ARQUIPÉLAGO
JOEL NETO
Temas:
·
José Artur _ em busca do tempo perdido
·
Os Açores e o mito da Atlântida
·
O terramoto de 1980
·
A tourada açoriana
·
O movimento independentista açoriano
·
A gastronomia da Ilha Terceira
·
O culto do Espírito Santo
·
Açores _ o eterno apelo do retorno à ilha
·
Luísa
·
A presença da paisagem natural no romance
por Maria das Mercês Coelho
Arquipélago é um vocábulo relevante e significativo.
Por definição ou condição é o somatório de espaços físicos de diversas apetências,
geograficamente balizado em redor por fronteiras marítimas. Ilhas navegando numa
solidão acompanhada com o horizonte a sugerir amplitude ou a fechar-se entre
brumas.
Título feliz escolheu Joel Neto para um romance, sustentado em factos reais
paisagens e patronímicos particulares da Terceira, como Drumonde, Bretão,
Goulart, Berbereia.
Ao longo da narrativa evidencia bizarrias da linguagem popular para
expressar imposição/autoridade, por ex. nos diálogos “bebe mais uma sequer”(
pg 264), “muda de conversa sequer” ( pg 290), assim como referências a vivências
insulares. Entre várias, as irmandades do Espírito Santo; as tradições
natalícias do “menino mija”; a tourada à corda e o traje dos pastores, e
nela, a referência ao quinto toiro (correm quatro toiros, sendo que o 5º, é o ambiente
da tasca sempre presente no evento e onde o álcool potencia outras tantas
energias ou rodopios); os bailinhos de carnaval, a justiça da noite, o
movimento pró independentista da FLA, e tantos outros factos do passado/presente.
Regista lendas. Para memória futura.
A Atlântida afundada por uma catástrofe de que sobraram nove
picos, as ilhas açorianas, com a Terceira no centro onde se reuniam os reis
atlantes; o Peter Francisco, raptado em menino da freguesia de Porto
Judeu e levado para a América onde se tornou homem de vigorosa compleição física
e gestos de heroicidade na luta da independência dos Estados Unidos “George
Washington não teria ganho a guerra sem ele”(pg. 28).
Rituais de esoterismo na Grota do Medo enformam ritmo à ficção, que
Onésimo T. Almeida elogia como “uma magnífica voz da consciência açoriana”
O fio condutor da narrativa é o sismo de 1980.
A calamidade atingiu três ilhas do grupo central - São Jorge, Graciosa e
Terceira - com especial incidência na última, arrasando impiedosamente a cidade
de Angra do Heroísmo. Vitimou mortalmente 73 pessoas, feriu outras quatro
centenas, infligindo arrasadores danos em edifícios públicos e habitações.
No universo de pouca terra pouca gente, contabilizadas 20 000 pessoas
desalojadas. Vinte segundos que desmoronaram anos de trabalho e destaparam, em
alguns casos, ”o véu que cobria a miséria de cada casa”.
Sobreviventes a vulcões, furacões, maresias e cataclismos, os açorianos
interiorizaram resistências.
Novos tempos da história sopravam, os quais estancaram o recurso à
emigração das populações sinistradas, como o passado nos contava. Não obstante,
JN, com outra roupagem, disso dá nota, deslocando José Ruben e Graciete e o
filho para fora da ilha. Destino, Lisboa.
Era jovem a democracia de Abril. As ilhas passaram a designar-se como
REGIÃO alcançando a histórica aspiração de autonomia política ou administrativa.
Ainda os factos. Um grupo de personalidades - juristas, historiadores,
arquitectos, engenheiros e intelectuais - vislumbrou o futuro após a catástrofe.
Reconstruir, salvaguardando o património do centro histórico da cidade.
Em três anos a cidade de Angra do Heroísmo ficou inscrita na lista de
património mundial da Unesco erguendo-se das ruínas com obras de requalificação
exemplares. Simultaneamente, campanhas de sensibilização apelavam a uma
consciência cívica de manutenção da caracterização urbana e rural, valorizada
com a oportunidade de imprimir conforto contemporâneo.
Não sem custos e alguma resistência a burocracias e supervisão.
A reconstrução dos edifícios começou “ as paredes mudando de alvenaria
para betão armado” com “a ilha a encher-se de uma população diversa e
volúvel, às vezes simpática outras vezes apenas interessante. Viu as mulheres a
fecharem-se em casa, com medo, e o medo não era só daquilo em que a ilha se
transformava, mas das mudanças que ocorriam dentro delas”.
Na ficção escutamos as hesitações e o peso das angústias do Prof. José
Artur, regressado de Lisboa para dar vida à casa dos antepassados “as mais
simples rotinas encontravam as maiores dificuldades, e os efeitos que estas
provocavam na psicologia das pessoas eram como que novos cataclismos, porque
tudo nelas intensificava a sua sensação de impotência”.
Outro olhar no regresso às origens. Outros ritmos de vida divididos entre
o silêncio e o afã da sobrevivência. E as sombras que questionavam o passado
afectivo na casa dos avós, sobressaltado pela procura da compreensão duma
vivência que se esfumava.
O autor põe o dedo na ferida relativamente a um assunto inquietante dos
nossos dias. A negligência e os meus tratos infantis. Elizabete Dutra
personifica a vulnerabilidade de quem não tem peso ou visibilidade.
De sinal contrário é a mensagem de valorização feminina. Luísa,
insinuante mas recatada, faz bater alto o coração do personagem que merece a
expectativa da afirmação.
A concretização da paixão amorosa arremata bem a narrativa, assim como a
reconciliação com o filho André.
Joel Neto entretece a ficção, um tanto autobiográfica e outro tanto
fantasiosa, em tom de expressiva homenagem à ilha de nascimento.
Há um fôlego cativante na leitura deste livro, que (me) seduz.
Permito-me uma nota de rodapé. Muito pessoal, porque na interpretação humana
vemos muitos factos através duma lente subjectiva.
Joel Neto tinha 6 anos de idade na altura do terramoto. O abanão que
provocou o sismo não deve caber nas suas memórias infantis. Outras sim. O
alvoroço familiar, a necessidade de segurança e os sobressaltos consequentes de
medo de réplicas que colocava as pessoas a dormir em tendas na rua.
Quando ocorreu a crise sísmica do vulcão dos Capelinhos no Faial, 1957/1958
- os abalos de terra também se sentiam diluídos na minha Graciosa ilha. Com os
meus pais e irmão íamos de carro até ao lado sul da ilha apaziguando medos. De
lá se avistava a mancha incandescente da fase efusiva da erupção. Guardo essa imagem,
mas não a sensação da convulsão do solo, sendo certo que então tinha a mesma
idade que o autor aquando do grande terramoto da Terceira.
Será memorial a inspiração do personagem que não sentia os sismos?
Ilha Graciosa, 13 de Junho de 2025
Maria das Mercês Coelho
A
GASTRONOMIA DA TERCEIRA, em Arquipélago, de Joel Neto
por Delfina Rodrigues
“De resto, a mesa constituiu sempre um
dos fortes, senão o mais forte alicerce das sociedades humanas. Já os Gregos
diziam, na sua linguagem pitoresca e livre, que “a mesa é a alcoviteira da amizade!”
Não só na vida íntima, mas na vida pública das nações, o jantar constitui a
melhor e a mais solene cerimónia que os homens acharam para consagrar todos os
seus grandes actos, imprimir-lhe um carácter de união e de comunhão social.”
Eça
de Queirós, in “Cozinha Arqueológica”
Vem a epígrafe a propósito do tema eleito, pretendendo assim
elevá-lo a foro de 1.ª grandeza na exegese literária, ao filiá-lo em nobre tradição
histórica e literária e pretendendo ao mesmo tempo prevenir o receptor mais
incauto de que não se tratará apenas de mero receituário terceirense ou guia
gastronómico açoriano.
A mesa, a gastronomia, são, de facto, tema recorrente na
literatura, em prosa e em verso: a definir perfis, a desenhar ambientes, a
apurar quadros históricos, a desencadear memórias involuntárias, imprecisas,
inefáveis, proustianas, a permitir experiências sensoriais ímpares, sendo disso
exemplo, para além de Eça de Queirós, acima citado, o incontornável Camilo Castelo Branco,[1]
Aquilino Ribeiro, das Terras do Demo, por exemplo, Machado de Assis, …,
para só citar alguns, os primeiros que a memória permitiu.
Como não recordar os “petits pois” à la Cohen, em jantar do
Hotel Central, em Os Maias, ou o delicioso arroz de favas e o “louro
frango“ acompanhados por “um vinho fresco, esperto, seivoso” no jantar servido
em Tormes para “suas incelências”, em A Cidade e as Serras?… Em Arquipélago,
são evocados cheiros e sabores que remetem para o universo da infância da
personagem principal, José Artur, e para a ancestralidade açoriana, cósmica,
conferindo ao sabor o estatuto que, segundo o autor, nem sempre lhe é atribuído
na literatura. Afirma, em entrevista publicada no YouTube, que, quando olhamos
para a literatura em geral, o sabor é o último sentido cantado pelos escritores
ou, pelo menos, “o menos cantado”. E que “a literatura, a poesia em geral,
falam do que os olhos vêem, do que os ouvidos ouvem, do que o nariz cheira, do
que as mãos tocam e, ainda assim, o último sentido é o que a boca degusta”.
Para sublinhar, enfim, que comer é muito mais que sabor, que todos os sentidos
são convocados e, acima de todos, aquele que mais lhe interessa, “um sexto
sentido que é o sentido da memória”, o que “nos liga aos nossos passados mais
umbilicalmente”.
Deter-me-ei, então, em trechos do livro que fazem jus às suas
afirmações e sustentam essa sua visão.
Remonta a 1980, o ano do Terramoto, a 1.ª referência ao
Cabrinha (p.38), personagem incontornável na abordagem deste tema, donde
provinham os cálices de aguardente-da-terra e bolachas para temperar o árduo
trabalho dos reconstrutores da terra destruída.
Desse mesmo tempo cronológico, é evocada a alcatra feita por
Maria Edite, a avó, cozida ao longo da tarde em vinho de cheiro e cravinho
(p.50). E, ainda, num jantar que antecedeu a partida de José Artur para Lisboa,
um bolo quente de sobremesa.
Com José Artur de regresso à terra da sua
infância, entramos pela 1.ª vez na taberna do Cabrinha (p.75), verdadeiro
santuário de culto para necessidades físicas e espirituais. E a personagem
impõe-se, desde logo, no seu perfil acolhedor, disfarçado com graçolas: “Pois
está claro que temos o que comer. Se isto é uma casa de pasto, está aqui para
as pessoas pastarem”. Assim mesmo, no seu humor popular e galhofeiro.
![]() |
| Alcatra da Ilha Terceira |
E pouco depois, a confirmar a sua
assertividade, chegou uma alcatra “fumegante num alguidar de barro de cujo
interior provinham diferentes odores a infância e a flores”, que aqueceu a sala
inteira. José Artur “Levou o garfo à boca e fechou os olhos, a manteiga e o
cravo-da-Índia e o toucinho de fumo diluindo-se e recombinando-se numa
afluência de sabores que se metamorfoseava. Ganhavam, perdiam e recuperavam
cambiantes, à medida que entravam em acção novos ingredientes ainda…”
“Comeu até ao fim, numa voragem antiga,
e depois pegou nos últimos pedacinhos de pão doce e pôs-se a ensopar o resto do
molho”. E reconheceu a massa sovada que lhe soube “a terramoto e a redenção”.
Impressões reiteradas em sucessivas
experiências na Taberna do Cabrinha, designadamente quando levava à boca “a
primeira porção de sopa do Espírito Santo, ou de bolo de milho da sertã, ou de
cavala recheada”, saídas das mãos bondosas de La Salete (p.93), ou quando
provou a sopa azeda saída das mesmas mãos mágicas:
“Cortou duas toscas fatias de pão e
pô-las no fundo de um prato. Polvilhou-as com canela, tornou a ajeitá-las e
derramou-lhes por cima um espesso caldo acastanhado. Ao lado, cubos de carne
repartiam uma travessa com rodelas de enchidos, nacos de abóbora e
batatas-doces. Cheirava a canela e noz-moscada, e José Artur esfregou as mãos.”
E estacou à primeira colherada. Porque,
“num ápice, desfilaram vários sabores vindos como que do próprio interior do
tempo. E, quando ele se pôs a percorrê-los sentiu que se sentavam em volta os
seus antepassados, os pais e os avós e os avós destes, e os velhos da Terra Chã
e da Terceira, e os açorianos até ao povoamento, e deste até ao próprio
Génesis, quando na manhã do sexto dia o Senhor olhou sobre a sua obra e decidiu
que estava, afinal, incompleta” (p.119). Como não evocar, neste momento, Proust,
ou Swann, em Du côté de chez Swann, quando mergulha a sua madalena na
taça de chá e “…toda Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e
solidez, saiu, cidade e jardim, da minha taça de chá”?
Foi ainda na Taberna do Cabrinha que
viveu momentos de grande cumplicidade com o filho, na sua visita aos Açores,
onde La Salete lhes serviu uma pecaminosa sopa do Espírito Santo em tempo de
Quaresma. Uma vez mais, impõem-se os “cheiros a lenha e a temperos antigos, … e
as panelas de ferro” a remeteram-nos para outro tempo, um tempo antes deles,
antes da existência daquela terra e dos próprios homens…” (p.151). E “A manteiga
e a hortelã fundiam-se-lhes na boca e o repolho apaziguava-lhes o palato e o
vinha branco e a pimenta da Jamaica aliavam-se para uma investida final que os fazia
querer chorar e rir” - a antítese em auxílio da complexidade do sentir e do
dizer - a dar razão a André quando exclamava que o pai tinha estado a
esconder-lhe o melhor de tudo. (p.151).
Como Jacinto, em Tormes, perante o
assombro dos sabores primordiais servidos com a simplicidade dos primeiros
tempos.
A mesma cumplicidade com o filho foi
testemunhada na esplanada de um restaurante sobre o porto de pesca, onde
iniciaram a refeição com um creme de marisco servido dentro de um pão, seguido
de “uma combinação de diferentes peixes muito bem grelhados, lírio, enxaréu,
boca-negra e outros de que André nunca ouvira falar.” (p.186) A arrancar
avaliação superlativa, com o uso do diminutivo e da frase exclamativa: “meu
Deus, este peixinho!”. E é de novo a voz de Jacinto que ecoa nestas páginas,
deslumbrado com o sabor e a pureza do jantarinho de Tormes.
Nem faltaram” umas lapinhas “- uma vez
mais o diminutivo a atestar a excelência do produto - a prolongar o momento, a
selar afectos escondidos, a estreitar laços, a dizer o indizível, a dar razão
aos gregos citados por Eça de Queirós.
Antes da partida de André para Lisboa,
regressam ainda ao Cabrinha, e nós com eles, para assistirmos ao desfile de
iguarias que La Salete experimentou: “bolos de milho na sertã, cavala com molho
cru e arroz de algas com lapas, alfenim, doce de vinagre e filhoses de forno”.
E umas queijadas que as freiras da ilha haviam criado para oferecer à rainha há
mais de cem anos, com “especiarias vindas dos mais recônditos lugares do
planeta e onde se concentravam seiscentos anos de História daquela ilha e do
próprio país”. (p.191)
Também aí, José Artur procurou alimento
e consolação para a perda de Luísa, quando esta lhe anunciou o casamento com
Pedro Orlando, a última de uma série de perdas que acumulava, mas o “coelho
guisado com sal a mais”, precedido de” uma canja de peixe que lhe pareceu uma
mixórdia”, não produziram o efeito compensador que apenas uma garrafa de vinho
e um abraço erótico em La Salete, a cozinheira de peitos abundantes,
conseguiram imitar.
Não querendo e não podendo ser
exaustiva, abeiro-me do fim, não deixando de lembrar que no dia do funeral do
José Artur, corria o ano de 2048, André, Maria Rosa e La Salete se sentaram na
Taberna do Cabrinha a “debicar uma alcatra” e a lembrar os seus mortos, os que
já tinham partido, conscientes de que naquela ilha, “como em qualquer lugar do
mundo, o Mal e o Bem conviviam um com o outro” e, deduzo, de que a mesa era
lugar de privilégio para a glorificação da vida e para o conhecimento do povo
que Arquipélago celebra.
E para acabar, uma vez Eça de Queirós, quando
afirma que “um pitéu nos dá uma ideia mais completa de um povo que o prefere do
que a forma de uma lança ou de um jarro.” E que” O homem põe tanto da sua
individualidade nas invenções da cozinha como nas da Arte.”
Porto,16.de junho de 2025
Delfina Rodrigues
[1]
Lembremos “Camilo e o Garfo, de José Viale Moutinho
A presença da paisagem natural no romance
Arquipélago, Joel Neto
, 2015
por Manuela Pereira
Na
sua deriva pela ilha em busca de si mesmo, José Artur, com o fiel amigo
Papillon, ‘atacou enfim a ladeira´58,
‘olhou as montanhas que tentavam perfurar a neblina’70,
desceu ‘vales orlados de hortências’89,
‘atravessou túneis de faia ao fim dos quais se encontrava o mar’ (…) percorreu
canadas ribeirinhas’90, ‘abrigou-se da chuva
sob uma gruta de bagacina’90, e sentou-se em
silêncio num prado a perder de vista’90.
‘O céu muito estrelado parecendo antecipar mais um dia de sol’46
fê-lo cerrar os olhos e ‘cheirou-lhe a água salgada, e, ao fundo, o marulhar
das ondas aproximou-se e partiu’431.
Acompanhando as suas deambulações vamos conhecendo a
ilha, imersos na natureza que nos invade, e ficamos com um retrato preciso da
Terceira, avistando ao longe a ‘silhueta da Graciosa a
desaparecer na neblina’207 e ‘o recorte de
S.Jorge (…) com aquela cor impossível, que não era castanho nem cinzento, nem
verde sequer ___ que era isso tudo ao mesmo tempo e era rosa também, como o dia
que se extinguia atrás dela’ 200/365.
À chegada ao aeroporto das Lages,
‘no final de uma tarde de trovoada e ventos cruzados’60
o táxi onde seguia ‘seccionou a ilha pelo coração (…) percorrendo a extensa
recta que cruzava o planalto’70 e assim vamos conhecendo a morfologia da ilha, enquanto se atravessam
‘as montanhas à direita e à esquera’70
e se vira depois ‘na direcção de um mar encapelado e metálico’70,
olhando ‘a mata de cerrados (…) com diferentes tonalidades de verde (…) num xadrez
a que os muros de basalto acrescentavam novos contrastes’71.
Mais tarde, avistando o Pico de Sta Bárbara, promontórios, falésias, ‘lajes com
relheiras’274 e lagoas naturais’, percorrendo a
Canada de Sto António, no sopé do monte Brasil (…) com a Baía de Angra aos pés,
onde o ‘vento carpinteiro’ atirava os navios ‘contra as rochas’185.
Ficamos a conhecer a fauna:
‘as vacas pensativas’ 70, ‘os toiros de corrida’,
‘os cagarros, chamados pardelas de-bico-amarelo’ 15,
símbolo dos Açores e das duras leis da natureza, mais do que o açor (apesar do
seu nome dele ser derivado, não há notícia de um pássaro tão grande ter feito
ninho ou caçado nas ilhas), ‘os pardais do telhado e os melros’
45,
’a labandeira’ 91/412 e ‘os morcegos diurnos’
273.
A flora da ilha:
‘os vinhedos, pastagens, tanques de água com nenúfares’ 421,
‘os
ouriços e castanheiros’ 99,’ as azáleas, hortências,
as árvores de fogo, beladonas, camélias, magnólias, olaias, hibiscos, jarros e
erva azeda’ 118, ’as amoreiras’ 197,
e até ‘plantações de canábis’ 289.
As cores e os cheiros da terra: ‘o basalto negro’ 16, o amarelo do bico das pardelas 15, as cores do
poente, ‘a quantidade de verdes que aquelas ilhas conseguiam reunir’ 45; ‘o cheiro a lenha, a temperos antigos, e enxofre’ 157,
‘cheiro de outros jardins: lírios, rosas, gardénias 185,
‘a eucaliptos, gasolina, marisco e solidão’ 70,
‘o cheiro a ressalga’ 206, ’a água salgada’ 431,
‘a chuva miudinha’ 352.
![]() |
| Ilha Terceira |
Os seus humores, enquanto calcorreava a ilha, por
vezes em sintonia outras vezes contrastando com o clima, ao longo de mais de um
ano, descrevem-nos as quatro estações desse ambiente instável, onde ainda
por cima o tempo mudava de um momento para o outro, num curto espaço de vinte e
quatro horas.
A
Primavera, quando ‘um dia floriu o jasmim’183
e ‘uma brisa ergueu-se, trazendo a primeira caruma’206
‘O
melhor do Verão’ quando ‘o orvalho salpicava as noites com mais respeito do que
volúpia e os dias iam clareando manhã fora, até repousarem sobre uma limpidez
quase feérica’.274
‘E
um dia o vento soprou uma rajada enérgica’399.
Chegara ‘o Outono (…), o tempo mais deprimente do ano. Os cagarros tinham
partido (…) e, ainda por cima, chovia’349.
No
Inverno, ‘não soprava uma brisa, as nuvens cerradas num tecto compacto que se
abatia sobre a sua cabeça’413. ‘Ao fundo a trovoada
aproximava-se de terra descarregando (…) relâmpagos cada vez mais brilhantes’421.
‘Um frio desconfortável penetrava pelas frinchas’334.
‘com sucessivas vagas intervaladas por ameaças de ciclones e dias de chuva
torrencial, como se o inverno quisesse demonstrar aos terramotos quem mandava
ali’148,
enquanto o Atlântico Norte continuava a despenhar-se contra o outro lado do
molhe’66.
E
compreendemos Nemésio quando escreve: “A geografia para nós, vale tanto como a
história”90.
Porque
‘Debaixo de nós, ela arde’ pensou José Artur, ‘debaixo de nós ela arde, e arde
intensamente’70, repetiu. ‘Sob os meus pés ardem
vulcões e terramotos. As ventanias planeiam a sua vingança, e é contra a morte
que o povo festeja’355.
Com a inclemência de um clima que não deixa sequer criar
uma horta, a exuberância da natureza aparece como a verdadeira personagem nesta
história, neste olhar sobre os Açores, sobre ‘a identidade de um pequeno povo’83, da sua ilha e do seu Arquipélago de
afectos.
‘A
sua ilha era mais do que um caldeirão de humores vulcânicos e tectónicos’185,
pensa
José
Artur. E, na sua carta de demissão, escreve a João
Torcato Salvaterra ‘do último paraíso do planeta’: ‘estas ilhas estão entre os
mais belos e autênticos lugares do mundo’355.
MALO MORI
LIBERI QUAM IN
PACE SUBJECTI 386
Clube de Leitura, 16 Junho 2025 Manuela Pereira
Na sua deriva pela ilha em busca de si mesmo, José Artur, com o fiel amigo Papillon,...
Acompanhando
as suas deambulações vamos conhecendo a ilha, imersos na natureza que nos
invade, e ficamos com um retrato preciso da Terceira, avistando ao longe a
Graciosa e S.Jorge.
À
chegada ao aeroporto das Lages, vamos conhecendo a morfologia da ilha
Ficamos
a conhecer a fauna A flora da ilha. As cores e
os cheiros
da terra
Seguindo
José Artur na sua viagem à volta da ilha, e do seu mundo interior, enquanto
meditava nas suas frustrações, na sua indecisão com Luísa, na ligação com o
filho André. vamos conhecendo os seus humores, as descobertas sobre si mesmo, e
a descoberta de pessoas, rituais e acontecimentos passados
Os
seus humores, enquanto calcorreava a ilha, por vezes em sintonia outras vezes
contrastando com o clima, ao longo de mais de um ano, descrevem-nos as quatro estações desse
ambiente instável, onde ainda por cima o tempo mudava de um momento para o
outro, num curto espaço de vinte e quatro horas.
Com
a inclemência de um clima que não deixa sequer criar uma horta, a exuberância da
natureza aparece como a verdadeira personagem nesta história, neste olhar sobre
os Açores, sobre ‘a identidade de um pequeno povo’83,
da
sua ilha e do seu Arquipélago de afectos.
E
escreve a João Torcato Salvaterra, na sua carta de demissão ‘do último paraíso
do planeta’: ‘estas ilhas estão entre os mais belos e autênticos lugares do
mundo’355.
MALO MORI LIBERI QUAM IN PACE SUBJECTI 386
José Artur _ em busca do tempo
perdido
por Ângela Melo
Se Arquipélago
fosse um filme, inclinação que o texto não enjeita, a câmara teria de seguir
José Artur em filmagem contínua. Mas José Artur, a personagem aonde toda a
acção converge, não chama a si a função de narrador.
Em Arquipélago o
narrador é soberano e anónimo. Conta a história no pretérito e na terceira
pessoa e é dentro da sua fala que espontaneamente surgem as falas directas das
personagens, algumas em registo mimético do dizer local.
O romance
mantém-nos por bom tempo confusos e expectantes: uma linha de tempo hábil, de
cronologia sinuosa, a suster um assunto que não se identifica – uma
encruzilhada de situações, dilemas e assombrações dispersas, em simetria com o
próprio doutoramento de José Artur, destituído sequer de um problema científico
definido, um labirinto sem fio condutor. Mais à frente a dispersão
começa a arrumar-se em sequências lógicas, desenhando um trajecto que tudo irá ligar
e a tudo dará um propósito. O acaso não existe, o que parecia de pontual efeito
era afinal cúmplice do mecanismo da peripécia, como no policial ou na tragédia
clássica.
Com outras afinidades,
ora ao romance de atmosfera, a parte sensorial do
ambiente possui, em Arquipélago, protagonismo próprio, actua como estimulante.
É à vista do
oceano, abissal, misterioso e insondável, que o romance elege um chão bem assente
em realidades sensíveis. Do mosaico de cerrados e matas às espécies botânicas,
um verdadeiro catálogo e outro maior ainda para cheiros e sabores culinários,
como o clímax olfactivo das especiarias do Basílio Simões, ou os petiscos da taberna do
Cabrinha, esse absoluto em matéria de palato. Por sua vez o clima é acometido com
o rigor de um analista, só o spray marítimo merece um glossário - da
ressalga às neblinas, dos padrões de nuvem à tendência dos nevoeiros…e de novo
os cheiros e sons da paisagem, o toque a enxofre da atmosfera, a transpiração
da lava quente e da bagacina, o estrondar das ondas contra a rocha…
As coisas parecem tomadas de vida
e intencionalidade, a escrita está impregnada de animismo:
A lâmpada da rua espalhava uma luz
ténue, que chegava a desfalecer aos vidros da janela. 334
Um dia floriu o jasmim e a ilha
como que tornou a mudar de identidade.183
Mas todo este
mundo impressivo não se confunde com o apelo de um inventário. Serve para activar as memórias em estado latente, para conduzir
José Artur a terra firme e se atrever na procura do tempo perdido. O
tempo a que talvez tivessem de recuar se quisessem começar de novo. 151
Recuar ao tempo
arcaico?
A Atlântida, Platão,
os Fenícios ou o povo dos Açores anterior aos portugueses. Chegam todos ao
romance por um esboço de epopeia que não se deve à mão de Joel Neto. Nasceu e andou
a ressoar por algum tempo no meio académico, não só açoriano. Mas afinal era um
mito, nada foi provado.
O interesse pelas
hipóteses abertas não se extinguiu mas ficou confinado ao espaço literário,
como demonstra o autor ao trazer para a Terra Chã outras mitologias da
centralidade: o axis mundi, pilar cósmico que conecta passado e
futuro, céu e terra, intuído por José Artur frente à Rocha de Chambre; mais o ônfalo
da Grota do Medo, o umbigo-centro do mundo, ambos a apontar para uma ordem cósmica que tudo rege e a que tudo se
submete, o destino a que não se escapa. Por certo medos e entusiasmos de um
professor de Civilizações Pré-Clássicas durante uma fase ansiosa e indecisa da
sua vida, onde fantástico e histórico alimentam o romance com impasses e expectativa.
É com a sugestão de um ethos para a Terra Chã que Joel
Neto irá vitaminar e ao mesmo tempo desembaraçar a trama. Um complexo de
antigos embustes e vilanias é posto a circular no território isolado de uma
micro sociedade patriarcal quando, na luta pela vida, se cede à tentação do
instinto, bem ilustrado na parábola do cagarro: - Deixa-o morrer, só um em
cada dez consegue alcançar o seu destino.
Serão então os enigmas, as culpas ou o ressentimento dos
antepassados a marcar o tempo a que é preciso voltar
para começar de novo. Ao conseguir
dissipá-los, José Artur desata o nó dos fracassos que ele próprio transporta
como ruínas penduradas à cintura. Haviam passado trinta e três anos sobre o
sismo que fizera desabar as casas da ilha.
E aí parece estar outro tópico, essencial para a catarse do
desfecho, a ruína e o reerguer a partir dela, um investimento que Joel Neto trata
quase ao nível de uma saga – a reconciliação das partes separadas, o esconjuro
dos atravessados à má-fé, a decifração do vestígio, a construção da ordem que configura
o escombro, já não a ordem cósmica mas a microcósmica, bem
no umbigo do humano, transfer simbólico que parece aludir à maturidade
conquistada por José Artur, por fim agente do seu destino.
Depois de comprar a casa do avô e de recuperar o seu velho
boca de sapo José Artur vê-se, pela primeira vez (…) acometido de uma inusitada paz (…) que de repente parecia ter lá estado o tempo todo à
sua espera.253
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Uma trama complexa e bem montada, que não deixa de envolver
significados que a transcendem, mas polarizada em torno de labirintos que nos
prendem a atenção mas não nos conseguem magnetizar.
The last but not the least, Luísa. A personagem mais
silenciosa e talvez a mais sugestiva do romance. - Era como se as coisas continuassem a ganhar vida à sua
passagem. 96
Dentro dos géneros que vai cruzando, Arquipélago
não deixa de ser um romance de amor.
Ângela Melo,
10.06.2025
Açores _ o eterno apelo do retorno à ilha
por Alexandra Azevedo
José Artur, o neto de José Guilherme,
saiu da ilha Terceira, ainda criança, na
sequência do terramoto de 1980. Mas o eterno apelo do retorno à ilha que afecta
todo o açoriano que sai para o “continente” irá acabar por obrigá-lo a voltar.
Olhando para trás, José Artur reduz a sua vida no continente a “uma sucessão de passagens e de fugas. A
mudança para Lisboa, a separação dos pais, o estrelato no liceu, o estrelato na
faculdade e o estrelato na investigação, depois transformado num brilho modesto
e daí numa sombra de si próprio – era como se de nada disso ele tivesse sido
protagonista, mas quando muito testemunha, numa cidade de cheiro insalubre a
que nunca teria podido chamar sua” (p.144)
O açoriano nunca
pode chamar sua a uma terra que não seja a sua ilha natal.
Este
desenraizamento, no entanto, não parece afectar de igual modo o
emigrante económico que partiu para o Canadá ou os Estados Unidos. É como se
essa decisão, porque motivada por razões
de sobrevivência, não configurasse uma traição à ilha, mas apenas um destino que há que cumprir, o destino de quem é pobre.
Por outro lado, o sentimento de traição que leva ao regresso não atinge por igual homens e mulheres. As mulheres ainda que sentindo as naturais saudades de quem partiu, parecem prezar mais aspectos concretos da vida quotidiana e familiar e as facilidades que uma cidade grande proporciona. É como se a responsabilidade social, o dever de ficar para participar no desenvolvimento do lugar onde se nasceu, não fizessem parte das suas preocupações nem dos seus deveres. É como se o ágora continuasse a ser exclusivamente masculino.
Não por acaso, portanto, é em José Artur que o autor projecta o remorso de ter abandonado a ilha e o consequente retorno. Mas, como é obvio, o espaço romantizado e idealizado na distância, revela-se na sua realidade menos radiosa e as descobertas sucedem-se: “Um ritual macabro, os ossos de uma criança desaparecida há muitos anos, a informação de que o avô estivera preso, desconfianças e ressentimentos entre vizinhos – era demasiada matéria, e demasiado contraditória, a não ser talvez que um homem estivesse preparado para chegar a conclusões definitivas sobre a omnipresença do Mal” (p. 263)
Também Joel Neto regressa à ilha
Terceira depois de viver largos anos em
Lisboa. Poderá, assim, haver algo de
autobiográfico neste romance, na ânsia do retorno e no embate com a realidade. Mas,
seja como for,
o homem açoriano nunca pode chamar
sua a uma terra que não seja a sua ilha natal.
Alexandra Azevedo
Junho 2025




