Paul Auster
4321
Temas de reflexão:
· A vida íntima da América das décadas
50 e 60
· 4321 _ romance de formação?
· Columbia- Paris: a contestação
estudantil
· Os costumes judaicos
· 4321_ acaso ou destino?
· A moral sexual americana dos anos 50
e 60
· A classe média americana dos subúrbios
· O racismo na sociedade americana
· A guerra do Vietname e o assassinato
de Kennedy
· “Até que vozes humanas nos despertam
e morremos afogados”
4321
Um disparate experimental
por Alexandra Azevedo
Ferguson 5.4 descobrira que a melhor
forma de começar um capítulo “era
escrever cegamente , apontar tudo o que parecesse estar a borbulhar na sua
cabeça enquanto corria de frase para frase (…) Ele via o seu pequeno livro como
uma experiência, um exercício que lhe permitiria desenvolver novos músculos
de escrita, e quando acabasse de escrever o primeiro capítulo, estava a
planear queimar o manuscrito ou, pelo menos, enterrar o manuscrito num sítio
onde nunca fosse encontrado." (p. 600)
Infelizmente o autor de 4321 não seguiu os
conselhos da sua personagem e não queimou nem enterrou o seu manuscrito! Nem
sequer seguiu a sábia conduta da mesma personagem quando confessa “Seis versões
e nove dias mais tarde, apenas quatro frases do rascunho original restavam.”
(p. 604) Mas a própria personagem também não o faz _ “O livro de Ferguson
estava terminado, mas em vez de queimar o manuscrito como planeara fazer, ele
foi às suas poupanças e desembolsou a irracional soma de cento e cinquenta
dólares para um dactilógrafo profissional lhe fazer três cópias”. E o pior é
que Ferguson, alter ego do autor, “já
estava a sonhar com o seu próximo projecto, um empreendimento arriscado chamado
O Caderno Escarlate” (p. 613)
O Caderno Escarlate tal como é
apresentado é, de facto, a descrição
exacta de 4321 _ “Um livro impossível
que não podia ser escrito e seguramente degeneraria num caos de estilhaços
aleatórios e desconexos, um monte de insignificância” (p. 729)
Eu não diria menos.
4321 é um absurdo em grande formato!
Por que terá, então, o autor decidido
avançar, consciente como estava do que arriscava? “Porquê tentar fazer semelhante coisa? Porque
não simplesmente inventar outra história e contá-la como qualquer outro
escritor faria? Porque Ferguson queria fazer algo diferente. Porque Ferguson já
não estava interessado em contar meras histórias. Porque Ferguson queria
testar-se contra o desconhecido e ver se conseguia sobreviver à luta” (p-729)
Auster não sobreviveu!
4321 é uma obra desequilibrada,
confusa e maçadora.
Não há equilíbrio, não há contenção,
artisticamente é desastrosa. A difícil arte de dosear forma e conteúdo não é
conseguida. A narrativa desdobra-se infinitamente e os aspectos interessantes
que por vezes afloram à superfície a nível do conteúdo (a América vibrante dos
anos 50 e 60, o racismo, a moral sexual, a política…) são rapidamente submergidos ou em descrições
fastidiosas ou em narrações enfadonhas e repetitivas de que os jogos de basebol
são o exemplo mais entediante.
A consciência que o autor tem de tudo
isto é flagrante, mas cedeu, conscientemente também, ao deslumbramento de “ser
diferente”.
Por isso, ninguém melhor do que o
próprio para classificar o seu romance: 4321 é, sem dúvida, “um disparate
experimental”. (p. 582)
4,3,2,1
A
moral sexual americana dos anos 50 e 60
por Maria João Leite de Castro
As
diferentes vidas alternativas de Ferguson, apesar de, em alguns aspectos se
diferenciarem, apresentam denominadores comuns. Em todas elas, Ferguson tem
interesses intelectuais e artísticos profundos, é, ele próprio, um rapaz atento
e crítico da realidade que o cerca, tem – independentemente de ter uma vida
mais ou menos desafogada em termos financeiros – pessoas na família que o ajudam
a desenvolver as suas enormes potencialidades (a mãe, a tia Mildred, o tio
Paul, o padrasto Gilbert Schneiderman…) e move-se em círculos de certa forma de
elite, seja nos colégios e nas Universidades que frequenta, seja em casa de
Vivian, em Paris, ou com os amigos com que se relaciona.
Por
isso, a generalização que vou fazer sobre a moral sexual americana daquela
época pode ser indevida, pois baseia-se nas vivências de um rapaz com
características especiais que se move em ambientes, também eles, não
generalizáveis a toda a sociedade americana.
Com base em Ferguson e nos seus diferentes relacionamentos, podemos dizer que havia muito maior liberdade sexual e abertura do que na sociedade portuguesa, por exemplo.
São
relatados uma série de namoricos (12/13 anos) que já envolviam «sessões de
beijos em jardins iluminados pelo luar e em caves, os primeiros avanços
hesitantes para o conhecimento sexual, os mistérios da pele e de línguas
cobertas de saliva (…)» (pá. 127).
Aos 15
anos, Ferguson (1) encontra a sua primeira alma gémea na pessoa de Anne-Marie
Dumartin, com quem se relaciona intimamente e dos beijos, apesar de não
perderem a virgindade, nem sequer terem falado sobre isso, «como era costume,
em 1962, pelo menos para jovens de 15 anos, bem educados, das classes média e
média alta de Monclair e Bruxelas» (pág. 131), a verdade é que participaram,
semi nus, em actividades sexuais, «que não era ainda completamente sexo, mas
tinha o gosto e a sensação de amor» (pág.131).
Com o
grande amor das suas diferentes vidas, Amy, a actividade sexual desenrola-se
também rapidamente. Numa das suas vidas (1), conhece-a com 15 anos (1/05/1963)
e logo no primeiro dia em que se conheceram beijam-se ardentemente e pouco tempo
depois – em 22/11/1963, o dia do assassinato de Kennedy – fazem amor pela
primeira vez.
Noutra
vida (3), Ferguson conhece Amy no casamento da mãe com Gilbert Schneiderman
(tio de Amy). Têm ambos 12 anos e, nessa altura, Amy é apenas uma adolescente
«só braços e perna, aquela rapariga, com aparelho nos dentes e uma fiada de
borbulhas na testa”(pág.216) mas com 13 anos, cada vez mais atraente, é ela
quem telefona a Ferguson para se encontrar com ele. Com 14 anos, a atracção
física é cada vez maior e, mais uma vez, é Amy quem desbloqueia o preconceito
de Ferguson de que, por serem «primos», não se deviam tocar, e o beija.
Para
além da relação com Amy, a mais intensa, Ferguson estabelece, nas suas
diferentes vidas, várias relações íntimas com mulheres livres, como é o caso de
Nancy Sperone, recém licenciada que estava «a fazer um mestrado em sedução fora
de horas» (pág.798), de Nora (com quem partilha eróticos banhos quentes), com
Hallie Doyle , com Evie (a professora de
31 anos, quando tem 18), com Dana , com Celia (irmã do amigo Artie que morreu)
…
Na
vida em que se assume como bissexual (3), vemos Ferguson a aceitar, com 15
anos, a relação homossexual da tia Mildred com Sydney, com uma naturalidade que
seria estranha para a sociedade portuguesa da época, e a ter a sua primeira experiência sexual com
um rapaz, Andy Cohen. Essa experiência causa-lhe naturalmente algum
constrangimento, próprio de alguém que procura ainda a sua própria identidade
sexual.
É com
Vivian, amiga de Gil, viúva, rica e por quem se sente também atraído, que
Ferguson encontra abertura para falar sobre a sua bissexualidade pois também
Vivian admite a sua. Na altura Vivian vive uma relação homossexual com Lisa que
esconde dos pais de Ferguson, mas que aceita partilhar com ele.
Concluindo,
onde encontramos «moralismos» desajustados é na reacção da Universidade ao
retirar-lhe a bolsa Walt Whitman, em Princeton, por ter andado à pancada ao
defender o seu amigo negro, mesmo depois de ter sido absolvido em tribunal.
Clube
de Leitura, 18 Dezembro 2024
Maria
João Leite de Castro
4321
in A Canção de Amor
de J. Alfred Prufrock, T.S.Eliot 1 (p.140)
4
3 2 1, Paul Auster_2017
por Manuela Pereira
Paul
Auster / Fergusson, nesta ´autobiografia` em que nos fala sobre tudo, sobre a
vida e sobre a morte, do nascimento ao fim da vida (o manuscrito tinha um
total de mil cento e trinta e três páginas datilografadas com espaçamento duplo
p.867),
desde 1900, ano da chegada do seu avô à América, até Nelson Rockefeller ___descendente
de Goddard Rockefeller - nascido Gotthard Rockenfeld (1590) - de Johann Peter
Rockenfeld (1732) o primeiro da família a imigrar, de uma aldeia alemã com o
mesmo nome para a América e a mudar o nome, e de
William Avery Rockefeller (1810.) Wiki Até Nelson Rockefeller ter
sido empossado como o quadragésimo primeiro vice-presidente dos Estados Unidos
p.870,
em 1974.
Conta-nos
muitas histórias de vida e quatro vidas de Fergusson, que são cada uma delas
uma outra história. Fala-nos de hereditariedade e
de acaso, das circunstâncias do mundo e da família que rodeiam cada uma das
personagens, e de toda a sua influência sobre F. Fala-nos da cidade de NY e dos
subúrbios, de filhos e dos seus pais.
Do
primo Andrew, que morreu na Coreia p,70 e
do choque dos pais que se sentiram responsáveis pela sua morte e pela forma
como o educaram.p.72 ;de Amy e da sua mãe
Liz demasiado protectora, que a abafava p.366
e que morre de cancro terminal aos 42 anos p462
; de Margaret e Ella p.225 as filhas de Gil e da
sua recusa em aceitar Rose; da primeira mulher de Gil morta num acidente na
Taconic State Parkway p 225;. de Gwendolyn,
a mãe amarga e zangada de Noah, da sua ligação perturbada e do relacionamento que
Noah tem com o pai Don; de Fergusson e da sua relação tumultuosa com o pai
durante a adolescência e de como a brecha surgira entre Stanley e Arch p.370
Fergusson
tem várias experiências de vida, mas há um único F. O livro é sobre a sua
infância, adolescência e princípio da vida adulta, e é também uma possível
explicação da luta sem tréguas entre pai e filho e entre F e Deus. Sobre a
presença / ausência do pai, sobre o seu poder / dinheiro, que são as circunstâncias
transformadoras na vida de F, um tipo pensativo e sonhador (…) p.463
F2
mata o filho. Demasiado protegido na infância pelo pai e pelo ar condicionado
que não o deixa ouvir os pássaros lá fora, F. fica em êxtase, tal como S.
Paulo, perante os relâmpagos de uma tempestade que liberta toda a força da
natureza. E morre feliz.
F3
mata o pai. Morre engolido pelo fogo, quando F. sonhava ficar sozinho com a mãe
p.36.
E depois de um longo e doloroso debate com Deus, conclui que Deus não existe. E
mata Deus.
F1 precisava de trabalhar para ajudar os pais, porque algo no seu pai tinha sido destruído pela traição de Arnold p.114 (…) e desistira de se tornar Rockefeller p.114. Os pais discutiam menos e Fergusson tinha quase a certeza de que o pai estava a ouvi-lo p.114 quando falava com ele.
(…)
os Deuses podiam ser misericordiosos quando queriam.
in
A promessa, Roland Gary p.116
F4
até à ruptura com o pai não trabalhava, o negócio do pai corria bem e
estavam em condições de´viver à grande` p.88 mas
F
nunca estava sozinho com o pai p.99
e agora Iam mudar de casa! p102
e F.queria ficar onde estava p.71/85/206.
Não queria deixar o mundo perfeito onde vivia. p.238
Na
adolescência tudo muda nas vidas de F. Mudam as casas, as ruas, as cidades onde
moram, no centro e na periferia. Mudam os automóveis dos pais, os modelos, a
cilindrada, as cores. Mudam as marcas de cigarros que a mãe, os tios, os ´pais`
e ele próprio fumavam. Mudam os empregos dos pais e mudam as empregadas. Mudam
os restaurantes e os pequenos bares. Mudam os grandes maiores amigos, os
professores, as escolas e as universidades, as namoradas. Mas F é sempre Fergusson.
Nova Iorque é sempre Nova Iorque e Paris será sempre Paris.
Para
a mãe Rose, F. foi sempre o meu rochedo, a minha âncora p.199
e
para F a mãe era a única pessoa de quem gostava. p.205
e
foi sempre o seu apoio emocional. A tia Mildred com a sua variada vida amorosa
trazia sempre novidades e novas pessoas ao universo de F. A sua aparente
instabilidade tinha mais a ver com a mudança dos tempos e nunca alterou o
afecto pelo seu mais-que-tudo.p.287
Tomou para si logo à nascença a responsabilidade da sua educação. Amy, filha
de Daniel é uma constante inconstante
para F que no primeiro dia que a viu sair do Chevrolet azul do pai – DiaTrab.63–
soube que ela era a próxima, a primeira, a única.p.141
Amy
foi a amiga, a irmã, a namorada, o seu primeiro amor, a única rapariga de quem
gostou a sério. Amy é NY p.146 Brilhante e
turbulenta, com opinião sobre tudo p.243
é com ela que vai viver as maiores alegrias e os maiores tormentos. p.143
F
é sempre filho único, elogiado por todos, protegido por pais, avós, tios e
primos, amigos, professores e namoradas. Foi sempre um jovem sensível às
desigualdades sociais, empenhado em questões políticas e teve sempre o dom da
escrita e pouco jeito para a música.
É
o pai quem tudo muda (ver Análise da Masculinidade Americana Contemporânea–Laboratório
de comportamentos masculinos p.93/224)
É o afastamento de ambos depois do divórcio e do novo casamento do pai. A sua
recusa em aceitar o dinheiro do pai. Mas
é também a emoção com que Fergusson se apercebe quando o vê na televisão,
passado mais de um ano, que embora desaparecido há muito tempo o pai dele
ainda pairava nas margens da sua vida (..)
p.740
E
com uma notícia inesperada, após três anos de silêncio, veio o primeiro de
dois grandes infortúnios que tombaram sobre si naquela primavera. p.829 A morte do pai que
tornava impossível que um dia pudessem encontrar uma maneira de purgar o
rancor que crescera entre eles (…)
p.830 Passado algum tempo
o espaço que outrora contivera a raiva estava agora cheio de mágoa e confusão,
mágoa e confusão e arrependimento. p.863
Aos
16anos, no verão em que F lia ao pai na sala dos fundos da Stanley´s TV
& Radio p.140
A
Canção de Amor de J. Alfred Prufrock,, e foi surpreendido pela
sua reação, percebera que teria de repensar tudo o que até então presumira
sobre o pai (…)
p.140 Agora que os F
imaginários
iriam morrer e que o pai dele também estava morto,
este era o livro que precisava de escrever–por eles.
1Um dramático monólogo
interior que nos transporta para os pensamentos de um homem citadino, de meia
idade, sexualmente frustrado.
4321-ROMANCE DE FORMAÇÂO?
“Se queres fazer rir Deus, conta-lhe
os teus planos”,
Woody Allen
por Delfina Rodrigues
Considerar 4321 um romance de Formação - Bildungsroman -
é enfileirá-lo ao lado de “Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister”, de
Goethe, o primeiro a ser considerado como tal, “A Montanha Mágica”, de Thomas
Mann, “David Copperfield”, de Charles Dickens, “As Aventuras de Huckleberry
Finn, de Mark Twain, “Os Moedeiros Falsos”, de André Gide, entre muitos outros
que o cânone assim considera. Em comum, o acompanhamento de um protagonista em
diferentes fases da sua vida, a formação de uma identidade em confronto com
diversos contextos em que se desenvolve, as escolhas que faz, a forma como
“inscreve” as suas circunstâncias.
Isto bastará, creio, para considerarmos 4321 um Bildungsroman,
qualquer que seja a versão em que o protagonista se desdobra, com assinaláveis
semelhanças e diferenças, a partir de um mesmo ADN, ou seja, de um nascimento
comum- seja o criador (personagem demiúrgica), Ferguson 4, seja qualquer uma
das suas criaturas- Ferguson 1,2 ou 3.
Sigamos Ferguson1, em busca de uma legitimação:
Nasce a 3 de Março de 1947, no pós-guerra, consequentemente,
em Newark, New Jersey, e morre aos 22 anos em Rochester, no norte de Nova
Iorque. Tem inscrito no apelido um equívoco anedótico associado ao avô de
Minsk, episódio primeiro da sua demanda do sonho americano, no início do século
XX. Outras raízes familiares ditaram o nome: Archie, a evocar um tio materno e
Isaac a perpetuar a memória do avô paterno — eis Archibal Isaac Ferguson, 3ª
geração de judeus de leste em solo americano, acompanhado na infância,
adolescência e início da idade adulta, que o mesmo é dizer, nos seus anos de
formação.
Em torno dele, ou para além dele, um ponto no centro mais pequeno de uma série de
círculos concêntricos, gravitam vívidas imagens da Guerra, da América, de Nova
Iorque, da Universidade de Columbia e do domicílio, num contínuo desfile de um
fresco da América das décadas de 50 e 60, suas idiossincrasias e contradições,
guerras externas e internas, lutas raciais e Intra raciais, lutas estudantis,
ecos do Maio de 68 em França, da guerra dos 6 dias, movimentos contracultura,
alguns saltos “civilizacionais”- a televisão a sobrepor-se à influência da
rádio, as grandes superfícies comerciais a empobrecer o pequeno comércio, a
título de exemplo: “Cinco esferas, cinco realidades distintas, mas cada uma
estava ligada às outras, o que significava que quando algo acontecia no círculo
exterior (a guerra) os seus efeitos sentiam-se por toda a América, Nova Iorque,
Columbia, e todo e qualquer ponto no círculo interior das vidas privadas e
individuais” (P.638). Assim se via, em
interaçcão com o mundo. Seria a sua vida a mesma, vivida noutro contexto e com
outras circunstâncias? A multiplicidade
de Fergusons dá-nos a resposta.
Cresce com desafogo económico (O pai tem um negócio próprio,
a mãe um estúdio fotográfico) e com uma estrutura familiar tradicional que cedo
se vai desmoronando: o tio Lew morre; o tio Arnold, irmão do pai, rouba o
próprio irmão no armazém e, quando descoberto, é obrigado a mudar de terra com
a família; a tia Mildread, irmã da mãe, a intelectual da família, casa com
Henry Ross e partem para a Califórnia, a 5000Km de distância. Ainda criança, é
afectado, por um lado, por esta desagregação e quebra de laços familiares e,
por outro, pela perda de recursos da família. Teve conhecimento, pela mãe, do
dilema moral vivido pelo pai, dividido entre a denúncia do irmão e recuperação
do capital perdido e a salvaguarda do nome do autor do roubo e a ruína
económica. A opção feita, pela última, terá tido, acreditamos, significativo
impacto na sua formação. Apesar do desaire económico que a família enfrentou, o
pai sempre incentivou o filho a orientar-se para um destino maior que o seu,
não o vendo a arranjar torradeiras avariadas (p.139). Sonho comum, afinal, ao de tantas famílias da
classe média em queda, que projectam para os filhos sonhos seus não
concretizados ou até não sonhados. Ferguson trabalhava com o pai durante o
Verão, mas estava reservado para destino mais “glamoroso” que os seus interesses
e leituras indiciavam. Lia para o pai, nas pausas, poemas de Dickinson, Poe,
Whitman, Eliot, Pound... Assim, chegará à Universidade de Columbia, onde se
formou.
Ferguson 1 foi, desde cedo, dado a paixões: na primeiríssima
infância pela mãe, com quem pensava casar apesar do pai; por ícones
publicitários depois – a rapariga da garrafa de White Rock, por quem nutriu uma
paixão erótica, e a rapariga da caixa de manteiga; por Amy Scheneiderman
sempre, desde o churrasco que os pais ofereceram em casa, para o que os
Scheneiderman foram convidados, no dia do trabalhador, tinha então 16 anos. Aos
12 anos” consumia” revistas de mulheres nuas, tinha tido vários namoricos, mas
não sentia atracção pelas raparigas normais e saudáveis”, que lhe faziam
lembrar os subúrbios, cuja vida era chata, e eram demasiado previsíveis para o
seu gosto, (p.138) formatado, seguramente, pela qualidade da literatura que
consumia, pela música que ouvia, pela informação de que dispunha pela mão
longínqua da tia Mildread.
A paixão por Amy foi avassaladora e, embora correspondida,
teve interrupções e um fim, que o deixaram dilacerado, procurando consolo em
amores sucedâneos ou encontros fortuitos, só apaziguado, já perto do seu fim
precoce e trágico, com a chegada à sua vida de Hallie Doyle,” a primeira mulher
que conhecera desde que se mudara para o Norte que talvez tivesse poder para
finalmente quebrar o feitiço de Amy” (p.808).
A sua pulsão erótica, sexual, associada a uma cama que
chiava, uma prima emocionalmente descompensada e a censória moral sexual
vigente estiveram na origem do incidente que viria alterar significativamente o
rumo da sua vida- um acidente de carro que lhe causou a mutilação da mão
esquerda, com perda do polegar, que o afastou definitivamente de uma outra
paixão da sua vida, o baseball,
e, mais tarde , lhe garantiu a desqualificação para a guerra do Vietname, espectro
que assombrava a vida americana e dividia a sociedade em activistas antiguerra
, por um lado, e defensores mais ou menos entusiastas, designadamente os anti
anti-guerra, por outro. Viu-se assim desobrigado de enfrentar um dilema que a
tantos afligia quando terminavam a faculdade: resistir ou fugir. Teias que o
acaso tece. Ou o destino, dirão outros.
De outra natureza, nutriu uma paixão, ou melhor, idolatria,
por Kennedy, tinha então 13 anos (16 no ano do assassinato). Sensível à
injustiça da opressão racial, ao absurdo da guerra fria, à corrida às armas
nucleares, à acefalia do materialismo americano, via em Kennedy et pour
cause, nos democratas, o “homem do futuro “e transformou o quarto num
verdadeiro santuário que lhe dedicou. Mais tarde olhou para aquele “período de
idolatria juvenil com repugnância”. (p.124). A esta opção política não terá
sido alheia a influência dos pais, com quem seguia os debates com Nixon.
De resto, acompanhou sempre de perto a vida política e as
sucessivas convulsões sociais e políticas ao lado de Amy, ela uma activista
fervorosa e comprometida, ele um simpatizante das causas, desejoso do sucesso
dos movimentos que fervilhavam, mas com maior distância crítica e incapaz, como
dizia, de “atirar o tijolo pela janela”. Aliás, para o fim da relação, muito
contribuiu o progressivo afastamento das suas posições. Mais tarde, quando
conheceu Hallie, e confrontando as suas posições, afirmaria:” (Hallie) não
tinha nenhum impulso para reinventar o mundo de baixo para cima, nenhum acto de
desafio revolucionário, mas um compromisso para fazer o bem no mundo partido a
que pertencia, um plano para passar a sua vida a ajudar os outros, o que mais
que um acto político era um acto religioso, uma religião sem religião ou dogma,
uma fé no valor do um e do outro e do
um…” (p.809) .Posição de que porventura se sentiria mais próximo.
Na Universidade, move-se em círculos intelectuais, recusa a
praxe e enquadra-se no grupo dos escarros, cujos sinais identitários eram o
cabelo comprido, ser de esquerda, anti-guerra, pró-direitos civis. Neste meio,
continua a desenvolver outra das paixões que o acompanham nas diversas fases da
sua vida—os livros, a leitura, a escrita, que define, de forma por vezes
hesitante, mas sempre considerada, a sua principal actividade, concluída a
faculdade. Deve à tia Mildread o primeiro acesso a autores de referência, a
obras consagradas no cânone universal, à cultura musical erudita, à vida cultural
em geral, considerando-a “uma pródiga guia turística da sua educação literária”
(p.301), uma alma mater familiar, diríamos nós.
Sempre ligado à escrita, traduz poesia francesa, é repórter,
jornalista, criador/ autor...
Quando se aproxima o fim do curso, sente-se a descer ao fundo
do poço, sem Amy, indeciso quanto ao futuro, após a suprema decepção vivida
quando constatou a parcialidade da imprensa e a forma como adulterou os relatos
dos tumultos que ocorreram em Columbia. Decidiu-o mais um acaso, quando
ponderava abandonar a actividade jornalística, sem alternativa à vista e com
recursos esgotáveis. Foi um encontro, um convite e a força de um adjectivo: Mac
Manus desafia-o a aceitar um lugar como jornalista no Times-Union, em
Rochester, no norte de Nova iorque. O desencanto com o jornalismo e a nova
geografia a enfrentar não o estimulam, mas o adjectivo monstruoso
utilizado por Mac Manus para qualificar a parcialidade abjecta do New York
Times, fazem-no sentir que pode estar perante a pessoa certa e aceitar a nova
circunstância que se lhe oferece.
O que não podia adivinhar é que iria encontrar um amor
redentor, salvífico, e uma morte trágica, consequência de incêndio que um
vizinho perturbado e negligente desencadeou no andar de baixo, no prédio
decadente em que habitava, em vésperas de uma desafiante reportagem, após a
qual repensaria o futuro.
Evoquemos enfim, em
jeito de conclusão, palavras do narrador de 4321: “...uma parábola sobre o
destino humano e as infindáveis encruzilhadas que uma pessoa deve enfrentar na
sua viagem pela vida.”
Delfina Rodrigues
a
É o que a narrativa sugere, um romance de
formação. Mas fica a dúvida se não se trata de uma autobiografia disfarçada,
por procuração. A pergunta instalou-se até à última
página como um desejo voyeur de poder entrar nos segredos do autor. É
que era por de mais evidente um lastro comum aos 4 destinos, Auster parecia
diluir-se nas variações do Archie…
Com efeito, as 4 personagens não se afastam muito das mesmas experiências: a paixão pelo basktball ou baiseball; o interesse infindável pelos livros e a escrita; os filmes e o cinema; a pertença a uma família judaica; a ligação especial a 2 mulheres; a libertação sexual; o protesto político a partir do campus universitário…(ainda que existam 2 Archie sem universidade - por morte prematura, ou por uma estadia boémia em Paris).
Do desdobramento em 4, poder-se-ia esperar um
ziguezague maior do temperamento, dos interesses... Um Archie ocioso ou
deprimido, a arrostar com o sentido da vida, ou um Archie convertido ao
movimento hippy ou até um consumidor de drogas…Curioso que nenhum dos Archie se
tenha interessado pelos memoráveis festivais da época, Monterey (1967) ou
Woodstock (1969). Jimi Hendrix, Joni Mitchell ou Frank Zappa não são trazidos
ao romance. Nem os igualmente contemporâneos Andy
Warhol, Marilyn Monroe ou a pegada de Armstrong quando aterra na Lua.
Talvez Auster ficasse sem chão ao escrever
sobre experiências que não teve por perto, primeira hipótese que me surgiu, de
imediato rejeitada, recordando a propósito o romance “No país das últimas
coisas”, onde Auster construiu um enredo extravagante, uma visão vertiginosa de
uma cidade em colapso, um todo coerentemente inventado mas não vivido.
Não querendo fazer uma autobiografia, suponho
que Auster nunca se afastou muito da sua vizinhança e, sobretudo, não desistiu de
moldar um Archie Ferguson à sua imagem. Numa altura trágica em que Auster sabia
que estava a ficar sem tempo, limpou os baús do esquecimento e conduziu as
bagagens do menino e do adolescente num bem engendrado jogo de sombras: a
impessoalidade do autor que fica a salvo nas 4 versões da personagem, ao mesmo
tempo que pode usar as ferramentas da escrita tão ao seu gosto - desembrulhar histórias
dentro da história, fazer depender os fios da trama de acasos e coincidências, numa
fronteira esbatida entre realidade e ficção.
Gostei de ler, ainda que o 4321
não seduza pela via das frases belas, de sublime clareza e rigor, das que ficam
a ecoar dentro de nós.
Uma novela realista e
direta, sem truques e ilusões, como admitiu o próprio autor. Uma escrita
“plana”, digo eu, que não se mete com o estilo. Mas desta vez a prosa
minimalista de Auster é contrariada. Aqui arrisca frases longas na construção integral
do texto, frases que escorrem bem, que não perdem respiração nem timbre. Para
este desembaraço fiquei a magicar se a primeira experiência de Auster como
escritor – a poesia, lhe teria valido no ofício de modular, cadenciar e fazer
soar a frase.
Gostei também de escrutinar este
olhar à posteriori sobre a infância e a juventude, onde não encontrei qualquer concessão
à nostalgia ou à pequenez da lamúria. Sem estados de alma assinaláveis. Efeito
de algum branqueamento? um ponto de
vista sofisticado? ou um disparo sincero do ego? Afinal, todos os Archie são alvo do elogio dos
que com ele se cruzam. E se assim for, sirvo-me da frase de quem já esqueci o
nome: quando a vaidade não inverte as virtudes, tem o poder de as animar.
Os
costumes judaicos
por Ana Teixeira
A cultura judaica é
constituída por um conjunto de fenômenos culturais, religiosos e seculares,
que envolve o povo judeu os seus descendentes, líderes espirituais e indivíduos
que se identificam como judeus em vários graus e proporções.
O povo judeu possui
uma identidade étnico-religiosa, cujo código de vida e código moral é ditado
pelo Judaísmo , uma das três
grandes religiões monoteístas Os costumes
judaicos são um variadíssimo mosaico de tradições, práticas e valores, que têm
sido transmitidos ao longo de milênios. Estão enraizados na história, na
religião e na cultura do povo judeu e manifestam-se em diversas áreas da vida quotidiana,
incluindo celebrações, alimentação, vestuário e interações sociais.
Uma das características mais marcantes dos costumes judaicos são as festividades religiosas. O calendário judaico é repleto de celebrações que refletem a história e as tradições do povo.
As festividades mais
importantes são:
·
O Shabat é um dia sagrado de
descanso que começa ao pôr do sol na sexta-feira e termina ao anoitecer no
sábado. Durante este tempo, os judeus abstêm–se de trabalhar e dedicam-se à
oração, ao estudo da Torá e ao convívio familiar. A refeição do Shabat, que
inclui o pão trançado chamado "challah" e vinho, é um momento
especial de união;
·
O Pessach (Páscoa), que comemora a
saída dos judeus do Egito e é marcado pela refeição do Seder (que envolve a
leitura da Haggadá[1]),
um jantar cerimonial em que se recorda a história deste êxodo e a
libertação do povo de Israel;
·
O Yom Kipur (Dia da Expiação[2] ), um
dia de jejum e arrependimento. É o dia mais sagrado no calendário judaico.
Trata-se de um dia de jejum, introspeção e autoanálise e perdem perdão pelos
pecados cometidos;
·
O Hanukkah (que se lê rranucá e significa
dedicação ) é uma festividade judaica realizada todos os anos, que celebra a
vitória da luz sobre a escuridão e a luta dos judeus contra os seus opressores.
Normalmente esta festa dura cerca de oito dias e celebra a dedicação[3]do Templo
em Jerusalém.
Quanto aos costumes
alimentares judaicos pode-se referir que :
·
São regidos por leis
chamadas "kashrut" ( termo que se refere às leis dietéticas do judaísmo), que definem o que
é considerado kosher[4]
(apropriado) e o que não é. Essas leis incluem diretrizes sobre quais alimentos
podem ser consumidos, como os animais devem ser abatidos e a proibição de
misturar carne e laticínios. A observância das leis de kashrut varia entre os
judeus, com alguns seguindo-as estritamente e outros de maneira mais flexível.
As refeições em família são uma parte importante da vida judaica, e muitas
vezes as tradições alimentares estão ligadas a festividades e celebrações.
Quanto ao Vestuário
e Identidade Cultural pode-se referir que:
·
Os costumes judaicos
também refletem – se na forma como os judeus se vestem, especialmente nas comunidades
mais tradicionais. O uso de roupas modestas é comum, e em algumas comunidades,
os homens usam o "kippah" (um pequeno chapéu) como sinal de respeito
a Deus. As mulheres podem usar uma cobertura de cabeça, dependendo da tradição.
Além disso, algumas comunidades têm vestimentas específicas para celebrações
religiosas, como o "talit", um xale de oração que é usado durante as
orações.
Quanto às Interações Sociais e Valores,
anota-se:
·
Os judeus valorizam fortemente a família e a
comunidade. Os costumes judaicos enfatizam a importância do cuidado com os
outros, a justiça social (tzedakah[5])
e o estudo da Torá. A educação é altamente valorizada, e muitos judeus se
dedicam ao aprendizado ao longo da vida. O conceito de "tikkun olam[6]",
que significa "consertar o mundo", reflete a responsabilidade social
que os judeus sentem em relação ao bem-estar da sociedade em geral.
·
Circuncisão (Brit Milá) é uma prática religiosa que marca a aliança
entre Deus e o povo judeu, realizada em meninos no oitavo dia após o
nascimento.
·
O estudo e a interpretação da Torá e de outros
textos sagrados são centrais na vida judaica. As sinagogas servem como locais
de oração e aprendizado.
·
Sinal de Luto (Shivá). Após a morte de um ente
querido, os judeus observam um período de luto chamado shivá, que dura sete
dias, durante o qual a família se reúne para lembrar e honrar o falecido.
·
Os Casamentos judaicos costumam incluir rituais
específicos, como a assinatura do contrato matrimonial (Ketubá[7])
e a quebra do copo. A vida familiar é valorizada, com ênfase na educação e na
transmissão das tradições.
[1] O Hagadá, é um conjunto
de instruções detalhadas (espécie de Livro), compiladas a partir dos
comentários de autoria do Rebe, Rabi Menachem Mendel Schneerson.
[2] Após o pecado do bezerro de
ouro ( o ídolo que,
de acordo com a tradição judaico-cristã, foi criado por Arão quando Moisés
estava no cimo do monte Sinai para receber os mandamentos de Deus), Moshê
(Moisés) rezou e, no dia dez do mês hebraico de Tishrei, Deus concedeu pleno
perdão ao povo judeu. Yom Kipur é, pois, o Dia da Expiação, sobre o qual se declara
na Torá: "No décimo dia do sétimo mês afligirás tua alma e não
trabalharás, pois neste dia, a expiação será feita para te purificar; perante
D'us serás purificado de todos teus pecados."
[3] No segundo século Antes da
Era Cristã, a Terra Santa era governada pelas selêucidas (sírios-gregos), que
tentavam forçar o povo de Israel a aceitar a cultura e as crenças gregas em vez
da observância das mitsvot (mandamentos hebraicos) e crença em Deus.
Contra
todas as probabilidades, um pequeno grupo de judeus fiéis, liderado por Judas o
Macabeu, derrotou um dos mais poderosos exércitos da terra, expulsou os gregos,
reassumiu o Templo Sagrado em Jerusalém que voltou a ser dedicado ao serviço de Deus.
[4] A
rigor, as palavras kosher ou kosher (“conveniente” ou “adequado” em hebraico)
são os adjetivos hebraicos para o que obedece aos mandatos da kashrut , ou seja, não contém nenhum dos animais
proibidos (considerados impuros e chamados de trefá em hebraico), e foi preparado de acordo com
os métodos religiosos específicos do passado.
Esta distinção é
tão vital para as comunidades religiosas judaicas, que muitos produtos kosher na atual indústria de
alimentos têm certificações e garantias de
seu preparo na embalagem, para que possam ser consumidos com segurança pelos
praticantes do Judaísmo.
[5] É
a obrigação que todo judeu tem de doar algo de si, quantificado em no mínimo
10% dos ganhos, ao necessitado judeu ou filho
de Noé. Também podem ser doados trabalho ou
conhecimento e todos os judeus têm que cumprir o tzedacá, tanto os ricos
quanto os miseráveis e as crianças.
[6] Significa literalmente "reparação do
mundo" e alternativamente "construção para
eternidade". É um conceito no judaísmo interpretado no Judaísmo
Ortodoxo como a perspectiva de superação de
todas as formas de idolatria, e por outras denominações judaicas como uma
aspiração para o comportar-se e agir de forma construtiva e benéfica. É
importante no judaísmo e frequentemente usada para explicar o conceito
judaico de justiça
social.
[7] Ketubá ou Ketubah é o contrato matrimonial judaico, que tem sido parte integrante dos casamentos por aproximadamente dois milênios. Tradicionalmente, as Ketubot
(plural de Ketubá) eram escritas em aramaico - o idioma utilizado pelos judeus durante o período do exílio babilônico e mais tarde quando eles
retornaram à terra de Israel - e definem as responsabilidades matrimoniais. Actualmente
as versões são em hebraico. O Ketubá, um contrato de casamento, que estipula as responsabilidades mútuas entre marido e mulher. Nas sinagogas liberais, a noiva também assina esse contrato e a Ketubá torna-se
propriedade pessoal da noiva.
por Margarida Mouta
4321, Paul Auster, 2017, ed. ASA, tradução de Luís Rodrigues dos Santos
Clube de Leitura EASR, 18 de dezembro de 2024
Apresentação de um excerto do artigo de Christine Marcandier, “Paul Auster : 4321,
strates d’Amérique, avatars de soi”, 8 janvier 2020, Les mains dans les
poches, Livres, Paul Auster, Rentrée d'hiver 2020
«À chaque être, plusieurs autres vies me semblaient dues»
Rimbaud
A frase em epígrafe poderia bem ser o cadinho romanesco de 4321 e da sua
personagem desmultiplicada, Archie Ferguson. De acordo com Christine Marcandier,
Ferguson, mais do que uma personagem é uma figura, uma superfície projetada do
seu autor como forma de distanciamento, um motor ficcional que atua como uma
interrogação sobre aquilo que poderá vir a ser a base de uma identidade americana ou
da nossa relação com o real.
Archie Ferguson nasce a 3 de Março de 1947, um mês depois de Paul Auster
(e, tal como ele, em Newark), mas está longe de ter uma existência monolítica.
Comecemos pela breve narrativa em que se baseia a lenda familiar, apresentada no
início da obra. Trata-se de uma narrativa altamente minada, porquanto ela faz
referência a aspetos simbólicos que serão abordados ainda que obliquamente, em
algumas das páginas seguintes. A história da família começa com um renascimento,
uma vez que o avô, o jovem Reznikoff, que chega a Ellis Island no primeiro dia do
século XX, troca o seu patronímico por um nome com sonoridades americanas. Ich
hab fergessen (Eu esqueci-me) transforma-se em Ichabod Fergusen. O incipit de 4321
é, pois, um limiar, o fim de uma história e o princípio de outra, troçando ironicamente
com a História. Esta página inaugural é uma amostra da saga dos Ferguson, cujas
existências abraçam e abarcam os sobressaltos da actualidade americana, ritmada
pela crise de 1929, pelas duas guerras mundiais, pela Shoah e, de maneira mais
pormenorizada, por todos os dramas, esperanças, medos colectivos e desejos de
libertação e conquistas que ocorreram nesse período, quer se trate dos direitos das
mulheres, dos direitos cívicos ou de revoluções sexuais. Nesta primeira página,
aparecem, desde logo, o paralelismo constante do romance entre história individual e
história colectiva, a disjunção kafkiana entre o trágico e o cómico e o jogo – que
poderíamos classificar como festivo – entre a ficcionalização e os referentes
romanescos. Já para não falarmos das inúmeras piscadelas de olho à literatura com
que o autor faz apelo não já às origens biográficas da personagem, mas às suas
raízes literárias.
Com efeito, o que aqui é deixado para trás é o romance russo (Reznikoff
poderia ser o nome de um herói de Dostoïevski) em prol de uma narrativa americana,
em construção, edificando-se, de maneira explícita, nos passos do grande romance
europeu, já que Ferguson, à semelhança da sua mãe, adorava Tolstoï, Flaubert,
Stendhal ou Dickens.
É a música do acaso, tão cara a Auster que nos dá o lamiré de uma narrativa
que se constrói como uma deambulação pelas ruas de Nova Iorque. O avô, então com
19 anos, “Na sua primeira tarde em Nova Iorque, encontrou por acaso um vendedor de
rua, a apregoar as maçãs mais vermelhas, redondas e perfeitas que já tinha visto.
Incapaz de resistir, comprou uma e mordeu-a avidamente. Em vez da doçura que
esperava, o gosto era amargo e estranho. Pior ainda, a maçã era asquerosamente
mole […] Foi este o seu primeiro sabor do Novo Mundo, o seu primeiro e in esquecível
encontro com um tomate de Jersey. (p.8)
Mas para Auster, o acaso é sempre uma coincidência e a verdade é que esta
página “namora” com um relato bem real que o autor leu no primeiro capítulo de “A
Plea for Eros”, livro escrito pela sua mulher, a escritora Siri Hustvedt, na qual ela narra
a história da maçã - tomate, a grande maçã, que também poderemos ler como uma
referência a Nova Iorque (Big Apple).
Temos assim, da passagem da página de Hustvedt para a página de Paul
Auster, a piscadela de olho especular, o jogo amoroso, a pluralidade de toda a origem
entre realidade e ficção, a passagem de um universo romanesco a outro, respondendo
àquilo que Siri Hustvedt designa por espaços mentais de uma “geografia pessoal”.
Antes mesmo de ser a narrativa de um Ferguson plural, 4321 é este jogo de
espelhos ficcionais, cada elemento se desmultiplicando até ao infinito. Isto, sobretudo,
se considerarmos entre outras astúcias, que o nome abandonado (Reznikoff) não é
apenas uma referência explícita a Dostoïevski (lembremo-nos que Crime e Castigo foi
para um dos Ferguson o raio caído do céu que o estilhaçara em mil pedaços), mas
que é também uma alusão a um dos artistas da fome evocados por P. Auster num
ensaio de 1992, The art of Hunger, consagrado a Charles Reznikoff, esse “poeta do
olhar”. Nesse ensaio, Auster expunha a ideia de Reznikoff, segundo a qual o princípio
condutor de todo o poema (e por extensão todo o texto), é captar e não contar “A
existência do Universo não pode ser pressuposta. O Universo só começa a existir quando
nos dirigimos a ele. Esse est pricipi”.
Tal será a arte do romance posta em prática em 4321. Contar o real tal como
um indivíduo o percepciona, isto é, tal como um indivíduo o conta a si próprio, o vive e
o (re)inventa. Reznikoff é o modelo, sem dúvida nenhuma de Rose, a mãe de
Ferguson, fotografando os rostos anónimos nas ruas de Nova Iorque, preocupando-se
em captar o que permaneceria invisível sem os seus clichés e que, contudo, se
oferece ao olhar como tantos instantes decisivos. Esta é uma noção que P. Auster
pede de empréstimo a Cartier-Bresson para traduzir “a faculdade do poeta de se
interessar pela pessoas que povoam as ruas de Nova Iorque e [afirmar que] nenhum
encontro, por mais breve que seja, é demasiado insignificante para que não seja
notado, demasiado banal para que não se torne uma fonte de epifania”. Seja fotógrafo,
escritor, poeta ou cineasta, o artista percorre a cidade, de olhos abertos, de espírito
aberto, concentrando a sua energia a fim de penetrar a vida que o rodeia. Penetrá-la,
precisamente porque dela se distingue. Deste modo, através dessa percepção aguda
de um exilado, de um solitário, o artista pode fazer com que o mundo aconteça nessa
cidade de N.I. que reencontramos, evidentemente, em 4321, “essa querida cidade de
Nova Iorque, a capital dos rostos, a Babel horizontal das línguas humanas”.
Ferguson, personagem precária, figura de exilado, figura eminentemente
solitária será, paradoxalmente, objecto de quatro hipóteses biográficas. A sua saga irá
articular-se com a história dos Estados Unidos; a sua trajetória entrará em paralelo (ou
não) com a do seu criador, Paul Auster, seu contemporâneo. 4321 é, portanto, um
romance de quatro vidas possíveis, de quatro potencialidades de um mesmo ser
modeladas de formas diferentes pelas circunstâncias, pelos encontros pelas escolhas
e pelas renúncias que vão sendo feitas. Ferguson é a reencarnação do “What if”, do “E
se…” presente em toda a ficção e em toda a vida real. O romance interroga a
pluralidade das nossas existências possíveis, é um page turner terrível um mergulho
fascinante em várias décadas da história americana. Um dia, Ferguson (versão 1) ao
olhar para os écrans de TV do armazém do pai, conclui que “ver tantas coisas
diferentes reproduzirem-se ao mesmo tempo lhe dava sempre vontade de rir”. Com a
leitura de 4321, o leitor experimenta a mesma sensação ao ver os acontecimentos
encadearem-se uns nos outros, afastarem-se uns dos outros, tornarem-se distintosuns
dos outros, em função das versões 4,3,2 ou 1 de um mesmo Ferguson, sem nunca
perder o fio à meada, sabendo sempre quem é quem, mergulhado que está na
realidade simples destas possíveis complexidades.
Cada uma das versões de Ferguson é não somente uma biografia potencial da
personagem ou uma ramificação romanesca, mas também uma mise en abyme
diferente da poética do romance. Assim, em cada uma das vidas de Ferguson há um
local de reagrupamento dos possíveis, um lugar que se apresenta como o espaço de
cruzamento do romance: o armazém do pai , (“a ágora do século XX); o álbum de
fotografias (armazém da mãe fotógrafa); o escritório do avô ( livro do mundo); a
biblioteca da tia Mildred que encarna nas suas diferentes versões tidas as imagens da
mulher que conquista a sua independências ( e os obstáculos que a sociedade lhe
impõe para coartar toda a tentativa de emancipação); será também de uma certa
forma, a garrafa de água mineral ou o pacote de manteiga Land O’Lakes, descoberta
do infinito por um Ferguson que, para além das primeiras emoções eróticas, descobre,
na imagem desmultiplicada de uma jovem a de “um mundo dentro de um mundo”.
Tudo é mise en abyme neste livro. Cada página nos reenvia alternativamente
para outros textos de Auster (e ao seu fascínio pelo basebol, pelo cinema, pelos
jornais, pelo corpo, pelo desejo, pela França…) A leitura de 4321 é, também ela,
desmultiplicada, dependendo da cultura de cada leitor, da sua capacidade de atualizar
ou não as múltiplas referências. Archie Ferguson, um concentrado da América, é, à
vez (e por vezes conjuntamente), poeta, romancista, tradutor, jornalista, incarnando
todo o tipo de relação que se pode estabelecer com a escrita. Tudo isto tendo por
pano de fundo a sua aprendizagem e as suas ilusões perdidas de jovem que quer
fazer dos livros e da escrita a sua relação com o mundo.
Neste imenso fresco da América contemporânea, Paul Auster tenta mostrar
que a história social, política, sexual se apreende diferentemente em função da sua
própria existência. As potenciais vidas de 4321 não são apenas possíveis biografias
fergusonianas, mas pressupõem um contexto social, económico, familial e cultural
distinto; elas permitem dar conta da História como um mosaico, que se estende
segundo perspectivas diferentes: a de um WASP, a de um exilado (o judeu que nem
sempre é considerado como um americano), a de um homossexual ou a de uma
mulher.
Romance de formação e de vidas imaginárias, 4321 é para Christine
Marcandier, sem qualquer dúvida, o grande romance americano de Paul Auster, a
súmula de uma vida, de uma obra, uma maneira de levar personagem(ns), autor e
leitores a entrarem num folheado fascinante de uma realidade tal que pode ser
percepcionada e captada na e pela ficção.
Tradução, adaptação e apartes de Margarida Mouta
Em crítica literária,
Bildungsroman designa o tipo de romance em que é exposto, de forma
pormenorizada, o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico,
estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância
ou adolescência até um estado de maior maturidade.
Paul Auster est mort hier à l’âge
de 77 ans. En hommage à au grand auteur américain, Diacritik republie
cet article de Christine Marcandier, à propos de 4321, l’un de ses plus grands
livres.
Peut-être Paul Auster, imaginant Ferguson, s’est-il souvenu de Rimbaud : « À chaque être, plusieurs autres vies me semblaient dues », tant ce délire pourrait être le creuset romanesque de 4321 et de son personnage central démultiplié. Ferguson est d’ailleurs moins un personnage qu’une figure, surface de projection comme mise à distance de son auteur, un moteur fictionnel comme une interrogation de ce qui pourrait fonder une identité américaine comme notre rapport au réel.
Archie Ferguson a plusieurs dates de
naissance : il a beau être né le 3 mars 1947, soit un mois après Paul
Auster (et comme lui à Newark), son origine n’est que faussement monolithique.
Le récit qui fonde la légende familiale est certes le seul à ne pas connaître
de démultiplication romanesque mais il est hautement miné : le grand-père
d’Archie Ferguson arrive à Ellis Island le premier jour du XXe siècle.
L’histoire familiale débute par une renaissance, puisque le jeune
Reznikoff troque son patronyme pour un nom aux sonorités américaines :
L’incipit de 4321 est
un seuil, la fin d’une histoire et le début d’une autre sous le signe de la
réinvention onomastique, pied de nez ironique au tragique de l’Histoire. C’est
bien le XXe siècle qui naît dans cette page inaugurale, amorce
de la saga des Ferguson dont les existences épousent les soubresauts de
l’actualité américaine, en ce qu’elles sont rythmées par la crise de 29, les
guerres mondiales, la Shoah et, de manière plus détaillée, par tout ce qui
tisse les années 50 à 70, drames et espoirs, peurs collectives et volonté de
libération et conquêtes, qu’il s’agisse des femmes, des droits civiques, de
révolutions sexuelles. Dès cet incipit apparaissent donc les parallèles
constants du roman entre histoire individuelle et histoire collective, la
disjonction si riche entre tragique et comique, proprement kafkaïenne, et un
jeu, que l’on qualifierait volontiers de jubilatoire si l’adjectif n’était pas
devenu une scie de la critique journalistique, avec les mises en fiction,
référents romanesques et autres clins d’œil à la littérature, déployant les
origines non plus biographiques mais littéraires de Ferguson.
En effet, c’est bien le roman
russe qui est ici quitté (Reznikoff pourrait être le patronyme à peine décalé
d’un héros de Dostoïevski) au profit d’un récit américain à construire,
s’édifiant de manière explicite dans les pas du grand roman européen, puisque
Ferguson comme sa mère adorent Tolstoï, Flaubert, Stendhal ou Dickens. C’est
la Musique du hasard si chère à Auster qui donne le la d’un
récit qui se poursuit par une déambulation dans les rues de New York. Le
grand-père, alors âgé de 19 ans, croise un marchand, achète ce qu’il pense être
une pomme rouge parfaite, mord dedans et grimace tant le fruit lui semble
« d’une mollesse écœurante » : « Telle fut
sa première découverte gustative du Nouveau Monde, sa première rencontre, qu’il
n’était pas près d’oublier, avec une tomate de Jersey ». Mais le
hasard est toujours coïncidence chez Auster, et cette page fait signe vers une
anecdote bien réelle, que le lecteur a lue chez Siri Hustvedt, narrant dans le
premier chapitre de Plaidoyer pour Eros l’anecdote de la grosse
pomme…
D’une page d’Hustvedt à celle
d’Auster, un clin d’œil spéculaire, un jeu amoureux, la pluralité de toute
origine, entre réel et fiction, d’un univers romanesque à un autre, répondant à
ce que Siri Hustvedt nomme les « espaces mentaux » d’une
« géographie personnelle » et à l’anecdote telle que la
définit Paul Auster après Oppen, « une forme de connaissance ».
Avant même d’être le récit d’un
Ferguson pluriel, 4321 est ce jeu de miroirs fictionnels,
chaque élément se démultipliant à l’infini puisque ce patronyme abandonné de
Reznikoff n’est pas seulement une référence explicite à Dostoïevski
(« Crime et Châtiment fut l’éclair tombé du ciel qui le fracassa
en mille morceaux ») mais une allusion à l’un des artistes de la faim
qu’évoquait Auster dans un essai de 1992, The Art of Hunger, à Charles
Reznikoff, ce « poète de l’œil ». Auster exposait alors le
principe conducteur de l’oeuvre de Reznikoff comme de tout poème (et par
extension de tout texte), « saisir » et non « raconter »
: « L’existence de l’univers ne peut jamais être présupposée. L’univers
ne commence à exister que dès lors qu’on se dirige vers lui. Esse est
percipi ».
Tel sera l’art du roman que
déploie 4321, dire le réel tel qu’un individu le perçoit donc (se)
le raconte, le vit et le (ré)invente. Reznikoff est le modèle, sans nul doute,
de Rose, la mère de Ferguson, photographiant des visages anonymes dans les rues
de New York, s’attachant à saisir ce qui demeurerait invisible sans ses clichés
et s’offre pourtant au regard comme autant d’instants décisifs, notion que Paul
Auster emprunte à Cartier-Bresson pour dire la faculté du poète à s’intéresser
« aux gens qui peuplent les rues de New York et aucune rencontre, si
brève soit elle, n’est trop insignifiante pour qu’il la remarque, trop banale
pour devenir la source d’une épiphanie ». Qu’il soit photographe ou
écrivain, poète ou cinéaste, l’artiste « parcourt la ville (…) les yeux
ouverts, l’esprit ouvert, concentrant son énergie afin de pénétrer la vie qui
l’entoure. La pénétrer précisément parce qu’il en est distinct »,
ainsi peut-il faire advenir le monde, par cette perception aiguë, celle d’un
exilé, d’un solitaire dans cette ville de New York que l’on retrouve bien sûr
dans 4321, « cette chère ville de New York, la capitale des
visages, la Babel horizontale des langues humaines ».
Paul Auster © Christine
Marcandier, 2013
Ferguson, personnage précaire,
figure d’exilé, figure éminemment solitaire sera paradoxalement l’objet de
quatre hypothèses biographiques. Si l’origine demeure stable, proprement
mythique (le récit légendaire d’un début, d’une fondation), si la date de
naissance de Ferguson demeure la même, tout se démultiplie ensuite, la ville
dans laquelle sera bâtie la maison familiale, la fortune que rencontrent les
parents dans leurs métiers, la manière dont la saga des Ferguson s’articule à
l’Histoire des États-Unis, dont la trajectoire même d’Archie entre en parallèle
(ou non) avec celle de son auteur, Paul Auster, son contemporain. 4321 est
donc le roman de quatre vies possibles, de quatre potentialités d’un même être
modelé différemment par les circonstances, ses choix, ses rencontres, ses
renoncements. Ferguson est
l’incarnation du what if, du et si de toute
fiction comme de toute vie réelle.
L’articulation du hasard et de la
nécessité, de ces potentialités se réduisant comme peau de chagrin, de ces
choix qui deviennent des destins fascine Paul Auster depuis ses premiers
romans. 4321 est une fresque à l’ambition démesurée (et
parfaitement maîtrisée) et un concentré de tout ce qui fait l’univers
fictionnel du romancier : le rapport du visible et de l’invisible, de la fiction et du réel (« et
les choses qu’il ne pouvait voir étaient bien souvent plus réelles que celles
qu’il voyait »), de la liberté et de la contrainte, de la vie et de la
littérature. Son roman interroge la pluralité de nos possibles existentiels, il
est un page tuner redoutable, une plongée fascinante dans
plusieurs décennies de l’histoire américaine. Un jour, Ferguson (version 1)
regarde les écrans de TV du magasin de son père : « voir tant de choses
différentes se produire en même temps ne manquait jamais de le faire rire ».
Telle est l’expérience du lecteur de 4321 : voir les
événements s’enchaîner, se reprendre, se décaler, se distinguer, en fonction
des versions (4, 3, 2, 1) d’un même Ferguson, sans jamais perdre le fil d’un
qui est qui tant il est plongé dans la réalité simple de ces possibles
complexes.
« Quelle idée
intéressante, se dit Ferguson, de penser que les choses auraient pu se dérouler
autrement pour lui, tout en restant le même. Le même garçon dans une autre maison avec un
autre arbre. Le même garçon avec des parents différents. Le même garçon avec
les mêmes parents mais qui ne faisaient pas les mêmes choses qu’actuellement. (…)
Oui, tout était possible et si les choses arrivaient d’une certaine façon, cela
ne voulait pas dire qu’elles ne pouvaient pas se produire autrement. Tout pouvait être différent. » La fiction, telle qu’Auster la
met en forme(s) dans 4321, est cette différence devenu principe
narratif.
Chaque version de Ferguson est non seulement
une biographie potentielle du personnage ou une ramification romanesque mais
une mise en abyme différente de la poétique générale du roman. Ainsi, dans
chacune des vies d’Archie, un lieu rassemble les possibles et s’offre comme
l’espace creuset du roman : c’est le magasin du père, « agora du XXe siècle »
; c’est l’album des visages qu’est le magasin de la mère photographe ; c’est le
bureau du grand-père, livre du monde ; c’est la bibliothèque de la tante
Milfred qui incarne, dans ses différentes versions, toutes les images de la
femme conquérant son indépendance (et les obstacles par lesquelles la société
répond à toute tentative d’émancipation) ; ce sera aussi la bouteille d’eau de
Seltz ou la plaquette de beurre Land O’Lakes, découverte de l’infini pour un
Ferguson qui n’a pas encore lu L’Age d’homme de Michel Leiris
mais, au-delà des premiers émois érotiques, découvre dans l’image démultipliée
d’une jeune femme celle d’« un monde dans un monde ».
Tout est mise en abyme dans ce livre, chaque
page renvoyant alternativement à d’autres textes d’Auster (et à sa fascination
pour le baseball, le cinéma, les journaux, le corps, le désir, la France) ou à des
pages d’autres romans. La lecture de 4321 est donc elle aussi démultipliée,
dépendant de la culture de chaque lecteur, de sa faculté à actualiser ou non
une référence : et peu importe, seule compte la perception d’un livre pluriel
jusque dans sa réception, aussi pluriel que l’est son personnage central,
figure en mouvement. Bien sûr, cette démultiplication de Ferguson trouvera une
résolution rationnelle, mais là encore, peu importe, seule comptent
l’expérience de lecture et la manière sidérante dont Auster mène cette fresque
prométhéenne, parvenant, en prime, à montrer pourquoi le roman demeure le grand
genre du réel, même lorsqu’il met en exergue l’imaginaire, pourquoi jamais le
journal ne pourra le détrôner, alors même que 4321 joue, dans
le récit, des chronotopes de la presse et du feuilleté médiatique de
l’actualité. Ferguson, tour à tour (et parfois conjointement) poète, romancier,
journaliste, traducteur, incarne tous les rapports possibles à l’écrit, dans un
roman qui tient de l’apprentissage et des illusions perdues de tout jeune homme
voulant faire du livre et de l’écrit son rapport au monde.
« Tout le monde avait toujours dit à
Ferguson que la vie ressemblait à un livre, une histoire qui commence à la page
1 et qui se déroule jusqu’à la mort du héros page 204 ou 926 mais maintenant
que l’avenir dont il avait rêvé changeait, sa notion du temps changeait elle
aussi. Il comprit que le temps se déplaçait d’avant en arrière, et comme les
histoires des livres ne pouvaient qu’aller de l’avant, la métaphore du livre ne
marchait pas. Si sa vie pouvait se comparer à quelque chose, elle
ressemblerait plutôt à la structure d’un quotidien populaire (…). Le temps se
déplaçait dans deux directions parce que chaque pas dans l’avenir emportait
avec lui un souvenir du passé, et même si Ferguson n’avait pas encore quinze
ans, il avait déjà assez de souvenirs pour savoir que le monde qui l’entourait
était façonné par celui qu’il portait en lui, tout comme l’expérience que
chacun avait du monde était façonnée par ses souvenirs personnels, et si tous
les gens étaient liés par l’espace commun qu’ils partageaient, leurs voyages à
travers le temps étaient tous différents, ce qui signifiait que chacun vivait
dans un monde légèrement différent de celui des autres » (3.4)
Paul Auster © Christine
Marcandier, 2013
Aussi est-il impossible d’écrire
en suivant la métaphore du livre, il faut écrire la prose du monde selon la
poétique du journal, ou faire du roman le genre à même d’être chronique et
reportage, récit des récits, prose du quotidien, brouillon pluriel de nos
perceptions et de nos existences : « L’attrait des journaux était radicalement
différent de celui des livres. (…) Les livres se déroulaient selon une ligne
droite du début jusqu’à la fin, alors que les journaux se trouvaient toujours
dans plusieurs endroits à la fois, un patchwork d’événements simultanés et
contradictoires, avec de multiples histoires coexistant sur la même page,
chacune décrivant un aspect différent du monde, chacune défendant une idée ou
un fait qui n’avait rien à voir avec celui qu’on traitait à côté, (…) le
journal du matin devait absolument inclure chacun de ces événements dans ses
colonnes à l’encre noire et salissante, et tous les matins Ferguson se
réjouissait de cette incroyable pagaille car c’était selon lui l’image même du
monde, un grand foutoir bouillonnant où des millions de choses différentes se
produisaient en même temps. » (2.2) Cette prose médiatique du réel repose sur un jeu avec tous les
micro-genres du roman (vie littéraire, amour, apprentissage, biographie, etc.),
avec toutes ses traditions, du roman russe au roman américain, en passant par
le roman feuilleton (un des Ferguson adore Dumas) et suppose une « lecture
marathon » du type de celle que le personnage entreprend avec Dickens.
Bildungsroman et vies imaginaires, 4321 est
enfin une immense fresque de l’Amérique contemporaine, rythmée par des
événements politiques, sociaux, culturels et là est sans doute le plus grand
tour de force de ce livre : chaque épisode d’une chronique collective,
récurrent dans les 4 versions d’un même Ferguson, est perçu par un
individu autre, manière pour Auster de montrer que l’histoire
sociale, politique, sexuelle, se perçoit différemment en fonction de sa propre
existence. Chaque biographie suppose un rapport distinct à un même réel qui
apparaît, de fait, comme la version alternative d’une même Histoire : les vies
potentielles de 4321 ne sont pas uniquement des possibles
biographiques fergusonniens mais, supposant un contexte social, économique,
familial et culturel distinct, elles permettent de rendre compte de l’Histoire
comme d’une mosaïque, déployée selon des perspectives différentes, celle d’un
Wasp, celle d’un exilé (qui, parce que juif, ne se perçoit pas et n’est pas
toujours considéré comme un Américain), celle d’un homosexuel ou d’une femme…
4321 est sans aucun doute le grand
roman américain de Paul Auster, la somme d’une vie et d’une œuvre, une
manière de faire entrer personnage(s), auteur et lecteur dans le feuilleté
fascinant d’un réel tel qu’il peut être perçu et saisi dans et
par la fiction. Howard lit à Ferguson une page de Wittgenstein affirmant
que « cela a un sens aussi de parler de « vivre dans les pages
d’un livre » ».
4321 le démontre, à travers Archie Ferguson, ce personnage qui est
un concentré d’Amérique. N’est-ce pas ainsi d’ailleurs que Célestine prononce
son prénom en français, « adoucissant le dur son tch en
un ch moins abrasif, ce qui le transformait en « ar-chi
», et chaque fois cela lui faisait penser au mot français archive » ?
Paul Auster, 4321,
traduit de l’américain par Gérard Meudal, Actes Sud « Babel », janvier
2020, 1216 p., 13 € 50 — Lire un extrait
4321 Paul Auster
EARS 18/12/2024
Ferguson e eu
por Maria Amélia Correia
Uma das muitíssimas razões porque gostei imenso de ler e reler esta obra, foi porque muitos dos acontecimentos sociais e políticos que nela são relatados foram vividos por mim. Para o efeito não vou considerar as várias versões de Ferguson, porque este pano de fundo é comum a todas.
Ainda eu e Archie Ferguson não eramos nascidos, já a 2ªguerra mundial pontuava os acontecimentos, relatados na obra. Rose Adler e Stanley Ferguson conheceram-se pouco antes do dia em que o exército americano tomou Nápoles e consequentemente a esperança da vitória dos aliados tornava-se real, casaram em 6 de abril de 1944, exatamente 2 meses antes do desembarque dos Aliados na Normandia. O adorado tio Archie Adler morreu prematuramente, e o seu funeral realizou-se no dia da vitória da Europa (8 de maio de 1945). As ruas estavam em festa para celebrar o fim de metade da guerra, assim a família sentiu aquela alegria como uma espécie de profanação.
Os meus pais casaram-se depois da guerra, no dia 31 de julho de 1948, numa Europa em reconstrução, mas num país que pela sua situação de neutralidade durante a guerra não a viveu diretamente.
No dia 3 de março de 1947 nasce o desejado Archibald Isaac Ferguson para homenagear o tio Archie e o pai de Stanley. A autora destas linhas nasce 2 anos e alguns meses depois (17de julho de 1949). Seriamos produtos do baby boom pós-guerra, mas Archie ficou filho único devido a um problema da mãe, e eu só tive uma irmã, por desejo dos meus pais. Aliás num país de famílias numerosas, a partir do pós-guerra torna-se notório em Portugal uma diminuição considerável do número de filhos por família.
Só conhecemos a 2ª guerra mundial indiretamente. Os meus avós paternos apoiavam entusiasticamente os aliados. O meu avô escrevia crónicas para a BBC com o pseudónimo João Ninguém. Do lado materno, simpatizantes de Salazar não teria havido tanta euforia. Mas enquanto os EUA se tornaram uma superpotência mundial, Portugal, manteve-se um país estagnado, governado pela ditadura salazarista que pretendia manter-nos fora dos ventos nefastos da modernidade.
A família de Archie era conservadora. O pai, um homem de sucesso nos seus negócios, pode ser considerado o protótipo do “self made man” americano (judeu, imigrante pragmático, que escapou à miséria dos seus progenitores), apesar do seu conservadorismo nunca se opôs a que a mulher trabalhasse na sua profissão.
Numa das versões da sua vida, os pais de Ferguson divorciam-se. O divórcio não era permitido em Portugal, onde havia uma Concordata entre a Igreja e o Estado e a mulher dependia em quase tudo do marido.
No nosso torrão à beira-mar plantado a mulher burguesa devia essencialmente ser boa esposa e mãe, era-lhe reservada a domesticidade. A minha mãe era a típica mulher burguesa que aprendera a tocar piano e a falar francês, sem grande sucesso, diga-se de passagem. A mulher do povo na sua luta constante contra a pobreza tinha que trabalhar de sol a sol, com o seu cônjuge, se queriam pôr comida na mesa para a família.
Enquanto nos EUA os rendimentos das famílias aumentavam, e faziam com que o Sr. Ford pensasse que cada um dos seus funcionários devia ser proprietário de um dos seus automóveis (não por razões altruístas sabemo-lo), aqui no torrão quem queria mudar de vida pensava na emigração.
Com 5 anos o primo Andrew foi abatido em ação, segundo lhe explicou o pai. Estava numa patrulha noturna nas montanhas frígidas que ficam entre a Coreia do Norte e do Sul e a bala que o trespassou foi disparada por um soldado comunista chinês. Archie não conseguiu ter pena do primo com quem não simpatizava mesmo nada. O mesmo horror ao comunismo existia cá e do outro lado de Atlântico.
Com 6 anos a querida prima Francie, chorosa, conta a Archie que o casal Rosemberg tinham sido “fritos na cadeira eléctrica” acusados de terem passado segredos aos russos comunistas sobre a construção de bombas atómicas. Possivelmente. estariam inocentes, mas o ambiente da guerra fria e macartismo imperavam nos EUA.
Destes acontecimentos só tive notícia a posteriori, pois além da minha tenra idade ainda não possuíamos televisão.
Em 1958, aqui em Portugal, houve um simulacro de eleições livres, e o general Humberto Delgado ousou pôr em causa Salazar. Lembro bem, porque o meu pai e um primo intervieram ativamente na campanha eleitoral. Quando o general sem medo veio ao Porto foi uma apoteose e os meus pais vinham eufóricos. Passados alguns dias o meu pai entrou em casa descorçoado e disse, vou retirar-me, estas eleições são uma farsa.
A família Kennedy encantava a América com o seu glamour e Ferguson quando J.F. Kennedy anunciou a sua candidatura á nomeação democrática em 1960, ia fazer 13 anos, rejubilou. Kennedy com a sua juventude e vigor parecia-lhe o homem do futuro. Era preciso pôr de parte o velho Ex general Eisenhower, que eu conheci através da televisão, e que não me era propriamente antipático, mas Kennedy, um político jovem e bonito, ao contrário dos outros velhos e feios, encheu o meu imaginário.
Não me lembro do debate televisivo entre o sedutor Kennedy e o cinzentão Nixon, mas a partir daí não houve dúvidas, Nixon ficou off side. O casal Kennedy correspondia ao sonho dos príncipes encantados. Eu lia furiosamente o “Paris Match, “que o meu avô paterno assinava, e seguia passo a passo a vida destes personagens. Kennedy brincando com os dois filhos na sala oval, e Jackie, sumo da elegância, brilhando no Eliseu na viagem oficial a França. Jaqueline transformou a Casa Branca.
Mas o herói foi assassinado quando fazia campanha para a sua recandidatura (o mito exige que o herói morra na sua plenitude). Foi precisamente nesse fim de semana que Amy e Archie, sozinhos no apartamento dos pais dela, choraram com a tragédia e fizeram a sua primeira experiência sexual, ambos virgens e inexperientes. Este foi o mais importante fim de semana das sua jovens vidas em que o prazer suplantou a dor.
Eu por mim chorei abundantemente com a minha amiga de peito e vizinha, a Leninha, e fomos para o colégio de manhã completamente desidratadas e com os olhos inchados.
As primeiras relações amorosas de Ferguson e a descoberta da sexualidade são marcadas pela tensão entre o desejo pessoal e as normas sociais da época, que estavam começando a mudar com a revolução sexual e o movimento feminista. Amy Shneiderman representa bem a mulher independente, engajada, senhora da sua vida recusando um papel subalterno em relação ao sexo masculino. Estes movimentos não eram estranhos em Portugal, mas o conservadorismo atávico e a ditadura reprimiam ferozmente tais desmandos.
Entretanto a guerra do Vietnane torna-se séria e a maioria dos jovens americanos não sentia qualquer impulso patriótico para combater os comunistas no extremo oriente. Começaram a chegar os primeiros mortos e estropiados de guerra e os movimentos pacifistas proliferavam, os bombardeamentos com napalm horrorizaram-nos. A possibilidade de os EUA ganharem a guerra pareciam cada vez mais remotas. As universidades tornaram-se campos de batalha. Os relatos de Ferguson em Columbia são de extrema violência.
Cá em Portugal o regime tremeu com o assalto ao Santa Maria. Os jovens universitários cansados da ditadura, e com a perspetiva de terem que combater em África, rebelaram-se. A guerra colonial tentando negar o direito dos povos colonizados à autodeterminação, era uma luta perdida, e os jovens (cá como lá) não estavam dispostos ao sacrifício.
Também no nosso torrão os anos 60 e princípios dos anos 70 as universidades e faculdades tornam-se centros de agitação intelectual e política. Fizemos greves contra a guerra colonial e contra o imperialismo americano. Fomos simpatizantes do Mao, estivemos com os libertários do Maio de 68 e lembro-me de uma visita à Sorbonne em 69, género peregrinação.
Adicionalmente as lutas pelo fim da segregação racial proliferavam na América. A 7 de Março de 1965 foram chacinados ativistas contra a discriminação racial e o direito ao voto, ficou conhecido pelo “Domingo Sangrento. Nesse mesmo ano o ativista Malcom X foi assassinado. Apesar da censura que imperava nos meios de comunicação social íamos sabendo da intensidade destas lutas, Luther King tornou-se um ídolo, todos sonhávamos como ele.
Em Abril de 1968, encontrava-me em Espanha numa visita de estudo com o professor de história de arte que nos anunciou o assassinato de Luther King, consternação geral.
Se o pacifismo nada conseguia, e a Ku Klux Klan agia brutalmente contra os negros , porque não retribuir com a mesma moeda – o Black Power ganha força.
Foi neste caldo social e político que eu e Ferguson nos tornamos adultos, de lados opostos do Atlântico, esquecendo isto, penso que tudo o resto nos separava.
Maria Amélia L. V. Correia






