o “todas as mulheres” do pensamento
democrático, mas como reprodutoras da espécie, não como cidadãs), o final do
século, consciente das transgressões e da diversidade das escolhas femininas,
propõe uma norma mais subtil, a que faz de cada história feminina um destino
controlado. Poder-se-ia entender que é dada a liberdade ao indivíduo feminino,
a quem se reconhece a escolha de um percurso pessoal. Nada é, no entanto, menos
certo…”.[3] Acrescentamos
ainda que vão ser precisos muitos mais anos para que essa realidade se
concretize. Mesmo o século XX vai ser palco de muitas lutas e reivindicações
para que as mulheres conquistem direitos e reconhecimento de plena cidadania.
Os séculos XX[4]
e XXI vão ser os séculos da globalização, por excelência, e dos seus efeitos a
muitos níveis, incluindo o da luta pelos direitos das mulheres, não só nas
sociedades ocidentais como noutras partes do mundo. O século XX foi palco de
duas guerras mundiais que alteraram profundamente a nova ordem geopolítica do
mundo e que, ao mesmo tempo, também provocaram revoluções científicas e
tecnológicas que trouxeram mudanças, muitas vezes, radicais para os modos de
vida das populações em geral e das mulheres em particular. Foi um século que
proporcionou tanto aos homens como às mulheres melhor saúde e longevidade, uma
maior democratização da escolaridade e, fundamentalmente, modos de vida
marcados pela urbanização e pela multiplicação dos consumos de bens e de
serviços. No que toca mais especificamente às mulheres, assistiu-se a uma
transformação do trabalho doméstico e do regime da maternidade que diminuiu o
tempo necessário a essas atividades de reprodução e lhes permitiu uma maior
participação na vida social.
E, para reforçarmos o argumento segundo o
qual o século XX trouxe às mulheres uma maior participação na vida social, numa
relação não ainda de paridade com os homens, mas já mais próxima destes,
recorremos às palavras de Françoise Thébaud, segundo as quais É verdade que,
para as mulheres, a guerra (referindo-se à 1ª Grande Guerra de 1914-18)
constitui uma experiência de liberdade e de responsabilidade sem precedentes.
Em primeiro lugar, pela valorização do trabalho feminino ao serviço da pátria e
pela abertura de novas oportunidades profissionais, em que as mulheres
descobrem, geralmente com prazer, o manuseamento de utensílios e técnicas que
desconheciam. A guerra destrói, por necessidade, as barreiras que opunham
trabalhos masculinos e trabalhos femininos e que vedavam às mulheres numerosas
profissões superiores.[5]
A título de exemplificação, destacamos o facto de as raparigas começarem a
frequentar a educação superior, nomeadamente, na Sorbonne e em Oxford.
Estas conquistas e
outras subsequentes não vão ter mais um ponto de retorno, antes pelo contrário,
vão consolidar-se e alargar-se a todos os setores da vida social, quer no
século XX quer nesta primeira metade do século XXI. No entanto, e apesar de
todas estas ruturas com a tradição, elas não foram de modo algum definitivas,
uma vez que quando “tocam os sinos do armistício” a 11 de novembro de 1918, a
desmobilização feminina é, por toda a parte, rápida e brutal, principalmente
para as operárias de guerra, as primeiras a serem despedidas e a voltarem, na
maior parte das vezes, ao lar e às tarefas consideradas especificamente
femininas.
Foi igualmente na segunda metade do século
XX que se deu a descoberta de um fármaco – a pílula contracetiva oral combinada[6]
– e que se revelou como uma das causas, senão mesmo a causa principal, da
revolução dos costumes e da emancipação sexual das mulheres. Com o advento da
pílula contracetiva, os códigos tradicionais de comportamento relacionados
principalmente com a sexualidade humana e com os relacionamentos interpessoais
sofreram ruturas sem retorno, nas décadas de 60 e de 70, no mundo ocidental, e
que ainda hoje, mais precisamente na primeira metade do século XXI, continuam a
fazer-se sentir de uma forma mais global. Saliente-se que, como consequência
direta desta dita “liberdade sexual”, a homossexualidade e outras formas
alternativas de sexualidade e a legalização do aborto foram fenómenos
sociológicos e culturais que começaram progressivamente a ganhar força nas
sociedades ocidentais.
Outro fator importante e a destacar foi o
desenvolvimento das ciências da Informação, mais precisamente, a Informática, a
Cibernética e a Inteligência Artificial, e, simultaneamente, o poder cada vez
maior dos media e mais tarde das ditas redes sociais. Esta
conjuntura aliada a uma cada vez maior liberdade cívica e política
(principalmente a partir das duas guerras mundiais e da nova ordem geopolítica)
foram determinantes para uma crescente valorização das mulheres e dos seus
direitos não só enquanto pessoas, mas sobretudo enquanto cidadãs livres e
autónomas. Foi neste século que surgiram, em maior quantidade e com mais
frequência, nomes femininos muito importantes em vários domínios como os da
arte, da ciência e da filosofia. Saliente-se que o século XX foi,
principalmente a partir da segunda metade, o século em que as repercussões das
Guerras Mundiais, da Guerra Fria e da Globalização criaram um mundo em que as
pessoas estiveram mais unidas do que em qualquer outro período da história da
humanidade, criando mesmo o denominado Direito Internacional, plasmado na Declaração
Universal dos Direitos Humanos[7]
e na Carta das Nações Unidas[8].
No entanto, e paradoxalmente, o período que
se seguiu às duas Grandes Guerras foi também um período de bipolarização e de
grandes conflitos entre as duas superpotências, uma liderada pelos Estados
Unidos da América e a outra liderada pela União Soviética (capitalismo versus
comunismo), que desembocou no que se denominou período da Guerra Fria[9]
e que teve como consequência nefasta para a paz mundial a corrida ao armamento
nuclear. Mas, ao mesmo tempo, esta rivalidade entre as duas superpotências
contribuiu para o desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico,
nomeadamente, no campo da ciência/engenharia aeroespacial levando o Homem à Lua
e abrindo horizontes, no campo do espaço, tal como analogamente tinha
acontecido nos séculos XV/XVI com os denominados Descobrimentos de outros
lugares na Terra e que eram até aí completamente desconhecidos dos europeus.
Em
meados do século XX, o ensino tornou-se obrigatório e gratuito em muitos
países, pois representava uma forma de incutir valores e novas formas de vida,
através da escola, numa altura em que os meios de comunicação social (media) eram veículos de uma cultura de massas, também eles
transmissores de modelos de vida e de ideologias. A televisão, a rádio, a
imprensa escrita e o cinema atingiam todo o tipo de pessoas, transmitindo a
todas as classes sociais modelos comportamentais estandardizados. A difusão da
imprensa teve início no final do século XIX; contudo, com a alfabetização mais
ou menos generalizada e a melhoria das condições de vida, o seu poder e
influência aumentaram consideravelmente nos séculos subsequentes. Todos estes fatores
tiveram repercussões na luta e consequente conquista de direitos, por parte das
mulheres.
Salientamos, a
propósito, uma obra relevante neste âmbito, de uma filósofa francesa cujo
pensamento iremos analisar oportunamente; referimo-nos a Simone de Beauvoir[10]
e à sua obra O Segundo Sexo, publicada originalmente em 1949 e onde a
autora inaugura o segundo volume (Experiência Vivida), proferindo uma
das frases mais emblemáticas do seu pensamento e que será considerada como
referência para o movimento feminista – Não se nasce mulher: torna-se
mulher. Esta frase ilustra de modo muito explícito o movimento filosófico
existencialista, de que o companheiro de Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre[11],
é considerado uma das figuras mais importantes e autor da obra O
Existencialismo é um Humanismo, obra que é, igualmente, precursora desse
movimento filosófico tão marcante da segunda metade do século XX.
Mesmo assistindo a
uma progressiva evolução no que toca à representação simbólica do que é ser
mulher ao longo dos tempos e, como acabamos de enunciar, principalmente a
partir do século XX com a conquista, por parte das mulheres, de direitos
cívicos e do estatuto de sujeito (e não de mero objeto), continua a subsistir
uma conceção de inferioridade da mulher em relação ao homem. Por exemplo, o
filósofo madrileno José Ortega y Gasset[12],
na sua obra El Hombre y la gente, publicada em 1957, considera que a
mulher mais do que diferente, é inferior ao homem, isto é, é dotada de uma
“inferioridade constitutiva” relativamente ao homem. Segundo o mesmo filósofo,
é ao aceitar a sua condição que a mulher cumpre a sua missão específica, sempre
relativa ao homem, ou seja, como ele próprio afirma na obra acima referida: O
destino da mulher é existir em função do homem. Assim, a diferença entre os
sexos é, muitas vezes, descrita em termos de menos e de mais, e não em termos
de uma verdadeira alteridade, estando assim integralmente associada ao homem,
relativamente ao qual a mulher encontra a sua posição de complementaridade. Em
última análise, o contributo das mulheres é importante e considerável, mas
sempre como alimento e prazer da vida e da criação dos homens.[13]
Outro exemplo, vindo
também de um intelectual do sexo masculino, é a conceção da Teoria
Psicanalítica freudiana que, apesar da sua complexidade, se apresenta
igualmente bastante redutora (a partir do masculino) no que à sexualidade
feminina diz respeito, sem ter em linha de conta uma real alteridade. Sigmund
Freud[14],
impregnado pelos preconceitos sexistas da sua época, sublinha a dissimetria dos
sexos, mas a partir de um monismo fálico, isto é, não há libido senão
masculina. Mesmo morfologicamente, para já não mencionar a dimensão
sociocultural, o sexo feminino é definido negativamente por relação ao sexo
masculino, ou seja, a mulher está privada de pénis e tem o seu sucedâneo no
clitóris. É com alguma nostalgia que Freud verifica que a evolução a que se
assiste já na sua época, arrisca a conduzir ao desaparecimento da coisa mais
deliciosa que o mundo tem para nos oferecer: o nosso ideal de feminilidade.
Chega mesmo a criticar, a este propósito, o feminismo de J. S. Mill porque este
reclama a igualdade na relação entre os sexos feminino e masculino.
Na sequência de um
pensamento filosófico, maioritariamente produzido por homens[15],
na segunda metade do século XX, e num contexto histórico-filosófico de
pós-modernidade, vai surgir o que se pode denominar de pensamento feminista e
que, ainda na primeira metade do século XXI, continua a influenciar as práticas
e as lutas levadas a cabo no sentido de conferir às mulheres, na sua relação
com os homens, uma paridade em direitos económicos, sociais, políticos e
cívicos, no sentido de construir um quotidiano em que não faça mais sentido a
existência dessas lutas porque essa paridade foi, efetivamente, conseguida,
na(s) família (s), fora dela(s), na(s) escola(s), na(s) universidade(s), nas
relações de trabalho, enfim, em todas as instâncias da realidade existencial.
Assim, dando relevo ao surgimento desse pensamento feminista que se vai
desenvolver a partir dos anos setenta, consideramos com Françoise Collin que
ele participou, em muitos aspetos, de algumas correntes filosóficas,
nomeadamente, do marxismo, da psicanálise, da crítica da metafísica encetada
pelo movimento filosófico da pós-modernidade, do estruturalismo e do
existencialismo. Subscrevemos, então, as seguintes palavras relativas ao
mencionado pensamento feminista: Ele parte, com efeito, da constatação
segundo a qual a estrutura das relações entre homens e mulheres é uma estrutura
de poder, que assegura a dominação daqueles sobre estas. Partindo deste ponto
comum, o pensamento feminista diversifica-se infinitamente quando se trata de
saber como e com que objetivo essa estrutura deve ser abolida, e o que é feito
da diferença sexual quando ela escapa à sua determinação sócio histórica.[16]
Para concluirmos
esta incursão histórica, sem ser necessariamente historicista, do que foi/é ser
mulher ao longo dos tempos, pretendemos deixar uma mensagem positiva e de
esperança, qual Caixa de Pandora, para as futuras relações entre
homens e mulheres, não subalternizando as especificidades de ambos os géneros
nem hierarquizando a importância de cada um deles. Ao elencarmos algumas datas e respetivos
acontecimentos/documentos da evolução dos direitos das mulheres é nosso
propósito realçar o quão difícil e complexo tem sido para as mulheres, muitas
vezes em conjunto e não em relação necessariamente antagónica com os homens,
conquistar direitos que lhes são intrínsecos e inalienáveis.
Sintetizando,
destacamos numa ordem cronológica e não hierarquizada, os seguintes
documentos/acontecimentos:
·
Em 1791, na França, Olympe de Gouges publicou a Declaração
dos Direitos da Mulher e da Cidadã, criticando a exclusão da mulher nos
documentos oficiais da Revolução Francesa, nomeadamente, da Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão de 1789.
·
Em 1848, em Nova York, Elizabeth Cady Stanton e
Lucretia Mott organizaram a Primeira Convenção dos Direitos da Mulher,
criticando a exclusão das mulheres e a sua menorização em relação aos homens.
·
Em 1893, a Nova Zelândia tornou-se o primeiro
país da história da humanidade a legalizar o voto feminino.
·
Em 1911, o dia 8 de março foi datado como
o Dia Internacional da Mulher, com diversos protestos na Rússia, na
Áustria, na Dinamarca, na Alemanha e na Suíça, exigindo direitos cívicos,
nomeadamente, o direito ao voto.
·
Em 1920, no Egito, a Sociedade Egípcia de Médicos
realizou a Primeira Campanha na história contra a mutilação genital feminina
(MGF). Nos EUA, foi ratificada a 19ª Emenda Constitucional, dando às mulheres o
direito ao voto.
·
Em 1946, na Assembleia Geral da ONU, Eleanor
Roosevelt fez um memorável discurso reivindicando um maior envolvimento das
mulheres quer em assuntos nacionais quer internacionais.
·
Em 1960 (dia 25 de novembro), na República
Dominicana, as mulheres Minerva, Maria Teresa e Patria, conhecidas como Irmãs
Maribal, foram brutalmente assassinadas por protestarem contra a ditadura de
Rafael Trujillo. Como consequência deste acontecimento, em 1999, a Assembleia
Geral da Nações Unidas designou a data de 25 de novembro como o Dia
Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.
·
Em 1975, no México, foi realizada pela ONU a
primeira Conferência Mundial da Mulher, dando início à Década da
Mulher.
·
Em 1993, foi adotada, pela Assembleia Geral das
Nações Unidas, a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as
Mulheres; este documento é visto como um complemento e reforço ao trabalho
da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra
as Mulheres, tratado internacional aprovado em 1979, pela Assembleia
Geral das Nações Unidas.
·
Em 1995, foi publicada a Declaração de Beijing,
como resolução da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, servindo como
um guia de boas práticas para o estabelecimento da igualdade entre os homens e
as mulheres, no mundo.
·
Em 2000, o Conselho de Segurança da ONU adotou a Resolução
1325 sobre as mulheres, a paz e a segurança reconhecendo que as mulheres
são afetadas de maneiras diferentes por guerras e apela para a participação
feminina na prevenção e resolução de conflitos.
·
Em 2015, a Igualdade de Género foi
colocada como uma das metas a ser atingida até 2030, nos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos pela ONU e conhecidos pela Agenda
2030.
·
Finalmente, e entre outros, em 2017, ocorreu a Marcha
das Mulheres que, tendo a sua iniciativa em Washington D.C., acabou por se
alastrar a muitas cidades do planeta.[17]
Terminada esta breve reflexão com um
carácter mais generalista acerca do que foi/é ser mulher ao longo dos
tempos, nos próximos capítulos ir-nos-emos focar, de modo mais específico, nas
produções filosóficas elaboradas por mulheres que, de uma forma ou de outra,
tiveram de romper, na maior parte das vezes, com alguns dos estereótipos e
preconceitos dominantes nas épocas em que viveram. O que não significa
necessariamente que estejamos a defender a existência de um pensamento
filosófico com características exclusivamente femininas, em oposição radical ao
pensamento filosófico produzido pelos homens. Pelo contrário, defendemos que é
na relação de reciprocidade entre os géneros feminino e masculino que a
evolução da relação dialética entre ação e pensamento humanos se forja.
Apesar disso, estamos conscientes de que
esse processo evolutivo não foi linear e foi construído, frequentemente, à
custa de ruturas (embora na continuidade do devir espácio-temporal) encetadas
por mulheres. Assim, é nosso propósito salientar que, desde a Antiguidade
clássica até à Contemporaneidade não faltam exemplos dessas ruturas, pelas
ideias defendidas nas suas obras que, do nosso ponto de vista, não tiveram a
divulgação merecida e que até foram votadas ao esquecimento, quer na maior
parte dos programas dos cursos de Filosofia nas Universidades, quer nos
programas da disciplina de Filosofia do Ensino Secundário.[18]
Blandina Lopes
Clube de Leitura, 31 de março de 2025
[1] Élisabeth
G. Sledziewski, “Revolução Francesa. A viragem” in Georges Duby e Michelle
Perrot, História das Mulheres – O Século XIX, sob a direção de Geneviève
Fraisse e Michelle Perrot (trad, Porto: Edições Afrontamento, 1994), vol.4,
47-48.
[2] Foi precisamente
neste século que, nos campos filosófico e científico, surgiram algumas teorias
que vão ser “guias” do pensamento e da ação humanos posteriores. Queremos
destacar, por exemplo, a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin
(1809-1882), a teoria psicanalista de Sigmund Freud (1856-1939), a teoria do
materialismo dialético de Friedrich Engels ((1820-1895) e de Karl Marx
(1818-1883) e a teoria do positivismo de Auguste Comte (1798-1857). Todas elas
tiveram consequências no desenvolvimento quer da ciência quer da filosofia quer
ainda no modus vivendi ocidentais dos séculos XX e XXI.
[3] Geneviève Fraisse e
Michelle Perrot, in G. Duby e M. Perrot, ibid., 20.
[4] Em termos muito
genéricos e simples, mas sem serem redutores, subscrevemos a caracterização
relativa às mulheres no século XX, feita na “Introdução”, por Françoise
Thébaud, dizendo que este século (…) é igualmente o século em que as
mulheres, cada vez mais mulheres, tomam a palavra e o controlo das suas
identidades visuais; sublinhando o desafio político da representação, elas
tentam quebrar os estereótipos e propõem múltiplas vias de realização pessoal. in G. Duby e M. Perrot, História das
Mulheres – O Século XX, sob a direção de Françoise Thébaud (trad, Porto:
Edições Afrontamento, 1995), vol.5,11.
[5] Françoise Thébaud, “A
Grande Guerra – O triunfo da divisão sexual” in G. Duby e M. Perrot, ibid., 49
[6] A
pílula contracetiva oral combinada, coloquialmente conhecida como “a pílula”
foi inicialmente aprovada nos Estados Unidos em 1960 e estendeu-se muito
rapidamente aos países da Europa ocidental, variando a sua utilização de país
para país. Ela foi efetivamente um catalisador para a revolução sexual e, ao
mesmo tempo, o contracetivo mais importante para transferir o poder sobre os
direitos reprodutivos dos homens para as mulheres.
[7] Adotada e proclamada
pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217 A III) em
10 de dezembro de 1948. Logo no artigo 1º se afirma perentoriamente o seguinte:
Todos os seres humanos nascem
livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência,
devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Saliente-se que é dito todos os seres
humanos e não todos os homens, não distinguindo, portanto, os géneros
masculino e feminino. Além disso, também é destacado o espírito de
solidariedade entre os povos, sejam ocidentais ou de outras partes do globo.
[8]Foi assinada em São
Francisco em 26 de junho de 1945, após o término da Conferência das Nações
Unidas sobre Organização Internacional, entrando em vigor a 24 de outubro
daquele mesmo ano.
[9] Período (1947-1991)
de grande tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos da
América e os seus respetivos aliados, entre o denominado Bloco Oriental e o
denominado Bloco Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial. É assim chamada de
“Fria” porque não chegaram a concretizar-se combates em grande escala entre as
duas superpotências. Foi um conflito mais de ordem ideológica e geopolítica e
de luta pela influência global das duas superpotências já referidas.
[10] Simone de Beauvoir
(1908-1986), filósofa e escritora francesa, existencialista, ativista política
e feminista. As suas principais obras, entre outras, são: A Convidada
(1943), O Sangue dos Outros (1944), O Segundo Sexo (vol. 1 Factos
e Mitos e vol. 2 A Experiência Vivida) (1949) e Os Mandarins (1954).
[11]Jean-Paul Sarte
(1905-1980), filósofo e escritor francês, conhecido como representante do
existencialismo (ateu) e que entendia que os intelectuais devem ter um papel
ativo na sociedade. Duas das frases paradigmáticas do seu existencialismo são
precisamente: O Homem está condenado à liberdade e A existência
precede a essência. Foi-lhe
atribuído o prémio Nobel da Literatura em 1964, prémio esse que ele se recusou
a receber.
[12] José
Ortega y Gasset (1883-1955) foi um filósofo, ensaísta, jornalista e ativista
político, fundador da Escola de Madrid, considerado por muitos como um dos
principais, senão mesmo, o filósofo mais importante de Espanha do século XX.
[13] Cf. Françoise Collin,
“Diferença e diferendo. A questão das mulheres na Filosofia”, in G. Duby e M.
Perrot, ibid., 318-319
[14] Sigmund Freud
(1856-1939), foi um neurologista e psiquiatra austríaco, criador da
Psicanálise, teoria que revolucionou a Psicologia e que teve uma forte
influência não só nesse campo como também na Filosofia dos séculos XX e XXI.
[15] Destacamos para o
efeito nomes como: Michel Foucault (1926-1984), Emmanuel Levinas (1906-1995),
Gilles Deleuze (1925-1995), Jean-François Lyotard (1924-1998), Jean Baudrillard
(1929-2007) e o já referido anteriormente Jean-Paul Sartre, entre outros. Todos
eles, de uma maneira ou de outra, tiveram presente nas suas reflexões a
problemática do feminino vs. masculino.
[16] Françoise Collin,
ibid., 342-343
[17] As
fontes donde foram retirados estes documentos/acontecimentos foram a
Organização das Nações Unidas (ONU) e ONU Mulheres.
[18] Estamos a
referirmo-nos aos programas da sociedade portuguesa em específico, uma vez que
desconhecemos os programas de outras sociedades e nem é nossa finalidade levar
a cabo esse tipo de investigação, nesta obra.
Clube de Leitura da EASR
FILOMENO PARA MEU PESAR
A importância de um nome
por Margarida Mouta
À pergunta «Quem és tu?» que o herói grego Diomedes faz a Glauco
(aliado dos troianos), Ulisses responde: «porque queres saber da minha linhagem?
/ Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens. / Às folhas, atira-as
o vento ao chão; mas a floresta no seu viço/ faz nascer outras, quando sobrevem
a estação da primavera: / assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de
existir»
Ilíada, Homero
O
meu exemplar da obra em análise é uma 2ª edição das Publicações Dom Quixote e
data de Março de 2000. Intitula-se Filomeno para meu pesar, na tradução
de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, tradução que traduz fielmente o título
original, Filomeno a mi pesar.
As
recentes edições da obra abreviaram o título, menosprezando o lamento contido
na escolha inicial de Ballester. No meu entender, a inclusão da expressão “para
meu pesar” indicia um caminho, mas aceito a opinião dos que defendem que também
pode limitar o leitor ab initio. Se é verdade que os nomes e os apelidos
nos grudam a uma existência singular de que nos apropriamos no acto do registo
civil, momento em que nos remetem de imediato para a nossa identidade pessoal, para
o sentimento de pertença a um núcleo familiar, não é menos verdade que, pelos
sinais de pedigree ou de plebeísmo que os distinguem, eles podem também dar
lugar a reações expectáveis de bajulação ou rejeição, consoante os casos e que,
por muito que nos espantem, continuam, malgré tout, presentes em muitos
círculos sociais. É o fado! Já dizia o Fausto (não o de Goethe que, segundo
Heine, ocultava as origens da sua família paterna), mas o nosso Bordalo Dias de
“Por este rio acima”: Eu cá sou dos Fonsecas /Eu cá sou dos Madureiras/De
ferro e puro sangue /O que me corre nas veias… Mas, convenhamos: um Mello (com
dois éles) um Corte-Real (de preferência precedido de um Telles, também com
dois eles), um Pamplona Reyes, um d’Orey (ambos com ípsilon), um Braamcamp ou
Ademar de Alemcastre infundem respeito. A genealogia infunde respeito. Os nomes
“mesmo próprio para cartão de visita” infundem respeito.
Pondo
de lado a onomástica ligada à história familiar ou ao clã, pensemos tão só nos
nomes próprios e apelidos que, associados ou não a uma história familiar, dão
origem – como no caso do nosso Filomeno – a constrangimentos de quem os carrega
toda a vida como um estigma. No meu liceu, havia um professor cujo nome era
Francisco Ligório Pardal Marcela. A esposa, que era a minha professora de
Francês, foi baptizada, para todo o sempre de “Morcela”. Há uns anos, tive um
aluno timorense que era a imagem viva da indolência, da placidez e da bonomia.
De seu nome (próprio e apelido), Domingos Plácido Boavida. Ostentar no Cartão
de Cidadão nomes como o do professor Pardal Morcela ou como o de José Coito
Pina, António Penetra Murcho, Portugal Feliz ou Cinderela de Fátima também gera
em nós respeito pelos seus portadores. Sobretudo porque não os renegaram e os
vestem como uma segunda pele. Filomeno, o desta ficção disfarçada de
autobiografia, será ora Filomeno Freijomil ora Ademar de Alemcastre. Dois nomes
para a mesma personagem cuja existência feita de indecisão e de incerteza,
parece estar condenada a ser trapaceada pelo destino. O próprio Filomeno está
convicto de que se não lhe tivessem dado um nome próprio tão arrevesado, tão
fora de moda, tão ridículo como o que lhe deram, nunca se teria tornado o jovem
perturbado que Ballester nos descreve. Se Filomeno foi uma imposição do pai, que
o faz herdeiro do nome do progenitor, carteiro rural numa zona montanhosa
próxima de Portugal, Ademar foi-o da sua avó Margarida, que, com a ameaça de o
deserdar se não o aceitasse, o leva a fazer-se chamar pelo nome do bisavô
materno. Essa avó, “aquela espécie de dragão de olhos verdes”, “incapaz
para a ternura, mais temida que respeitada”, mas que soube transmitir-lhe,
desde o berço, a noção da importância da sua própria independência.
Para ela, que não gostava de Filomeno, mas
também não achava graça a Freijomil, ele seria incontestável e definitivamente
Ademar de Alencastre. Este segundo nome,
proveniente do bisavô Ademar Pinheiro de Alemcastre vinculava-o a seguir uma
meta: “A tua obrigação na vida é repetir a figura do teu avô Ademar” -
dizia-lhe a avó vezes sem conta. É certo que o nome herdado do bisavô lhe dava um
cunho mais ilustre, porque, embora “acomodado à alma portuguesa”, não
deixava de evocar os Lencastres, antepassados que tinham vindo da Inglaterra
para Portugal, provavelmente acompanhando a futura esposa de D. João I,
distintíssima mãe da ínclita geração. Mas embora o Alemcastre lhe agradasse, sobretudo
pelo fascínio da partícula “além” que lhe dava uma aura de mistério – o que
o levava a pensar que trazia o mistério consigo – a aristocracia do nome nunca
o impediu de experimentar o sentimento de que esse mistério não deixara nunca
de ser para ele como “uma prenda com a qual não sabia brincar”.
De
qualquer maneira, o nosso Filomeno reconhece a supremacia das questões biográficas
que nele tornam visíveis as influências do fado. A dupla designação por que
será conhecido é da inteira responsabilidade tanto do avô Filomeno Freijomil, que
o ligará para sempre a Villavieja del Oro, como do bisavô Ademar de Alemcastre que
o vinculará ao ambiente aristocrático do Paço Minhoto.
Nos
dias da infância com Belinha, será “meu menino, meu pequeno Ademar”; no liceu e
nos anos de estudante em Madrid será Freijomil; no período de jornalista em
Paris, reconciliando-se com o fardo que tanto lhe pesava, decide enterrar
Ademar e, tanto para Úrsula Braun como para Cleia será Filomeno; nos seus
tempos de aprendiz de banqueiro em Inglaterra, no trato com o Major Thompson,
(inapto para a pronunciação de Freijomil), será apenas cavalheiro; nos anos de permanência
em Portugal, para Maria de Fátima será Ademar, para os pais desta, Sr.
Alemcastre, com sotaque brasileiro; nos últimos anos de recolhimento em
Villavieja, na boca de Flora será filho, filhinho; para os
restantes, Filomeno, Senhor Freijomil, ou Senhor Alemcastre.
Enfim...!
Que há num simples nome? What’in a name?
“O
que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume”?
Não resisto a trazer aqui à colação o velho
William, nesta que é, talvez, uma das mais célebres réplicas do teatro de
Shakespeare. Julieta tenta, em vão, persuadir-se de que os nomes não importam,
não tanto quanto se pensa.
|
'Tis but thy
name that is my enemy;
Romeo and
Juliet (2.2.38-49) William Shakespeare
|
Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso
Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou
rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples
nome? O que chamamos rosa, sob uma outra
designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de
Romeu, conservara a tão preciosa perfeição
que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que
não é parte alguma de ti mesmo,
https://williamshakespearewilliam.blogspot.com/2009/02/romeu-e-julieta-ato-ii-cena-ii.html |
E porque as palavras
(e as ideias) se atraem nas questões que nos colocam, também não resisto a
trazer aqui o poema de Ana Luísa Amaral (“What’s in a name” ) que convoca o
acto de nomear, formulando a pergunta que alberga o mito: O que há num nome?
Pergunto: o que há num nome?
De que
espessura é feito se atendido,
que guerras o amparam,
paralelas?
Linhagens,
chãos servis,
raças domadas por algumas sílabas,
alicerces da história nas leis que se forjaram
a fogo e labareda?
Extirpado
o nome, ficará o amor,
ficarás tu e eu — mesmo na morte,
mesmo que em mito só
E mesmo o
mito (escuta!),
a nossa história breve
que alguns lerão como matéria inerte,
ficará para o sempre do humano
E outros
o hão de sempre recolher,
quando o seu século dele carecer
E, meu
amor, força maior de mim,
seremos para eles como a rosa —
Não, como
o seu perfume:
ingovernado
livre
Ana Luísa Amaral
in What’s in a name, Ed. Assírio
e Alvim, Abril de 2017
Na materialidade do texto, o poema fala-nos de
guerras, linhagens, chãos servis, fogo e labareda. Na espessura de que é feito,
responde à pergunta, apontando para si próprio, mesmo que seja apenas matéria
inerte. Extirpado o nome, ficará o amor. Extirpado o nome da flor, a rosa será algo
que irá além do seu próprio corpo. Algo que contém em si o ingovernado e
livre perfume.
No
final do romance de Torrente Ballester, damo-nos conta de que os nomes a que a
personagem está associada não parecem ter afectado o princípio básico
que norteia a sua conduta. O “nosso” Filomeno orientar-se-á sempre no respeito
pela sua individualidade e pela dos outros. Um traço comum ao autor que lhe dá
vida? Tudo leva a crer que sim. Há quem fale em alter-ego. Não vou tão longe,
embora admita sem esforço o artifício que lhe permitiu falar de si sem se
expor, materializando, talvez, o desejo de se reinventar na biografia de um
outro a quem emprestou memórias do seu próprio eu.
Seja como for, artifícios à parte, tal como acontece
com a rosa de Shakespeare ou de Ana Luísa Amaral, extirpado o nome, de Filomeno
ficará o que vai além do próprio romance, o remanescente da nossa leitura ou,
se quisermos, o ingovernado e “livre perfume” que ficará “para o
sempre do humano.”
Margarida Mouta
20 de Março de 2025
À douta apreciação dos “contertúlios” do clube de leitura da EASR, um olhar sobre
O Clube de leitura da casa de Flora, rente ao texto…
por Delfina Rodrigues
Algures, no seu paço minhoto, Ademar de Alemcastre - ou
Filomeno de Freijomil? - não resiste ao impulso de escrever as suas recordações:
“…neste transe de escrever as minhas recordações”, lê-se logo na primeira
página desta narrativa autodiegética.
Não é ainda um velho, tempo biográfico favorável às revisitações,
mas a ideia de escrever as suas memórias surgiu-lhe como uma imposição do espírito,
uma pulsão, de repente, quase ao chegar ali e “rever inteiro o mundo das (…)
recordações” - “indóceis”, “inclassificáveis” e “indomáveis” - dos primeiros
trinta e tal anos de vida, vivida ora em Espanha, Galiza, ora em Portugal, com
passagens por Madrid, Lisboa, Londres, Paris, num pitoresco desfile de lugares
e ambientes, sua cor local, amores, familiares e amigos, convivas… tipos psicológicos e sociais diversos, com a História
a acontecer e o ar do tempo a sobrevoar a narrativa, sob o espectro do fascismo
italiano, do nazismo e das ditaduras
peninsulares a emoldurar as vidas individuais, que aqui têm a primazia. Não
quer fazer História. Não é a escrita da História que o motiva: “Os factos sobre
os quais eu escrevia da minha solidão no paço não eram ainda História mas
tão-só actualidade(p.348); “ O que eu tento agora recordar, e relatar, era a
minha situação pessoal, escondido entre bosques e vacas, enquanto fora de
Portugal a guerra de Espanha acabava e se preparava a curto prazo, a
outra.”(p.438).
Apesar da condição de ostracizado do seu próprio país, que o
encarou como uma ameaça, como aliás todos os inimigos da liberdade encaram as
almas livres, a sua permanência ali não é uma inevitabilidade. A voz do
director do jornal de Lisboa com que ainda colabora desinquieta-o: “Oh homem, o
que faz você aí, nesse buraco, Ademar? Posso enviá-lo para onde quiser…” (p.537)
Ele sabe. Mas não quer. Ou não quer ainda. Há que encerrar
este tempo de transição entre um passado agora cristalizado no discurso em
processo e um futuro olhado com temperado pessimismo, mas onde poderá ainda caber
Maria de Fátima, uma das quase “mulheres da sua vida”.
Chegou aqui vindo de Villavieja del Oro, daquela que foi a
sua última estadia na terra natal, que o acolheu em sobressalto cívico, num
clima de suspeição e mistério gerador de todas as especulações: associavam-no a
uma vida dissoluta, mundana, intelectual e galante, politicamente dissonante
dos valores vigentes, a avaliar pela desconfiança que as autoridades revelavam
em relação a ele. Confrontavam-se correntes de opinião e ouvia-se: “Parece
mentira ao que chegou o filho do Sr. Práxedes Freijomil, tão de direita.”
(p.461) Embora ninguém conseguisse concretizar ao certo ao que tinha chegado. Era
um estádio difuso, uma aura de santidade diabólica, de vício e de virtude, a
velha tentação de ocupar o vazio deixado pela falta de informação. Acima de
tudo, inquietava-os o seu conhecimento dos movimentos artísticos: “O fundamento
mais sólido e, embora pareça estranho, mais perigoso da minha fama era o meu
conhecimento de literatura e dos movimentos artísticos anteriores e
contemporâneos da guerra…” (p.461) Pense-se no isolamento dos intelectuais de
Villavieja, confinados e coagidos pela censura franquista, sem acesso às
últimas novidades científicas nem às últimas correntes filosóficas ou artísticas.
Filomeno passa a
Integrar, naturalmente, o círculo intelectual contra-corrente, como uma lufada
de ar fresco, ao lado de figuras como Emílio Roca, o poeta, e Agapito de
Baldomir, professor e intelectual, contrabalançados por D. Braulio e doña
Eulália Sobrado, representantes locais da inescapável moral da Igreja e do
Estado.
Assim se desenvolve a
vida possível em ambiente social e intelectualmente pouco estimulante, mas rico
em peripécias caricaturais, censórias, que o ridículo sempre espreita onde a
inteligência embota. Até ao momento em que os encantos de Briseida, antes Laura
Martinez, opõem Filomeno a Celestino, na voz corrente, ou se assiste à
reencarnação da disputa entre Aquiles e Agamémnon pela sua Briseida, na voz
culta de Agapito de Baldomir. Filomeno prescindiu de Briseida para Celestino,
como Aquiles o fizera para Agamémnon, mas se Aquiles “ficou ressentido”, ele,
mais experiente nestas questões, deixou o campo livre, que o mesmo é dizer que
as ”catacumbas intelectuais da cidade”, reunidas habitualmente no Café Moderno,
primeiro, e depois na Rosa de Té, ficaram sem espaço de reunião.
E “Foi assim que se instalou no salão reservado de um
bordel, com espelhos nas paredes e uma Nossa Senhora das Dores por cima da cómoda,
um grupo literário mais ou menos provinciano” (p.497). Flora, a anfitriã, que
havia outrora sido aconchego amigo do pai, abre agora as portas ao filho.
Os três elementos iniciais mais “6 desenganados do Café
Moderno, onde a literatura se politizara até já não ser reconhecida” (p.498)
iniciaram aí a sua actividade, que cedo passou de uma série de conversas
anárquicas para uma “espécie de aula onde cada noite um dos contertúlios lia um
trabalho breve que depois se discutia”. E “ao conjunto das intervenções e
discussões, pelo seu carácter “obrigatoriamente irónico, ou pelo menos
satírico, sempre informal, mas nem por isso leviano”, dava-se o nome de
“Críticas da razão humanística”. Filomeno, cujos pontos de vista eram
auxiliados e suportados pelos jornais ingleses e franceses que recebia de
Lisboa, clandestinamente, era o presidente do grupo e os temas eram tratados
com total independência.
As sessões decorriam sem hora limite, prolongadas
habitualmente por explanações de Filomeno sobre qualquer tema de interesse,
literário, histórico ou de atualidade internacional. Ao exterior chegavam ecos
dos assuntos tratados, com inevitáveis infidelidades (mutatis mutandis,
é a aplicação da verdade condensada em traduttore traditori), mas
crescente interesse. Aumentavam os candidatos e foram aceites mais três ou
quatro e” alguns adolescentes espertos, estudantes em Santiago ou aspirantes a
poeta”. Só não eram aceites, paradoxalmente, trabalhadoras do lupanar. O
consumo mínimo obrigatório garantia a Flora o negócio e a natureza do grupo
garantia a promoção. Assim, salvaguardados os interesses das partes, a
durabilidade das conferências parecia garantida, não foram os braços
tentaculares do regime, instruídos na captação de sinais que pudessem abalá-lo.
Também não foi tão rápida a queda, apesar disso, porque o escasso conhecimento,
ou a estiolada inteligência, não lhes permitia descortinar naqueles discursos
se se tratava de seita ou célula anarquista. Isto é, não percebiam nada do que
ouviam, o que tornava doloroso, para o agente de serviço, redigir os relatórios
que deveria entregar no governo civil. Não crendo que ali residisse perigo
bastante e agradado com a oportunidade de alimentar, nesse espaço, as suas
fantasias antes de regressar à monotonia previsível do lar, pediu auxílio a
Filomeno, que passou a redigir, ele próprio, os relatórios de actividades, “com
algumas asneiras” para serem credíveis.
Assim decorreram semanas de produtivo trabalho, tendo
chegado a organizar um concurso para ver quem era capaz de falar mais tempo
sobre nada. Com a crescente reputação, foram-lhes oferecidos outros espaços que
aumentassem a capacidade de acolhimento de participantes, mas não trocaram por
nada o gozo que lhes dava a “originalidade de uma reunião científica” em
semelhante sede.
Todavia, a rivalidade entre duas autoridades locais, o
subchefe, próximo da esquerda, e o governador civil, da direita, precipitou o
fim das conferências. A pedido do subchefe, alguns jovens promissores vinham aí
iniciar-se na arte da dialética e da oratória e, não obstante a sua postura
tendencialmente passiva, colocaram algumas questões cujas respostas foram
naturalmente discordantes da ortodoxia reinante. A fuga de informação é
incontrolável e a casa de Flora recebe, inopinadamente, a visita do comissário
em pessoa. Não tendo detectado sinais que abalassem o regime, sugere a
integração regular de trabalhadoras do lupanar no clube, criando assim um clima
insuspeito, devolvido o espaço à sua natureza intrínseca. Flora anuiu, depois
de garantido o ressarcimento do prejuízo causado e Villavieja del Oro pôde
rir-se da generosidade governamental empenhada em alargar a cultura às classes
pecadoras.
Uma vez mais apaziguados os ânimos, seguir-se-iam “sessões
admiráveis”. Agapito de Baldomir pôde mesmo “expor em hendecassílabos
emparelhados as últimas descobertas da genética”. (p.506). Tempos áureos antes
do fim iminente. A paz conquistada foi desta vez perturbada com a entrada em
cena da Polícia, que, numa identificação formal dos presentes, detecta, aliás,
comprova, a existência de menores, em ambiente que lhes era vedado. Isto é:
presos por ter prostitutas e presos por não ter!
As consequências, cumpridas as primeiras formalidades
legais, na esquadra, não se fizeram esperar:
- O subchefe foi substituído, acusado de corruptor de
menores;
- Flora sofre uma verdadeira apoplexia com a iminente perda
do negócio, e perde a vida;
- Villavieja del Oro, famosa pelas suas tertúlias
intelectuais, a “Atenas do Noroeste”, como era designada, vê precocemente morta
a promessa de revitalização dos tempos áureos dos “Grandes Mestres”;
- Filomeno Freijomil (ou Ademar de Alemcastre?) é
ostracizado do seu próprio país, porque líder livre das tertúlias da casa da
Flora e porque líder desafiador do poder do Estado e da Igreja, durante o seu cortejo
fúnebre, garantindo-lhe o direito a um enterro consentâneo com a sua religiosidade
e com a dignidade humana.
E a literatura ganhou “Filomeno, a mi pesar”, este magnífico
relato terno, irónico, empático, sem doutrina, sem juízos de valor à
superfície, da vida de Filomeno de Alemcastre, o plebeu e o aristocrata, onde,
através das personagens em açcão, do fluir da História, não falta a revelação
de vícios e virtudes humanos e a denúncia de perversões de regimes políticos, sempre,
sempre, com o ridículo à espreita.
Março de 2025
Delfina
“Nunca consegui escrever nada
com projectos, planos, programas, esquemas, prazos. Grão a Grão, verso a verso,
enche a galinha o papa. Pôr o carro à frente dos bois. Assim é que funciona
para mim.”
11/3/15, Adília Lopes “ Modus Operandi”
Para mim nada funciona…
…mas vamos lá ver se consigo
alguma coisita em honra das minhas companheiras!
Ana Teixera
Filomeno e a condição humana
por Ana Teixeira
Filomeno
Ademar de Alemcastre Freixomil, com raízes galaico-portuguesas, a personagem
central da obra de Gonzalo Torrente Ballester em "Filomeno, a meu pesar", cresce no meio de um turbilhão
histórico e político. O autor, apesar de não enquadrar diretamente a Guerra
Civil Espanhola, a influência do fascismo em Portugal com a consolidação do
regime salazarista, nem a ascensão do nazismo na década de 30, oferece
perspectivas, que no desenrolar da História, se podem situar no contexto social
da época.
Através da
leitura de “Filomeno, meu pesar”, apesar
de Ballester se centrar essencialmente nos afectos e convicções deste, através
do relato das suas experiências de vida quer amorosas, quer de simples
interações sociais, julgo ser possível vislumbrar como em regimes totalitários,
a liberdade individual é severamente restringida, moldando as relações humanas
e a própria essência do ser. As pessoas sentem medo de se expressar, de se
associar com os outros ou de desafiar a autoridade. Isso leva a uma
desconfiança generalizada, onde os relacionamentos são marcados pela cautela e
pelo receio. As pessoas perdem a
capacidade de se verem como agentes de mudança ou como indivíduos com valor
intrínseco, sem ferramentas para contribuir para a mudança social, sem
capacidade de lutarem contra o que as esmaga. Isso resulta numa conformidade,
em que os indivíduos se adaptam ao que o regime exige, sacrificando as suas
próprias crenças e valores (veja-se a durabilidade tanto do regime franquista
em Espanha, como do regime salazarista em Portugal).
Contudo, li
a história de Filomeno como uma tentativa de alguém se reconhecer a si próprio,
numa reflexão sobre a busca de identidade e liberdade, numa luta constante
contra essa conformidade. Primeiro, de forma inconsciente, através da
literatura e depois através das vivências e aprendizagens profissionais e
amorosas, tanto em Londres como em Paris, graças à influência, respetivamente,
de Úrsula e Clélia, que permitiram a Filomeno reforçar a sua capacidade de
discriminação e discernimento, essencialmente, políticos.
Com Úrsula,
Filomeno reforçou a sua consciência política e a avaliação das repercussões da
ideologia nazi e dos regimes totalitários na vida do cidadão comum. Com Clélia
emerge um enorme impulso de solidariedade, numa conjuntura de guerra num país
ocupado pelo nazismo. Assim, a amizade e amor por Úrsula e Clélia não servem
apenas como apoio emocional, mas também como catalisador para a transformação
de Filomeno. Através delas, descobre que a partilha e a empatia são elementos
essenciais à humanidade.
Curiosamente
não é no ensino, nomeadamente na aprendizagem do ensino superior que se pode
ver qualquer influência na estruturação do pensamento e formação ética de
Filomeno. Esta fez-se de forma informal através da sua autoformação com a
leitura dos autores clássicos, na participação em grupos de tertúlia literária
num pequeno café-concerto, que ainda adolescente gostava de frequentar, com a
convivencialidade amorosa desenvolvida em Londres e Paris e, mais tarde, já no
fim da segunda grande Guerra, no retorno à casa paterna, em discussões literárias
e trocas de ideias que se realizavam clandestinamente no bordel de Flora.
Ao longo da
narrativa, Filomeno revela-se uma figura paradoxal: um homem que, embora não se
tivesse mobilizado politicamente contra regimes que reconhecia opressivos,
busca incessantemente a sua própria voz, desenvolvendo uma forte
consciencialização cívica. É nesta busca, que vejo na presente obra de Torrente
Ballester, um espelho da condição humana.
Ana Teixeira
31/03/2025
Filomeno
Ademar de
Alemcastre, o fidalgo
por Alexandra Azevedo
Filomeno não era, não queria ser
Filomeno. Odiava o nome galego que herdara, contrariado, do avô paterno, por
imposição do seu próprio pai e fantasiava que a mãe, portuguesa e aristocrata,
se tivesse sobrevivido ao parto, nunca teria permitido que tal má sorte o
atingisse. “A minha mãe teria gostado do nome Filomeno? Imagino que não.
Atrevo-me até a pensar que, se ela tivesse vivido depois do meu nascimento,
ter-se-ia oposto a que lançassem sobre o seu filho, e para sempre, semelhante
rótulo, por muito que a recordação do meu avô o impusesse do seu obscuro
além-túmulo” (p. 12)
Assim, a sua identidade mudava conforme a geografia. Era Filomeno Freijomil
em Villavieja, na Galiza e transformava-se em Ademar de Alemcastre, mal passava
a fronteira para Portugal.
Aliás, a sua avó materna, Margarida,
impusera que o seu nome fosse Ademar. _ “Se Filomeno foi uma imposição de
meu pai, Ademar foi-o de minha avó com a ameaça de me deserdar se não o
aceitasse” ( p. 12)
A preferência pela ascendência
portuguesa desenha-se desde o princípio das suas memórias. Desde logo, pelo
tipo físico que herdou desse lado da família: os olhos azúis, os cabelos
ruivos, a altura, ainda que não um tipo físico tipicamente português. Destaca,
em especial, os olhos verdes da avó Margarida _ “os da minha avó materna
eram de um verde profundo e habituaram-me, desde que nasci, a obedecer-lhe com tão-só-olhar-me”. (p.
12)
Mas, para além do nome próprio
português, o narrador confessa a sua preferência pelo apelido aristocrata
Alemcastre “não pela prosápia
britânica, real pelos quatro costados, que estabelece uma certa relação ténue
entre os dramas de Shakespeare e eu, mas por esse «além» que lhe tinham
acrescentado”,“ acomodando o nome à alma portuguesa”.
Esta preferência deixa pressentir,
subtilmente, o afastamento quando não a rejeição pela família paterna e
sobretudo por um pai que nunca soube, aos seus olhos, dar-lhe o carinho e
amparo que o órfão de mãe que era, necessitava. No entanto, justifica o facto
de o pai ter acedido a separar-se dele
com a ameaça “da avó de se meter num convento e deixar tudo às
freiras.” (p.21)
Aliás, os seus amigos comentando a
história fantasiosa que “com a cumplicidade das estrelas e do champanhe”(p.21)
lhes contara sobre o seu nascimento clandestino no paço minhoto da avó,
diziam-lhe: «A vontade que tens de ser um verdadeiro português!» (p.21)
A verdade é que o seu lado português
e a condição de pertença à elite aristocrata e possidente portuguesa não raras
vezes o deixam surpreendido. Em criança, na peregrinação empreendida pela avó
por terras de Inglaterra para visitar as sepulturas dos Lancaster ingleses de que provinham os Alemcastre portugueses, o
narrador dá por si a lamentar não ser um verdadeiro príncipe (como a miss
dissera a um clérigo que estranhara a forma como andava vestido e como o
tratavam), só para poder ser sepultado num daqueles sumptuosos túmulos que
vira.
Também Sotero, o terrível Sotero, “o Sábio”, seu
colega de liceu que fazia gala em mostrar a sua superioridade nos estudos e o
olhava com desprezo por não ser tão bom aluno como ele próprio, também Sotero
ficou impressionado com o paço minhoto, sobretudo com a biblioteca e com o facto de Filomeno (era esse o seu nome no liceu da
Galiza) não se interessar por ela : _ E chegaste aos treze anos sem ler nada
disto? (p. 44)
No entanto, quando Ademar acompanhou Sotero a
casa “do homem que sabia tudo”, o professor, don Braulio, ficou a saber que a sua condição de fidalgo fazia dele um
explorador de classe.
_ Com que então, é este o fidalgote? (…)_ pertences à
classe dos exploradores e será difícil redimires-te (---)_ Porque tu és a
injustiça viva, a injustiça andante” (p.48) Ademar de Alemcastre olhou-o
estupefacto e ficou com vontade de se ir embora.
Já na idade adulta, em Paris, a
trabalhar na secção cultural de um jornal de Lisboa, o Sr. Magalhães, o
jornalista português que o recebe, ignorante da sua desafogada situação
económica e das suas origens de classe, aconselha-o a inventar um pseudónimo já
que Freijomil não era muito português, e quando Filomeno lhe propõe Ademar de Alemcastre, muda
radicalmente de atitude.
_Por que escolheu esse nome?
_Era do meu bisavô.
_Ah! Isso vem alterar as coisas…
E, de repente, em vez de se sentir acima de mim como até
àquele momento, sentiu-se involuntariamente apoucado.
_Um Alemcastre é um Alemcastre – disse em português (p.265)
E é ao paço do Minho que finalmente
regressa quando a permanência na Espanha franquista se tornou perigosa depois
de… ter participado no funeral de uma
prostituta que os poderes de então não permitiam que fosse “no campo santo”. A
ironia que percorre o relato deste acontecimento faz desabar, comicamente, toda a retórica dos valores da Igreja e do
Estado em nome dos quais se proibia este funeral.
Por isso, é à terra em que viveu a
infância com a avó materna e que ao
longo da vida sempre recordou como um lugar de felicidade que naturalmente
retorna.
“Estou no paço minhoto. Para que outro sítio iria eu? (p. 532)
Ballester, T (2024) Filomeno, Quetzal Editores, Lisboa
Filomeno, a meu pesar
por Manuela Pereira
Filomeno, Gonzalo Torrente Ballester_1988
Filomeno
Ademar Távora d’Alemcastre Freijomil Taboada viveu a sua infância a vaguear pelo
pequeno paço dos vales minhotos e pelo solar de
Villavieja del Oro, ambos herdados pela sua avó aristocrata dona Margarida, com
“toda a História de Portugal por trás”.(17) Entre
“velhas baladas portuguesas vindas do fundo dos séculos”
(11)
e sem mãe que lhe cantasse “canções de embalar em galego”(11),
Filomeno cismava que a mãe se teria com certeza oposto a que lhe chamassem tal
nome e fantasiava o casamento dos pais e o seu nascimento, atravessando “as portas do mistério sem sair das paredes do
paço”.(14) Preferia o nome Ademar,
era assim que lhe chamava Belinha!, e envergonhava-se por se chamar Filomeno, tanto
quanto a avó d’Alemcastre desprezava o seu pai e as suas humildes origens
galegas, um vulgar Freijomil.(26) Mas Filomeno estava
convencido que sem o seu avô Freijomil e sem o seu pai, “já nas Cortes do
Reino” (17), a quem a opinião
popular conferia “a posse da maior quantidade de inteligência de toda a
província” e esperava dele “que viesse a ser senador”
(19),
sem
eles, não seria possível. “Porque sem eles (eu) seria inexplicável.” (14)
Assim
passou a infância e a adolescência, dividido entre quem era e quem queria ser,
com ecos ao longe de uma guerra que não entendia. A guerra com a avó, já depois
de ela morrer, foi ganha pelo pai, que achou conveniente enviá-lo para Madrid
‘uma cidade moderna’, para que estudasse Direito e se formasse advogado.
(77)
Era já quase um homem e viviam-se tempos difíceis. Atravessou a guerra civil e
a vitória de Franco em Espanha, e a ditadura de Salazar em Portugal. Com o
fantasma de uma nova guerra na Europa abriu-se para ele a descoberta do mundo e
partiu de Madrid para Londres, Paris e Lisboa. Deambulando entre novos amigos, novas
paixões e novos ideais, foi tomando consciência dos seus próprios desejos e foi
mesmo aceitando o nome que tanto o humilhara - Filomeno. Nessa procura de um equilíbrio
pessoal, manteve-se sempre numa posição de neutralidade, nunca manifestando as
suas preferências, os seus ideais liberais. Aprendeu a aceitar as diferenças, a
respeitar a individualidade dos outros e conseguiu fazer-se respeitar por quem
o rodeava. Embora fosse apontado como tendo ideais esquerdistas, a luta de
Filomeno foi sempre pela preservação da sua identidade e pela liberdade de
fazer o que mais gostava.
Quando
regressou à Galiza e recebeu em Villavieja o cónego don Braulio, que tinha “um
poder aureolado de chamas” (464) era já um homem
consciente de si e seguro das suas convicções. Mais tarde, no Governo Civil,
onde foi chamado com a acusação de ter organizado o escândalo do dia anterior (524)
à pergunta do Governador “Quem é você, quem são as pessoas para julgar se
uma situação é justa ou não?” respondeu “….muitos de nós ainda
conservamos a capacidade de opinar e de manter pontos de vista próprios acerca
do que se passa no mundo”.(525) afirmando-se
um cidadão livre, que mereceu finalmente os nomes que lhe couberam em sorte –
Filomeno e Ademar.
Manuela Pereira Clube Leitura_14/ 03/ 2025






